01.
Capítulo
Evangeline não sabia como demonstrar o amor, ou achava que não sabia.
Quando pequena, sempre imaginou como era, que era como nos filmes, que ela recebia tal
amor, mas com o passar do tempo, Evangeline percebeu como o amor que recebeu era oco,
meio vazio, cheio de obrigações.
Agora ela estava sentada na biblioteca, sozinha no intervalo, ela deveria está com as amigas,
mas que companhia tinha agora se não ela mesma?
Evangeline não tinha vontade de lanchar com outras pessoas, preferia agora se esconder na
biblioteca. Ela não era uma pessoa triste, só gostava de ficar só, se acostumou quando criança
a não ter muita atenção.
— Por que está almoçando na biblioteca?- quase saltei da cadeira quando perguntou uma voz.
Me virei para olhar para cima, e me deparei com Vincent, alto, cabelos escuros, e olhos verdes
azulados. Ele era a personificação da perfeição, sempre com esse ar de o mundo está aos meus
pés. O que me irritava um pouco.
— Queria almoçar só.- respondo ríspida. Ele olha estranho pra mim e não entendo o porquê. O
que ele tem a ver a final?
— Bem, se te descobrirem você tá ferrada. – almoçar na biblioteca é proibido e não estou me
importando muito no momento.
— Não entendo por que te incomoda. – sei que não deveria falar assim, mas os últimos
acontecimentos me deixaram meio na defensiva.
Ele dá de ombros e sai. No mesmo momento me arrependo porque se ele contar vou ter mais
problemas.
— Ei, você vai contar?- pergunto.
— Bem, não tinha pensado nisso.
— Não conta, por favor – falo meio implorando. Ele me olha curioso e me preocupo se fui
grossa demais com ele.
— Você não parecia se importar há uns minutos atrás. -bufo me arrependendo muito, se se
esse filho da mãe contar vou ter problemas, praticamente todo mundo faz tudo que ele quer.
Não repondo.
Então ele diz:
— Não vou contar.
— obrigada.- é tudo que consigo dizer.
Volto para a sala, não tenho ânimo de socializar e nem mesmo de estar perto de pessoas.
Geralmente eu não sou assim, mas cada dia que passa prefiro cada vez mais ficar só, porém
também há dias que odeio isso, me sentir oca, fraca e sozinha.
Depois da aula volto para casa de bicicleta, é um momento legal, gosto de sentir o vento no
rosto, meu corpo lembrando que está vivo. Mas esse é o único momento legal, porque por
mais que eu goste da minha casa e do meu quarto, não é fácil escutar as discussões e pior
ainda quando me envolve, lembrar disso traz de volta a realidade triste da vida real.
Estaciono a bike na garagem junto ao carro e subo para o meu quarto.
Vou ao banheiro, tomo banho, visto um pijama e vou jantar.
Desço as escadas e vejo como sempre, jantando à mesa meus pais, e minha pequena
irmãzinha de 5 anos, Stella, ela é parece comigo e ao mesmo tempo não, com lindos olhos
verdes mar, cabelo ruivo dourado claro e pele dourada, ela é a face clara da lua. Já eu não
tenho certeza de minha beleza, nunca fui muito desejada ou muito elogiada, meus olhos
verdes escuros e cabelos castanho avermelhado bem escuro e pele pálida sem cor, talvez
intimidem por serem tipo, sombrios?
Minha irmã é umas das poucos pessoas, se não a única, que prefiro morrer a dizer qualquer
coisa que a possa magoar. Ela é tão oposta a mim e meus pais. Uma garotinha doce e adorável,
inocente em um mundo cheio de maldade. Não quero que ninguém a machuque nunca ou
ficarei feliz em fazer a pessoa se arrepender.
Passo por meus pais e não digo “oi” ou qualquer outro cumprimento, eles nunca foram disso,
nunca se importaram com tais coisas, dificilmente respondem se eu fizer.
