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Módulo 1 CURSO BIOPSICOSSOCIAL

O documento aborda a evolução histórica e os conceitos de deficiência, destacando a importância da linguagem na percepção e tratamento de pessoas com deficiência. Explora diferentes modelos de deficiência, incluindo o modelo de exclusão, biomédico, social e biopsicossocial, enfatizando como esses modelos influenciam políticas e práticas sociais. A reflexão sobre a linguagem e a definição de deficiência é essencial para promover uma sociedade mais inclusiva e justa, reconhecendo a dignidade e os direitos das pessoas com deficiência.

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Módulo 1 CURSO BIOPSICOSSOCIAL

O documento aborda a evolução histórica e os conceitos de deficiência, destacando a importância da linguagem na percepção e tratamento de pessoas com deficiência. Explora diferentes modelos de deficiência, incluindo o modelo de exclusão, biomédico, social e biopsicossocial, enfatizando como esses modelos influenciam políticas e práticas sociais. A reflexão sobre a linguagem e a definição de deficiência é essencial para promover uma sociedade mais inclusiva e justa, reconhecendo a dignidade e os direitos das pessoas com deficiência.

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Módulo 1: História e modelos conceituais de

deficiência
Unidade 1 - Conceitos e definições de
deficiência
Objetivo de aprendizagem:
Ao final da unidade, você será capaz de reconhecer a relação entre a história, os
conceitos e as definições de deficiência.

Ao longo do tempo, testemunhamos transformações profundas na forma como as pessoas com


deficiência são vistas e tratadas. Essas mudanças refletem não apenas a evolução cultural, mas
também a maneira como a linguagem molda nossa percepção do mundo ao nosso redor.

Nesse sentido, é importante que você saiba que a trajetória histórica da deficiência é
caracterizada por transformações profundas, marcadas por como as pessoas com deficiência são
reconhecidas e tratadas, variando significativamente de acordo com o tempo e o contexto cultural.
A percepção e o conhecimento humano sobre qualquer assunto são profundamente influenciados
pela linguagem, que é não apenas um meio de comunicação, mas também um reflexo de valores
sociais e culturais.

A maneira como nomeamos pessoas e objetos é resultado de um processo histórico que


molda e é moldado por nossas concepções e preconceitos.

Tempo e contexto cultural

Os termos e conceitos que utilizamos carregam consigo não apenas definições, mas visões de
mundo que podem ser limitantes e discriminatórias ou, alternativamente, inclusivas e
abrangentes. Portanto, as palavras têm poder significativo, e a escolha dos termos que usamos
para descrever a deficiência pode influenciar profundamente a forma como as pessoas com
deficiência são vistas e tratadas pela sociedade.
Uma das lutas centrais das pessoas com deficiência ao longo da história tem sido por um
tratamento que respeite e reflita sua dignidade. Esse tratamento adequado está intrinsecamente
ligado à forma como reconhecemos e conceituamos a deficiência.
Por isso, refletir sobre a linguagem usada para descrever a deficiência é um passo
essencial para promover uma mudança positiva.
Reconsiderar e evoluir na forma como falamos sobre deficiência é fundamental para eliminar
estigmas e promover uma compreensão que respeite a dignidade inerente a cada indivíduo. Essa
reflexão não apenas ajuda a sociedade a reconhecer os direitos das pessoas com deficiência,
mas também apoia na construção de um ambiente que verdadeiramente valorize a diversidade e
a inclusão. Assim, ao ajustarmos nossa linguagem e, consequentemente, nossa perspectiva
sobre a deficiência, damos passos significativos em direção a uma sociedade mais justa e
igualitária.

1.1 Por que conceituar deficiência é importante?


Os termos e expressões carregam significados que influenciam profundamente como
compreendemos os fenômenos em geral e a deficiência em particular.
Em primeiro lugar, os termos funcionam como ferramentas essenciais para formular, imaginar,
desenvolver ou explicar conceitos. Quando usamos certas palavras, construímos mentalmente
ideias sobre algo ou alguém, o que molda nossa percepção e entendimento.

Além disso, ao atribuir juízos de valor através das palavras, estamos avaliando e classificando
objetos, pessoas ou processos. Esse julgamento estabelece a importância ou a irrelevância de
certos elementos, influenciando nossas atitudes e comportamentos sociais em relação a eles.
Outro ponto importante é que o uso de termos específicos permite o desenvolvimento de opiniões
ou perspectivas sobre algo. Formamos entendimentos ou interpretações pessoais sobre
determinados temas que são fortemente influenciados pelas conotações das palavras que
escolhemos.

Finalmente, atribuir características ou qualidades específicas a algo através da linguagem é um


processo de caracterização e categorização. Isso não só distingue um elemento de outros, mas
também o classifica e estabelece uma ordem ou hierarquia entre semelhantes, afetando a
maneira como percebemos e interagimos com esses elementos.
Esses mecanismos são especialmente relevantes quando consideramos a deficiência. As
palavras e expressões usadas para descrever a deficiência podem reforçar estigmas ou promover
inclusão, dependendo de como são escolhidas e aplicadas.
Portanto, a linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas um poderoso instrumento
que molda nossa compreensão e atitudes em relação à realidade.

Comunicação como instrumento de compreensão da realidade.

Esse processo evidencia não apenas o potencial humano de categorização e interpretação, mas
também a responsabilidade inerente à criação e aplicação de conceitos. A conceituação
influencia diretamente a maneira como percebemos e interagimos uns com os outros e com o
ambiente que nos cerca, reforçando a necessidade de um exercício consciente e reflexivo na
formação de nossos conceitos, a fim de promover uma compreensão mais precisa e respeitosa
do mundo.
A jornada rumo à construção de um conceito inclusivo e digno de deficiência tem sido um desafio
constante enfrentado por pessoas com deficiência. Essa comunidade compreende
profundamente que as definições de deficiência adotadas pela sociedade têm impactos diretos
sobre como elas são percebidas, reconhecidas e tratadas.

Portanto, a tarefa de conceituar deficiência permanece sendo de crucial importância para


esse grupo social, marcando um esforço contínuo em busca de igualdade e inclusão.

1.2 O impacto das definições de deficiência na vida das pessoas com deficiência
Conceber a deficiência de maneira adequada é, primordialmente, uma questão de
reconhecimento da dignidade humana. Esse processo transcende a mera categorização médica
ou funcional, envolvendo uma compreensão integral que considera as pessoas com deficiência
em sua plenitude, com direitos e potencialidades. Um conceito de deficiência fundamentado na
dignidade e na inclusão reflete a rejeição de perspectivas antiquadas que focam a limitação,
favorecendo uma visão que valoriza a diversidade humana e promove a igualdade de
oportunidades.

Promoção da igualdade

Nesse contexto, reformular o conceito de deficiência é parte integrante da luta por uma sociedade
mais justa e igualitária. Ao adotar definições que respeitam a dignidade e enfatizam a inclusão,
abrem-se caminhos para políticas públicas eficazes, práticas sociais acolhedoras e uma maior
conscientização sobre as barreiras que impedem as pessoas com deficiência de participar
plenamente da vida em sociedade. Assim, a questão de como conceituar deficiência torna-se um
ponto central na promoção de um mundo que acolha todas as pessoas em sua diversidade e
potencial.

Desse modo, conceituar a deficiência de forma precisa e respeitosa é fundamental por


várias razões, todas elas convergindo para a promoção de uma sociedade mais inclusiva e
justa. A maneira como a deficiência é conceituada influencia diretamente as políticas
públicas, as práticas educacionais e as estratégias de inclusão social.

Um conceito de deficiência embasado em dignidade e igualdade estimula o desenvolvimento de


políticas que reconhecem as pessoas com deficiência como sujeitos de direitos, promovendo o
acesso à educação, ao trabalho, à saúde e à participação política em igualdade de condições
com os demais cidadãos. Ouça o podcast a seguir e conheça um pouco mais sobre a forma como
conceituamos a deficiência.

https://creators.spotify.com/pod/show/enap/embed/episodes/EV-G-O-conceito-contemporneo-da-
deficincia-e-o-modelo-biopsicossocial---Como-conceituamos-a-deficincia-e2s40tf/a-abm337s

Em suma, a maneira como a sociedade conceitua a deficiência é um reflexo de seus valores e


uma força que molda o futuro das interações sociais, políticas e econômicas. Um conceito de
deficiência que esteja alinhado com os princípios de dignidade, igualdade e inclusão não apenas
beneficia diretamente as pessoas com deficiência, mas também enriquece a sociedade como um
todo, celebrando a diversidade humana e promovendo um ambiente mais acolhedor e equitativo
para todos.

Charge
Fonte: https://syngaunis.wordpress.com/2013/07/20/acessibilidade-para-todos/

Unidade 2 - Deficiência na perspectiva dos


modelos de exclusão, biomédico, social e
biopsicossocial
Objetivo de aprendizagem:
Ao final desta unidade, você será capaz de reconhecer os principais modelos
conceituais de deficiência.

Nesta unidade, exploraremos a deficiência sob diferentes perspectivas, buscando compreender


suas nuances e implicações na sociedade contemporânea. Vamos começar abordando o modelo
de exclusão da deficiência, que destaca a marginalização e as restrições enfrentadas por
indivíduos com deficiência devido a padrões sociais normativos.

A deficiência e suas perspectivas


Em seguida, analisaremos o modelo biomédico da deficiência, que se concentra nas condições
orgânicas do indivíduo, muitas vezes negligenciando as influências sociais e ambientais.
Também examinaremos o modelo social da deficiência, que desafia a visão tradicional ao
argumentar que a incapacidade é uma construção social, resultante de barreiras físicas,
atitudinais e institucionais na sociedade. Destacaremos a importância de remover essas barreiras
para promover a inclusão e a igualdade de oportunidades. Por fim, vamos abordar o modelo
biopsicossocial da deficiência, que integra aspectos biológicos, psicológicos e sociais para
uma compreensão mais completa da deficiência e das necessidades das pessoas afetadas.
Ao longo desta unidade, buscamos não apenas examinar os diferentes modelos teóricos, mas
também refletir sobre suas implicações práticas, como formar políticas e práticas mais inclusivas
em diversas esferas da sociedade.

