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Circuitos Eletricos RI

Explicação de circuitos elétricos

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Hosana Lima
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CIRCUITOS ELÉTRICOS

NO DOMÍNIO DO TEMPO
E DA FREQÜÊNCIA
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
Reitor
Naomar Monteiro de Almeida Filho

Vice-Reitor
Francisco Mesquita

EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA


Diretora
Flávia Goullart Mota Garcia Rosa
CONSELHO EDITORIAL
Titulares
Angelo Szaniecki Perret Serpa
Caiuby Álves da Costa
Charbel Niño El Hani
Dante Eustachio Lucchesi Ramacciotti
José Teixeira Cavalcante Filho
Maria do Carmo Soares Freitas

Suplentes
Alberto Brum Novaes
Antônio Fernando Guerreiro de Freitas
Armindo Jorge de Carvalho Bião
Evelina de Carvalho Sá Hoisel
Cleise Furtado Mendes
Maria Vidal de Negreiros Camargo

Editora da UFBA
Rua Barão de Jeremoabo,
s/n – Campus de Ondina
40170-290 – Salvador – BA
Tel: +55 71 3283-6164
Fax: +55 71 3283-6160
www.edufba.ufba.br
[email protected]
CIRCUITOS ELÉTRICOS

NO DOMÍNIO DO TEMPO

E DA FREQUÊNCIA

Newton B. de Oliveira

EDUFBA
Salvador - 2008
© 2008 by Newton B. de Oliveira

Direitos para esta edição cedidos à Edufba. Feito o depósito legal.


Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, sejam quais forem os meios empregados,
a não ser com a permissão escrita do autor e das editoras, conforme a Lei nº 9.610,
de 19 de fevereiro de 1998.

Projeto Gráfico e Arte Final


Newton B. de Oliveira

Revisão
Newton B. de Oliveira

Biblioteca Central Reitor Macêdo Costa - UFBA

Oliveira, Newton B. de.


Circuitos elétricos no domínio do tempo e da frequência / Newton Barros
de Oliveira. - Salvador : EDUFBA, 2008.
167 p. : il.

ISBN 987-85-232-0513-3

1. Circuitos elétricos. 2. Circuitos elétricos - Análise. I. Título.

CDD - 621.381

Documento preparado com o sistema LATEX.


Esse livro é uma homenagem ao
Prof. François Pompignac cujos
ensinamentos e influência sou
profundamente grato.
Agradecimentos

Ao Centro de Pesquisas em Geofı́sica e Geologia - CPGG da UFBA pela utilização dos


recursos de informática que permitiram a editoração desse texto no sistema LaTex.

Ao colega Prof. Silvio Loureiro, pelos comentários de revisão e crı́ticas.


Sumário

Apresentação 9

1 Generalidades 11
1.1 Histórico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.2 O circuito elétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12

2 Circuitos em regime contı́nuo 15


2.1 Corrente elétrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
2.2 O dipolo elétrico e convenções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
2.2.1 Curvas caracterı́sticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
2.2.2 Dipolos elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
2.2.3 Associação de dipolos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
2.2.4 Leis de Kirchoff . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
2.2.5 Fontes reais, modelo aproximado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
2.3 Os parâmetros capacitância e indutância . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
2.4 Descrição topológica dos circuitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
2.4.1 Variáveis do circuito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
2.5 Resolução do sistema de equações lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
2.6 Teoremas gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2.6.1 Teorema da superposição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
2.6.2 Teorema de Thévenin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
2.6.3 Teorema de Norton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
2.7 Quadripolos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
2.7.1 Quadripolo recı́proco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
2.7.2 Outros parâmetros dos quadripolos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
2.7.3 Quadripolo terminado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
2.7.4 Formas canônicas de um quadripolo . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
2.7.5 Propriedades dos quadripolos em função dos parâmetros de admitância 62
2.7.6 Tabela de conversão dos parâmetros do quadripolo . . . . . . . . . . 64

3 Análise de sinais elétricos 67


3.1 Representações do sinal senoidal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
3.1.1 Representação no domı́nio do tempo (ddt) ou representação trigo-
nométrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
3.1.2 Representação no domı́nio das frequências (d.d.f.), representação de
Fresnel ou representação cissoidal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69

7
8 Newton Barros de Oliveira

3.1.3 Excitação senoidal amortecida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73


3.2 Série de Fourier . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76
3.2.1 Série de Fourier na forma complexa . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
3.3 Transformação de Fourier . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84
3.3.1 Propriedades importantes da transformada de Fourier . . . . . . . . 88
3.4 Transformada de Laplace ou T. de Fourier complexa . . . . . . . . . . . . . 89
3.4.1 A transformada inversa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
3.4.2 Propriedades fundamentais da transformada de Laplace . . . . . . . 91
3.4.3 Aplicação da transformada de Laplace na resolução de circuitos . . . 95
3.4.4 Algumas transformadas importantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
3.4.5 Resumo: . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99

4 Circuitos no domı́nio do tempo. Regime transitório e permanente 101


4.1 Circuitos em regime transitório . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
4.2 Circuitos em regime permanente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108

5 Circuitos no domı́nio da frequência. Regime transitório e permanente 117


5.1 Leis de transformação para os dipolos elementares . . . . . . . . . . . . . . 117
5.1.1 Fontes de tensão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
5.1.2 Resistores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118
5.1.3 Indutores (com corrente inicial nula) . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118
5.1.4 Capacitores (com carga inicial nula) . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
5.1.5 Generalização da lei de Ohm . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
5.2 Os quadripolos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121
5.3 Circuito RLC em paralelo e o coeficiente de qualidade . . . . . . . . . . . . 127
5.3.1 Associações dos coeficientes de qualidade . . . . . . . . . . . . . . . 129
5.3.2 Coeficiente de qualidade de um capacitor . . . . . . . . . . . . . . . 131
5.3.3 Circuito RLC em paralelo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
5.3.4 Resposta do circuito RLC em paralelo a um degrau de corrente . . . 139

6 Circuitos com diodos 143


6.1 Definição do diodo ideal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
6.1.1 Estudo gráfico dos circuitos com diodos . . . . . . . . . . . . . . . . 145
6.1.2 Representações aproximadas do diodo real . . . . . . . . . . . . . . . 148
6.1.3 Dipolos elementares formados por diodos ideais . . . . . . . . . . . . 150
6.1.4 Aproximação de uma função matemática por segmentos . . . . . . . 152
6.2 Retificação com diodos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153
6.3 Retificação de ciclo completo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160
6.4 Multiplicadores de tensão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163
Apresentação

Esse texto versa sobre a teoria, técnicas de análise e resolução de circuitos tanto no domı́nio
do tempo quanto no domı́nio das frequências.

Trata-se de um texto introdutório onde são apresentados os conceitos e ferramentas


básicas necessários para a análise e compreensão de circuitos simples e complexos. O
conteúdo é suficiente para um curso de 90 horas e exige um conhecimento prévio de eletri-
cidade e magnetismo, cálculo integral e equações diferenciais. Corresponde a um primeiro
curso de Eletrônica para fı́sicos ou um primeiro curso de Circuitos Elétricos para enge-
nheiros eletricistas. Procurou-se apresentar os tópicos da forma mais correta possı́vel, com
grau de complexidade crescente ressaltando as noções mais fundamentais com exemplos
direcionados a esses objetivos.

Inicia com os conceitos básicos sobre os elementos de um circuito elétrico estabelecendo-


se as convenções de sinais positivos para as tensões e correntes que serão utilizadas de modo
sistemático durante todo o texto. São apresentados os teoremas gerais mais importantes
que permitem simplificar tanto o raciocı́nio quanto o trabalho de cálculo em diversas si-
tuações de interesse. Introduz-se a teoria dos quadripolos e conceitos importantes como o
da impedância caracterı́stica. Apresentam-se as técnicas de análise de sinais, resolução das
equações diferenciais dos circuitos no domı́nio do tempo, resolução no domı́nio da frequência
através das técnicas de transformadas com ênfase na transformada de Laplace e estudo de-
talhado dos circuitos ressonantes em série e em paralelo simples com considerações sobre o
coeficiente de qualidade. Por fim analisamos circuitos não lineares com diodos.

Todas as crı́ticas e sugestões serão bem vindas e analisadas com a finalidade de corrigir
erros e omissões para que as futuras versões possam vir melhoradas.

Salvador, maio de 2008

Newton Barros de Oliveira.

9
Capı́tulo 1

Generalidades

1.1 Histórico
Os fenômenos elétricos ocorrem na natureza sob diversas formas que vão desde a simples
atração ou repulsão de objetos eletrificados até mesmo à emissão de luz bem como a in-
teração da radiação com a matéria. Em qualquer caso, podemos distinguir duas situações
importantes: o caso estático e o caso dinâmico associados respectivamente à existência de
cargas elétricas em repouso e em movimento.
Historicamente, o estudo da eletricidade iniciou-se pela observação dos fenômenos elétri-
cos estáticos e experimentos com fontes rudimentares de eletricidade como o ato de friccionar
objetos de materiais diferentes. O estudo evoluiu com o desenvolvimento dos geradores
eletrostáticos e dispositivos de armazenamento da eletricidade (capacitores).
A partir da invenção da pilha elétrica por Alessandro Volta (1745-1827) em 1799 foi
possı́vel manter um fluxo quase constante e de longa duração de cargas elétricas em movi-
mento. Uma nova classe de fenômenos elétricos pôde ser estudada, os fenômenos devidos à
movimentação das cargas que resultou na conexão entre duas ciências até então distintas,
a eletricidade e o magnetismo.
Desde que o homem aprendeu a controlar a eletricidade, mais particularmente, a con-
trolar o movimento das cargas elétricas, o progresso tem sido notável. Os fundamentos
da eletricidade e do magnetismo foram estabelecidos por Ampère, Oersted, Ohm, Gauss,
Henry, Faraday e outros. A escala cronológica seguinte mostra a evolução dos acontecimen-
tos mais importantes:

1. Maxwell em 1873 estabelece a teoria clássica do eletromagnetismo prevendo a existên-


cia das ondas eletromagnéticas.

2. Edson em 1883 estuda o efeito termoeletrônico.

3. Hertz em 1887 confirma experimentalmente a existência das ondas eletromagnéticas.

4. Brandly e Marconi em 1889 mostram a possibilidade de utilizar as ondas eletro-


magnéticas para a comunicação à distância.

5. Fleming em 1902 desenvolve o diodo a vácuo.

11
12 Newton Barros de Oliveira

6. Lee de Forest em 1906 desenvolve o triodo a vácuo.


7. Na segunda guerra são desenvolvidas novas teorias que revolucionam a eletrônica:
servomecanismos, radar, teoria do sinal e do ruı́do.
8. Bardeen e Brattain em 1948 criam o “transı́stor de ponta”.
9. Schockley em 1949 desenvolve o “transı́stor de junção”(Laboratório Bell).
10. Em seguida surge o transı́stor de efeito de campo que ficou por um certo tempo
“esquecido”.
11. A década de 50 foi a década dos transı́stores e inúmeros equipamentos começaram a
fazer uso desse eficiente dispositivo em substituição às válvulas a vácuo.
12. Em medos de 1958, devido aos trabalhos de Jack Kilby na Texas Instruments, apa-
rece o primeiro circuito integrado reunindo vários transı́stores em uma mesma pasti-
lha. Seis meses depois Robert Noyce aprimora o processo de construção dos circuitos
integrados tornando viável a produção em massa desses dispositivos. Esses circui-
tos funcionam como blocos compartimentalizados que realizam determinadas funções
(amplificadores, reguladores, portas lógicas etc.).
13. Os circuitos integrados ganham popularidade na década de 60 e, de acordo com o
desenvolvimento de novas tecnologias, várias famı́lias vão aparecendo baseadas no
transı́stor bipolar de junção (TBJ), no transı́stor de efeito de campo de junção (JFET),
no transı́stor de efeito de campo de porta isolada (MOS e CMOS) e nas tecnologias
hı́bridas.
14. Nas décadas de 70 a 90 as válvulas a vácuo foram paulatinamente entrando em ex-
tinção, sendo substituı́das por transı́stores e restando apenas poucas aplicações muito
especı́ficas enquanto que o volume de integração dos CI’s aumentou de maneira ver-
tiginosa. Esse aumento na integração tornou viável a produção dos computadores
pessoais a preços acessı́veis para boa parte da população.
15. De 2000 em diante, até o presente momento, diversos tipos de transı́stores coexis-
tem com os circuitos integrados que continuam a crescer em volume de integração,
velocidade de processamento de sinais e variedade de aplicações.

1.2 O circuito elétrico


Os fenômenos elétricos e magnéticos podem ser descritos de uma maneira muito conve-
niente através dos conceitos de campo elétrico, campo de indução magnética e energias
associadas a esses campos extensivamente discutidos nos textos sobre o eletromagnetismo
clássico. A sı́ntese das propriedades desses campos está brilhantemente descrita no que co-
nhecemos, atualmente, como as quatro equações de Maxwell e a ligação entre esses campos
e as propriedades da matéria está descrita pelas equações constitutivas.
O que chamamos de “campo”é a região do espaço onde podemos detectar a presença
ou os efeitos da eletricidade e do magnetismo usualmente representados pelos vetores E
e B, vetores do campo elétrico e do campo de indução magnética. Em geral, as cargas
elétricas em repouso e em movimento produzem E e B em todas as regiões do espaço e
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 13

as energias associadas a esses vetores preenchem todo o espaço. Nessa situação, dizemos
que a energia está nele distribuı́da. Contudo, existem situações em que a presença das
cargas bem como seus movimentos estão confinados a determinadas pequenas regiões e as
energias associadas à E e B podem ser consideradas, de modo aproximado, como estando
concentradas em algumas regiões do espaço correspondentes ao interior de certos disposi-
tivos. Esses dispositivos são caracterizados por algum parâmetro e falamos em dispositivo
de parâmetro concentrado. É o caso usual de um resistor, um capacitor ou um indutor.
Outras vezes não é possı́vel concentrar predominantemente uma única forma de energia
em uma pequena região do espaço. No interior do dispositivo coexistem duas formas de
energias e o dispositivo não pode ser caracterizado por um único parâmetro concentrado,
falamos então em parâmetros distribuı́dos. Uma linha de transmissão, um cabo coaxial por
exemplo, transmitindo um sinal de alta frequência é um bom exemplo dessa situação.
A distinção entre um dispositivo de parâmetro concentrado e outro de parâmetro dis-
tribuı́do está relacionado com a geometria (forma e dimensões) do dispositivo e o tempos
de propagação de E e B no interior do dispositivo. Para sinais periódicos e harmônicos, o
campo eletromagnético propagante pode ser caracterizado por um comprimento de onda.
Se as dimensões fı́sicas do dispositivo forem muito menores que o comprimento de onda
os vetores E e B praticamente não variarão ao longo da dimensão em consideração e o
dispositivo poderá ser considerado como de parâmetro concentrado. Por outro lado, se
as dimensões forem grandes ou da ordem do comprimento de onda haverá variação dos
vetores ao logo dessa dimensão e o dispositivo deverá ser considerado como de parâmetro
distribuı́do. Por exemplo, um longo capacitor de placas paralelas alimentado pelos extremos
das placas por uma fonte de tensão constante ou lentamente variável no tempo, produzirá
um campo elétrico praticamente constante no interior do capacitor tanto no espaço quanto
no tempo devido à distribuição superficial de cargas elétricas praticamente uniforme. A
energia estará predominantemente na forma de energia associada a este campo. Contudo,
se a fonte de tensão for rapidamente variável no tempo, as cargas elétricas não estarão uni-
formemente distribuı́das uma vez que elas estão associadas aos valores do campo elétrico
em propagação que não é constante nem no tempo nem no espaço. Haverá cargas em
movimento não uniforme e energias estarão associadas aos campos elétricos e magnéticos
variáveis. O dispositivo não mais poderá ser tratado como um simples capacitor mas sim
como uma linha de transmissão ou mesmo uma cavidade oscilante.
Quando o movimento das cargas elétricas se dá em um meio fı́sico de dimensões restritas
(fios) em uma trajetória fechada relativamente curta e as energias podem ser consideradas
como estando individualmente concentradas ao interior de certos dispositivos, falamos em
um circuito elétrico de parâmetros concentrados. Esse será o nosso objeto de estudo.
Capı́tulo 2

Circuitos em regime contı́nuo

Trata-se dos circuitos elétricos em que as variáveis que descrevem o circuito são constantes
com relação ao tempo. Como variáveis entendemos as tensões elétricas e as correntes nos
diversos elementos que compõem o circuito.