Vou direto para perto de Evie e dou um beijinho no topo de seu cabelo.
— Oi, jujuba. – falo a ela.
— Oiii, Eviline! – ela me chama assim desde que aprendeu a falar algumas palavras e desde
então é esse meu nome para ela, o que eu acho uma graça.
Rio e ergo a mão para ela para lhe mostrar o que trouxe. Ela ergue o olhar animada e isso faz
o peso dos meus problemas sumirem por um momento.
Abro a mão e ela vê o pacotinho de mini oreo que comprei para ela quando vinha da escola.
Sempre gosto de passar no mercadinho e comprar algo para ela quando volto, pois a felicidade
dela com qualquer doce que ganha faz meu dia muito menos pior.
—Brigada, Eviline- diz ela com o sorriso de canto a outro e isso é tudo pra mim.
—Coma só após a janta, Stella. – meu pai diz sorrindo.
Eles são muito carinhosos com ela, e não é como se eu tivesse ciúmes, a final, que bom que
eles não são com ela como são comigo, mas isso não me faz deixar de querer que fossem assim
comigo.
Evangeline não percebia como sabia direitinho demonstrar amor para sua irmã,mas para ela
tudo o que fazia era a obrigação de uma irmã, e que talvez não fosse o suficiente, ela nunca se
achava suficiente.
Ela não entendia que o amor não era uma troca de favores no qual ela deveria se sentir em
dívida se alguém a amasse e cuidasse dela.
🤍
No dia seguinte…
Acordo atrasada, meu Deus, como pude vacilar assim. Sempre acordo no horário certo, não sei
o que aconteceu hoje.
Me levanto, tomo banho o mais rápido que posso, escovo os dentes, visto o uniforme, uma
meia-calça branca, saia xadrez azul e blusa branca social, meu sapato uma mary jane.
Nem tenho tempo de tomar café.
Já são 9:04!!
Pego a bike e pedalo o mais rápido que posso.
Como aconteceu isso? Certo que fiquei a noite pensando no que aconteceu semana passada e
não sei porque logo hoje eu acordei tarde, deve ser por que ontem eu pensei mas que das
outras vezes. Cada dia eu penso mais. Mais sobre tudo.
Quando chego na escola vou correndo direto para a sala de aula, pois a aula começa 9:00.
Esbarro em alguém no corredor e nem olho para trás.
— Ei!- a pessoa fala, mas não tenho tempo de pedir desculpa, não é por falta de educação, mas
deve ser quase 9:10 ou mais, e se eu chegar mais atrasada que isso, a professora Marisol vai
me empalar, a mulher é terrível, e justo hoje na aula dela eu me atraso. Se eu chegar mais de
9:10 ela não vai me deixar entrar. Então ignoro completamente que esbarrei em alguém e
provavelmente a pessoa vai achar que sou uma idiota sem educação.
Chego à porta da sala, bato e coloco a cabeça para dentro.
— com licença, srª Moreau, posso entrar?- digo a ela.
- está atrasada. – ela responde. Meu Deus será se o caminho de casa até a escola aumentou,
tenho certeza que vim o mais rápido que pude. É uma caminho de 5 minutos quando não
estou muito apressada, tenho certeza que diminui para 3, o que significa que tive 2 minutos
para correr para dentro da sala.
Já estou saindo quando ela olha para o relógio e diz:
— 9:09, pode entrar – o alívio me toma imediatamente, pois ela é uma das professoras mais
rígidas da escola, e não tolera erros – teve sorte dessa vez, mocinha.
Sento-me em meu lugar e quando passa a adrenalina meu corpo fraqueja um pouco e me
lembro de que não comi nada antes de sair. Minha amiga Amara, me olha e acena para mim,
eu lanço um sorriso cansado para ela.