2.1 Modelo de exclusão da deficiência

O modelo de exclusão da deficiência reflete uma abordagem histórica em que pessoas com
deficiência eram frequentemente marginalizadas ou mesmo eliminadas fisicamente das
sociedades. Esse modelo tem raízes profundas na história, sendo evidente em várias culturas
antigas conhecidas por suas práticas eugênicas, que buscavam eliminar indivíduos considerados
indesejáveis ou incapazes de contribuir para a sociedade de acordo com os critérios vigentes.

Sociedades como a Esparta, na Grécia Antiga, são frequentemente citadas como exemplos
dessa perspectiva. Em Esparta, o valor de um indivíduo estava intrinsecamente ligado à sua
capacidade de contribuir militarmente. Portanto, pessoas com deficiência, vistas como incapazes
de lutar, eram consideradas um fardo, não apenas inúteis, mas também prejudiciais à integridade
e ao sucesso da comunidade. Essa visão resultou em práticas extremas como o infanticídio, que
era justificado pela crença de que era melhor para a criança não viver do que viver com uma
deficiência.

Essas práticas e visões não se limitavam apenas a Esparta ou mesmo à Grécia Antiga, mas
eram comuns em muitas outras civilizações através dos tempos, incluindo romanos e
sumérios. A exclusão não se manifestava apenas na eliminação física, mas também na
segregação social e na privação de direitos, mantendo pessoas com deficiência afastadas
das esferas públicas e comunitárias.

Infelizmente, embora a humanidade tenha avançado em muitos aspectos, os ecos desse modelo
de exclusão ainda podem ser vistos hoje. Os preconceitos enraizados nessa visão histórica ainda
persistem, muitas vezes subconscientemente, influenciando como as pessoas com deficiência
são percebidas e tratadas na sociedade contemporânea. Esses preconceitos se manifestam
através de barreiras físicas, sociais e institucionais que continuam a impedir que pessoas com
deficiência participem plenamente, em igualdade de condições, com os demais.

Perspectiva da exclusão das pessoas com deficiência


A perspectiva da exclusão das pessoas com deficiência é uma realidade histórica que persiste até
os tempos modernos, manifestando-se de formas variadas ao longo das épocas. Desde as
sociedades primitivas até a contemporaneidade, as práticas de exclusão de pessoas com
deficiência têm sido uma constante, embora a natureza dessas práticas tenha evoluído.
A seguir assista ao vídeo e conheça mais sobre o modelo de exclusão da deficiência.

https://www.youtube.com/watch?v=gZXHMcuyOY4&t=18s&ab_channel=Enap

Clique sobre o link e conheça o Observatório Nacional de Direitos Humanos (opens in a new tab),
uma plataforma disponível a toda a população, que reúne dados sobre: crianças e adolescentes;
pessoas idosas; pessoas com deficiência; pessoas LGBTQIA+; pessoas em situação de rua,
além de informações acerca do enfrentamento aos discursos de ódio e da capacidade
institucional que os estados e os municípios têm para garantir a defesa dos direitos humanos de
sua população.

A análise do modelo de exclusão da deficiência revela uma abordagem fundamentalmente


prejudicial, em que a deficiência é percebida negativamente, como uma falha, um perigo ou algo
inútil que deve ser eliminado. Essa visão é profundamente enraizada em preconceitos históricos e
se manifesta através de práticas que, independentemente de serem diretas ou sutis, conduzem
ao mesmo resultado devastador: a desvalorização da vida das pessoas com deficiência.

2.2 Modelo biomédico da deficiência

O modelo biomédico de deficiência é aquele que considera a deficiência como uma questão de
saúde, de consideração estrita das ciências médicas, consolidando a noção de pessoa com
deficiência como uma pessoa que vive em um corpo lesionado, doente ou anormal.

Esse conceito médico de deficiência surge na Idade Moderna (século XV ao século XVIII) e
se estende até os tempos atuais. Sua construção está ligada à consolidação da ciência
como centro de conhecimento explicativo do mundo. A partir do iluminismo, o homem
coloca a si no centro da realidade. A razão é tornada como meio para construir e entender
o mundo ao seu redor. O homem abdica de explicações místicas ou religiosas. Além disso,
a humanidade não quer apenas compreender como as coisas funcionam, mas intervir na
realidade a seu favor.

A ciência é o caminho que a humanidade encontra para alcançar seus objetivos de autonomia e
criação da realidade. Influenciados pelo racionalista René Descartes (filósofo francês considerado
o pai do racionalismo), os cientistas e intelectuais modernos abandonaram o método generalista
dos gregos (que buscavam conhecer sobre tudo ao mesmo tempo e de maneira entrelaçada,
como medicina, arte, filosofia) e adotaram uma metodologia de conhecimento especializada,
separando as ciências de acordo com os objetos de estudo. Esse processo de divisão da ciência
chama-se “especialização científica” e decorre da linha de pensamento chamada positivismo.

De um lado, têm-se as ciências do espírito (filosofia, literatura, sociologia etc.) e de outro, as


ciências da natureza (engenharia, medicina, biologia). Cada área do conhecimento tem seu
objeto específico: a biologia estuda os seres vivos; a engenharia as novas tecnologias; a
matemática a metafísica e a quantificação das coisas.

Nessa classificação, as ciências médicas ficam responsáveis pela manutenção da vida. Preservar
a vida significa protegê-la do que possa prejudicá-la, em outros termos, contra a doença. Por sua
vez, doença é entendida como desvio das funções habituais do corpo. Desse modo, a noção de
saúde e doença está diretamente ligada a uma perspectiva de estatística e do meio ambiente. Na
lógica médica, a vida é uma normalidade estatística e contextual, a doença é um desvio funcional,
uma anormalidade.
Débora Diniz (2007) afirma que o modelo médico identifica a deficiência como lesão, ou seja,
deficiência é um corpo que possui algum tipo de lesão. A lesão é uma anormalidade, um desvio
do funcionamento padrão. O que se percebe é que todas as atenções para os estudos da
deficiência estão concentradas no corpo individual das pessoas. O sofrimento, exclusão ou
repressão social impostos às pessoas com deficiência são consequências ditadas do corpo
lesionado.
Veja abaixo um fluxograma sobre como o modelo médico compreende a relação entre corpo,
normalidade e as desvantagens sociais. Note que existe uma relação direta entre corpo com
lesões, anormalidade e incapacidade e prejuízos sociais. É essa relação direta que caracteriza o
modelo médico.

Esquema de modelo médico.


Fonte: Elaborado pelo autor conteudista

Confira a seguir mais informações sobre o modelo médico:

O modelo médico defende um conceito linear e dedutivo da deficiência, em que a lesão (ou
doença) gera incapacidade e a incapacidade leva às desvantagens sociais, como pobreza,
exclusão social, sofrimento e falta de acesso a bens e serviços. A causa da exclusão das pessoas
com deficiência está diretamente ligada ao fato delas terem corpos lesionados. Tais lesões ou
doenças não permitem que elas vivam de maneira adequada, porque são incapazes de se
adaptarem à sociedade em que vivem.

Por esse motivo, estudiosos como Diniz (2007), Chaves e Raiol (2021) argumentam que uma das
principais características do conceito médico é o fato de tratar a deficiência como um problema
individual, de inteira responsabilidade pessoal do indivíduo com alguma deficiência. A pessoa
com deficiência é uma pessoa lesionada/doente e deve, por seus próprios meios, procurar saída
para suas mazelas corporais, visto que todo sofrimento que ela tem decorre das desvantagens de
ter um corpo não funcional, e isso não diz respeito a ninguém além dela mesma.

No conceito médico, a sociedade é imune a qualquer responsabilidade pelo sofrimento das


pessoas com deficiência. A sociedade é um dado imutável. Ela está de acordo com a
normalidade, com o status quo. A sociedade é funcional, as pessoas com deficiência que são
disfuncionais e desviantes. Logo, o outro lado da individualização da deficiência é
a irresponsabilidade social sobre a deficiência.

O conceito médico de deficiência considera a anormalidade como uma questão individual daquela
pessoa que tem um corpo com variações funcionais diferentes do esperado pelos padrões
médicos determinados. De certo modo, ainda persiste no modelo médico uma forte concepção de
tragédia pessoal, herdada da Antiguidade grega. A evolução da ciência não excluiu a narrativa da
tragédia ou fatalidade da vida das pessoas com deficiência, apenas cria novas justificativas
sociais, substituindo o misticismo religioso pelas explicações científicas baseadas no corpo. Em
outras palavras, o sacerdote dá lugar ao médico e o argumento da punição divina dá lugar ao
argumento do infortúnio biológico.
A anormalidade é a característica central do modelo médico, como dito anteriormente, é um
conceito estatístico e valorativo. Estatístico porque anormal é o desvio do padrão médio. Os
cientistas avaliam um número de pessoas e identificam traços e características comuns, como
altura, número de membros, funções do corpo etc. O conjunto de elementos comuns de uma
população é chamado de homem médio, homem padrão ou homem normal (O conceito homem
aqui refere-se ao gênero humano como um todo, homens e mulheres). As pessoas que não
tiverem esse conjunto de caracteres ou tiverem caracteres que funcionam de maneira distinta do
esperado estão fora do padrão, fora do normal.