2.1 Corrente elétrica


De modo bastante amplo podemos dizer que a corrente elétrica corresponde ao desloca-
mento de cargas elétricas elementares ou não devido à campos elétricos, eletrostáticos, não
eletrostáticos e induzidos que obedecem às equações de Maxwell. Formalmente, a corrente
elétrica é definida como a taxa de variação com relação ao tempo da quantidade de cargas
elétricas que atravessam uma determinada área ou superfı́cie no espaço.
As cargas elétricas podem ser: elétrons no caso dos metais e válvulas a vácuo, elétrons
e lacunas no caso dos semicondutores e ı́ons nas soluções e nos gases ionizados (lâmpadas
de descarga por exemplo).
Lei fundamental: “A quantidade de carga elétrica em um sistema fechado se
conserva (é uma constante).”
Seja J a densidade de corrente (corrente por unidade de área)
X
J= q i ni vi (2.1)
i

onde:
qi é a carga elementar do i-ésimo tipo,
ni é a concentração (quantidade por unidade de volume) do i-ésimo tipo e
vi é a velocidade do i-ésimo portador de carga.
Podemos expressar a lei de conservação como

∂ρ
∇.J + =0 (2.2)
∂t
onde ρ é a densidade volumétrica de cargas e a corrente total que atravessa uma superfı́cie
S é dada por

15
16 Newton Barros de Oliveira

Z
dq
I= = J.nds (2.3)
dt S
A lei de Ohm microscópica é escrita como J = σE com σ constante (um tensor no caso
geral). A lei de Ohm macroscópica é escrita como V = RI onde R é constante.

2.2 O dipolo elétrico e convenções


Em 1752 Benjamin Franklin estabeleceu uma convenção para a corrente elétrica (antes
de se conhecer a natureza do elétron), “ a corrente elétrica fluı́a do terminal positivo de
uma bateria em direção ao terminal negativo quando os terminais eram conectados por
um fio”. Chamaremos essa corrente de corrente convencional ou simplesmente corrente e a
distinguiremos do fluxo eletrônico que será chamado de corrente eletrônica.
Chamaremos de dipolo elétrico, todo dispositivo ou elemento de dois terminais aos quais
possamos associar uma diferença de potencial e uma corrente que, obrigatoriamente, deverá
entrar por um terminal e sair pelo outro (a corrente ou a d.d.p. podem ser nulas inclusive).
Representaremos como na figura (Fig. 2.1).

Figura 2.1: Representação do dipolo.

Estabeleceremos arbitrariamente direções de referência para a corrente e para a d.d.p.


não significando porém que essas sejam as direções verdadeiras. Consideraremos como
positivas as corrente e d.d.p. que coincidirem com as direções de referência e negativas
no caso oposto. Assim, convencionaremos que a corrente de referência (positiva) entrará
pelo terminal de potencial mais elevado e utilizaremos para a d.d.p. uma representação em
forma de uma seta orientada do terminal negativo (-) para o terminal positivo (+) (Fig.
2.2).

2.2.1 Curvas caracterı́sticas


Todo dipolo pode ser caracterizado por um gráfico v x i (ou i x v ) que define as regiões
de operação do dipolo. Os dipolos são classificados em dipolos passivos ou dipolos ativos a
depender se dissipam (ou armazenam energia) ou se fornecem energia aos outros elementos
do circuito (Fig. 2.3). Alguns dipolos são sempre passivos (como os resistores) e outros
podem ser passivos ou podem ser ativos (como as pilhas eletro-quı́micas). As diversas
regiões da curva caracterı́stica definem as condições de atividade e passividade de acordo
com as convenções de sinais que estabelecemos (Fig. 2.3).
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 17

i
A

v v = vAB = vA - vB

Figura 2.2: Representação do dipolo orientado.

Ativo Passivo

i
Passivo Ativo

Figura 2.3: Regiões da curva caracterı́stica.

2.2.2 Dipolos elementares


Listaremos alguns dipolos simples utilizados na construção dos circuitos elétricos.
1. Fonte de tensão ou gerador de tensão ideal.
É um dipolo que mantém uma determinada d.d.p. em seus terminais independente
da corrente que por ele esteja passando. Qualquer valor de corrente é possı́vel (Fig.
2.4).
No caso geral, a tensão ε pode ser uma função do tempo, por exemplo ε = ε 0 sen(ωt),
onde ε0 e ω são constantes.
Nota: a fonte de tensão ideal não pode ser curto-circuitada.
2. Fonte de corrente ou gerador de corrente ideal.
É um dipolo que mantém uma determinada corrente elétrica passando pelos terminais
independente da d.d.p. existente entre os mesmos. Qualquer valor para a d.d.p. é
possı́vel (Fig. 2.5).
Nota: a fonte de corrente ideal não pode ficar em circuito aberto.
No caso geral, I pode ser uma função do tempo, por exemplo, I = I0 sen(ωt), onde I0
e ω são constantes.
3. Resistor ôhmico. É um dipolo linear passivo em que a d.d.p é diretamente proporcional
à corrente, v = Ri. R é a resistência elétrica (Fig. 2.6).
18 Newton Barros de Oliveira

i v
A
Ativo Passivo
e
v = e = cte.
i

Figura 2.4: Sı́mbolo e curva caracterı́stica da fonte de tensão.

i i v
A A

Passivo
I ou I
I i
i = I = cte.
Ativo
B B

Figura 2.5: Sı́mbolos e curva caracterı́stica da fonte de corrente.

4. Diodo ideal. É um dipolo não-linear em que a corrente elétrica só pode passar em um
único sentido (sentido positivo ou sentido direto) e com d.d.p. nula. O outro sentido
(sentido negativo ou sentido inverso) não é permitido qualquer que seja o valor da
d.d.p. negativa (Fig. 2.7).
Observe que preferimos a curva caracterı́stica i versus v para representar o diodo.

i v
A
Passivo

v = R i, onde R = cte. Inclinação R


i
Passivo

Figura 2.6: Sı́mbolo e curva caracterı́stica do resistor.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 19

i i
A

v
o v

Figura 2.7: Sı́mbolo e curva caracterı́stica do diodo ideal.

2.2.3 Associação de dipolos


Os dipolos podem ser associados (conectados) de modo a formar um dipolo equivalente.
Destacaremos a associação em paralelo e a associação em série.
Na associação em paralelo os dipolos estão submetido à mesma d.d.p. enquanto que a
corrente total é a soma das correntes individuais (Fig. 2.8).

i i A
i1 A
i2

v1 v2 Equivale a v v = v1 = v2
i = i1 + i2

B B

Figura 2.8: Associação de dipolos em paralelo.

Para n dipolos em paralelo teremos i = i1 + i2 + ... + in e v = v1 = v2 = ... = vn .


i
i1 A

v1 i
A

i2 v Equivale a v vi == iv1=+i v2
1 2

v2
B

Figura 2.9: Associação de dipolos em série.


20 Newton Barros de Oliveira

Na associação em série os dipolos são atravessados pela mesma corrente e a d.d.p. de


um dipolo soma-se à d.d.p. do outro dipolo para produzir a d.d.p. total (Fig. 2.9).
Para n dipolos em série teremos i = i1 = i2 = ... = in e v = v1 + v2 + ... + vn .

2.2.4 Leis de Kirchoff


Os dipolos podem ser associados de forma mais complexa e nem sempre é possı́vel reduzir
diretamente às formas mais simples em paralelo ou em série. Em todas as associações duas
leis básicas devem ser respeitadas, a lei das malhas e a lei dos nós. A aplicação dessas leis
de modo adequado e sistemático possibilitará a redução da associação dos dipolos a um
dipolo equivalente.

Primeira lei de Kirchoff ou lei das malhas


Considere a associação de dipolos mostrada na figura (Fig. 2.10).

e2 e1 R2 i R1 i

i
B A

vAB

Figura 2.10: Associação de fontes e resistências em série.

Temos:

vAB = R1 i + R2 i + ε1 + ε2 = (R1 + R2 )i + ε1 + ε2

2
X 2
X
vAB = i Rj + εj .
j=1 j=1

Para N resistores e M fontes em série teremos:

N
X M
X
vAB = i Rj + εj . (2.4)
j=1 j=1

Se curto-circuitarmos os terminais A e B teremos vAB = 0 e estaremos definindo uma


malha ou um caminho fechado. Teremos então a equação da malha

N
X M
X
i Rj + εj = 0, (2.5)
j=1 j=1

“a soma de todas as elevações de potencial num percurso fechado é nula”.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 21

Segunda Lei de Kirchoff ou lei dos nós


Um nó é um ponto de ligação comum a vários dipolos. Como a carga elétrica não pode
desaparecer (conservação da carga) nem acumular em um ponto, somos obrigados a con-
cluir que a carga que chega a um ponto deve ser igual à carga que sai do mesmo ponto.
Considerando como ik a k-ésima corrente que chega ao nó em um total de N correntes (Fig.
2.11), deveremos ter

iN
i1
ik+1

i2
ik
i3

Figura 2.11: Correntes que chegam ao nó.

N
X
ik = 0. (2.6)
k=1

2.2.5 Fontes reais, modelo aproximado


As fontes ideais são construções abstratas. As fontes reais sempre possuem limitações no
que tange à capacidade de estabelecer uma d.d.p. ou de fornecer uma determinada corrente.
Uma fonte real pode ser modelada, de modo simplificado, a partir de uma fonte ideal e um
resistor que representa a resistência interna da fonte. A resistência interna pode ter várias
origens. Em uma bateria, por exemplo, está associada à condutividade do eletrólito que
faz parte da reação quı́mica no interior da bateria. Muitas vezes, a resistência interna não
é constante, pode variar com a temperatura, com o estado de carga da bateria e com a
própria idade. No modelo simplificado consideraremos a resistência constante.

Fonte de tensão real


Consideremos o dipolo formado pela associação em série de uma fonte de tensão ideal com
um resistor em série (Fig. 2.12) .

vAB = Rv i + ε.
Conectando a um “resistor de carga RL ”formaremos uma malha cuja equação, obser-
vando que i é a corrente de referência com relação ao dipolo fonte, será

Rv i + ε + R L i = 0
ε
∴i=− .
Rv + R L
22 Newton Barros de Oliveira

e RV i e RV i

i i
B A
vAB
RL i

Figura 2.12: Modelo para fonte de tensão real e fonte conectada a um resistor de carga.

Como ε, Rv e RL são, por hipótese, todos positivos, a corrente i será negativa, signifi-
cando que o sentido real da corrente é oposto ao sentido tomado como referência. Parece
então ser mais conveniente adotarmos no caso das fontes, o sentido real da corrente para
fins de análise de d.d.p. entre os terminais A e B. Assim, definiremos
ε
i0 = −i =
Rv + R L
e ficaremos com
vAB = ε − Rv i0 (2.7)
cuja representação gráfica será a figura (Fig. 2.13).
v

Passivo e Ativo

e/RV i’

Passivo

Figura 2.13: Curva caracterı́stica para a fonte de tensão real.

Ao contrário da fonte ideal, onde vAB é constante, observamos agora que a tensão cai
com o aumento da corrente i0 (corrente real). Observe que não é possı́vel operar na região
passiva com a utilização de ε e RL positivos.
Em problemas mais complexos torna-se muito difı́cil descobrir por simples inspeção qual
é o sentido real da corrente de modo que, para sistematizar o processo, adotaremos uma
direção de referencia qualquer.

Transformação da fonte de tensão em fonte de corrente


Procuremos uma fonte de corrente real que seja equivalente à uma fonte de tensão real
no sentido que, do ponto de vista dos terminais, deverá haver a mesma d.d.p. e a mesma
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 23

corrente. Uma fonte de corrente real pode ser obtida a partir da fonte ideal acrescentando-se
um resistor em paralelo pois, dessa maneira, podemos desviar parte da corrente i por fora
da fonte (Fig. 2.14).

i
A
iR

I Ri v

Figura 2.14: Modelo para fonte de corrente real.

Temos que
i = iR + I

e
vAB = Ri iR

∴ vAB = Ri (i − I).

Na fonte de tensão ideal tı́nhamos vAB = Rv i + ε. Como as duas fontes devem ser
equivalentes deveremos ter as mesmas tensões e correntes. Então

Ri (i − I) = Rv i + ε

para todos os valores de i. Isso implica em duas condições:

Ri = R v = R (2.8)

e
ε
I =− . (2.9)
R
Invertendo o sentido da fonte de corrente no diagrama teremos então a seguinte equi-
valência mostrada na figura (Fig. 2.15).
Ou seja, para transformar a fonte de tensão real em fonte de corrente real mantém-se o
mesmo valor da resistência interna trocando-se a configuração série para paralela e ajusta-se
o valor da fonte de corrente em I = ε/Rv com o sentido mostrado na figura (Fig. 2.15).
Nessas condições, dizemos que uma fonte é a dual da outra.
De acordo com a figura (Fig. 2.15), definindo a corrente i0 = −i fornecida por essa fonte
real teremos i0 = I − v/Ri . Portanto, a curva caracterı́stica passa a ter o aspecto da figura
(Fig. 2.16).
24 Newton Barros de Oliveira

i
A
i
A
iR
RV
Ri vAB
vAB
I=e/R
e
B

Figura 2.15: Equivalência entre as fontes de tensão e corrente.

i’

I
i’ = I - v/Ri

Figura 2.16: Caracterı́stica da fonte de corrente real.

Fontes controladas ou fontes dependentes

As fontes mencionadas anteriormente são também conhecidas como fontes independentes


pois os valores de tensão e corrente das fontes ideais são fixos. Existe contudo uma cate-
goria de fontes em que tais valores podem ser controlados por outra variável, são as fontes
dependentes. Destacamos a fonte de tensão controlada por tensão e a fonte de corrente
controlada por corrente (Fig. 2.17 e Fig. 2.18).

i1=0 i2
A
v2

v1 v2 = a v1 a v1

i2
B

Figura 2.17: Fonte de tensão controlada pela tensão de entrada.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 25

i1 i2
A
i2
b i1
b i1
v1 = 0 v2

v2
B

Figura 2.18: Fonte de corrente controlada pela corrente de entrada.

2.3 Os parâmetros capacitância e indutância


Assim como a resistência de um dipolo é definida pela relação linear existente entre a tensão
e a corrente, v = Ri ou mesmo v(t) = Ri(t) quando houver variação temporal, definimos a
capacitância e a indutância de um dipolo pelas relações:
Zt
1
vC = iC dt (2.10)
C
−∞

e
di
vL = L (2.11)
dt
para um capacitor com capacitância C e um indutor com indutância L. Utilizaremos os
seguintes sı́mbolos (Fig. 2.19):
iC A iL A

C vC L vL

B B

Figura 2.19: Sı́mbolos para o capacitor e para o indutor.

Na expressão da tensão de um capacitor, a integral pode ser repartida em duas


Zt Z0 Zt
1 1 1
vC = iC dt = iC dt + iC dt (2.12)
C C C
−∞ −∞ 0

onde reconhecemos a carga inicial Q0 acumulada no capacitor antes de t = 0


Z0
iC dt = Q0
−∞
26 Newton Barros de Oliveira

e a tensão inicial do capacitor


Z0
1
vC (0) = iC dt. (2.13)
C
−∞

2.4 Descrição topológica dos circuitos


Chamaremos de circuito a uma associação de dipolos. Estamos interessados em resolver
o seguinte problema: dado um circuito com todos os elementos conhecidos, desejamos
determinar as correntes e as tensões em todos os pontos do circuito.
Considere o circuito da figura (Fig. 2.20). Os pontos de ligação comuns a dois ou mais
dipolos são chamados de nós do circuito. No exemplo temos os nós 1, 2, 3 e 4.

1 2

Figura 2.20: Exemplo de um circuito.

Um grafo é um desenho que mostre todos os nós e todas as ligações entre eles sem
mostrar o tipo de dipolo que faz a ligação (Fig. 2.21).

1 2 4
4

3
3 2
1 3
4 1 2

Figura 2.21: Exemplo de grafos topologicamente equivalentes entre si correspondentes ao


circuito mostrado na (Fig. 2.20).

Definições:

• Chamamos de ramo (branch) a linha (que representa o dipolo) que une dois nós. No
exemplo temos 6 ramos.

• Qualquer percurso fechado que passe uma só vez em cada nó deste percurso chama-se
malha. No exemplo podemos identificar 7 malhas.
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 27

• Um conjunto de ramos ligando todos os nós mas que não forme nenhuma malha é
chamado de árvore (tree). O exemplo anterior possui 12 árvores. Veja a figura (Fig
2.22).