Por algum motivo eu me sinto mais mal nesses últimos dias, como se não me reconhecesse,
como se estivesse perdida, tanto que meus amigos Amara e Zayan, perceberam quão afastada
estou e não me pressionaram, além do mais eles tem outros amigos, e não é como se eu fosse
a mais importante para eles, por isso me distanciei, porque eu nunca fui primeira ou segunda
opção de nenhum deles. Talvez seja por isso que cada dia estou mais distante.
É como se eu não fosse de lugar nenhum. Meu lar não é meu lar. Meus amigos não são meus
amigos.
Tenho só minha irmã.
A doce criança que ilumina meus dias cinzentos.
Sei que pode parecer deprimente, mas acho que ninguém percebe de verdade, acredito que
eles apenas me acham uma pessoa fria que não gosta de ninguém.
Se passa algumas horas, e estou quase desmaiando de fome. Dessa vez não posso almoçar na
biblioteca porque não trouxe minha comida e não deu tempo de comprar nada do caminho.
Se eles me verem levando comida para lá, eu já era, então terei que ir ao refeitório almoçar lá,
infelizmente. Simplesmente não gosto de estar perto de ninguém ultimamente, eu nunca fui
uma pessoa antissocial, apesar de ser tímida, mas cada dia sou menos eu.
Desço os degraus e vou para a fila, coloco frango empanado, salada e uma maçã no prato,
porque são os únicos alimentos mais apetitosos do refeitório. Encontro uma mesa na qual não
tem ninguém, pelo menos ainda, e começo a comer. É desconfortável ver as pessoas ao meu
redor com os amigos enquanto eu sou a única sozinha, sem ninguém para conversar e dar
gargalhadas. Sinto um pouco de inveja disso agora. Não que eu não goste de estar só, pelo
contrário ficar só na biblioteca é bom, mas quando se está em um lugar cheio de gente e você
é a única sem ninguém por perto, começa a parecer muito deprimente, e eu odeio me sentir
assim.
Estava tão presa em meus pensamentos que não vi alguém se aproximar, achei que a pessoa
estava parada porque procurava um local para se sentar do outro lado do refeitório. Decidi
olhar e vi que era Vincent e ele estava me encarando. Porque ele estava me encarando?
Será se eu parecia solitária demais?
Deprimida demais?
Eu não gostava que tivessem pena de mim.
— Oi? — perguntei sem paciência. Ele me olhou como se eu fosse esquisita, mas quem estava
parado no meio do refeitório me encarando era ele. E nós mal nos conhecíamos.
— Não vai pedir desculpa? — ele respondeu. Será se ele estava ficando maluco, por que eu
faria isso?
— Você deve está me confundindo. Por que eu pediria desculpa para você?— revirei os olhos.
Que cara estranho, bonito? sim, mas estranho.
— Você passou como um furacão, esbarrou em mim e pisou no meu pé. Achei que fosse mais
educada, mas você nem se quer olhou. Muito mal criada. — ele disse zombeteiro. Fiquei
atordoada. Tinha que ser ele naquele maldito corredor, logo ele que ama um draminha, que
ama infernizar. Não queria dizer nada, mas queria me ver livre dele. E meu Deus, quando eu
me tornei assim? Ele realmente estava certo em querer um pedido de desculpas. Mas que
saco, estou cansada pra caralho também.
— Desculpa — olhei para ele que ainda me encarava devorando minha alma,, ele era muito
lindo, nossa, parecia esculpindo. Desviei o olhar imediatamente —Estava atrasada para aula.
— Ok, aceito as desculpas. — disse sarcástico. Concordei com a cabeça esperando ele sair,
quando olhei ele ainda estava parado no mesmo lugar— não vai me convidar para sentar com
você?
Que diabos ele queria?
Ele vai me infernizar.
— O que?
— Você me atropelou, é o mínimo que deveria fazer.
A tá. Este dia já tinha começa bom mesmo, agora Vincent queria sentar comigo. Só podia ser
brincadeira, aposta ou ele realmente tinha procurado alguém para irritar.