A anormalidade também é valorativa, ou seja, a sociedade imputa um valor sobre o que se


espera do normal. Quando se diz valor, está se falando de “bem” ou “bom”; “mau” ou “ruim”. Com
isso, pode-se dizer que a normalidade expressa um valor moral da sociedade sobre como as
pessoas devem ser e como não devem ser.
A experiência histórica tem mostrado que a anormalidade é considerada um valor negativo ou
pejorativo, porque está longe das expectativas de como as pessoas querem ou devem ser. De
acordo com o sociólogo Ervin Goffman (2004), quando atribuímos um valor negativo a uma
característica ou traço de uma pessoa ou grupos sociais, estamos criando um estigma:

O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo profundamente


depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e não de
atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem,
portanto ele não é, em si mesmo, nem horroroso nem desonroso. (Goffman, 2004, p. 6).

Para Goffman, o atributo, isto é, o elemento ou característica que diferencia uma pessoa da outra,
como a deficiência, não é um estigma em si, é um mero atributo ou traço pessoal. Ele se torna
estigma quando as pessoas se relacionam umas com as outras. Assim, a lesão torna-se um
estigma depreciativo por meio da relação entre pessoas com deficiência e sem deficiência e a
linguagem médica que intermedeia essas relações.

O sentido pejorativo da anormalidade no conceito médico decorre, em grande parte, da


interpretação que as ciências médicas da modernidade fazem da deficiência. Relembrando: para
o modelo médico, deficiência é um corpo com lesões. Lesão é um desvio da saúde, é uma
doença. Para a medicina, doenças devem ser evitadas, tratadas e curadas. Como a doença é
algo ruim, a lesão também é, consequentemente, a deficiência.

Essa equiparação da deficiência a uma doença é um fenômeno social chamado


de patologização da deficiência, que tem como principal efeito fazer com que a sociedade
considere as pessoas com deficiência como enfermas, ainda que elas tenham total
autonomia para realizar atos da vida comum.

A patologização influi diretamente no comportamento das ciências médicas e da sociedade em


relação à deficiência. Uma primeira consequência direta é o foco na medicalização ou
reabilitação das pessoas com deficiência. O objetivo é retirar a pessoa com deficiência do estado
de enfermidade que a lesão representa, seja por meio de remédios, fisioterapias, tratamentos de
choque ou hospitalização.
A segunda consequência direta é a institucionalização das pessoas com deficiência.
Institucionalizar significa deixar as pessoas com deficiência aos cuidados de instituições médicas,
que Goffman (1987) chama de instituições totais, que têm as seguintes características:
são instituições fechadas, não permitindo a saída livre daqueles que estão sob sua custódia
(manicômios, cárceres, escolas, conventos etc.).

são locais com hierarquias próprias, onde existem aqueles que têm o poder de comando (os médicos e
diretores) e aqueles que têm o dever de obediência (os pacientes).

são espaços onde os comportamentos são regulados de maneira implícita por normas rígidas
(regulamentos, regimentos, leis, rotinas).

As principais instituições totais relativas às pessoas com deficiência são os manicômios –


hospitais psiquiátricos; os centros de reabilitação – em sua maioria, acolhem pessoas com
alguma deficiência física; e as casas de abrigo – têm uma gama de destinações, principalmente
para pessoas com deficiências visual e auditiva.

A medicalização e a institucionalização das pessoas com deficiência tiveram uma expansão no


mundo notavelmente após as duas Grandes Guerras Mundiais, nas quais vários combatentes
adquiriram algum tipo de deficiência em decorrência dos conflitos armados, seja por perda de
membros, lesões corporais ou estresse pós-traumático. Com um enorme contingente de pessoas
com deficiência, as famílias dos ex-soldados reivindicaram um tratamento custeado pelo Estado
àqueles que sofreram as mazelas em nome do país.

Para saber mais sobre a origem dos Jogos Paraolímpicos clique sobre o link:
https://gq.globo.com/GQ-no-podio/noticia/2016/08/jogos-paralimpicos-surgiram-da-ideia-
de-reabilitar-veteranos-de-guerra.html

O Brasil, mesmo não participando de maneira atuante na Segunda Guerra Mundial, sempre teve
um número considerável de pessoas com deficiência em sua população. As causas são variadas,
com destaque para as precárias condições de vida que levam ao surgimento de lesões ainda na
tenra infância, como desnutrição de mães e filhos, falta de acesso à saúde, falta de acesso às
vacinas, ou ainda a circunstâncias deletérias da vida adulta, como a insegurança no local de
trabalho e o convívio contínuo com problemas sociais como miséria, alcoolismo, racismo e
violência.

As condições de vida nas instituições totais, especialmente nos manicômios, eram bastante
deletérias, devido à ausência de publicidade dos centros médicos. O relato de uma dessas
experiências de institucionalização no Brasil está presente no livro Holocausto brasileiro:
genocídio de 60 mil mortos no maior hospício do Brasil, da escritora Daniela Arbex, que narra a
realidade do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, em Minas Gerais, que funcionou entre
1903 a 1996.

As instituições totais não se limitaram ao âmbito hospitalar, mas estenderam-se também à seara
da educação. Surgem, então, as chamadas “escolas especiais”, que são centros educacionais
voltados para pessoas com algum tipo de deficiência.
Não obstante a importância de se constituirem as primeiras atitudes em prol da integração das
pessoas com deficiência ao acesso à educação, essas instituições sedimentaram uma separação
espacial entre pessoas com e sem deficiência. Por isso, os alunos dessas repartições sofreram
forte discriminação social entre os pares e muitas vezes tinham uma qualidade de ensino
precário.

Apesar dessas limitações e das repercussões ruins que o conceito médico possa ter tido (e
muitas se mantêm), não se pode negar sua contribuição para o avanço quanto ao cuidado
dispensado às pessoas com deficiências. Confira algumas delas a seguir.

Em primeiro lugar, vale relembrar que o conceito médico contribuiu para o enfraquecimento das
explicações supersticiosas em relação às origens das deficiências. A partir dessa mudança de
mentalidade, práticas de extermínio, comuns na Antiguidade, como infanticídio de crianças com
deficiência, ou o abandono deliberado na Idade Média, tornaram-se práticas socialmente
condenadas.

Em segundo lugar, o avanço da ciência melhorou significativamente a qualidade de vida das


pessoas, dentre elas, das pessoas com deficiência. Inclusive, várias deficiências adquiridas
puderam ser evitadas por meio de vacinas (poliomielite, rubéola, rotavírus etc.). Pessoas com
deficiência tiveram acesso a locais de tratamento médico para as complicações das lesões, com
acompanhamento especializado.

Em terceiro lugar, é no seio das instituições médicas, principalmente daquelas destinadas ao


acolhimento das pessoas vitimadas nos conflitos bélicos, que se organizarão as primeiras
associações civis das pessoas com deficiência. Associações de deficientes feridos de guerra vão
compartilhar experiências entre si e se articularão para criar espaços lúdicos e reflexivos.

Em quarto lugar, essas associações formadas por pessoas com deficiência e por seus familiares
começaram a tensionar o Estado por uma visibilidade quanto à sua situação de vida, acusando a
nação de terem abandonado seus heróis. Como resultado, mais investimentos públicos foram
feitos para a construção de hospitais e escolas especializadas, bem como a criação de auxílio
financeiro às pessoas com deficiência na forma de pensões.

De acordo com Chaves (2020) o conceito médico foi responsável pelos primeiros passos do
paradigma de integração social das pessoas com deficiência, ainda que de maneira tímida.

Integração é a disponibilização de determinado serviço ou direito a um grupo social específico


em ambiente separado ou isolado. O objetivo da integração é a agregação espacial, onde a
interação entre sujeitos diferentes ou não é levada em consideração ou é de importância
secundária

Integração

Os exemplos mais conhecidos de integração são as chamadas escolas especiais, que são
centros de ensino especializados em atendimento de crianças com algum tipo de deficiência:
visual, auditiva ou cognitiva. Essas escolas separavam os alunos sem deficiência, assistidos pelo
ensino regular, dos alunos com deficiência, atendidos pelo ensino especial. Essa segmentação
colaborou para uma estigmatização das pessoas com deficiência como anormais que, por sua
diferença funcional, deveriam ser isoladas dos “normais”.
É no contexto do surgimento das escolas, hospitais e outras instituições “especiais” que
passa a ser utilizado o termo “pessoas com necessidades especiais” ou “pessoas
portadoras de necessidades especiais”. Acreditava-se que as pessoas com deficiência, por
precisarem de cuidados médicos e assistenciais, teriam mais necessidades que as
pessoas sem deficiência. Esse termo ajudou a sedimentar uma ideia de incapacidade das
pessoas com deficiência. Posteriormente, com o advento do modelo social, esse termo vai
ser criticado, pois as pessoas com deficiência possuem as mesmas necessidades das
demais pessoas: alimentação, saúde, moradia, educação etc. A diferença está na forma
como tais necessidades serão atendidas e não nelas mesmas.

O paradigma integracionista marcou uma mudança, ou melhor, uma passagem do modelo médico
para o modelo social. Neste último, ele foi perdendo sua força porque foi sendo questionado pelo
fato de ratificar atitudes segregacionistas em relação às pessoas com deficiência.
No Brasil, a Lei nº 7.853 de 24 de outubro de 1989)(Brasil, 1989) dispõe sobre a Política Nacional
para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. A lei é regulamentada pelo Decreto nº 3.298
de 20 de dezembro de 1999)(Brasil, 1999) e define deficiência da seguinte forma: “toda perda
ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que
gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado
normal para o ser humano”.

As citadas normas concretizam nas leis os preceitos do conceito médico:


1a consideração da deficiência como a presença de uma lesão no corpo ou na mente;

2a relação direta e causal entre deficiência e incapacidade para atos da vida cotidiana;

3a existência de um padrão de características humanas que diz o que é normal.