1 2 1 2 1 2 1 2 1 2 1 2

3 3 3 3 3 3

4 4 4 4 4 4
1 2 1 2 1 2 1 2 1 2 1 2

3 3 3 3 3 3

4 4 4 4 4 4

Figura 2.22: Exemplos de árvores correspondentes ao circuito mostrado anteriormente.

Existe uma relação entre o número de nós e o número de ramos em uma árvore. Con-
sidere um ramo (um nó em cada extremidade) representando um dipolo. A cada dipolo
introduzido, sem fechar nenhum caminho, acrescentaremos mais um nó. Veja o desenho
seguinte (Fig 2.23) onde acrescentamos dois ramos (correspondentes a dois dipolos) à um
ramo original (correspondente ao dipolo original).

1 2 1 2

Figura 2.23: Exemplo de construção de uma árvore com três ramos e quatro nós a partir
de um ramo com a adição de mais dois ramos.

Observe que o número de ramos na árvore é igual ao número de nós menos uma unidade,

Rarv = N − 1. (2.14)

Os ramos que faltam à árvore para completar o grafo são chamados de vı́nculos (chords)
portanto, sendo M o número de vı́nculos teremos

M = R − Rarv (2.15)

onde R é o número de ramos do grafo e Rarv é o número de ramos da árvore. Sendo assim,
teremos
M = R − (N − 1) = R − N + 1. (2.16)
28 Newton Barros de Oliveira

Essa relação é muito importante e será utilizada logo a seguir.


Quando o grafo correspondente a um circuito pode ser desenhado sem haver cruzamento
de linhas, dizemos que se trata de um grafo (circuito) planar e não-planar no caso oposto.
Veja um exemplo de grafo não planar na figura (Fig. 2.24).

Figura 2.24: Exemplo de um grafo não-planar.

2.4.1 Variáveis do circuito


Vejamos agora as variáveis que descrevem um circuito:
Em um circuito de R ramos e N nós temos que determinar as R correntes nos ramos e
as R d.d.p.’s entre os extremos dos ramos dando um total de 2R incógnitas. Contudo, as
correntes e as tensões estão ligadas por uma relação conhecida (Lei de Ohm por exemplo) de
modo que podemos reduzir o problema para R incógnitas. Mostraremos agora que esse não
é o número mı́nimo de variáveis independentes em um circuito, isto é, existe um número
menor de variáveis independentes em função das quais podemos encontrar e descrever todas
as demais variáveis.
Observemos que se conhecermos as d.d.p.’s dos ramos que compõe uma árvore, conhece-
remos todas as d.d.p.’s entre quaisquer dois pontos de um circuito uma vez que a árvore liga
todos os nós do circuito e existe apenas um caminho entre dois nós. Podemos, portanto,
afirmar que as tensões dos ramos de uma árvore especificam todas as demais tensões do
circuito e em termos da variável “tensão”existirão N − 1 tensões independentes (o número
de ramos da árvore).
Se escolhermos as correntes como variáveis, observaremos que o conhecimento das cor-
rentes que passam pelos vı́nculos são suficientes para especificar todas as correntes nos
demais ramos do circuito, uma vez que cada vı́nculo fecha uma malha (“loop”) distinta e
independente. Como o número de vı́nculos é dado por R − N + 1, esse será o número de
correntes independentes necessário. Cada vı́nculo corresponde a uma malha independente.
Optando pela variável tensão, deveremos escrever a tensão (d.d.p.) em cada ramo em
função das tensões dos ramos da árvore. Essas tensões estarão ligadas às correntes nos ramos
através de relações matemáticas conhecidas (Lei de Ohm por exemplo). Escreveremos então
as N − 1 equações de nós independentes substituindo nas correntes dos ramos as relações
que originarão N − 1 equações em N − 1 variáveis de tensão.
Observação: Os geradores de tensão e as resistências em série a ele conectadas bem
como os geradores de corrente e as resistências em paralelo a elas conectadas devem formar
um ramo no grafo correspondente.
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 29

Vejamos o exemplo simples a seguir. Considere o circuito (Fig. 2.25):

R1 R2

e1 R3 e2

Figura 2.25: Exemplo simples de um circuito.

Nesse circuito identificamos dois nós (N = 2) e três ramos (R = 3). Consequentemente,


o número de vı́nculos ou número de malhas independentes será igual a dois (M = R−N +1 =
3 − 2 + 1 = 2).
O desenho a seguir (Fig. 2.26) mostra um grafo correspondente orientado de modo
arbitrário, uma árvore desse grafo e os vı́nculos adicionados.

Vínculos

Figura 2.26: Grafo orientado, árvore e vı́nculos.

Optando-se pela variável tensão, orienta-se as tensões de acordo com a orientação ar-
bitrária do grafo (Fig. 2.27).

R1 R2

v1 v3 v2 v3 e 1 v1 R3 v3 v2 e 2

Figura 2.27: Orientação das tensões no grafo, na árvore e no circuito.

Observe que todas as tensões podem ser escritas em função da tensão do ramo da árvore,
v1 = −v3 e v2 = −v3 .
Estabelece-se correntes de acordo com as convenções pré-estabelecidas para os dipolos
(Fig. 2.28).
30 Newton Barros de Oliveira

R1 i1 i2 R2
i1 i2
i3
v1 v3 v2 e 1
v1 R3 v3 v2 e 2

i3

Figura 2.28: Orientação das correntes no grafo e no circuito.

Pela lei dos nós temos i3 = i1 + i2 .


Observando o circuito temos as relações entre correntes e tensões:
v1 − ε 1
v 1 = R 1 i1 + ε 1 ∴ i 1 = ,
R1
v2 − ε 2
v 2 = R 2 i2 + ε 2 ∴ i 2 = ,
R2
v3
v 3 = R 3 i3 ∴ i 3 = .
R3
Escrevendo em termos da variável independente v3 fica:
−v3 − ε1 −v3 − ε2 v3
i1 = , i2 = , i3 = .
R1 R2 R3
Substituindo agora na equação da lei dos nós, i3 = i1 + i2 fica
v3 −v3 − ε1 −v3 − ε2
= +
R3 R1 R2
e resolvendo essa equação encontraremos v3 e em seguida v1 , v2 , i1 , i2 e i3 .
Definindo G = 1/R, como sendo a condutância, ficaremos com

G3 v3 = G1 (−v3 − ε1 ) + G2 (−v3 − ε2 )

G1 ε1 + G 2 ε2
∴ v3 = − .
G1 + G 2 + G 3
Optando-se pela variável corrente, aplicaremos a primeira lei de Kirchoff a cada malha
independente. Obteremos um sistema de equações independentes em função das correntes
que passam pelos vı́nculos, também chamadas de correntes de malha. A resolução desse
sistema resultará no conhecimento das correntes nos vı́nculos e consequentemente todas as
demais correntes.
Observação: Transformar todos os geradores de corrente em geradores de tensão antes
de iniciar o processo.
Consideremos o exemplo anterior mantendo a mesma orientação do grafo (Fig. 2.29).
Cada vı́nculo acrescentado à árvore define uma malha. Consideremos a corrente que
passa pelo vı́nculo como sendo a corrente de malha mantendo o mesmo sentido da orientação
do vı́nculo no grafo (Fig. 2.30).
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 31

Vínculos

Figura 2.29: Grafo orientado, árvore e vı́nculos.

im1 im2

Árvore
Vínculos adicionados

Figura 2.30: Vı́nculos acrescentados e as correntes de malha.

Observe que todas as correntes podem ser escritas em função de im1 e im2 (Fig. 2.31).

i1 = −im1

i2 = −im2
i3 = −(im1 + im2 )

R1 i1 i2 R2

i3
e1
im1 R3 im2 e 2

Figura 2.31: Correntes nos ramos e as correntes de malha.

Aplicando a lei de Kirchoff para as correntes de malha nas duas malhas teremos

ε1 − R1 im1 − R3 (im1 + im2 ) = 0


e
ε2 − R2 im2 − R3 (im1 + im2 ) = 0
32 Newton Barros de Oliveira

ou mesmo
(R1 + R3 )im1 + R3 im2 = ε1
e
R3 im1 + (R2 + R3 )im2 = ε2
cuja resolução fornece
ε1 (R2 + R3 ) − ε2 R3
im1 =
R1 R2 + R 2 R3 + R 1 R3
e
ε2 (R1 + R3 ) − ε1 R3
im2 =
R1 R2 + R 2 R3 + R 1 R3
Com o objetivo de sistematizar a resolução do circuito, costumamos orientar as duas
malhas no mesmo sentido. Veja (Fig.2.32).

R1 i1 i2 R2

i3
e1 im1’ R3 im2’ e
2

Figura 2.32: Correntes de malha com a mesma orientação.

O sistema de equações é semelhante ao anterior, basta trocar i m1 por i0m1 e im2 por
−i0m2 .
Além disso, multiplicaremos a última linha por −1 para colocar em uma forma mais
conveniente. Fica então

(R1 + R3 )i0m1 − R3 i0m2 = ε1


e
−R3 i0m1 + (R2 + R3 )i0m2 = −ε2
Esse sistema pode ser colocado na forma matricial
  0   
R1 + R 3 −R3 im1 ε1
= (2.17)
−R3 R2 + R 3 i0m2 −ε2

observe que os termos ao lado da diagonal principal possuem o mesmo sinal o que caracteriza
uma matriz simétrica.
Podemos observar que, em geral, é possı́vel formular as equações da seguinte forma;

r11 im1 + r12 im2 + ... + r1N imM = 1 (2.18)

r21 im1 + r22 im2 + ... + r2N imM = 2 (2.19)


...
rM 1 im1 + rM 2 im2 + ... + rM N imM = M (2.20)
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 33

onde
rii = soma das resistências na malha i.
rij =(−)Psoma das resistências comuns às malhas i e j.

 P +εi se estiver no mesmo sentido da malha 
i = −εi se estiver no sentido oposto da malha
 
0 se não houver fonte na malha
Obs: imi deve ter o mesmo sentido da malha e as malhas devem ser orientadas no mesmo
sentido!
Em notação matricial teremos,
    
r11 . . . r1M im1 1
 . . . . .  .   . 
    
R × I = E ou   . . . . .     
 .  =  . . (2.21)
 . . . . .  .   . 
rM 1 . . . rM M imM M
Multiplicando ambos os lados da equação pela matriz inversa R−1 teremos

R−1 × (R × I) = R−1 × E

∴ I = R−1 × E (2.22)

Método das tensões dos nós


Fazendo uso da variável tensão podemos desenvolver um método de resolução de circuitos
que faz uso das tensões em cada nó medida com relação a um nó de referencia (“datum”),
ao invés das tensões nos ramos da árvore (“node pair”). Com um circuito de N nós,
novamente teremos N − 1 tensões com relação a um nó de referência. O procedimento
seguinte é semelhante ao do método das tensões nos ramos da árvore. Escreve-se N − 1
equações dos nós e substitui-se nas correntes as relações que envolvam as tensões dos nós.
Obteremos assim, N − 1 equações em N − 1 variáveis tensões de nós.
Observação: substituir os geradores de tensão por geradores de corrente e
escolher um nó de referência.
Vejamos o exemplo (Fig. 2.33):
O nó 4 será o nó de referência e vni será a tensão no i-ésimo nó com referência a esse
nó. Veja o grafo na (Fig. 2.34).
Da lei dos nós aplicada aos nós 1, 2 e 3 temos:

i1 + i 2 + i 4 = 0

i2 + i 3 − i 5 = 0
i1 − i3 − i6 = 0.

Substituindo agora as relações entre correntes e tensões fica:

−I1 + G1 (vn1 − vn3 ) + G2 (vn1 − vn2 ) + G4 vn1 = 0

G2 (vn1 − vn2 ) + G3 (vn3 − vn2 ) − G5 vn2 = 0


34 Newton Barros de Oliveira

R1
I1
e 1 R1
1 3 1 3
R2 2 R3 2 R3
R6 R2 R6
R4 R5 R4 R5
e 2
I2

4 4

Figura 2.33: Nós em um circuito e circuito equivalente com fontes de corrente.

vn1-vn3

i1
i2 i3
1 3
vn1-vn2 2 v -v
i4 i5
n3 n2
i6
vn2
vn1 vn3

Figura 2.34: Grafo do circuito.

−I1 + G1 (vn1 − vn3 ) − G3 (vn3 − vn2 ) − (I2 + G6 vn3 ) = 0

rearrumando os termos teremos

(G1 + G2 + G4 ) vn1 − G2 vn2 − G1 vn3 = I1

−G2 vn1 + (G2 + G3 + G5 ) vn2 − G3 vn3 = 0

−G1 vn1 − G3 vn2 + (G1 + G3 + G6 ) vn3 = −I1 − I2

ou em notação matricial
     
G1 + G 2 + G 4 −G2 −G1 vn1 I1
 −G2 (G2 + G3 + G5 ) −G3  × vn2  =  0 
−G1 −G3 G1 + G 3 + G 6 vn3 −I1 − I2
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 35

ou então  
g11 . . . g1 N −1   b 
 . . . . .  vn1 I1
 
 . . . . .  × vn2  =  
Ib2 
 
 . . . . .  vn3 Ib3
gN −1 1 . . . gN −1 N −1
onde
gii = soma das condutâncias concorrentes ao nó i,
gij =(−)soma das condutâncias que ligam o nó i ao nó j, 
 (+) soma das fontes de corrente que chegam ao nó i, 
Ibi = (−) soma das fontes de corrente que partem do nó i,
 
0 se não houver fonte ligada ao nó i.
Também podemos escrever como

G × V = bI

e multiplicando pela matriz inversa G−1 obteremos

V = G−1 × bI

Método sistemático de corrente de malha para circuitos com grafo planar ou


não-planar
Descreveremos o método com o auxı́lio de um exemplo: Considere o grafo não planar e uma
árvore desse grafo a seguir. A numeração corresponde a um ramo.

6
7 2 7
5 8 8

4 9 9

1 3 10
10

Figura 2.35: Grafo não-planar e árvore de um circuito.

Suponhamos que a cada ramo corresponda uma resistência no circuito que originou o
grafo. A cada vı́nculo acrescentado na árvore (um de cada vez) corresponderá uma malha
independente cuja orientação será, por definição, a mesma do vı́nculo. Essa malha receberá
uma denominação numérica idêntica à do vı́nculo, ou seja, o vı́nculo 1 definirá a malha 1,
o 3 definirá a malha 3 e assim por diante.
Construiremos uma tabela malha x ramo e a preencheremos com -1 ou 1 de acordo se
o ramo tiver orientação contrária ou igual à malha e preencheremos com zero se não houver
o ramo nessa malha.
36 Newton Barros de Oliveira

Ra1 Ra2 Ra3 Ra4 Ra5 Ra6 Ra7 Ra8 Ra9 Ra10
Ma1 1 0 0 0 0 0 1 -1 1 1
Ma2 0 1 0 0 0 0 0 1 -1 0
Ma3 0 0 1 0 0 0 0 0 -1 -1
Ma4 0 0 0 1 0 0 1 -1 0 0
Ma5 0 0 0 0 1 0 0 -1 1 1
Ma6 0 0 0 0 0 1 -1 1 -1 0

As linhas dessa tabela darão os coeficientes das tensões dos ramos que comporão as
equações das malhas. Por exemplo, para a malha 1 teremos:

1v1 + 0v2 + 0v3 + 0v4 + 0v5 + 0v6 + 1v7 − 1v8 + 1v9 + 1v10 = 0

ou simplesmente para todas as malhas

v1 + v7 − v8 + v9 + v10 = 0

v2 + v 8 − v 9 = 0
v3 − v9 − v10 = 0
v4 + v 7 − v 8 = 0
v5 − v8 + v9 + v10 = 0
v6 − v 7 + v 8 − v 9 = 0
As colunas da tabela darão os coeficientes das correntes de malha que comporão as
correntes que passam nos ramos, assim teremos:

i1 = im1
i2 = im2
i3 = im3
i4 = im4
i5 = im5
i6 = im6
i7 = im1 + im4 − im6
i8 = −im1 + im2 − im4 − im5 − im6
i9 = im1 − im2 − im3 + im5 − im6
i10 = im1 − im3 + im5
Suponhamos, por exemplo, que as resistências dos ramos tem os seguintes valores em
ohms: R1 = 2, R2 = 1, R3 = 5, R4 = 3, R5 = 4, R6 = 7, R7 = 6, R8 = 10, R9 = 8 e
R10 = 9. Suponhamos também que exista um gerador de tensão ε2 = 10 volts em série com
R2 e com a mesma orientação do vı́nculo como mostrado na (Fig.2.36).
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 37

e 2
R2 i2
2
i2

v2

Figura 2.36: Fonte de tensão em série com R2 .