Olhei para ele de relance, dei um sorriso debochado e disse:
— Quer sentar comigo?
— Já que você insiste. — ele respondeu. Em que momento da minha vida eu fiz algo terrível
para pagar caro assim.
Idiota.
Ele se sentou ao meu lado e pegou algumas comidas da bolsa que levava consigo.
Meus planos de ficar só foi por água a baixo.
— Você é minha vizinha, não é? Acho que já vi você saindo algumas vezes da casa ao lado. —
ele disse, concentrado em sua comida, não pude deixar de invejar sua comida trazida de casa,
diferente da estranha da escola, a dele parecia tão gostosa.
— Parece que sim — eu sabia que nós éramos vizinhos desde crianças, mas duvidei muito que
um dia ele chegasse a perceber, preso em seu mundo perfeito só ligava pra si mesmo. O achava
um egocêntrico.
— Você quer um pouco? — falou debochado. E percebi que encarava sua comida. Eu estava
com tanta fome e a comida da escola era terrível, mas apenas disse:
— Por que está aqui?— falei com desdém. Ele me olhou avaliando como se eu fosse uma
estranha.
— Porque sim. — ele me fitou. Esse cara tinha problemas. — Você estava tão solitária e
deprimida, fiquei com pena.— disse com deboche e um sorriso de canto.
Ódio subiu a minha cabeça, não suportava mais pessoa, principalmente aquele príncipezinho
das trevas que todo mundo venerava. Ele queria brincar comigo.
— Não estava tão deprimida quanto estou agora com sua presença. — dei um sorriso
preguiçoso para ele. Eu também sabia brincar. Não gostava, mas sabia.
Ele riu divertido, e eu revirei os olhos.
— Você é mesmo hostil.
— É, posso ser para quem merece. — dei de ombros e senti seu olhar em mim mesmo que eu
não estivesse olhando para ele.
— Foi bom conversar com você. — ele disse orgulhoso e saiu quando o sino tocou.
Quando fui sair percebi os olhares em mim, por isso não gostava daquele lugar, e Vincent estar
falando comigo atraiu mais as atenções a mim. A partir de agora acordaria 6:00h juro.
Voltei para aula e meus amigos Zayan e Amara estavam conversando entre si, eles me olharam
e me chamaram. Fui até eles um pouco desanimada, porém fingi um sorriso para os dois.
Eu estava realmente cansada do dia de hoje.
— Oi, Evie, a gente quer te fazer um convite.— Amara disse, fiquei desconfia pois fazia um
tempo que não faziam esses “convites” que davam em festas loucas. Não que eu me
importasse, talvez fosse culpa do meu afastamento. Mas as vezes sinto que eles também
deveriam me tentar me incluir independente de qualquer coisa.
— Oi, Ma, oi, Zay — eu disse sorrindo e me sentando perto deles na sala.
— A gente sabe que você não está muito afim de curtição esses dias, mas vai ter uma festa de
halloween bacana na casa de Theo, você não precisa se fantasiar nem nada, só vai com a gente
se divertir um pouco. — disse Zay. Eu realmente não estava nem um pouco a fim de sair esses
últimos dias e não tinha mudado de opinião. Mas puxa, meu amigos estavam tentando ser
legais e eu uma chata cheia de ideias tortas. Poderia tentar.
— Que dia vai ser? — respondi e eles dois se entreolharam surpresos e com sorrisos se
formando nos lábios, e eu sorri comigo mesma.
— Sério, Evie? Vai ser dia 30, véspera do Halloween, nem estou acreditando que você está
considerando a ideia. Vai ser tão divertido! — respondeu Ma. Eu sorri, gostava deles, gostava
de ficar só, mas como eu disse, também estava confusa, nunca fui antissocial. E agora eu
poderia tentar, pelo menos tentar fingir que está tudo bem.
— É, não sei — eu disse olhando para os dois— mas se eu for, pretendo ir fantasiada.
Eles riram e