É no seio do paradigma da integração que vai se utilizar a terminologia pessoas portadoras de


deficiências, pois tinha-se uma compreensão de que a pessoa com deficiência era uma pessoa
que “portava” uma lesão, isto é, a disfunção anatômica, mental ou fisiológica era um infortúnio
agregado à pessoa. Essa interpretação é problemática porque ela separa a deficiência da pessoa
humana e, com isso, despersonifica a deficiência como algo alheio à vida do indivíduo com
diversidade funcional, contribuindo para o seu silenciamento.
O conceito médico vigora até os dias atuais e produz efeitos positivos e negativos para sociedade
e para as pessoas com deficiência.

Exemplos de uso do conceito médico nos dias atuais


O conceito médico ainda é muito utilizado para concessão de benefícios assistenciais,
previdenciários e tributários, como pensões por incapacidade, isenção ou redução no pagamento
de imposto de renda, e a concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC), tipo de
benefício assistencial concedido a pessoas pobres com deficiência ou idosas. Para gozar desses
benefícios, as repartições públicas consideram um conjunto rigoroso de graus e tipos de lesões
que uma pessoa tem, de maneira previamente padronizada e submetida à avaliação de um perito
médico, para decidir pelo deferimento ou não do benefício.

Mas como demonstrado, o conceito foi se desenvolvendo e modificando ao longo do tempo.


Embora os especialistas utilizem o termo modelo biomédico ou modelo médico, a verdade é que,
dentro deste modelo, existem diferenças que, com o passar do tempo, foram dando abertura e
assimilando críticas internas (dos próprios médicos e das instituições) e externas (das pessoas
com deficiência e familiares). As políticas integracionistas são prova dessa mudança que vai
desde uma visão médica extremamente fechada, em que só a medicina tinha competências para
definir o que é deficiência, até perspectivas mais flexíveis, quando as ciências médicas começam
a partilhar com outras ciências (psicologia, serviço social, política, direito) o conceito de
deficiência.

A abertura do conceito médico a novos olhares sobre o que é deficiência, permitiu o surgimento
de questionamentos sobre a real melhoria que esse modelo representa às pessoas com
deficiência. Não obstante os avanços técnicos e procedimentais em relação ao tratamento do
corpo e das lesões, pouco se avançou nas relações sociais, no acolhimento e no respeito à
dignidade das pessoas com deficiência. Tais críticas foram ganhando força à medida que as
pessoas com deficiência se uniram em associações e grupos e com o aumento de sua
participação em espaços públicos, como escolas e universidades. Desse modo, no período pós-
Segunda Guerra Mundial, entre os anos de 1950 e 1960, foi sendo construído o conceito social
de deficiência indicado na figura abaixo:

Conceito ou modelo médico

2.3 Modelo social da deficiência

A integração das pessoas com deficiência em espaços sociais, como universidades e


associações, possibilitou a formação de espaços de troca de ideias e críticas sobre como a
sociedade mantinha uma postura excludente em relação às pessoas com diversidades funcionais.
Além disso, como citado, as associações de ex-combatentes com deficiência fizeram os primeiros
movimentos políticos de reivindicação de direitos voltados para pessoas com deficiência.

Esse processo de agrupamento social e político vai culminar nas décadas de 1960 e 1970,
principalmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, com o surgimento do conceito social de
deficiência, que tem como premissa básica: a deficiência é resultado da opressão social às
pessoas com lesões físicas e mentais. Em outras palavras, a deficiência não é incapacitante em
si mesma, mas é a convivência de um corpo com lesões ou disfuncionalidades em um ambiente
social inacessível que gera as desvantagens sociais. As desvantagens estão na sociedade, não
na lesão ou na pessoa com deficiência.

O Movimento Vida Independente surge nos Estados Unidos, protagonizado pelo estudante com
deficiência, Ed Roberts, que questiona as condições de acessibilidade da Universidade
de Berkeley. Por meio de práticas associativas, ele criou o primeiro Centro de Vida Independente.
O movimento chegou ao Brasil por meio de ativistas com deficiência que criaram o Centro de
Vida Independente no país, que mesclava conscientização social e política, trabalho voluntário e
prestação de serviços.
Se você quiser saber mais sobre a história do Movimento Vida Independente nos Estados
Unidos, você pode acessar o site https://www.nilp.org/history-of-independent-living-
movement/ Além disso, você também pode conhecer o Centro de Vida Independente no
Brasil, por meio do site: https://vidaindependente.org/o-que-e-a-vida-independente/

No Reino Unido, na década de 1970, houve a criação da Liga de Lesados Físicos contra a
segregação (Union of the Physically Impaired Against Segregation - UPIAS). Trata-se de um
grupo de estudantes universitários que estudam a deficiência, tendo como principais temas de
reivindicação: representatividade social e política, crítica às instituições caritativas e
desconstrução da ideia de incapacidade como algo intrínseco à deficiência.

A UPIAS elaborou uma “carta de reinvindicação” que marcou seu surgimento. O


documento está disponível em inglês em: https://disability-studies.leeds.ac.uk/wp-
content/uploads/sites/40/library/UPIAS-UPIAS.pdf Nesse documento estão resumidos os
principais pontos de debate do modelo social.

Enquanto o Movimento Vida Independente teve objetivos mais práticos e um foco individual, o
movimento UPIAS apresentou uma abordagem mais academicista e sociológica. Ambos
complementares, mas com escopos diferentes. A linha comum entre os dois movimentos é trazer
a discussão da deficiência como um problema social e político e não estritamente médico, além
de denunciar o silenciamento e a invisibilidade a que o grupo social esteve submetido ao longo da
história. Veja abaixo o quadro comparativo desses dois movimentos.

Movimento Vida Independente


Movimento/Critério UPIAS (Reino Unido)
(EUA)

Criar condições sociais para que as Denunciar as situações e estruturas


Foco pessoas com deficiência tenham que excluíam as pessoas com
uma vida independente. deficiência

Forma de
Associativismo cívico e universitário Associativismo político e universitário
mobilização

Viés Pragmático Academicista e político

Não faz uma crítica direta às Faz uma crítica às instituições


Posicionamento
instituições caritativas. caritativas. Critica o capitalismo como
político
Dialoga com o sistema capitalista. criador de modelos de normalidade.

Quadro – Movimento Vida Independente (EUA) x UPIAS (Reino Unido)

Como dito, o núcleo do modelo social é a inversão do ônus sobre a deficiência: o que no conceito
médico é um problema individual, no conceito social, por sua vez, é um problema da sociedade,
isto é, de uma sociedade excludente, segregadora e opressora.

A exclusão e a segregação são fenômenos conjuntos. Segregar é separar do todo, desmembrar,


tanto no aspecto espacial (como escolas especiais e regulares) quanto nas atitudes (práticas
discriminatórias). Excluir é retirar dos espaços comuns, não possibilitando ou mesmo impedindo
uma pessoa de participar da vida social com outras pessoas, como ocorre, por exemplo, quando
uma pessoa com deficiência auditiva não pode assistir a uma palestra na faculdade porque não
tem intérprete de libras para comunicá-la. Logo, esses processos diferem-se por graus, a
exclusão é o grau mais elevado dos contínuos processos de segregação.
A opressão, por sua vez, como descreve Chaves (2020), é um fenômeno social que permeia
a sociedade e está presente em famílias, escolas, igrejas, Estado etc. É algo dispersivo e
dinâmico. Ela ocorre quando uma pessoa ou sociedade exerce domínio pela força,
violência ou imposição de ideologias sobre outras pessoas ou sociedades. Oprimir é
submeter o outro à sua vontade, é uma prática tirânica.

A denúncia da opressão é algo reiterado pelo modelo social que afirma que a sociedade foi
construída sem pensar nas pessoas com deficiência. São sociedades que partem do pressuposto
da normalidade, do padrão – das pessoas sem deficiência. Aquelas pessoas que têm diversidade
funcional devem submeter-se e lutar para sobreviver em um mundo que não foi feito para elas.
Isso pode ser visto nos espaços arquitetônicos inacessíveis, no desprezo do uso de línguas de
sinais nas escolas e em ambientes que não se preocupam com a inserção de pessoas com
deficiência.

Para o modelo social, o capitalismo selvagem dos dias atuais propicia um desenvolvimento da
opressão sobre as pessoas com deficiência. Exige-se, no capitalismo, uma alta produtividade. O
padrão de comportamento é a competitividade e a concorrência. Pessoas altamente produtivas
no mercado de trabalho são consideradas como “mais capazes”. Capacidade e produtividade
laboral são, então, ideias muito próximas. As pessoas com deficiência por não se adequarem a
esse modelo de vida são consideradas como incapazes, improdutivas ou onerosas.

Desse modo, nas sociedades contemporâneas a opressão difunde-se de maneira mais forte no
fomento de uma mentalidade de capacidade; o contrário, a incapacidade, é considerada algo
indesejável. Nasce nesse cenário o conceito de capacitismo, que é o preconceito presente no
imaginário social que estereotipa as pessoas com deficiência como incapazes, inferiores,
dependentes ou imperfeitas.

As atitudes capacitistas podem adquirir as mais variadas formas e, muitas vezes, essas atitudes
passam despercebidas. Por exemplo, digamos que uma pessoa com deficiência visual pratique
esportes de natação. Algumas pessoas pensarão e dirão que ela deve evitar esse tipo de esporte
porque ela não consegue fazê-lo, que é muito arriscado, que “não é para ela”. É o capacitismo em
forma de incapacitação/inferiorização, ou seja, é concluir que uma pessoa com deficiência não
consegue fazer algo em decorrência da sua deficiência.

Esse tipo de prática capacitista, pode ainda se manifestar na forma de infantilização, quando as
pessoas tratam outras pessoas com deficiência como crianças, dando-lhe ordens ou
assistencialismo demasiado, sem ou até mesmo contra o consentimento da pessoa com
deficiência.