Teremos então as seguintes relações

v1 = 2i1 v6 = 7i6
v2 = −10 + 1i2 v7 = 6i7
v3 = 5i3 v8 = 10i8
v4 = 3i4 v9 = 8i9
v5 = 4i5 v10 = 9i10

em termos das correntes de malha fica

v1 = 2im1 v6 = 7im6
v2 = −ε2 + im2 v7 = 6 (im1 + im4 − im6 )
v3 = 5im3 v8 = 10 (−im1 + im2 − im4 − im5 + im6 )
v4 = 3im4 v9 = 8 (im1 − im2 − im3 + im5 − im6 )
v5 = 4im5 v10 = 9 (im1 − im3 + im5 )

e substituindo nas equações de malha e arrumando temos

35im1 − 18im2 − 17im3 + 16im4 + 27im5 − 24im6 = 0


−18im1 + 19im2 + 8im3 − 10im4 − 18im5 + 18im6 = 10
−17im1 + 8im2 + 22im3 + 0im4 − 17im5 + 8im6 = 0
16im1 − 10im2 + 0im3 + 19im4 + 10im5 − 16im6 = 0
27im1 − 18im2 − 17im3 + 10im4 + 31im5 − 18im6 = 0
−24im1 + 18im2 + 8im3 − 16im4 − 18im5 + 24im6 = 0.

Observe que com esse processo a matriz das resistências correspondente continua simétri-
ca. Porém, os termos fora da diagonal nem sempre são negativos devido à não planaridade
do grafo.

2.5 Resolução do sistema de equações lineares


Adotaremos a “regra de Cramer” como método sistemático de resolução do sistema de
equações. Para um sistema em função das correntes de malha do tipo
38 Newton Barros de Oliveira

r11 im1 + r12 im2 + ... + r1M imM = 1


r21 im1 + r22 im2 + ... + r2M imM = 2
...
(2.23)
...
...
rM 1 im1 + rM 2 im2 + ... + rM M imM = M
a regra de Cramer nos dá

D1 D2 DM
im1 = , im2 = , ..., imM = (2.24)
∆ ∆ ∆
onde ∆ é o determinante da matriz das resistências e Dj é o determinante da matriz obtida
pela troca da j-ésima coluna da matriz das resistências pela coluna do vetor coluna das
tensões. Por exemplo:

r11 1 r13 . . . r1M

r21 2 r23 . . . r2M

. . . . . . .

D2 = (2.25)
. . . . . . .
. . . . . . .

r M 1  M r M 3 . . . r M M

Seja o sistema

5im1 − 2im2 − 3im3 = 10


−2im1 + 4im2 − 1im3 = 0
−3im1 − 1im2 + 6im3 = 0

temos então que


5 −2 −3

∆ = −2 4 −1 = 43
−3 −1 6

10 −2 −3 5 10 −3 5 −2 10

D1 = 0 4 −1 = 230, D2 = −2 0 −1 = 150, D3 = −2 4 0 = 140
0 −1 6 −3 0 6 −3 −1 0

assim
230 150 140
im1 = , im2 = , im3 = .
43 43 43
Um procedimento análogo será usado quando os sistemas forem formulados em termos das
variáveis tensão.

2.6 Teoremas gerais


Apresentaremos alguns teoremas interessantes e úteis na análise de circuitos.
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 39

2.6.1 Teorema da superposição


“Em um circuito linear onde existam várias fontes (de tensão ou de corrente), as correntes
e as tensões em qualquer ponto do circuito podem ser obtidas pela superposição (soma) das
correntes e das tensões que seriam obtidas naquele ponto considerando cada fonte agindo
individualmente”.
Por exemplo, no circuito da esquerda na (Fig. 2.37) teremos

R1 R2 R1 R2 R1 R2
i3 i’3 i’’3
e 1
v3 R3 e e
2 1
v’3 R3 v’’3 R3 e 2

Figura 2.37: Circuito original, circuito com uma fonte e circuito com a outra fonte.

i3 = i03 + i003 e v3 = v30 + v300 .

O teorema da superposição decorre imediatamente da linearidade do sistema de equações


que resolve o circuito pois, como vimos em termos da corrente de malha,

I = R−1 × E. (2.26)

Se o vetor da fonte for escrito como

E = E0 + E00 (2.27)

automaticamente teremos
I = I0 + I00 (2.28)
pois o produto de matrizes é associativo, ou seja,

I = R−1 × (E0 + E00 ) = R−1 × E0 + R−1 × E00 = I0 + I00 . (2.29)

Em outras palavras, a superposição das fontes equivale a fazer a superposição das cor-
rentes e consequentemente das tensões.
Observação importante: ao retirar a fonte de tensão deveremos colocar um
curto-circuito em seu lugar e ao retirar a fonte de corrente deveremos deixar o
circuito aberto.

2.6.2 Teorema de Thévenin


Léon Thévenin (1857-1926) propôs em 1883 no jornal cientı́fico francês “Annales Télégraphi-
ques”o seguinte teorema:
Um circuito elétrico linear (com elementos passivos lineares, fontes de tensão e corrente)
que tenha dois terminais ligados a um elemento passivo, que consideraremos como sendo um
elemento externo ao circuito, pode ser substituı́do por uma fonte de tensão e uma resistor
definidos por:
40 Newton Barros de Oliveira

• Fonte de tensão εT h = fonte cujo valor de tensão é igual à tensão que se obtém nos
terminais do circuito quando se desconecta o elemento passivo externo.

• Resistor RT h = resistor cuja resistência é igual à resistência vista dos terminais do


circuito quando curto-circuita-se as fontes de tensão e abre-se as fontes de corrente.

A representação do circuito original e o circuito equivalente de Thévenin pode ser vista


na (Fig. 2.38).

i RTh i

Circuito A v Rext e Th v Rext

Figura 2.38: Circuito original e circuito equivalente de Thévenin.

Onde
-i

Circuito A e Th
Circuito A’ v RTh

Figura 2.39: Circuito original sem o resistor externo e circuito original sem o resistor externo
e com as fontes internas zeradas.

Circuito A’ obtido a partir do circuito A curto-circuitando-se as fontes de tensão e


abrindo-se as fontes de corrente.
Demonstração:
Considere a inserção de um gerador em série no circuito original

v’

Circuito A Rext

Figura 2.40: Circuito original com fonte de tensão inserida.

Ajustemos a tensão no gerador até o ponto em que a corrente em R ext seja nula. Nessa
situação, podemos imaginar que a corrente nula é a superposição da corrente original i com
uma corrente i0 tal que i = −i0 . Como a corrente total é nula, a tensão nos terminais do
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 41

circuito A deve ser idêntica à do gerador de tensão que foi adicionado uma vez que a tensão
sobre Rext é nula (corrente zero). Rext pode então ser desconectado do circuito, pois não
passa corrente por ele. Chamaremos de εT h a tensão nos terminais do circuito A, ver (Fig.
2.41).

Circuito A e Th

Figura 2.41: Circuito original sem a resistência externa e definição da tensão de Thévenin.

Transformemos o circuito A no circuito A’, tornando nulas todas as fontes de tensão e


de corrente de A e conectemos este circuito ao resistor Rext ligando em série um gerador de
tensão cujo valor de tensão seja igual à εT h conforme indicado na (Fig. 2.42). Pelo teorema
e Th

Circuito A’ Rext

Figura 2.42: Circuito original com fontes internas anuladas, gerador externo inserido e
resistência externa .

da superposição, εT h produzirá uma corrente i sobre Rext idêntica à do primeiro circuito


de modo que, podemos considerar εT h e a resistência vista nos terminais de A’ como um
circuito equivalente ao circuito original A.
Exemplo: encontrar o circuito de Thévenin equivalente ao circuito da figura (Fig. 2.43).

R1 = 8 W

e1 = 10 V R2 = 16 W Rext = 4 W

Figura 2.43: Circuito original para determinação do equivalente de Thévenin.

Desconectando Rext teremos nos terminais uma tensão εT h dada por


16
εT h = 10 = 6, 66 volts.
8 + 16
42 Newton Barros de Oliveira

Curto-circuitando a fonte de 10 volts, a resistência vista nos terminais será a combinação


em paralelo de 8Ω com 16Ω.
8 × 16
RT h = = 5, 33 ohms.
8 + 16
Teremos então o seguinte circuito equivalente na (Fig. 2.44).

RTh = 5,33 W

ETh = 6,66 V Rext = 4 W

Figura 2.44: Circuito equivalente.

Verifiquemos: no circuito original a corrente em Rext é dada por

v 16//4
i= , v= 10 = 2, 86 volts
Rext 8 + (16//4)
2, 86
∴i= ≈ 0, 71 ampéres.
4
No circuito equivalente teremos
6, 66
i= ≈ 0, 71 ampéres.
5, 33 + 4

2.6.3 Teorema de Norton


Esse teorema estabelece que o circuito original pode ser substituı́do por um circuito equi-
valente constituı́do por uma fonte de corrente em paralelo com uma resistor (Fig. 2.45).
A corrente IN t é a corrente que se obtém ao substituirmos o resistor externo por um
curto-circuito e a resistência de Norton é o valor de resistência que se enxerga nos terminais
do circuito original ao retirar o resistor externo (saı́da aberta) e zerar todas as suas fontes
internas. Veja (Fig. 2.46).
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 43

i i

Circuito A v Rext INt RNt v Rext

Figura 2.45: Circuito equivalente no teorema de Norton.

INt

Circuito A v=0 Circuito A’ RNt

Figura 2.46: Circuitos para determinar o valor da fonte de corrente e do resistor no teorema
de Norton.

Podemos demonstrar o teorema de Norton a partir do teorema de Thévenin, transfor-


mando a fonte de tensão em fonte de corrente.
Exemplo: no circuito do exemplo anterior (Fig. 2.47) temos RN t = RT h = 8//16 = 5, 33
ohms.

R1 = 8 W

R2 = INt
e = 10 V
1
16 W Rext = RNt Rext = 4 W
4W

Figura 2.47: Exemplo de aplicação do teorema de Norton.

Substituindo a resistor externo por um curto-circuito teremos a (Fig 2.48). Então, o


circuito equivalente fica como na (Fig. 2.49).
Nesse circuito teremos
5, 33
i= × 1, 25 ≈ 0, 71 ampéres.
5, 33 + 4

Exercı́cio:
No circuito da (Fig.2.50) determine as correntes em todos os resistores. Determine o circuito
equivalente de Thévenin para os terminais AB e calcule a corrente no resistor R 5 . Compare
os resultados.
44 Newton Barros de Oliveira

R1 = 8 W

R2 =
e 1 = 10 V INt = 10/8 = 1,25 A
16 W

Figura 2.48: Determinação da corrente de Norton.

i
1,25 A 5,33 W
Rext = 4 W

Figura 2.49: Circuito equivalente.

Dados:

ε = 12V, R1 = 4Ω, R2 = 2Ω, R3 = 8Ω, R4 = 10Ω, R5 = 3Ω.

Na figura (Fig. 2.51) temos um grafo e uma ávore para o circuito. Podemos ver que

N = 4, R = 6, M = R − N + 1 = 3 e N − 1 = 3

ou seja, podemos utilizar 3 equações de corrente ou 3 equações de nós. Utilizemos as


correntes de malha. Teremos:

(R1 + R2 + R3 )im1 − R3 im2 − R2 im3 = 0

R1 R2

R5
R3
e R4

Figura 2.50: Circuito do exercı́cio.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 45

i1 i5
1 i2
im1 2
i3
3 im3 5
im2 4
i4
6
i6

Figura 2.51: Grafo e árvore do circuito do exercı́cio.

−R3 im1 + (R3 + R4 )im2 − R4 im3 = ε


−R2 im1 − R4 im2 − (R2 + R4 + R5 )im3 = 0
ou  
14 −8 −2
R = −8 18 −10
−2 −10 15

14 −8 −2

∴ ∆ = −8 18 −10 = 1028
−2 −10 15

temos também

0 −8 −2 14 0 −2 14 −8 0

D1 = 12 18 −10 = 1680, D2 = −8 12 −10 = 2472, D3 = −8 18 12 = 1872
0 −10 15 −2 0 15 −2 −10 0

portanto
1680 2472 1872
im1 = = 1, 63 A, im2 = = 2, 40 A, im3 = = 1, 82 A.
1028 1028 1028
Então
i1 = im1 = 1, 63 A,
i2 = im1 − im3 = 1, 63 − 1, 82 = −0, 19 A,
i3 = im1 − im2 = 1, 63 − 2, 40 = −0, 77 A,
i4 = −im3 + im2 = −1, 82 + 2, 40 = 0, 58 A,
i5 = im3 = 1, 82 A,
i6 = im2 = 2, 40 A.
Vejamos agora o circuito equivalente de Thévenin. Calculando εT h desconectando R5
fica o circuito da (Fig. 2.52).
46 Newton Barros de Oliveira

A
R1=
R2 = 2 W
i4W
1

iF R3=
8W R4 = 10 W
12 V

Figura 2.52: Circuito para determinar εT h .

O circuito é suficientemente simples para que possamos associar os resistores. Calcule-


mos a corrente fornecida pela fonte:
ε 12 12
iF = = = = 0, 89 A.
[(R1 + R2 ) //R3 ] + R4 [(4 + 2) //8] + 10 3, 43 + 10
Calculemos agora a corrente i1 que passa por R1 e R2 .
R3 8
i1 = iF = 0, 89 = 0, 51 A.
R1 + R 2 + R 3 4+2+8
A tensão de Thévenin será portanto a tensão da fonte menos a tensão sobre R 2 .

εT h = vAB = ε − R1 i1 = 12 − 0, 51.4 = 9, 96 V.

R1= R2= 2 W
4W

R3=
8W R4= 10 W

Figura 2.53: Circuito para determinar RT h .

Cálculo da resistência de Thévenin: substituindo a fonte de tensão por um curto-circuito


(Fig. 2.53) podemos observar que a resistência vista nos terminais AB será

RT h = R1 // [R2 + (R4 //R3 )]

RT h = 4// [2 + (8//10)] = 4// (2 + 4, 44) = 4//6, 44 = 2, 46 Ω.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 47

2,46 W i
3W
9,96 V

Figura 2.54: Circuito equivalente.

Temos então o circuito equivalente (Fig. 2.54) e a corrente através de R 5 será

9, 96
i= ≈ 1, 82 A.
3 + 2, 46

Mesmo resultado obtido anteriormente!

2.7 Quadripolos
Consideremos agora um dispositivo de 4 terminais, dois dos quais serão considerados como
terminais de entrada e dois que serão considerados como terminais de saı́da. Associaremos
ao quadripolo variáveis de tensão e de corrente, tanto na entrada como na saı́da, como
representado na (Fig. 2.55) e convencionando os sentidos mostrados como sendo os sentidos
positivos.

i1 i2

Entrada v1 Quadripolo v2 Saída

Figura 2.55: Representação de um quadripolo.

O quadripolo representa um circuito elétrico ao qual temos acesso aos terminais de


entrada e de saı́da. Os terminais de entrada podem estar ligados a um dipolo “fonte”e os
terminais de saı́da podem estar ligados a um dipolo “carga”, dizemos então que o quadripolo
transforma uma excitação na entrada em uma resposta na saı́da (Fig. 2.56).
O quadripolo pode estar representando um filtro, um amplificador, um atenuador ou até
mesmo uma linha de transmissão. Podemos dizer que um quadripolo é um dispositivo que
converte as variáveis de entrada em variáveis de saı́da realizando uma determinada função.
Um exemplo simples é uma rede de resistores como mostrado na (Fig. 2.57).
Em alguns casos, um dos terminais de entrada está conectado a um terminal de saı́da
internamente ou externamente, constituindo um terminal comum, usualmente de referência
48 Newton Barros de Oliveira

RF i1 i2

e v1 Quadripolo v2 RL

Figura 2.56: Quadripolo conectado a uma fonte e a uma carga.

R1

R2

R4
R5 R3

R6

Figura 2.57: Exemplo de um quadripolo.

ou “terra”formando na verdade um tripolo. Contudo, manteremos a representação e a


denominação quadripolo também nesses casos.
Um quadripolo é dito linear quando é constituı́do por dipolos lineares (resistores, fontes
de tensão ou correntes reais etc.) Um quadripolo também pode ser classificado como ativo
ou passivo a depender do balanço de energia entre a entrada e a saı́da. No caso dos ativos
deve existir uma fonte de energia interna ou externa. Assim, os amplificadores de energia
são quadripolos ativos enquanto que os atenuadores e filtros comuns são passivos.
A linearidade de um quadripolo equivale à existência de relações lineares entre as
variáveis v1 , i1 , v2 e i2 de modo que, se escolhermos duas dessas variáveis como variáveis
independentes, poderemos expressar as outras duas como combinação linear das anteriores.
Designaremos nomes para os parâmetros que caracterizarão o quadripolo. Por exemplo,

i1 i2

Entrada v1 Quadripolo v2 Saída

“Terra”

Figura 2.58: Exemplo de um quadripolo com dois terminais comuns.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 49

podemos relacionar as variáveis de tensão em função das variáveis de corrente como:

v1 = z11 i1 + z12 i2 (2.30)

v2 = z21 i1 + z22 i2 (2.31)


onde vemos que zij tem dimensão de impedância. Nesse caso, as correntes foram conside-
radas como variáveis independentes enquanto que as tensões são as dependentes. Com essa
representação, o quadripolo fica especificado pelos valores dos elementos da matriz
 
z11 z12
. (2.32)
z21 z22

Observe que esses elementos podem ser determinados a partir de um ensaio da seguinte
maneira:
Se colocarmos a saı́da do quadripolo em aberto teremos i2 = 0. Portanto

v1 = z11 i1 + z12 0

logo  
v1
z11 = .
i1 i2 =0

Do mesmo modo, para i2 = 0 teremos também

v2 = z21 i1 + z22 0

logo  
v2
z21 = .
i1 i2 =0

Se colocarmos a entrada em aberto teremos i1 = 0. Portanto

v1 = z11 0 + z12 i2
 
v1
∴ z12 =
i2 i1 =0
e
v2 = z21 0 + z22 i2
 
v2
∴ z22 = .
i2 i1 =0
Pelo fato de termos aberto a entrada ou a saı́da do quadripolo para determinarmos
as impedâncias zij , as designaremos como “impedâncias de circuito aberto”(ou open-
circuit impedance).
Por outro lado, poderı́amos ter escolhido as tensões como variáveis independentes, o
inverso do caso anterior. Assim,

i1 = y11 v1 + y12 v2 (2.33)

i2 = y21 v1 + y22 v2 (2.34)


50 Newton Barros de Oliveira

onde vemos que yij tem dimensão de admitância. Nesse caso, o quadripolo fica especificado
pela matriz  
y11 y12
. (2.35)
y21 y22
Se colocarmos a saı́da em curto-circuito, v2 = 0, teremos
 
i1
i1 = y11 v1 ∴ y11 =
v1 v2 =0
 
i2
i2 = y21 v1 ∴ y21 = .
v1 v2 =0
Se colocarmos a entrada em curto-circuito, v1 = 0, teremos
 
i1
i1 = y12 v2 ∴ y12 =
v2 v1 =0
 
i2
i1 = y22 v2 ∴ y22 = .
v2 v1 =0
Como colocamos a entrada ou a saı́da em curto circuito para determinar os parâmetros
yij , os designaremos por “admitâncias de curto-circuito”.
Observe que é possı́vel relacionar os parâmetros zij com os parâmetros yij pois,
     
i1 y y12 v
= 11 × 1
i2 y21 y22 v2
   −1  
v y11 y12 i
∴ 1 = × 1
v2 y21 y22 i2
mas por outro lado havı́amos definido que
     
v1 z z12 i1
= 11 ×
v2 z21 z22 i2

logo, deveremos ter


   −1
z11 z12 y11 y12
= (2.36)
z21 z22 y21 y22
mas  −1  
y11 y12 1 y22 −y12
=
y21 y22 y11 y22 − y21 y12 −y21 y11
de modo que
y22 y12 y21 y11
z11 = , z12 = − , z21 = − , z22 = .
∆y ∆y ∆y ∆y
Se procedermos de maneira inversa teremos
   −1
y11 y12 z z12
= 11 (2.37)
y21 y22 z21 z22
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 51

e
z22 z12 z21 z11
y11 = , y12 = − , y21 = − , y22 = .
∆z ∆z ∆z ∆z
Outra escolha possı́vel é considerar as variáveis tensão de saı́da e corrente de saı́da como
variáveis independentes escrevendo

v1 = Av2 − Bi2 (2.38)

i1 = Cv2 − Di2 (2.39)


nesse caso, A, B, C e D são chamados de parâmetros de transmissão. O sinal negativo na
combinação linear é apenas uma questão de conveniência, pois quando trabalhamos com esse
tipo de parâmetro em alguns problemas especı́ficos, é mais interessante considerar a corrente
que sai do terminal positivo de saı́da (essa convenção é muito utilizada nos problemas de
transmissão de potências).
Se deixarmos a saı́da em aberto i2 = 0 então
   
v1 i1
A= e C= .
v2 i2 =0 v2 i2 =0

Se curto-circuitarmos a saı́da v2 = 0 então


   
v1 i1
B= − e D= − .
i2 v2 =0 i2 v2 =0

Chamamos
 
1 v2
= de ganho de tensão em circuito aberto, (2.40)
A v1 i2 =0
 
1 i2
− = de admitância de transferência em curto-circuito, (2.41)
B v1 v2 =0
 
1 v2
= de impedância de transferência em circuito aberto e (2.42)
C i1 i2 =0
 
1 i2
− = de ganho de corrente em curto-circuito. (2.43)
D i1 v2 =0
Matricialmente teremos
     
v1 A B v2
= × (2.44)
i1 C D −i2

e inversamente,
   −1  
v2 A B v
= × 1 (2.45)
−i2 C D i1
ou      
v2 1 D −B v1
= × (2.46)
−i2 AD − BC −C A i1
52 Newton Barros de Oliveira

ou ainda, como é mais comum,


     
v2 A0 B0 v1
= × (2.47)
−i2 C0 D0 i1

onde  
A0 B0
é chamada de matriz de transferência inversa. (2.48)
C0 D0

2.7.1 Quadripolo recı́proco


Dizemos que um quadripolo é recı́proco se a relação entre a resposta e a excitação é inva-
riante pela troca dos terminais de excitação e resposta (também conhecida como condição
de passividade). Tomemos primeiro um quadripolo excitado por uma tensão vj e com saı́da
curto-circuitada onde temos uma corrente ik como resposta. Em seguida façamos a inversão
excitando com vk na saı́da e curto-circuitando a entrada onde temos uma corrente ij como
resposta. Será recı́proco se

vj Quadripolo ik ij Quadripolo vk

Figura 2.59: Quadripolo recı́proco.

   
ik ij i2 i1
= ou = (2.49)
vj vk v1 v2 =0 v2 v1 =0

ou ainda
y21 = y12 que implica z21 = z12 . (2.50)
Mostremos que para quadripolos recı́procos vale a relação

AD − BC = 1. (2.51)

Para isso, vamos relacionar os parâmetros de transmissão com os parâmetros de im-


pedância de circuito aberto lembrando a equação (2.31)

v2 = z21 i1 + z22 i2
1 z22
∴ i1 = v2 − i2 (2.52)
z21 z21
e comparando com a equação (2.39)

i1 = Cv2 − Di2 ,

concluiremos que
1 z22
C= eD= . (2.53)
z21 z21
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 53

Da equação (2.30) substituindo a expressão de i1 dada pela equação (2.52) teremos


 
1 z22
v1 = z11 v2 − i2 + z12 i2
z21 z21
 
z11 z11 z22 − z12 z21
∴ v1 = v2 − i2
z21 z21
mas
v1 = Av2 − Bi2
logo
z11 z11 z22 − z12 z21
A= eB= . (2.54)
z21 z21
Calculando AD − BC teremos
z11 z22 z11 z22 − z12 z21
AD − BC = 2 − 2
z21 z21

mas para quadripolos recı́procos z12 = z21 portanto,


2
z21
AD − BC = 2 = 1.
z21

Em outras palavras o determinante da matriz dos parâmetros de transferência é igual


à unidade. Podemos mostrar facilmente também que para quadripolos recı́procos

A0 D0 − B 0 C 0 = 1. (2.55)

2.7.2 Outros parâmetros dos quadripolos


Existem ainda os parâmetros hı́bridos , de condutância e de espalhamento frequentemente
utilizados na caracterização de dispositivos eletrônicos como transı́tores e válvulas. Discu-
tiremos apenas os dois primeiros.
Para a descrição por parâmetros hı́bridos, as variáveis independentes são i 1 e v2 de modo
que escreveremos
v1 = h11 i1 + h12 v2 (2.56)
e
i2 = h21 i1 + h22 v2 (2.57)
com    
v1 v1
h11 = , h12 = (2.58)
i1 v2 =0 v2 i1 =0
   
i2 i2
h21 = , h22 = . (2.59)
i1 v2 =0 v2 i1 =0
Os parâmetros que realizam o inverso dos parâmetros hı́bridos são os os parâmetros de
condutância gij definidos por:
i1 = g11 v1 + g12 i2 (2.60)
54 Newton Barros de Oliveira

v2 = g21 v1 + g22 i2 (2.61)


com   
i1 i1
g11 = g12 = (2.62)
v1 i2 =0 i2 v1 =0
   
v2 v2
g21 = g22 = . (2.63)
v1 i2 =0 i2 v1 =0

Vejamos um exemplo de aplicação dos parâmetros hı́bridos na modelagem de um transı́s-


tor na configuração emissor comum conforme o circuito da (Fig. 2.60).

i1 r1 i2

v1 r2
a v2 b i1 v2

Figura 2.60: Modelo de um transı́stor para pequenos sinais e baixa frequência.

Vemos facilmente que


v1 = r1 i1 + av2
1
i2 = bi1 + v2 .
r2
Comparando com as equações que definem os parâmetros hı́bridos vemos a corres-
pondência
1
h11 = r1 , h12 = a, h21 = b e h22 = .
r2
A facilidade com que se pode medir r1 , r2 , a e b em laboratório torna útil a representação
dos transı́stores, operando em pequenos sinais e baixa frequência, pelos parâmetros hı́bridos.

2.7.3 Quadripolo terminado


Quando os terminais de um quadripolo são conectados à elementos externos dizemos que o
quadripolo está “terminado”(Fig 2.61).
Definimos as seguintes grandezas importantes:

1. Ganho de tensão
v2
Kv ≡ (2.64)
v1
2. Ganho de corrente
i2
Ki ≡ (2.65)
i1
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 55

RF i1 i2

eF v1 Quadripolo v2 RL

Figura 2.61: Quadripolo terminado.

3. Impedância de entrada
v1
Zi ≡ (2.66)
i1
4. Impedância de saı́da  
v2
Zo ≡ (2.67)
i2 s/ excitação

Vejamos agora como uma resistência de carga RL é transformada pelo quadripolo, apa-
recendo na sua entrada com um outro valor.
Tomemos os parâmetros de transmissão:

v1 = Av2 − Bi2

i1 = Cv2 − Di2
com
v2
RL = − .
i2
Dividindo a tensão de entrada pela corrente de entrada

v1 Av2 − Bi2 A v2 − B ARL + B


= = vi22 = .
i1 Cv2 − Di2 C i2 − D CRL + D

Como v1 /i1 é a impedância vista na entrada do quadripolo, podemos afirmar que a re-
sistência de carga RL é transformada pelos parâmetros do quadripolo para um novo valor.
Tudo se passa como se na entrada do quadripolo estivesse conectado internamente uma
resistência de valor
ARL − B
.
CRL − D
Perguntamos agora, existe algum valor de resistência (impedância no caso geral) que,
quando conectada na saı́da do quadripolo, apareça na entrada com o mesmo valor? Se
existir deveremos ter
v1
= RL
i1
logo
ARL + B
RL =
CRL + D
2 D−A B
∴ RL + RL − = 0.
C C
56 Newton Barros de Oliveira

Resolvendo essa equação teremos


q 
D−A 2
− D−A
C ± C + 4B
C
Rc = . (2.68)
2
Ao valor positivo dessa solução denominamos de “resistência caracterı́stica”do qua-
dripolo.
Observe que o quadripolo é “transparente”à resistência caracterı́stica no sentido que,
quando ela é conectada à saı́da do quadripolo, ela é transportada para a entrada sem
alteração.

2.7.4 Formas canônicas de um quadripolo


Existem duas redes básicas com as quais podemos construir ou simular qualquer quadripolo
passivo, a rede T e a rede π (pi). Construiremos essas redes a partir do conceito mais
genérico de impedâncias ao invés de resistências.

• Rede T

i1 i2
Z1 Z2
v1 Z3 v2

Figura 2.62: Quadripolo como uma rede T.

Nesse circuito vemos que

v1 = Z1 i1 + Z3 (i1 + i2 ) = (Z1 + Z3 ) i1 + Z3 i2

v2 = Z2 i2 + Z3 (i1 + i2 ) = Z3 i1 + (Z2 + Z3 ) i2
como
v1 = z11 i1 + z12 i2
v2 = z21 i1 + z22 i2
teremos
z11 = Z1 + Z3 z12 = Z3 (2.69)
z21 = Z3 z22 = Z2 + Z3 . (2.70)
Podemos portanto determinar Zi em função dos parâmetros de impedância do quadri-
polo
Z1 = z11 − z12 Z2 = z22 − z12 Z3 = z12 = z21 (2.71)
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 57

• Rede π

i1 i2
Z3
v1 Z1 Z2 v2

Figura 2.63: Quadripolo como uma rede π.

Da lei dos nós aplicada ao circuito da (Fig. 2.63) temos


 
v1 v2 − v 1 1 1 1
i1 − + =0 ∴ i1 = + v1 − v2
Z1 Z3 Z1 Z3 Z3
 
v2 v1 − v2 1 1 1
i2 − + =0 ∴ i 2 = − v1 + + v2
Z2 Z3 Z3 Z2 Z3
como
i1 = y11 v1 + y12 v2
e
i2 = y21 v1 + y22 v2
teremos
1 1 1
y11 = + y12 = − (2.72)
Z1 Z3 Z3
1 1 1
y21 = − y22 = + . (2.73)
Z3 Z2 Z3
Definindo
1
Yi = (2.74)
Zi
fica
y11 = Y1 + Y3 y12 = −Y3 (2.75)
y21 = −Y3 y22 = Y2 + Y3 . (2.76)
Podemos portanto calcular as admitâncias Yi em função dos parâmetros de admitância
do quadripolo.

Y1 = y11 + y12 Y2 = y22 + y12 Y3 = −y12 = −y21 . (2.77)


Quando a entrada e a saı́da de um quadripolo podem ser permutadas sem alterar as
tensões e as correntes, dizemos que o quadripolo é simétrico. Nas representações em T ou
em π teremos simetria se Z1 = Z2 , que implica z11 = z22 e y11 = y22 . Em se tratando dos
parâmetros de transmissão teremos simetria se A = D pois
z11 z22
A= e D= . (2.78)
z21 z21
58 Newton Barros de Oliveira

Conseqüentemente, para quadripolos simétricos a impedância caracterı́stica simplifica


para r
B
Zc = . (2.79)
C

Transformação da forma T para a forma π


Chamando de ZT i a i-ésima impedância da forma T e de Zπi a i-ésima impedância da forma
π, a transformação de uma forma para a outra pode ser feita de acordo com as relações

Zπ1 Zπ3
ZT 1 = (2.80)
Zπ1 + Zπ2 + Zπ3

Zπ2 Zπ3
ZT 2 = (2.81)
Zπ1 + Zπ2 + Zπ3
Zπ1 Zπ2
ZT 3 = . (2.82)
Zπ1 + Zπ2 + Zπ3

Associação de quadripolos
Dois quadripolos podem ser associados das seguintes formas:

• Série-série (Fig. 2.64). Nesse caso o quadripolo resultante tem os parâmetros de


impedância tais que
z = z 0 + z 00 (2.83)

i1 i2

v1’ Quadripolo’ v2’

v1 v2
i1 i2

v1’’ Quadripolo’’ v2’’

Figura 2.64: Quadripolos associados em série-série.

• Paralelo-paralelo (Fig. 2.65). Nesse caso o quadripolo resultante tem os parâmetros


de admitância tais que
y = y 0 + y 00 (2.84)
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 59

• Série-paralelo (Fig. 2.66). Nesse caso o quadripolo resultante tem os parâmetros


hı́bridos tais que
h = h0 + h00 (2.85)

i1’ i2’

v1 Quadripolo’ v2

i1’’ i2’’

Quadripolo’’

Figura 2.65: Quadripolos associados em paralelo-paralelo.

i1 i2’

v1’ Quadripolo’ v2

v1
i1 i2’’

v1’’ Quadripolo’’

Figura 2.66: Quadripolos associados em série-paralelo.