Outra forma de capacitismo por incapacitação mais sútil é a mentalidade de que pessoas com
deficiência são puras, desprovidas de sentimentos como raiva, inveja ou tristeza. Esse tipo de
pensamento é mascarado como forma de empatia, mas, na maioria das vezes, esconde um
pressuposto de “coitadismo” e “pena” em relação às pessoas com deficiência, que subjaz a
compreensão de que ela vive uma tragédia pessoal. Por outro lado, existe o capacitismo por
maximização, que é considerar atos da vida comum feitos por pessoas com deficiência como algo
extraordinário e digno de extrema aclamação.

Voltando ao exemplo do deficiente visual nadador, quando as pessoas tratam esse nadador como
um herói ou guerreiro extraordinário, isso reforça a ideia de que o mundo não foi feito para ela, e
que “apesar de ser uma pessoa com deficiência”, consegue fazer algo “padrão”. Isto é, “consegue
ser como nós”. Por trás desse tipo de elogio, existe uma ideologia de que: as pessoas com
deficiência não conseguem fazer as mesmas coisas que as pessoas sem deficiência, portanto, e
quando o fazem, elas são incríveis.
As mobilizações contra o capacitismo começaram com as denúncias da UPIAS, no Reino Unido,
contra as instituições caritativas que prestavam serviços às pessoas com deficiência em nome do
assistencialismo benevolente. Os membros da UPIAS chamaram a atenção para o fato de que
essas instituições para pessoas com deficiência não tinham nenhuma pessoa com deficiência em
seu quadro de funcionários ou líderes. Além disso, nos espaços públicos, elas detinham o poder
de fala, enquanto as pessoas com deficiência eram substituídas por essas instituições.
Por fim, eles destacaram que tais organizações recebiam muitos recursos públicos e privados,
estabelecendo uma verdadeira indústria da caridade.
Desse modo, três problemas decorriam diretamente dessa comercialização da assistência às
pessoas com deficiência:
1ª invisibilização das pessoas com deficiência;
2ª invisibilização das causas materiais da deficiência;
3ª o não questionamento do paradigma da integração.

A invisibilidade das pessoas com deficiência, conforme dito, ocorre pelo fato de que os gestores e
membros das instituições assistencialistas não eram pessoas com deficiência. Quando o Estado
tentava criar um diálogo com a sociedade civil para pensar políticas públicas sobre o tema, eram
esses gestores que eram chamados. No fim, as políticas sobre deficiência eram elaboradas sem
a participação de pessoas com deficiência. Como resposta, o conceito social fundamentou a
criação das primeiras instituições de pessoas com deficiência, sustentadas no lema “Nada sobre
nós, sem nós”.

A invisibilidade das causas materiais da deficiência diz respeito a olhar como as desigualdades e
a miséria material afetam a vida das pessoas com deficiência. Primeiro, vários tipos de lesões ou
disfunções são gerados diretamente pelas condições insalubres de vida (desnutrição e fome), ou
pela falta da efetivação de direitos (saúde e assistência social), ou ainda por atos humanos
evitáveis (condições de trabalho perigosas). Logo, a miséria material é produtora direta de corpos
com lesões: a miséria leva à lesão física ou mental.

Por outro lado, as pessoas com deficiência não são inseridas dentro do mercado de trabalho, em
setores econômicos produtivos, pois são estereotipadas como incapazes e improdutivas. Isso
representa uma desvantagem social ligada ao preconceito. Essa dificuldade de aferir renda cria
uma dependência de benefícios assistenciais do Estado. Neste caso, viver em um corpo
lesionado é uma desvantagem em relação às demais pessoas (sem lesões). Em outras palavras:
a lesão física ou mental leva à miséria.

Enquanto o conceito médico considerava que a pobreza (desvantagem social) tinha uma
relação linear e causal com a deficiência, isto é, que a deficiência consequentemente gerava
pobreza, o conceito social questiona esse processo e inverte essa lógica ao acusar a
sociedade, por meio de práticas excludentes, de produzir tanto as condições da deficiência como
as condições de pobreza.

Por sua vez, as instituições assistenciais, ao propor estruturas integracionistas – como escolas
especiais e hospitais especializados –, não se aperceberam que, com o tempo, foi estabelecido
um sistema de segregação intrassocial, uma separação que ocorre dentro da própria sociedade.
A integração, a despeito do imenso progresso que tenha representado, não deixou de gerar
estigmas. O trânsito social das pessoas com deficiência era limitado aos espaços especializados,
como escolas, hospitais e centros, gerando uma feudalização da questão da deficiência.

O conceito social criticou veementemente esse modelo, pois seus defensores vivenciaram
experiências associativas, políticas, lúdicas e de vida cívica ativa, para além dos muros
das instituições totais. Compreenderam que viver a dinâmica da sociedade é um direito
que não pode ser limitado ao ato de integrar a parte (pessoa com deficiência) no todo
(sociedade), mas sim de incluir a parte (pessoa com deficiência) ao todo
(sociedade). Desse processo, surgiu o paradigma da inclusão.
A seguir, ouça nosso podcast sobre o paradigma da inclusão.

https://creators.spotify.com/pod/show/enap/embed/episodes/EV-G-O-conceito-contemporneo-da-
deficincia-e-o-modelo-biopsicossocial---Paradigma-da-incluso-e2s410j/a-abm33bl

Confira abaixo, na imagem, as principais características do modelo social.

Conceito ou Modelo Social

2.4 Modelo biopsicossocial da deficiência

O conceito social da deficiência contribuiu para que a questão da deficiência fosse considerada
um assunto referente à sociedade (sociologia), à política e ao direito. O associativismo cívico das
pessoas com deficiência e familiares, concomitante às críticas à falta de representatividade que
propunham, deram mais visibilidade para que pessoas com diversidade funcional se
expressassem por si mesmas.

Entretanto, as conquistas do conceito médico não poderiam ser abandonadas de todo,


especialmente aquelas que contribuíram para uma melhoria da qualidade de vida das pessoas
com deficiência. Soma-se ainda que, dentro do modelo social, insurgiram-se críticas sobre sua
potencialidade explicativa e tratativa da deficiência. Nesse contexto, surge o conceito
biopsicossocial de deficiência.

O conceito biopsicossocial - a deficiência é uma condição de saúde que, dentro de fatores


ambientais e contextuais, pode gerar desvantagens sociais.

A abordagem da deficiência pelo conceito biopsicossocial rompe com a clássica divisão, feita
pelos modelos médico e social, que separa a saúde (biológica) da sociedade (social), por isso
oferece uma visão multidimensional e interativa. São dimensões do conceito biopsicossocial:
Dimensões do conceito biopsicossocial

Verifica-se que o conceito biopsicossocial procura abandonar uma visão causal que existe nos
conceitos médico e social. O primeiro vê uma relação direta entre deficiência, incapacidade e
desvantagem; o segundo vê a causalidade entre deficiência, sociedade e segregação. O
problema do viés causal está em seu caráter unidirecional. Pode-se dizer que ambos vivem sob a
égide de um paradigma da simplicidade. Por outro lado, o conceito biopsicossocial aposta na
multiplicidade de fatores, como dito, biológicos, sociais e psicológicos. Portanto, o conceito
biopsicossocial atua pelo paradigma da complexidade.

Uma característica polêmica do conceito biopsicossocial é a instabilidade sobre o que é


deficiência. O paradigma médico criou estratégias, normas e documentos de avaliação da
deficiência baseados na identificação de elementos previsíveis e observáveis para delimitar a
deficiência, como a perda permanente de funções ou membros, a métrica de funcionalidade de
um órgão (graus de visão) etc. Com o conceito biopsicossocial, as deficiências podem ser
temporárias, progressivas, regressivas, intermitentes ou contínuas.

Definições de deficiência são cada vez mais imprevisíveis e contextuais. Mulheres gestantes, por
exemplo, embora não sejam pessoas com deficiência, são incapacitadas para atos da vida
comum em ambientes com barreiras. É o que chamamos atualmente de pessoas com mobilidade
reduzida. A consequência desse novo olhar sobre as deficiências e as potencialidades geradas
desafia as instituições, principalmente o Estado, a lidar de maneira mais plural com a definição e
a abordagem às pessoas com deficiência, optando por vezes, pelo abandono de relatórios de
avaliação prévios e rígidos.

A subjetividade é outra característica essencial do modelo biopsicossocial. Trata-se de


considerar como relevante e constitutivo a experiência psicológica das pessoas com deficiência,
de dar voz não somente a demandas e reivindicações sociais e políticas emergentes, mas a
demandas pessoais. As pessoas com deficiência têm espaço para expressar como se sentem
vivendo em um corpo com impedimentos e uma sociedade com barreiras. Essa consideração da
subjetividade não diz respeito somente à expressividade, mas à consideração e assimilação das
angústias, tristezas, alegrias, metas e planos de vida de pessoas que ao longo da história foram
silenciadas. A subjetividade faz parte da dignidade humana.

Outra característica é a intersubjetividade, que é contrária a objetividade. No modelo médico, o


profissional da saúde é detentor de todo saber especializado sobre a deficiência. No modelo
biopsicossocial, o profissional da saúde deve colaborar com a própria pessoa com deficiência,
familiares e atores sociais. A deficiência não está restrita às descrições objetivas da CID, mas em
uma análise interpretativa da pessoa e do mundo.
Confira no infográfico abaixo as principais características de cada modelo.

Agora, na tabela abaixo, compare as principais características de cada modelo.

Conceito médico de deficiência Conceito social de deficiência Conceito biopsicossocial de deficiência

A deficiência é produto da interação entre


A deficiência é produto de um corpo A deficiência é produto da opressão
corpo com impedimentos e ambientes com
com lesões social
barreiras

A deficiência é considerada uma A deficiência é considerada uma A deficiência é considerada uma


doença experiência de segregação social experiência de diversidade funcional

Assunto referente à toda comunidade


Assunto referente somente aos Assunto referente às próprias
(profissionais da saúde, pessoas com
profissionais da saúde pessoas com deficiência
deficiência e sociedade em geral)

Questão de saúde Questão de justiça social Questão de direitos humanos

Considera deficiência como Crítica à padronização social e ao Crítica à padronização social e ao conceito
anormalidade conceito de anormalidade de anormalidade

Paradigma da integração Paradigma da inclusão Paradigma da inclusão

Relação causal entre sociedade


Relação causal entre lesão, Relação complexa entre deficiência,
excludente, deficiência e
deficiência e desvantagens sociais sociedade e desvantagens sociais
desvantagens sociais

Tabela - Comparação das principais características de cada modelo.