• Paralelo-série (Fig. 2.67). Nesse caso o quadripolo resultante tem os parâmetros de


condutância tais que
g = g 0 + g 00 (2.86)
• Cascata (Fig. 2.68). Nesse caso o quadripolo resultante tem os parâmetros de trans-
missão tais que    0  00
A B A B A B
= × . (2.87)
C D C D C D
60 Newton Barros de Oliveira

i1’ i2

v1 Quadripolo’ v2’

v2
i1’’ i2

Quadripolo’’ v2’’

Figura 2.67: Quadripolos associados em paralelo-série.

i1 i2

v1 Quadripolo’ Quadripolo’’ v2

Figura 2.68: Quadripolos associados em cascata.

Exemplo:
Determinar os parâmetros z e y para o quadripolo da (Fig. 2.69).

i1 1 W 1W i2

v1 2W 0,5 W v2

Figura 2.69: Uma rede de resistores.

Temos as relações
v1 = z11 i1 + z12 i2

v2 = z21 i1 + z22 i2

então  
v1
z11 = = [(1 + 0, 5) //2] + 1 = (1, 5//2) + 1 = 1, 86 Ω
i1 i2 =0
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 61

e  
v1
z12 = .
i2 i1 =0

Nessa condição (i1 = 0) o resistor de 1 ohm da esquerda não contribui para a tensão v1 e
pode ser desprezado. A corrente i2 será dividida entre o resistor de 0,5 ohm e a associação
em série do resistor de 1 ohm com o de 2 ohms conforme a (Fig. 2.70).

1W i2
i’
v1 2W 0,5 W v2

Figura 2.70: Rede de resistores sem o resistor de 1 ohm da esquerda para o cálculo de z 12 .

Teremos então
0, 5
i0 = i2
1 + 2 + 0, 5
e
0, 5
v1 = 2i0 = 2 i2
3, 5
0, 5
∴ z12 = 2 ≈ 0, 28 Ω.
3, 5
Calculando  
v2
z21 =
i1 i2 =0

vemos o circuito da (Fig. 2.71)

i1 i’ 1 W

2W 0,5 W v2

Figura 2.71: Rede de resistores para o cálculo de z21 .

2
i0 = i1
2 + 1 + 0, 5
e
0, 5 × 2
v2 = 0, 5i0 = i1 ≈ 0, 28i1
3, 5

∴ z21 = 0, 28 Ω
62 Newton Barros de Oliveira

verificando que z21 = z12 .


Por fim calculemos  
v2
z22 =
i2 i1 =0

∴ z22 = (2 + 1) //0, 5 ≈ 0, 43 Ω.
Então podemos escrever
v1 = 1, 86i1 + 0, 28i2
v2 = 0, 28i1 + 0, 43i2
 
1, 86 0, 28
(zij ) = ⇒ ∆z = 1, 86 × 0, 43 − 0, 282 = 0, 72.
0, 28 0, 43
Os parâmetros yij podem então ser calculados por

z22 0, 43 z12 0, 28
y11 = = ≈ 0, 6 Ω−1 y12 = − =− ≈ −0, 39 Ω−1
∆z 0, 72 ∆z 0, 72

z21 0, 28 z11 1, 86
y21 = − =− ≈ −0, 39 Ω−1 y22 = − = ≈ 2, 58 Ω−1
∆z 0, 72 ∆z 0, 72

2.7.5 Propriedades dos quadripolos em função dos parâmetros de


admitância
Muitas vezes os fabricantes de um determinado dispositivo fornecem os parâmetros de
admitância, como no caso dos transı́stores para alta frequência. Conhecendo-se os valores
desses parâmetros é possı́vel determinar os ganhos de tensão e corrente, a impedância
de entrada e a impedância de saı́da do dispositivo presente em um determinado circuito.
Considere o quadripolo terminado mostrado na (Fig. 2.72)

ZF i1 i2

vF v1 Quadripolo v2 ZL

Figura 2.72: Quadripolo alimentado por uma fonte real e com impedância de carga.

Temos as equações do quadripolo

i1 = y11 v1 + y12 v2 , (2.88)

i2 = y21 v1 + y22 v2 (2.89)


e
v2
i2 = − . (2.90)
ZL
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 63

Substituindo a equação (2.90) na equação (2.89) teremos


v2
− = y21 v1 + y22 v2
ZL
 
1
∴ v2 y22 + = −y21 v1
ZL
v2 y21 ZL
∴ =−
v1 y22 ZL + 1
ou seja, o ganho de tensão vale
y21 ZL
KV = − . (2.91)
y22 ZL + 1
Substituindo a equação (2.91) na equação (2.88)
 
y21 ZL y11 + ∆y ZL
i1 = y11 v1 + y12 − v1 = v1
y22 ZL + 1 y22 ZL + 1
então
v1 y22 ZL + 1
Zin = = . (2.92)
i1 y11 + ∆y ZL
Da equação (2.90), dividindo por v1 i1 fica
i2 v2
=−
v 1 i1 v 1 i1 Z L
i2 v2 v1
∴ ZL = −
i1 v 1 i1
ou seja, sendo Ki = i2 /i1
Ki ZL = −KV Zin . (2.93)
Substituindo as equações (2.91 e 2.92) na equação (2.93) fica
y21 ZL y22 ZL + 1
Ki Z L =
y22 ZL + 1 y11 + ∆y ZL
y21
∴ Ki = . (2.94)
y11 + ∆y ZL
Para calcular a impedância de saı́da Zout façamos vF = 0, assim
v1
i1 = −
ZF
e substituindo na equação (2.88) fica
v1
− = y11 v1 + y12 v2
ZF
y12 v2
∴ v1 = − .
y11 + Z1F
64 Newton Barros de Oliveira

Substituindo essa equação na equação (2.89) teremos


y12 v2
i2 = −y21 + y22 v2
y11 + Z1F

−y21 y12 ZF + y22 y11 ZF + y22


∴ i2 = v2
y11 ZF + 1
 
v2 y11 ZF + 1
∴ Zout = = . (2.95)
i2 vF =0 y22 + ∆y ZF

2.7.6 Tabela de conversão dos parâmetros do quadripolo


Essa tabela permite transformar um conjunto de parâmetros em outro conjunto mais con-
veniente. Um conjunto de parâmetros na diagonal é equivalente aos outros parâmetros que
situam-se na mesma linha da tabela.
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência
z11 z12
y22
∆y − y∆12y A ∆T D0
C0
1
C0
∆h
h22
h12
h22
1
g11 − gg12
C C 11

∆g
z21 z22 − y∆21y y11
∆y
1
C
D
C
∆0T A0 − hh22
21 1
h22
g21
g11 g11
C0 C0
z22 1 ∆g g12
∆z − z∆12z y11 y12 D
B − ∆BT A0
B0 − B10 h11 − hh12
11 g22 g22

− z∆21z z11
∆z y21 y22 − B1 A
B − ∆BT00 D0
B0
h21
h11
∆h
h11 − gg21 1
g22
22
0
B0
z11
z21
∆z
z21
− yy21
22
− y121 A B
D
∆T 0 ∆T 0 − h∆21h − hh11 1
g21
g12
g21
21

1 z22 ∆ ∆g
z21 z21 − y21y − yy21
11
C D C0
∆T 0
A0
∆T 0
− hh22
21
− h121 g11
g21 g21
z22
z12
∆z
z12
− yy12
11 1
− y12 D
∆T
B
∆T A 0
B0 1
h12
h11
h12

− g12g − gg12
22

1 ∆
z12
z11
z12 − y12y − yy12
22 C
∆T
A
∆T
C0 D0 h11
h12
∆h
h12 − gg11 − g112
12
y12 g22
∆z z12 1
− g∆12g
0
z22 z22 y11 − y11 B ∆T B 1
h11 h12 ∆g
D D A0 A0

∆y
− zz22
21 1
z22
y21
y11 y11
1
−D C
D − ∆AT0 0 C0
A0
h21 h22 − g∆21g g11
∆g
1 z12 ∆y y12 h22
z11 − z11 y22 y22
C
A − ∆AT C0
D0 − D10 ∆h − h∆12h g11 g12

z21 ∆z 1 ∆T 0
z11 z11 − yy21
22
1
y22 A
B
A D0
B0
D0
− h∆21h h11
∆h
g21 g22

65
Capı́tulo 3

Análise de sinais elétricos

3.1 Representações do sinal senoidal


A função senoidal (ou cossenoidal) é extremamente importante como função de excitação
ou de resposta em um circuito elétrico. Em todo circuito elétrico formado por elemen-
tos lineares e excitado por um sinal senoidal observa-se no estado estacionário (um longo
tempo após o circuito ter sido “ligado”) que a resposta do circuito também é senoidal e
de mesma frequência da excitação. A amplitude e a fase da resposta em geral diferem da
excitação sendo uma função dos parâmetros do circuito e da frequência. Duas propriedades
importantes estão associadas a esse comportamento:
• A derivação e a integração de funções senoidais originam senoides de mesma frequência.
• A soma de senoides de mesma frequência com aplitudes e fases arbitrárias origina
outra senoide de frequência idêntica às anteriores.
Como veremos posteriormente, a função senoidal serve ainda para construir outras
formas de excitações mais complexas via superposição adequada de senoides de diversas
frequências, conhecida como desenvolvimento em série de Fourier.

3.1.1 Representação no domı́nio do tempo (ddt) ou representação


trigonométrica
Seja f (t) um sinal de tensão ou de corrente.

f (t) = A cos(ωt + φ) (3.1)

onde:
A= amplitude (constante),
ω= frequência angular em rad/s,
φ= fase na origem em rad,
t= tempo em s, −∞ < t < ∞.
O perı́odo T é definido como o intervalo de tempo tal que, sendo n um número inteiro,

f (t + nT ) = f (t)

67
68 Newton Barros de Oliveira

ou seja, a função repete seu valor após n perı́odos.


Se φ é positivo, dizemos que a função cos(ωt + φ) está adiantada com relação à função
cos(ωt).

Representação no plano complexo


A função senoidal pode ser representada no plano complexo de duas maneiras diferentes:
Representação por um vetor girante:
Lembrando da definição

F = Aejα ≡ A(cos α + j sin α) (3.2)



onde j = −1, representado na figura (Fig. 3.1) abaixo.

Im

Re

Figura 3.1: Vetor no plano complexo.

Façamos α = ωt + φ, teremos então

f (t) = A cos(ωt + φ) = Re {A [cos(ωt + φ) + j sin(ωt + φ)]}

ou n o
f (t) = Re Aej(ωt+φ) (3.3)

representado graficamente como um vetor girante F(t) no plano complexo (Fig. 3.2).

Im

wt+f

f(t) Re

Figura 3.2: Vetor girante no plano complexo.

Representação por dois vetores girantes:


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 69

Considere o vetor F(t) e o seu conjugado F∗ (t) ,

F = Aejα e F∗ = Ae−jα

com α = ωt + φ, teremos dois vetores girantes em sentidos opostos (Fig. 3.3) e a soma

Im

wt+f
- (w t + f)
Re
F*

Figura 3.3: Vetores girantes em sentidos opostos no plano complexo.

h i
F + F∗ = A ej(ωt+φ) + e−j(ωt+φ) = A [cos(ωt + φ) + j sin(ωt + φ) + cos(ωt + φ) − j sin(ωt + φ)]

F + F∗ = 2A [cos(ωt + φ)]
1
∴ f (t) = A cos(ωt + φ) = [F + F∗ ] . (3.4)
2

3.1.2 Representação no domı́nio das frequências (d.d.f.), repre-


sentação de Fresnel ou representação cissoidal
Tinhamos da equação (3.3)
n o
f (t) = Re Aej(ωt+φ)

que pode ser reescrita como


 n o
e jωt , onde F
f (t) = Re Aejφ ejωt = Re Fe e = Aejφ . (3.5)

Nessa representação separamos a parte temporal da amplitude e da fase na origem. Plota-


remos apenas o “fasor”F e no plano complexo de modo que, teremos apenas a informação da
amplitude e da fase inicial. Esse fasor também é conhecido como “amplitude complexa”(Fig.
3.4).
Para obtermos o sinal real f (t) deveremos multiplicar o fasor Fe pela exponencial tem-
poral ejωt e tomar a parte real do resultado.
Vejamos quais são as vantagens desse tipo de representação:
Ocorre, muitas vezes, a necessidade de derivar ou integrar um sinal senoidal quando
estamos analisando um circuito. Por exemplo, em um indutor a tensão e a corrente estão
70 Newton Barros de Oliveira

Im

~
F

Re

Figura 3.4: Fasor no plano complexo.

di
relacionados por uma derivada (vL = L dt ) assim, ao derivar um sinal senoidal podemos
encurtar a notação da seguinte maneira:
n o  h i  
df (t) d  
= Re Fe e jωt = Re d Fe e jωt = Re F e d ejωt
dt dt dt dt
df (t) n o
∴ e jωt
= Re jω Fe
dt
compare agora com n o
e jωt .
f (t) = Re Fe
Observe a correspondência
e
f (t) → F
df (t) e
→ jω F. (3.6)
dt
O fasor jω F e é um fasor ω vezes maior que F e girado de π/2 com relação a F e como
mostra a (Fig 3.5). Podemos dizer então que, derivar no domı́nio do tempo corresponde a
multiplicar por jω no domı́nio da frequência. Vejamos o que ocorre ao integrar f (t) .

Im
~
jwF
~
F
. f

Re

Figura 3.5: Fasor girado de π/2 no plano complexo.

Z Z n o Z   
f (t)dt = e jωt dt = Re
Re Fe e jωt dt = Re 1 Fe
Fe e jωt .

Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 71

e possui uma amplitude ω vezes menor que a amplitude de F


O fasor 1/(jω)F e e está
e pois 1/j = −j. Veja a (Fig. 3.6).
girado de −π/2 com relação a F

Im

~
F

f
.
~ Re
F/(jw)

Figura 3.6: Fasor girado de −π/2 no plano complexo.

Observe a correspondência
e
f (t) → F
Z
1 e
f (t)dt → F. (3.7)

Um exemplo simples mostrará a utilidade dessa representação:
Considere um circuito RC excitado por uma tensão cossenoidal v(t) (Fig. 3.7). Admita
que no regime estacionário a corrente que passa pelo circuito também seja cossenoidal
podendo estar defasada da excitação.
v(t) = v0 cos(ωt + φ) (3.8)
i(t) = i0 cos(ωt + α). (3.9)

i(t) R

v(t) ~ C

Figura 3.7: Circuito RC com excitação cossenoidal.

A equação da malha pode ser escrita como


Z
1
R i(t) + i(t)dt = v(t).
C
72 Newton Barros de Oliveira

A equação correspondente em variáveis complexas que terá a equação anterior como


parte real será escrita como
Z
1
R I(t) + I(t)dt = V(t)
C
onde I(t) e V(t) são complexos tais que
n o
i(t) = Re {I(t)} = Re eIejωt , eI = i0 ejα

e n o
e jωt ,
v(t) = Re {V(t)} = Re Ve e = v0 ejφ .
V
Em termos fasoriais a equação diferencial complexa torna-se uma equação algébrica
1 1 e jωt
ReIejωt + Ie e jωt
= Ve
C jω
ou
1 e e
ReI + I=V
jωC
e
V e
V 1 1
∴ eI = 1 = , e =R+
Z =R−j .
R + jωC e
Z jωC ωC
Veja (Fig. 3.8) e (Fig. 3.9).
~
Im I
jwC

~
RI
-q ~
V

f a

Re

Figura 3.8: Soma dos fasores das tensões.

Ze é definida como a impedância complexa do circuito RC e também pode ser escrita


na forma polar (Fig. 3.9)
s  2  
e = Zejθ , 1 1
Z Z = R2 + θ = arc tan − .
ωC RωC

Também podemos reescrever a relação entre o fasor corrente e a impedância complexa


como
v0 ejφ
i0 ejα =
Zejθ
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 73

Im

R
-q Re
1
jwC ~
Z

Figura 3.9: Impedância complexa do circuito RC.

ou seja, na equação (3.9)


v0
i0 = e α=φ−θ
Z
onde vemos que a amplitude da corrente vale 1/Z da amplitude da tensão e que a corrente
está atrasada de θ com relação à tensão. Em outras palavras, θ representa a diferença de
fase entre a tensão da fonte e a corrente no circuito. Observe contudo que θ é negativo logo,
a corrente está adiantada com relação à tensão.
Como podemos ver no exemplo anterior, i0 e α dependem da frequência angular ω (ou
f, ω = 2πf ), ou seja, a amplitude (módulo) e o argumento do fasor eI são funções dessa
frequência. Esse fato sugere uma representação do fasor em função da frequência angular
ω (ou da frequência f ), essa representação é conhecida como representação espectral do
fasor Fe no domı́nio da frequência (Fig 3.10).

~ ~
F Arg (F)
A
f

w ou f w ou f

Figura 3.10: Espectro de amplitude e fase de um fasor.

3.1.3 Excitação senoidal amortecida


Enquanto a função senoidal pura está associada ao regime permanente dos circuitos elétricos,
a função senoidal amortecida está associada ao regime transitório conforme veremos no es-
tudo da transformação de Laplace. Um exemplo simples onde encontramos tal função é
o caso de um capacitor inicialmente carregado que é conectado em série a um resistor e
74 Newton Barros de Oliveira

a um indutor formando um circuito RLC. Observa-se nesse circuito que, após a conexão,
estabelece-se uma corrente oscilatória amortecida desde que o resistor seja menor que um
certo valor crı́tico.
No domı́nio do tempo escreveremos:

f (t) = Aeσt cos (ωt + φ) , −∞ < t < ∞ (3.10)

onde a constante σ é real, positiva ou negativa. Quando σ < 0 temos uma oscilação
decrescente no tempo e a constante γ = −σ é conhecida como constante de amortecimento.
Veja a (Fig. 3.11) para σ < 0.

f(t)

2.5

1.25

0
-1.25 0 1.25 2.5 3.75 5
t
-1.25

-2.5

Figura 3.11: Sinal oscilatório amortecido.

Essa função não é periódica mas corta o eixo dos tempos em intervalos de tempo iguais
e por isso dizemos que ela é “pseudo-periódica”.

Representações no plano complexo

Por um vetor girante


n o
f (t) = Re Aeσt ej(ωt+φ) = Re {F(t)} , F(t) = Aeσt ej(ωt+φ)

nesse caso, definimos Aeσt como sendo uma amplitude função do tempo. Representamos
na figura (Fig. 3.12) onde α = ωt + φ e σ < 0.

Por dois vetores girantes Podemos, como no caso da excitação senoidal pura, escrever
o sinal também como
1 1 n σt h j(ωt+φ) io
f (t) = {F(t) + F∗ (t)} = Ae e + e−j(ωt+φ) .
2 2
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 75

Im

Re

Figura 3.12: Representação do sinal oscilatório amortecido por um vetor girante.

Representação fasorial ou de Fresnel


Trata-se de uma representação realizada também no plano complexo onde o vetor complexo
é escrito em função de uma frequência complexa. Escrevemos
n o n o n o
f (t) = Re Aeσt ej(ωt+φ) = Re Aejφ e(σ+jω)t = Re Fe e (σ+jω)t .

Definimos
s = σ + jω, como a frequência complexa
e
e = Aejφ ,
F como a amplitude complexa.
Ou seja n o
e st .
f (t) = Re Fe

Ao derivar f (t) com relação ao tempo teremos


n o   
df (t) d e st d e st  n
e st
o
= Re Fe = Re Fe = Re sFe
dt dt dt

e ao integrar f (t) no tempo fica


Z Z Z  ( )
n o e
F
f (t)dt = e
Re Fe st
dt = Re e st
Fe dt = Re est .
s

Observe as correspondências
e
f (t) → F, (3.11)
df (t) e = (σ + jω) F,
e
→ sF (3.12)
dt
Z e e
F F
f (t)dt → = , (3.13)
s (σ + jω)

e é um vetor com amplitude σ 2 + ω 2 vezes maior que F
(σ + jω) F e girado de um ângulo
e (θ > 0 no sentido anti-horário). Veja a (Fig. 3.13).
θ =arc tan(ω/σ) com relação à F
76 Newton Barros de Oliveira

Im
~
sF
~
F
q
f
Re

Figura 3.13: Representação do fasor resultante da derivação.

Plano das frequências complexas


É, por definição, o plano complexo onde está representado o valor de s = σ + jω, (Fig.
3.14).

jw

.s

o s

. s*

Figura 3.14: Representação da frequência complexa.

Quando σ < 0 temos um sinal senoidal amortecido exponencialmente. Corresponde ao


semi-plano esquerdo.
Quando σ > 0 temos um sinal senoidal crescente exponencialmente. Corresponde ao
semi-plano direito.
Quando σ = 0 temos um sinal senoidal puro (eixo jω, imaginário).
Quando jω = 0 temos um sinal exponencial puro (eixo real).

3.2 Série de Fourier


A origem da série de Fourier está ligada à solução de problemas de transmissão de calor
com determinadas condições de contorno que datam do século XVIII.
Em eletrônica, a série de Fourier encontra uma grande aplicação na análise de sinais
periódicos (excitações ou respostas) presentes nos circuitos elétricos. Por função periódica,
entendemos como sendo uma função que repete o valor a intervalos regulares. Em particular,
nos interessa as funções que tem o tempo como variável, os sinais f (t), de modo que a
periodicidade pode ser posta como:

f (t + nT0 ) = f (t), ∀ t, sendo n um número inteiro relativo e T0 o perı́odo.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 77

Consideremos que o sinal f (t) tenha um número finito de descontinuidades, tenha um


número finito de extremos e que seja absolutamente convergente num intervalo igual ao
perı́odo, ou seja
Z t+T0
|f (t)| dt = número finito.
t

Essas condições são o caso periódico das condições de Dirichlet (condições de Dirich-
let dentro de um perı́odo). Pode-se demonstrar, nesse caso, que a função f (t) pode ser
desenvolvida em uma série trigonométrica do tipo

X
f (t) = a0 + [an cos (nω0 t) + bn sen (nω0 t)] , t0 < t < t 0 + T0 (3.14)
n=1

onde

ω0 = = 2πf0
T0
e a0 , an e bn são constantes a determinar.
Essa série é conhecida como série de Fourier na forma trigonométrica.
Determinemos agora os coeficientes da série. Para isso começemos por integrar f (t) num
intervalo igual ao perı́odo,
Z t0 +T0 Z t0 +T0 Z t0 +T0 (X

)
f (t)dt = a0 dt + [an cos (nω0 t) + bn sen (nω0 t)] dt
t0 t0 t0 n=1

X∞  t0+T0
an bn
= a 0 T0 + sen (nω0 t) − cos (nω0 t) = a 0 T0
n=1
nω0 nω0 t 0

pois
       
t +T0 2π 2π 2π 2π
[sen (nω0 t)]t00 = sen n (t0 + T0 ) −sen n (t0 ) = sen n (t0 ) −sen n (t0 ) = 0
T0 T0 T0 T0
t
o mesmo vale para o termo [cos (nω0 t)]t0+T0 .
0
Sendo assim,
Z t0 +T0
1
a0 = f (t)dt (3.15)
T 0 t0
ou seja, a0 é o valor médio de f (t) no intervalo igual ao perı́odo (t0 → t0 +T0 ). Denominamos
a0 de componente contı́nua do sinal f (t), podendo inclusive ser nula.
Para calcular os outros coeficientes, consideremos o fato das funções cos (nω 0 t) e sen
(nω0 t) formarem um conjunto de funções ortogonais, no sentido que
Z t0 +T0 
0 se n6=m
[cos (nω0 t) cos (mω0 t)] dt = T0 ,
t0 2 se n=m

Z t0 +T0 
0 se n6=m
[sen (nω0 t) sen (mω0 t)] dt = T0
t0 2 se n=m
78 Newton Barros de Oliveira

e Z t0 +T0
[cos (nω0 t) sen (mω0 t)] dt = 0, ∀ n, m.
t0

Assim, se multiplicarmos a série por cos (mω0 t) e integrarmos em um perı́odo teremos


Z t0 +T0
[f (t) cos (mω0 t)] dt =
t0

Z Z ( ∞
)
t0 +T0 t0 +T0 X
[a0 cos (mω0 t)] dt + [an cos (nω0 t) + bn sen (nω0 t)] cos (mω0 t) dt =
t0 t0 n=1


" Z # ∞
" Z #
X t0 +T0 X t0 +T0
0+ an cos (nω0 t) cos (mω0 t) dt + bn sen (nω0 t) cos (mω0 t) dt =
n=1 t0 n=1 t0

T0
am
2
logo
Z t0 +T0
2
an = [f (t) cos (nω0 t)] dt. (3.16)
T0 t0

Se multiplicarmos a série por sen (mω0 t) e integrarmos teremos


Z t0 +T0
[f (t) sen (mω0 t)] dt =
t0

Z Z ( ∞
)
t0 +T0 t0 +T0 X
[a0 sen (mω0 t)] dt + [an cos (nω0 t) + bn sen (nω0 t)] sen (mω0 t) dt =
t0 t0 n=1


" Z # ∞
" Z #
X t0 +T0 X t0 +T0
0+ an cos (nω0 t) sen (mω0 t) dt + bn sen (nω0 t) sen (mω0 t) dt =
n=1 t0 n=1 t0

T0
bm
2
logo
Z t0 +T0
2
bn = [f (t) sen (nω0 t)] dt. (3.17)
T0 t0

Assim, determinamos todos os coeficientes.


A série de Fourier pode ser posta numa forma mais compacta do tipo

X
f (t) = a0 + cn cos (nω0 t + θn ) , t0 < t < t 0 + T 0 . (3.18)
n=1

Se desenvolvermos o cosseno da soma teremos:

cn cos (nω0 t + θn ) = cn [cos (nω0 t) cos (θn ) − sen (nω0 t) sen (θn )]
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 79

e comparando os respectivos termos em cosseno e seno com os da série na forma trigo-


nométrica equação (3.14) fica

cn cos (θn ) = an e − cn sen (θn ) = bn

logo
sen (θn ) bn
=−
cos (θn ) an
bn
∴ θn = − arctan (3.19)
an
e  
c2n cos2 (θn ) + sen2 (θn ) = a2n + b2n
p
∴ cn = a2n + b2n . (3.20)
O termo c1 cos (ω0 t + θ1 ) da série é chamado de termo de frequência fundamental (fre-
quência f0 ) e o termo cn cos (nω0 t + θn ) é chamado de termo de frequência harmônica de
grau n (frequência nf0 ).
Algumas propriedades importantes na série de Fourier:

1. Nos pontos de descontinuidade a série de Fourier converge para o valor médio entre o
limite da função à esquerda e o limite da função à direita.

2. Efeitos das simetrias de f (t) na série.


Se f (t) é par, ou seja, se f (t) = f (−t) ⇒ bn = 0.
Se f (t) é ı́mpar, ou seja, se f (t) = −f (−t) ⇒ a0 = an = 0.
Se f (t) tem “simetria de meia onda”, ou seja, f (t) = −f (t± T20 ) ⇒ a0 = a2n = b2n = 0.

3.2.1 Série de Fourier na forma complexa


Como a série de Fourier é uma série de senos e cossenos, propõe-se que o sinal f (t) também
possa se expandido em termos de uma série de exponenciais complexas do tipo

X
f (t) = cn ejnω0 t (3.21)
n=−∞

ou
f (t) = ... + c−2 e−j2ω0 t + c−1 e−j1ω0 t + c0 + c1 ej1ω0 t + c2 ej2ω0 t + ....
Se multiplicarmos f (t) por e−jmω0 t e integrarmos num perı́odo teremos
Z t0 +T0 Z t0 +T0 " X

#
f (t)e−jmω0 t dt = cn ejnω0 t e−jmω0 t dt =
t0 t0 n=−∞


" Z #
X t0 +T0
j(n−m)ω0 t
cn e dt .
n=−∞ t0
80 Newton Barros de Oliveira

Para n 6= m fica
Z t0 +T0 ∞ 
X t0 +T0
1
f (t)e−jmω0 t dt = cn j(n−m)ω ej(n−m)ω0 t =
0
t0 n=−∞ t0

∞ 
X h i
1 j(n−m)ω0 (t0 +T0 ) j(n−m)ω0 t0
cn j(n−m)ω e −e =
0
n=−∞
∞ 
X h i
1 j(n−m)ω0 t0 j(n−m)ω0 t0
cn j(n−m)ω e −e =0
0
n=−∞

pois
2π 2π 2π
ej(n−m)ω0 (t0 +T0 ) = ej(n−m) T0 (t0 +T0 ) = ej(n−m) T0 t0 ej(n−m)2π = ej(n−m) T0 t0 1 =

ej(n−m)ω0 t0 .
Para n = m fica
Z t0 +T0 Z t0 +T0
f (t)e−jmω0 t dt = cm dt = cm T0
t0 t0

e consequentemente
Z t0 +T0
1
cn = f (t)e−jnω0 t dt. (3.22)
T0 t0

Podemos também relacionar a série na forma complexa com a série de cossenos vista
anteriormente. Inicialmente, como f (t) é um sinal real, teremos que
Z t0 +T0 Z t0 +T0
1 1
c∗n = f (t)ejnω0 t dt = f (t)e−j(−n)ω0 t dt
T0 t0 T0 t0

ou seja,
c∗n = c−n
e a série complexa pode ser escrita como:

f (t) = ... + c∗2 e−j2ω0 t + c∗1 e−j1ω0 t + c0 + c1 ej1ω0 t + c2 ej2ω0 t + ...

ou seja, ( )

X
jnω0 t
f (t) = c0 + 2Re cn e .
n=1

Escrevendo cn como
cn = |cn | ejαn
teremos
( ∞
) ( ∞
)
X X
jαn jnω0 t j(nω0 t+αn )
f (t) = c0 + 2Re |cn | e e = c0 + 2Re |cn | e
n=1 n=1
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 81

ou

X
f (t) = c0 + 2 |cn | cos (nω0 t + αn ) .
n=1

Comparando com a série na forma de cossenos, equação (3.18)



X
f (t) = a0 + cn cos (nω0 t + θn ) ,
n=1

concluiremos que
 
cn bn
|cn | = c0 = a 0 e αn = θn = − arctan p/ n = 1, 2, 3...
2 an
e como c∗n = c−n teremos
 
c|n| b|n|
|cn | = e αn = arctan p/ n = −1, −2, −3....
2 a|n|
Quando desenvolvemos uma função na série de Fourier complexa usualmente represen-
tamos o espectro de amplitude e fase do coeficiente cn , observando que os espectros são
funções discretas das frequências ±ω0 , ±2ω0 , ±3ω0 ... . Veja (Fig. 3.15).

cn Componente Arg (cn)


contínua

-3w0 -2w0 -w0 o w0 2w0 3w0 -3w0 -2w0 -w0 o w0 2w0 3w0
w ou f w ou f

Figura 3.15: Espectros de amplitude e fase discretos.

Vejamos agora um desenvolvimento muito importante, o desenvolvimento em série de


Fourier dos pulsos periódicos.
Consideremos um sinal f (t) na forma de pulsos retangulares (pulsos ideais) com duração
τ , perı́odo T0 e amplitude A como mostrado na (Fig 3.16).
 