O modelo social iniciou a discussão da deficiência como uma questão de justiça, mas foi no
modelo biopsicossocial que ela se tornou definitivamente uma questão de direitos humanos. Ou
seja, a abordagem multidisciplinar da deficiência está atrelada diretamente à dignidade da pessoa
com deficiência. Como consequência, várias normas internacionais e nacionais começaram a
aderir ao conceito biopsicossocial. Esse será o assunto do próximo módulo.

Unidade 3 - História da deficiência


internacional e nacional
Objetivo de aprendizagem:
Ao final desta unidade, você será capaz de comparar a história da deficiência
nos níveis internacional e nacional.

Nesta unidade, mergulharemos na história da deficiência tanto em contextos internacionais


quanto nacionais, buscando compreender sua evolução ao longo do tempo e seu impacto nas
sociedades. Começaremos explorando a presença da deficiência na Antiguidade Ocidental,
examinando as percepções e práticas em relação às pessoas com deficiência nesse período
histórico.

Em seguida, investigaremos o papel e a percepção da deficiência durante a Idade Média,


destacando as influências religiosas, culturais e sociais que moldaram as atitudes em relação às
pessoas com deficiência.
Avançaremos para a era da Modernidade, onde analisaremos as mudanças nas concepções e
abordagens em relação à deficiência, incluindo avanços nas áreas de medicina, educação e
direitos humanos.

Vamos encerrar nossa análise examinando o cenário atual da deficiência, tanto globalmente
quanto no Brasil. Investigaremos as questões contemporâneas enfrentadas por pessoas com
deficiência e as políticas e iniciativas que buscam promover sua inclusão e igualdade de
oportunidades em diferentes contextos sociais e institucionais. Ao longo desta unidade, vamos
buscar não apenas compreender a história da deficiência, mas também refletir sobre suas
implicações para o presente e o futuro das pessoas com deficiência em nossas sociedades.

3.1 Deficiência na Antiguidade Ocidental

Antiguidade é o período que vai desde 4.000 anos antes de Cristo até o ano 476, depois de
Cristo, quando houve a queda do Império Romano no Ocidente. O marcador do início da
Antiguidade é a invenção da escrita, mecanismo que permitiu ao homem o registro de sua
história. É por meio desses registros, apesar de poucos, que se tem acesso a informações de
como as comunidades antigas tratavam e se relacionavam com as pessoas com deficiência
.
Existem evidências arqueológicas de que no Antigo Egito as pessoas com deficiência eram
integradas em várias hierarquias sociais (faraós, nobres, agricultores e escravos). Artefatos,
papiros, pinturas e esculturas dão a conhecer que a sociedade egípcia não tinha um
comportamento de total exclusão das pessoas com deficiência.

As pessoas com nanismo, por exemplo, não tinham impedimentos em ocupações e ofícios da
vida cotidiana egípcia e exerciam os trabalhos artísticos de músicos e dançarinos. Existem
papiros médicos com informações sobre como tratar as pessoas com deficiência visual, tendo em
vista que a região era acometida de surtos de infecções nos olhos que levavam à cegueira.
Por outro lado, a sociedade grega tinha uma postura de limpeza eugênica em relação às
pessoas com deficiência, isto é, as pessoas com disfunções físicas ou mentais deveriam ser
eliminadas para controle e melhoramento das comunidades gregas.

A deficiência era considerada uma abominação, infortúnio e atraso aos interesses das pólis
(nome dado às cidades gregas). As formas de eliminação são variadas: pela exposição a animais,
pelo abandono em vilas ou mesmo pela prática do infanticídio nas montanhas de Taygetos, na
Grécia (Cordilheira presente na Grécia, uma das partes mais altas do país).

Os filósofos gregos Platão e Aristóteles também pregavam em seus livros o abandono ou


eliminação das crianças “disformes”. Platão diz que “os homens disformes, escondê-lo-ão num
lugar interdito e oculto, como convém” (A República, Livro IV, 460 c). Aristóteles, por sua vez,
escreve “Quanto a rejeitar ou criar os recém-nascidos, terá de haver uma lei segundo a qual
nenhuma criança disforme será criada” (A Política, Livro VII, Capítulo XIV, 1335d).

A segregação das pessoas com deficiência espalhava-se em vários traços da cultura grega,
especialmente na política, na religião e na arte. Os espartanos, uma sociedade militarizada,
tinham o costume de eliminar crianças nascidas com deficiência como uma política de eugenia
voltada para guerra, na qual só os mais “fortes” são escolhidos. As pessoas com deficiência eram
consideradas fracas e um atraso para a sua comunidade.

Atenas era uma cidade fortemente influenciada pelo politeísmo grego. Existe na mitologia grega
uma divindade com deficiência, Hefesto, filho de Zeus e de Hera.
De acordo com as obras Odisseia e Ilíada (de autoria de Homero, que é conhecido como o maior
poeta grego e, de acordo com relatos históricos, seria deficiente visual), o deus Hefesto nasceu
com pernas atrofiadas (deficiência física). Hera, sua mãe, desgostosa com a deficiência do seu
filho, arremessa-o do Monte Olimpo (morada dos deuses). Ao cair na terra, Hefesto abrigou-se
em um vulcão e dedicou-se à fabricação de armas divinas, sendo por isso conhecido como “deus
ferreiro” ou “deus da tecnologia”. Tornou-se divindade cultuada pelos ferreiros, artesãos,
metalúrgicos e outros.

A mitologia narra ainda que Hefesto retornou ao Olimpo para se vingar da rejeição de Hera,
construindo para ela um trono dourado mágico. Quando ela se sentou sobre ele, já não podia
mais se levantar ─ ficou aprisionada. Os demais deuses imploraram para que Hefesto soltasse
sua mãe, ele, porém, negava. Hefesto só libertou Hera após ser embebedado por Dionísio, seu
irmão por parte de pai.

A mitologia do deus ferreiro impactou muito o comportamento e o imaginário social grego e


sintetiza a ideia que o povo grego tinha das pessoas com deficiência: pessoas que causam
vergonha aos familiares, que são excluídas e expulsas dos locais importantes e que somente por
meio do trabalho podem ter uma aceitação na comunidade. Até os dias atuais, o trabalho ainda é
um meio das pessoas com deficiência buscarem visibilidade na sociedade.

A sociedade romana também tinha práticas de eliminação das pessoas com deficiência. As leis
romanas permitiam aos pais assassinar crianças com deficiência por meio de afogamento. Muitos
pais que não queriam tirar a vida de seus filhos abandonavam as crianças em cestos nos rios ou
em locais sagrados da região. As pessoas com deficiência que não eram eliminadas no
nascimento sobreviviam com ajuda de esmolas ou eram exploradas em circos e peças teatrais de
famílias ricas.

Apesar dessa postura de extermínio, registros históricos revelam que existiram imperadores
romanos com deficiência, especialmente física, como Servius Sulpicius Galba (3 a.C. a 69 d.C.),
sucessor de Nero, que tinha deficiência em um dos pés, e Marcus Silvius Othon (de 32 a 69 d.C.),
que também tinha deficiência física.
O povo hebreu tinha uma postura de exclusão das pessoas com deficiência não pelos motivos
bélicos dos gregos ou romanos, mas pelo pensamento religioso ligado à ideia de pureza. O livro
de Levítico, no capítulo 21, versículos 18 a 21, proíbe explicitamente as pessoas com deficiência
de participar de rituais religiosos: “Nenhum homem que tenha algum defeito poderá aproximar-se:
ninguém que seja cego ou aleijado [...] poderá aproximar-se para apresentar ao Senhor ofertas
preparadas no fogo”. A lógica é que as pessoas com deficiência eram pessoas com “defeito” e
não podiam participar de algo relativo à Deus, que é perfeito.

Porém, no mesmo livro de Levítico, no capítulo 19, versículo 14, afirma-se: “Não amaldiçoes o
surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus”. Essa postura de proteção
social das pessoas com deficiência baseadas nos antigos textos judaicos (Levítico,
Deuteronômio, Salmos etc.) serão os primeiros fundamentos para uma perspectiva caritativa e
assistencial às pessoas com deficiência.

3.2 Deficiência na Idade Média

O cristianismo vai consolidar a passagem de práticas de extermínio para assistencialismo às


pessoas com deficiência, especialmente pelos escritos do Novo Testamento, tendo como
exemplo o livro de João, capítulo 9, do versículo 1 ao 41, em que Jesus, ao ser indagado sobre a
cegueira de um homem, responde que a deficiência não tem ligação com pecado, seu ou de seus
pais, mas é para “se manifestarem nele as obras de Deus” (caridade).

Com a expansão do cristianismo e a queda do Império Romano, tem início a Idade


Média. Nesse período, mesclam-se várias culturas e, por isso mesmo, várias formas de
relacionar-se com a deficiência, ainda que exista a prevalência da religiosidade cristã.
Trata-se de um momento histórico de extrema precariedade das condições de vida,
especialmente pelas guerras territoriais e religiosas. Existe uma escassez de comida e várias
pessoas com deficiência, feridos de guerra ou acometidos de doenças incapacitantes sobrevivem
à base de mendicância.

Parte da religiosidade cristã da caridade sobrevive e contribui para criação dos primeiros
hospitais voltados para pessoas cegas ou com outros tipos de deficiência. Todavia, de
outra parte, cria-se uma religiosidade de superstição que encarava a deficiência como
castigo divino, ou ainda que pessoas com deficiência tinham poderes especiais, ou eram
objeto de feitiços.

Desde a Antiguidade até a Idade Média, o que se percebe é uma noção supersticiosa da
deficiência, sempre interpretando-a como manifestações divinas, quase sempre ligadas a uma
ideia de punição, azar, tragédia, desgosto ou fatalidade, em que é preferível a morte do que viver
em um corpo com impedimentos. A deficiência é reduzida a uma experiência de sofrimento. Não
existia nenhuma tentativa de identificar suas causas em fatores que não fossem meramente
religiosos ou mitológicos.
Em outras palavras: a deficiência era uma tragédia pessoal e nada se poderia fazer sobre o
assunto.
Esse comportamento social mudará com a Modernidade e o surgimento da ciência, quando a
deficiência deixa de ser explicada pelo misticismo para ser analisada pela medicina.

3.3 Deficiência na Modernidade

A Modernidade, que se estende desde a conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453 até a
Revolução Francesa em 1789, representa mais do que um mero período histórico, ela marca uma
era de transformações profundas nas esferas sociais, econômicas e intelectuais. O início desse
período é caracterizado pelo Renascimento, um movimento que revitalizou a valorização da razão
e da ciência em contraste com o forte domínio religioso que caracterizou a Idade Média.
Durante o Renascimento, a principal corrente de pensamento foi o humanismo, que se opôs ao
teocentrismo medieval, colocando o ser humano e seus valores no centro do pensamento e da
criação artística e científica. Esse movimento foi marcado por um retorno aos textos clássicos e
pela busca de explicação fundamentada na lógica e na razão para os fundamentos da vida,
abrangendo aspectos biológicos e éticos.

O humanismo renascentista promoveu o antropocentrismo, valorizando a “humanitas”, ou seja, o


desenvolvimento das virtudes humanas em todas as suas formas — ética, educação, artes,
cultura e ciência. Essa nova abordagem trouxe mudanças significativas para diversos grupos,
inclusive para pessoas com deficiência, que passaram a ser vistas sob uma nova luz, mais
positiva.

Figuras como Gerolamo Cardano e Pedro Ponce de Leon foram pioneiros em considerar e
promover a potencialidade educativa de pessoas com deficiência auditiva. Cardano desenvolveu
um sistema de códigos que facilitava a leitura e a escrita para surdos, enquanto Ponce de Leon
explorava métodos de comunicação baseados em sinais gestuais. Essas inovações marcaram
uma mudança de paradigma significativa, demonstrando que as pessoas com deficiência auditiva
não só podiam ser educadas, mas também podiam alcançar a virtude de serem consideradas
“verdadeiramente humanas”.

Outras contribuições notáveis vieram de Juan Pablo Bonet, que sistematizou estudos sobre a
deficiência auditiva e criou métodos eficazes de comunicação para surdos, incluindo o
desenvolvimento do primeiro alfabeto de língua de sinais. Paralelamente, Ambroise Paré inovou
nos tratamentos médicos e na criação de próteses, melhorando significativamente a qualidade de
vida de seus pacientes.

Nos séculos XVI e XVII, a Europa experimentou um crescimento urbano significativo e enfrentou
diversos conflitos internos. Esses fatores contribuíram para o aumento da população de pessoas
pobres, mendigas e pessoas com deficiência. Diante dessa realidade, medidas específicas de
ruptura foram tomadas, como a criação de hospitais e casas de abrigo, além do incremento nos
estudos sobre as causas das doenças e as consequências das deficiências.

Até ao final do século XVII, a hospitalização de pessoas com deficiência já era uma prática
comum em toda a Europa. Havia serviços especializados em áreas como ortopedia,
fonoaudiologia e oftalmologia. Além disso, houve uma mudança gradual na percepção das
pessoas com deficiência mental, que deixaram de ser vistas como “possuídas pelo demônio” e
passaram a ser consideradas “enfermas”.

Com a chegada do século XX, houve avanços recentes na qualidade de vida das pessoas
com deficiência, especialmente devido ao desenvolvimento de tratamentos médicos,
ajudas técnicas e tecnologias assistivas. Nesse período, tanto na Europa quanto nos
Estados Unidos, surgiram iniciativas para oferecer abrigos que visavam integrar as
pessoas com deficiência à sociedade.

Contudo, o século XX também foi marcado por duas grandes guerras mundiais que resultaram
em um aumento expressivo do número de pessoas com sequelas físicas e mentais. Essas
consequências dos conflitos bélicos afetaram profundamente o mercado de trabalho e a dinâmica
social, aumentando o contingente de pessoas com diversas formas de deficiência.

Após o término da Primeira Guerra Mundial, os países envolvidos enfrentaram graves crises
demográficas e financeiras. Como resposta, os governos viram a necessidade de focar
procedimentos reabilitadores para ex-combatentes e de oferecer assistência às suas famílias.
Essa realidade fomentou o desenvolvimento de políticas públicas mais robustas de suporte e
inclusão para pessoas com deficiência, refletindo uma evolução contínua no reconhecimento e na
promoção dos direitos e do bem-estar dessa população.
A crise econômica mundial de 1929, conhecida como Grande Depressão, agravou-se com altas
taxas de desemprego e inflação tanto em países europeus quanto nos Estados Unidos. Durante
essas crises financeiras, os grupos mais vulneráveis sofreram frequentemente os impactos mais
severos, entre eles as pessoas com deficiência.

Crise de 1929

Fonte: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/crise-1929.htm

Curiosamente, Franklin Roosevelt, o 32º presidente dos Estados Unidos e arquiteto do plano de
recuperação econômica New Deal, era uma pessoa com deficiência. Em agosto de 1921,
Roosevelt foi acometido por uma doença que o deixou paralisado da cintura para baixo. Ele se
esforçou para não ser visto frequentemente em uma cadeira de rodas, mantendo uma imagem
pública de força e determinação. Apesar de sua tentativa de não ser representado como uma
pessoa com deficiência, sua condição teve um impacto positivo, ajudando a mudar a percepção
pública americana sobre as pessoas com deficiência, vistas cada vez mais como independentes e
capazes.

No entanto, a Segunda Guerra Mundial, que ocorreu entre 1939 e 1945 e foi liderada pela
Alemanha nazista, teve impactos extremamente negativos na vida das pessoas com deficiência.
O regime nazista adotou práticas eugênicas, considerando pessoas com deficiência como
inferiores e incompatíveis com o ideal da raça ariana. Como resultado, estima-se que pelo menos
275 mil pessoas com deficiência foram exterminadas durante esse período. Além do extermínio, a
Alemanha nazista também praticou a esterilização compulsória como uma política de controle
populacional.

Os horrores vivenciados e o elevado número de adultos sobreviventes dos conflitos bélicos,


muitos dos quais retornaram com sequelas permanentes, fizeram com que as sociedades
ocidentais repensassem o tratamento dispensado às pessoas com diversidade funcional. Esse
processo de mudança foi impulsionado especialmente por movimentos sociais formados por
veteranos de guerra com deficiências, que ficaram insatisfeitos com o tratamento que receberam
após terem servido suas nações. Essa insatisfação catalisou um debate mais amplo sobre
direitos, inclusão e a necessidade de políticas públicas mais eficazes para apoiar pessoas com
deficiência.

No cenário internacional pós-Segunda Guerra Mundial, diante das atrocidades cometidas durante
o conflito, as nações ocidentais uniram-se para criar mecanismos para impedir a reprodução de
tais violências. Um dos resultados mais significativos dessa mobilização foi a formação da
Organização das Nações Unidas (ONU) e a subsequente elaboração da Declaração Universal
dos Direitos Humanos em 1948.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos estabeleceu princípios fundamentais como


liberdade, igualdade, não discriminação e dignidade humana. Especificamente, o Artigo 25 da
Declaração aborda a questão das pessoas com deficiência, afirmando que todo ser humano tem
direito a um padrão de vida adequado que assegure a si e à sua família saúde e bem-estar,
incluindo alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e serviços sociais indispensáveis,
e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos
de perda de meios de subsistência fora de seu controle. A menção à “invalidez” reflete ainda uma
visão influenciada pelo modelo biomédico, que foca na condição médica e física como definida
pela experiência de deficiência.

A formação da ONU e de outras organizações internacionais, como a Organização Internacional


do Trabalho (OIT), marcou o início de uma era onde a questão das pessoas com deficiência
começou a ser abordada sob a perspectiva dos direitos humanos. Esse enquadramento significou
uma mudança progressiva da visão da deficiência como um problema de desvantagem médica ou
de caridade para uma questão de direitos civis, enfatizando a necessidade de integração social,
acessibilidade e igualdade de oportunidades.

Esse processo evolutivo continuou nas décadas seguintes, com o desenvolvimento de legislações
específicas e convenções internacionais que buscam solidificar e ampliar os direitos das pessoas
com deficiência, culminando na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência das
Nações Unidas, em 2006. Essa mudança de paradigma refletiu uma compreensão mais profunda
de que as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência são menos sobre suas condições
físicas ou médicas e mais sobre as barreiras sociais, culturais e ambientais que impedem sua
plena participação na sociedade.

Para saber mais sobre a Declaração dos Direitos Humanos, você pode ver o vídeo sobre o
Histórico dos Direitos Humanos, disponível em: https://www.youtube.com/watch?
v=vwBBdQcBr-M&t=25s(opens in a new tab), elaborado no contexto do PNEC-DH.

3.4 Deficiência hoje

A história da deficiência na atualidade é marcada por uma crescente evolução dos direitos, da
inclusão social e do reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência. Esse progresso
reflete uma mudança significativa nas percepções sociais e nas políticas públicas ao longo das
últimas décadas. O movimento global pelos direitos das pessoas com deficiência, embora ainda
enfrente desafios substanciais, têm alcançado avanços notáveis em diversos campos, desde a
legislação até a participação efetiva na sociedade.

A promulgação de leis e tratados internacionais tem sido um dos principais motores para o
avanço dos direitos das pessoas com deficiência. A Convenção Internacional foi ratificada por
muitos países desde então e estabeleceu um marco legal global que impulsionou reformas
nacionais.

A integração no sistema educacional e no mercado de trabalho são áreas em que a inclusão das
pessoas com deficiência tem visto progressos tangíveis. Políticas de educação inclusiva estão
sendo implementadas em muitos países, permitindo que crianças com deficiência frequentem as
mesmas escolas que crianças sem deficiência em um ambiente adaptado às suas necessidades.
No campo do emprego, leis de cotas e incentivos para empresas que contratam pessoas com
deficiência têm contribuído para aumentar suas oportunidades de trabalho, embora ainda existam
barreiras significativas para a sua plena inclusão.

O desenvolvimento tecnológico tem desempenhado um papel crucial em melhorar a vida das


pessoas com deficiência. Tecnologias assistivas, desde softwares de leitura de tela até
dispositivos de mobilidade avançados, têm proporcionado maior independência e participação na
vida comunitária. Além disso, a crescente ênfase na acessibilidade à arquitetura urbana e aos
transportes públicos está facilitando a mobilidade e o acesso a serviços essenciais.

Apesar desses avanços, as pessoas com deficiência ainda enfrentam numerosos desafios. A
discriminação, a falta de acessibilidade e as disparidades em saúde e oportunidades econômicas
continuam a ser problemas persistentes.

3.5 Pessoas com deficiência no Brasil

A história do tratamento das pessoas com deficiência no Brasil reflete uma evolução de
perspectivas que vai desde práticas altamente excludentes até a adoção de políticas mais
inclusivas e de respeito à diversidade. Durante períodos históricos anteriores à colonização
portuguesa, algumas comunidades indígenas praticavam a eliminação de crianças com
deficiência, vistas como um mau presságio ou castigo das divindades, conforme destaca
Negreiros (2014).
Com a chegada dos colonizadores portugueses e a influente presença da Igreja Católica, a visão
sobre as pessoas com deficiência começou a mudar. Esses indivíduos passaram a ser vistos
como desafortunados pelo destino, o que levou à promoção de ações caritativas por parte das
instituições religiosas. Esse enfoque caritativo, embora representasse uma evolução em relação à
eliminação, ainda mantinha as pessoas com deficiência numa posição de dependência e piedade,
sem reconhecimento de sua plena autonomia de participação na sociedade.

O período imperial do Brasil, especialmente sob o reinado de Dom Pedro II, marcou um avanço
significativo na maneira como as pessoas com deficiência eram tratadas. Dom Pedro II foi um
pioneiro na criação de instituições dedicadas exclusivamente à educação de pessoas com
deficiências auditivas e visuais. Em 1854, foi fundado o “Imperial Instituto dos Meninos Cegos”
(hoje Instituto Benjamin Constant), e em 1857, o “Imperial Instituto de Surdos e Mudos”. Ambas
as instituições tinham como objetivo não apenas educar, mas também acolher crianças que
haviam sido abandonadas ou expulsas de suas casas devido à sua deficiência.

O Instituto Imperial de Surdos e Mudos hoje é conhecido como Instituto Nacional de


Educação de Surdos. O órgão, do Ministério da Educação, tem como missão institucional a
produção, o desenvolvimento e a divulgação de conhecimentos científicos e tecnológicos
na área da surdez em todo o território nacional, bem como subsidiar a Política Nacional de
Educação, na perspectiva de promover e assegurar o desenvolvimento global da pessoa
surda, sua plena socialização e o respeito às suas diferenças.

Essas instituições foram fundamentais para a inclusão educacional das pessoas com deficiência
visual e auditiva no Brasil. A introdução do sistema Braille em 1854, pelo Instituto dos Meninos
Cegos, marcou um passo crucial para a autonomia e a educação das pessoas cegas, enquanto a
chegada de Ernest Huet, a convite de Dom Pedro II, para liderar o Imperial Instituto de Surdos e
Mudos, iniciou formalmente a educação dos surdos no Brasil.

Durante o período imperial e no início da Primeira República no Brasil, o fenômeno do abandono


de crianças com deficiência era comum, muitas vezes mediado pela utilização da “roda dos
enjeitados”. Este dispositivo era uma estrutura giratória de madeira instalada em igrejas e
hospitais, que permitia que recém-nascidos fossem deixados anonimamente. O sistema visava
oferecer um meio menos perigoso para o abandono de crianças que eram frequentemente
rejeitadas por suas famílias, principalmente devido a doenças graves ou deficiências.

As Santas Casas de Misericórdia eram as instituições que mais recebiam essas crianças
abandonadas. Fundadas com o propósito de prover cuidados aos pobres e desamparados, as
Santas Casas desempenhavam um papel crucial na sociedade da época, atuando como
hospitais, orfanatos e asilos. Elas eram parte de uma rede mais ampla de assistência social
guiada por princípios caritativos e religiosos, que buscava oferecer algum suporte aos mais
vulneráveis, incluindo crianças com deficiência.

Após a proclamação da Primeira República em 1891, a prática do abandono generalizado


começou a diminuir. Esse declínio pode ser atribuído a vários fatores, incluindo a gradual
mudança nas políticas sociais e de saúde pública, maior conscientização sobre os direitos das
crianças e o desenvolvimento de novas instituições e leis focadas no bem-estar infantil. A
emergência de movimentos sociais e a crescente influência de ideias progressistas também
contribuíram para uma nova percepção sobre a responsabilidade social para com as crianças
abandonadas e com deficiência.

A trajetória dos direitos das pessoas com deficiência ganhou força significativa a partir da década
de 1980, período em que diversas iniciativas e mudanças legislativas começaram a ser
implementadas em vários países, incluindo o Brasil.
Acesse o vídeo e conheça mais sobre a história do Movimento de Luta das pessoas com
deficiência no Brasil (https://www.youtube.com/watch?v=uSZsJs3TN70(opens in a new tab))

Vamos traçar uma linha do tempo com algumas das principais conquistas nesse âmbito
desde então:
 1980
A década de 1980 é marcada por uma inédita visibilidade para a temática dos direitos das
pessoas com deficiência, decorrente do Ano Internacional das Pessoas Deficientes (AIPD),
proclamado pela ONU em 1981.
 1985
Em 28 de junho, o presidente José Sarney encaminha mensagem ao Congresso Nacional
propondo a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte (ANC).
 1986
Em 29 de outubro, através do Decreto nº 93.481, é criada a Coordenadoria Nacional para
Integração das Pessoas Portadoras de Deficiência (CORDE). Vinculada ao Gabinete Civil da
Presidência da República, a CORDE seria responsável pela coordenação interministerial,
articulando as ações e políticas públicas destinadas às pessoas com deficiência entre as várias
áreas do governo federal.
 1987
Em 16 de maio de 1987, a Federação Nacional de Educação e Integração do Deficiente Auditivo
(Feneida) é reestruturada e renomeada, tornando-se a Federação Nacional de Educação e
Integração do Surdo (Feneis).
 1988
Em 5 de outubro é promulgada a nova Constituição Federal, conhecida como “Constituição
Cidadã”, com conteúdo relativo às pessoas com deficiência distribuído em vários títulos e
capítulos da Constituição — Da Saúde, Da Seguridade Social, Da Assistência Social, Do
Trabalho, Da Acessibilidade, Da Educação etc.
Em 14 de dezembro de 1988, ocorre no Brasil a fundação do primeiro Centro de Vida
Independente (CVI), no Rio de Janeiro.
 1989
Em 24 de outubro, é promulgada a Lei nº 7.853, que “dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras
de deficiência, sua integração social, sobre a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa
Portadora de Deficiência (CORDE), institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos
dessas pessoas, disciplina a atuação do Ministério Público, define crimes, e dá outras
providências”.
 1991
Em 22 de maio, através do Decreto nº 129, é promulgada a Convenção nº 159 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT). A Convenção trata da política de readaptação profissional e
emprego de pessoas com deficiência.
Em 24 de julho é aprovada a Lei nº 8.213, que “dispõe sobre os Planos de Benefícios da
Previdência Social e dá outras providências”. A chamada “Lei de Cotas” estabelece, em seu
artigo 93, que “a empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a preencher de 2%
(dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou
pessoas portadoras de deficiência, habilitadas”.
 1999
Em 20 de dezembro, o Decreto nº 3.298 regulamenta a Lei nº 7.853, que “dispõe sobre a Política
Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência e consolida as normas de
proteção”.
 2001
Em 8 de outubro, o Decreto nº 3.956 promulga a “Convenção Interamericana para a Eliminação
de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência”.
 2002
É adotada a sigla “Libras” para denominar a Língua Brasileira de Sinais. Seu reconhecimento
como língua oficial ocorre em 24 de abril de 2002, através da Lei nº 10.436.
 2006
As duas primeiras Conferências Nacionais dos Direitos da Pessoa com Deficiência ocorreram,
respectivamente, entre os dias 12 e 15 de maio de 2006 e 1 e 4 de dezembro de 2008.
 2008
Aprova-se o texto da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência,
um instrumento internacional de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU),
com a finalidade de proteger os direitos e a dignidade das pessoas com deficiência. A expressão
“pessoas com deficiência” foi consagrada nesta convenção, construída ao longo de 2005 e 2006.
 2011
O Decreto nº 7.612 institui o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência ─ Plano
Viver sem Limite ─, com o objetivo de promover a articulação de políticas, programas e ações
para garantir o exercício pleno e equitativo dos direitos das pessoas com deficiência.
 2015
A Lei nº 13.146, de 6 de julho, institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, ou
Estatuto da Pessoa com Deficiência.

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