A se − τ2 ≤ t ≤ τ2
f (t) = .
0 se τ2 < t < T0 − τ2
Expandindo na série complexa

X Z t0 +T0
1
f (t) = cn e jnω0 t
, cn = f (t)e−jnω0 t dt
n=−∞
T0 t0

teremos: Z τ
1 2 1 τ τ
cn = Ae−jnω0 t dt = A [t]−2 τ = A , p/ n = 0
T0 − τ2 T0 2 T0
82 Newton Barros de Oliveira

f(t)

t
-t/2 t/2 T0 - t/2
T0

Figura 3.16: Pulsos periódicos.

e Z τ
1 2 1 A  −jnω0 t  τ2
cn = Ae−jnω0 t dt = e − τ2
, p/ n 6= 0
T0 − τ2 T0 −jnω0

1 jA  −jnω0 τ τ  jA h  τ i
∴ cn = e 2 − ejnω0 2 = −2jsen nω0 , p/ n 6= 0
T0 nω0 T0 nω0 2

  
sen nω0 τ2 τ sen nω0 τ2 τ sen nω0 τ2
∴ cn = 2A = 2A =A , p/ n 6= 0.
T0 nω0 T0 nω0 τ T0 nω0 τ2
τ
Definimos o fator de forma, fator cı́clico ou “duty cycle”η ≡ T0 , de modo que

sen nω0 τ2
cn = Aη p/ n 6= 0. (3.23)
nω0 τ2
sen(nω0 τ )
Se observarmos que o limite quando n → 0 de nω0 τ 2 é a unidade, podemos escrever
2

τ

sen nω0 2
cn = Aη p/ n = 0, ±1, ±2, ±3... .
nω0 τ2
A função 
τ sen ω τ2
Sa (ω ) = (3.24)
2 ω τ2
é chamada de função amostragem. Veja a (Fig. 3.17).
Observe que nesse exemplo o coeficiente cn é real e o desenvolvimento em série fica
1
X ∞
X
f (t) = cn ejnω0 t + Aη + cn ejnω0 t com c−n = c∗n = cn
n=−∞ n=1

então ∞ 
X sen nω0 τ2
f (t) = Aη + 2Aη cos (nω0 t)
n=1
nω0 τ2
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 83

Sa(x) 1

0.75

0.5

0.25

0
-15 -10 -5 0 5 10 15
x

Figura 3.17: Função amostragem.

pois
e−jnω0 t + ejnω0 t = 2 cos (nω0 t) .
Vejamos o espectro de amplitude de cn . A função

sen nω0 τ2
nω0 τ2

é do tipo sen(x)
x ressalvando o fato do argumento ter variação discreta. Portanto, c n será
zero sempre que sen(x) o for, logo
τ
cn = 0 ⇒ nω0 = kπ, para k inteiro relativo
2
2kπ
∴ cn = 0 ⇒ ω = nω0 =
τ
Veja (Fig. 3.18).
A distância entre os zeros consecutivos da envoltória é dada por 2π
τ e a distância entre
as harmônicas é ω0 . Observe também que as amplitudes dos coeficientes |cn | não dependem
do perı́odo isoladamente mas sim do fator cı́clico η = Tτ0 pois
τ 2π τ τ
nω0 =n = nπ = nπη
2 T0 2 T0
e expressando cn em termos de η fica
sen (nπη)
cn = Aη (3.25)
nπη
de modo que, se mantivermos o fator cı́clico constante, teremos os mesmos coeficientes
qualquer que seja o perı́odo T0 . 
O espectro de fase alternará entre 0 e ±π de acordo com o sinal de sen nω0 τ2 que pode
ser positivo ou negativo. Veja (Fig. 3.19).
Podemos tirar algumas conclusões importantes:
84 Newton Barros de Oliveira

cn
Ah
1

0.75

0.5

0.25

-5 -2.5 0 2.5 5 w
... -2w -w
0 0 w0 2w0 3w0 4w0 5w0 6w0 ...

Figura 3.18: Espectro da amplitude de cn para o pulso periódico com τ = 2 e T0 = 8, 5.

1. Se o perı́odo T0 aumenta, mantendo a duração τ constante, as linhas espectrais aproxi-


mam-se, pois a separação entre elas vale ω0 = 2π
T0 contudo, a envoltória não se modifica
pois os zeros da envoltória estão separados por 2π τ . Assim, podemos dizer que os
lóbulos se enchem de harmônicos.

2. Se τ diminui (pulso mais estreito) mantendo o perı́odo T0 constante, a separação entre


os harmônicos não se altera, contudo a envoltória se alargará.

3.3 Transformação de Fourier


Consideremos que no exemplo anterior (pulsos periódicos) o perı́odo T0 tenda ao infinito.
Como os harmônicos aproximam-se uns dos outros o gráfico de barras do espectro de ampli-
tude tende a tomar uma forma contı́nua, mantendo a forma da envoltória. As amplitudes
|cn | dos componentes individuais de frequência nω0 diminuirão.
Tomemos por hipótese, como caso geral, que o sinal f (t) continue a satisfazer as condições
de Dirichlet mas que o perı́odo tenda ao infinito de modo obtermos uma função não
periódica. Temos das equações (3.21) e (3.22) que


X Z T0
1 2
f (t) = cn e jnω0 t
e cn = f (t)e−jnω0 t dt
n=−∞
T0 −
T0
2

e definamos ωn = nω0 de modo que cn seja uma função de ωn .


Seja
Z T20
F(ωn ) = cn (ωn ) T0 = f (t)e−jωn t dt.
T0
− 2
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 85

Arg(cn)

... p

...
.. w
... -2w -w
0 0 w0 2w0 3w0 4w0 5w0 6w0 ...

-p

Figura 3.19: Espectro da fase de cn para o pulso periódico.

Teremos então
X∞ ∞
F(ωn ) jnω0 t 1 X
f (t) = e = F(ωn )ω0 ejnω0 t .
n=−∞
T0 2π n=−∞

Ora, ω0 é a separação entre os harmônicos que, no limite quando T0 → ∞, tende a


um infinitésimo dω. Além disso, se considerarmos que ωn = nω0 tende a ser uma função
contı́nua, a soma discreta tenderá a uma integral e teremos
Z ∞ Z ∞
1
f (t) = jωt
F(ω)e dω e F(ω) = f (t)e−jωt dt. (3.26)
2π −∞ −∞

Podemos considerar F(ω)dω como a amplitude dos componentes com variação contı́nua
em ω, ejωt . F(ω) é conhecida como a transformada de Fourier de f (t) ou ainda função de
densidade espectral. Dizemos que

f (t)  F(ω) ou F(ω) = F {f (t)} e f (t) = F −1 {F(ω)} .

Como F(ω) é em geral complexa, podemos escrever

F(ω) = |F(ω)| ejφ(ω)

e a representação de |F(ω)| em função de ω é o espectro de amplitude e φ (ω) em função de


ω é o espectro de fase.
Consideremos como exemplo um pulso de duração τ e amplitude A centrado na origem
como mostrado na (Fig. 3.20).

A para − τ2 ≤ t ≤ τ2
f (t) = .
0 para t < − τ2 ou t > τ2
86 Newton Barros de Oliveira

f(t)

t
-t/2 t/2

Figura 3.20: Pulso na origem.

Calculando a transformada de Fourier


Z ∞ Z τ
2 A  −jω τ τ 
F(ω) = f (t)e−jωt dt = A e−jωt dt =
e 2 − ejω 2

−∞ − τ2 −jω
 τ 
A sen ω τ2
F(ω) = 2sen ω = Aτ ,
ω 2 ω τ2
logo F(ω) é real! Veja a (Fig. 3.21).

F(w)
At

Figura 3.21: Transformada de Fourier do pulso na origem.

O pulso do exemplo anterior não é fisicamente realizável porque existe para tempos
negativos. Para torna-lo realizável deveremos fazer uma tanslação no tempo de valor τ2 .
Veja (Fig. 3.22) 
A para 0 ≤ t ≤ τ
f (t) = .
0 para t < 0 ou t > τ
Calculando a transformada de Fourier
Z ∞ Z τ
A  −jωt τ
F(ω) = f (t)e−jωt dt = A e−jωt dt = e 0
−∞ 0 −jω

A  −jωτ  A −jω τ  −jω τ jω τ 
−jω τ sen ω τ2
F(ω) = e −1 = e 2 e 2 − e 2 =e 2 Aτ ,
−jω −jω ω τ2
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 87

f(t)

o t t
Figura 3.22: Pulso deslocado.

onde vemos que a translação no tempo de τ2 corresponde a multiplicar a transformada do


τ
pulso anterior por e−jω 2 .
Nesse caso a transformada não é mais real apesar do módulo possuir o mesmo valor do
caso anterior. Veja a (Fig. 3.23).

F(w) Arg[F(w)]

At

p w

Figura 3.23: Transformada de Fourier do pulso deslocado.

h  τ  τ i 
sen ω τ2
F(ω) = cos ω − jsen ω Aτ .
2 2 ω τ2

Pode-se também plotar a parte real e a parte imaginária. Veja (Fig. 3.24).

 τ  sen ω τ  τ sen 2ω τ2

2
Re {F(ω)} = Aτ cos ω =A
2 ω τ2 2 ω τ2

e

sen2 ω τ2
Im {F(ω)} = −jAτ .
ω τ2
88 Newton Barros de Oliveira

Re{ F(w)} Im{F(w)}


At At

w w

Figura 3.24: Transformada de Fourier do pulso deslocado. Parte real e parte imaginária.

3.3.1 Propriedades importantes da transformada de Fourier


Linearidade
A transformada de Fourier é uma operação linear, isto é, se

f1 (t)  F1 (ω) e f2 (t)  F2 (ω)

então
af1 (t) + bf2 (t)  aF1 (ω) + bF2 (ω) . (3.27)

Reciprocidade
Se
f (t)  F (ω)
então
f (ω)  F (t) . (3.28)

Translação no tempo
Se
f (t)  F (ω)
então
f (t ± T )  e±jωT F (ω) . (3.29)

Derivação e integração
Se
f (t)  F (ω)
então
d
f (t)  jωF (ω) . (3.30)
dt
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 89

pois
Z ∞ Z ∞ Z ∞
d 1 ∂   1 1
f (t) = F(ω)ejωt dω = F(ω)jωe jωt
dω = jωF(ω)ejωt dω
dt 2π −∞ ∂t 2π −∞ 2π −∞

ou Z ∞
d 1
f (t) = G(ω)ejωt dω onde G(ω) = jωF(ω).
dt 2π −∞

Assim
d
f (t)  G(ω).
dt
Podemos generalizar para
dn n
f (t)  (jω) F(ω). (3.31)
dtn
De modo semelhante teremos para a integração
Se
f (t)  F (ω)
então Z
1
f (t)dt  F (ω) . (3.32)

3.4 Transformada de Laplace ou T. de Fourier com-


plexa
Existem sinais f (t) realizáveis que não satisfazem a condição de convergência absoluta
necessária para que exista a transformada de Fourier, isto é:
Z
|f (t)| dt não é finita.

O exemplo mais simples talvez seja o degrau unitário u(t), veja a (Fig. 3.25) tal que

0 se t < 0
u(t) = .
1 se t ≥ 0

u(t)

o t

Figura 3.25: Degrau u(t).


90 Newton Barros de Oliveira

Observe que não existe a transformada de Fourier para essa função pois
Z ∞ Z ∞
f (t)e−jωt dt = 1e−jωt dt
−∞ 0

é uma função oscilatória que não tem limite quando t → ∞.


Para forçar a convergência dessa integral basta multiplicar o integrando por e −σt , σ > 0.
Consideraremos, por hipótese, que o sinal f (t) é nulo para tempos negativos.
Criaremos uma nova tansformação definida por
Z ∞
L (σ + jω) ≡ f (t)e−(σ+jω)t dt, σ>0
0
ou Z ∞
L (s) ≡ f (t)e−st dt, s = σ + jω é a frequência complexa. (3.33)
0
Um sinal f (t) é transformável se existir um valor de σ, real e positivo tal que
Z ∞
|f (t)| e−σt dt é um número finito.
0

Observe que um sinal do tipo f (t) = at terá transformada de Laplace pois


limt→∞ te−σt = 0 para σ > 0
e Z ∞
1
te−σt dt = para σ > 0.
0 σ2
De modo semelhante, sinais do tipo f (t) = atn também possuem transformada de
Laplace.
n
Como exemplo de funçãoR ∞ não transformável temos f (t) = eat pois não existe valor
−σt
de σ que faça a integral 0 |f (t)| e dt convergir. Observe contudo, que esse sinal não
é realizável fisicamente, pois não existe gerador capaz de manter um sinal desse tipo para
todos os instantes de tempo. Haverá um instante t0 em que o gerador saturará em um valor
constante K e para esse sinal real haverá transformada de Laplace.
Vejamos alguns exemplos simples:
1- Degrau unitário  
0 se t < 0
u(t) = .
1 se t ≥ 0
Z ∞
1 ∞ 1
L {u(t)} = 1e−st dt = − e−st 0 = (3.34)
0 s s
Se o degrau tiver uma amplitude V0 (uma bateria de tensão V0 ligada em t = 0) teremos
como transformada V0 /s.
2- Sinal exponencial
f (t) = eat , a constante
Z ∞ Z ∞
 at −st 1
L e at
= e e dt = e−(s−a)t dt = , σ>a (3.35)
0 0 s−a
ou seja, para todos os valores de σ > a existe a transformada de valor 1/(s − a).
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 91

3.4.1 A transformada inversa


O problema agora é encontrar a função f (t) a partir de L(s), ou seja, a transformada inversa
de Laplace. Pode-se mostrar que f (t) pode ser obtida pela integral complexa seguinte
Z σ+j∞
1
f (t) = L(s)est ds. (3.36)
j2π σ−j∞

Essa é uma integral de caminho cujo caminho de integração é ao longo da linha vertical
s = σ1 de jω = −∞ até jω = ∞ no plano complexo. Veja a (Fig. 3.26).

jw

o a s1 s

Figura 3.26: Integração em uma linha no plano complexo.

O valor de σ1 deve ser tal que garanta a convergência da transformada direta de Laplace
(σ > a como vimos anteriormente). Felizmente, na maioria dos casos não é necessário
calcular tal integral, pois também pode-se mostrar que a transformada de Laplace é única.
Não existem duas funções diferentes (para t > 0) com a mesma transformada. Portanto,
desde que saibamos calcular a transformada direta, poderemos construir uma tabela de
pares de transformadas e a utilizaremos sempre que for necessário.
Utilizando o sı́mbolo L−1 para a transformada inversa teremos

L−1 {L {f (t)}} = L−1 {L(s)} = f (t).

3.4.2 Propriedades fundamentais da transformada de Laplace


Linearidade
A transformada de Laplace é uma operação linear.
Se
f1 (t)  L1 (s) e f2 (t)  L2 (s)
então
af1 (t) + bf2 (t)  aL1 (s) + bL2 (s) . (3.37)
92 Newton Barros de Oliveira

Como aplicação dessa propriedade calculemos a transformada das funções cos(ωt) e


sen(ωt).
jωt −jωt
Para f (t) = cos(ωt) = e +e 2 fica
1   jωt  
L {cos (ωt)} = L e + L e−jωt
2
como
 1
L ejωt = , σ>0
s − jω
e
 1
L e−jωt = , σ>0
s + jω
teremos
 
1 1 1 1 s + jω + s − jω s
L {cos (ωt)} = + = 2 2
= 2 , σ > 0. (3.38)
2 s − jω s + jω 2 s +ω s + ω2
jωt −jωt
Para f (t) = sen(ωt) = e −e
2j fica
 
1 1 1 1 s + jω − s + jω ω
L {sen (ωt)} = − = = 2 , σ>0 (3.39)
2j s − jω s + jω 2j s2 + ω 2 s + ω2

Propriedade de translação no tempo


Se f (t)  L (s) então f (t − T )  e−sT L (s), ou seja, deslocar um sinal no tempo como na
(Fig. 3.27) corresponde a multiplicar a transformada de Laplace do sinal por e−sT . Observe
que f (t − T ) = 0 para 0 < t < T .

f(t) f(t-T)

o t o T t

Figura 3.27: Deslocamento no tempo.

Para mostrar essa propriedade tomemos


Z∞
0
L(s) = f (t0 )e−st dt0
0
0
e façamos a mudança de variável t = t − T
Z∞ Z∞ Z∞
−s(t−T ) −st
L(s) = f (t − T )e dt = e sT
f (t − T )e dt = e sT
f (t − T )e−st dt =
T T 0
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 93

esT L {f (t − T )}
logo
L {f (t − T )} = e−sT L {f (t)} . (3.40)
Como aplicação dessa propriedade considere o cálculo da transformada de Laplace de
um pulso de duração τ que inicia em t = 0. Veja a (Fig. 3.28).

f(t)

o t t
Figura 3.28: Pulso com duração τ .


A para 0 < t < τ
f (t) = .
0 para t < 0 ou t > τ
Observe que o pulso é equivalente à subtração entre um degrau e um degrau deslocado
por τ . Veja a (Fig. 3.29)

f(t) u(t) u(t-t)


A A A

o t t o t o t t

Figura 3.29: Pulso com duração τ como superposição de um degrau com um degrau deslo-
cado.

f (t) = Au(t) − Au(t − τ ).


Fazendo a transformada teremos
 
L {f (t)} = AL {u(t)} − AL {u(t − τ )} = A L {u(t)} − e−sτ L {u(t)}
 
1 −sτ 1 1 − e−sτ
∴ L {f (t)} = A −e =A
s s s

Propriedade de derivação
Desejamos agora calcular a transformada de Laplace da derivada de um sinal f (t).
  Z∞
d d
L f (t) = f (t)e−st dt.
dt dt
0
94 Newton Barros de Oliveira

Integremos por partes fazendo


u = e−st ∴ du = (−s) e−st dt e dv = df (t) ∴ v = f (t)
e lembrando que
Zb Zb
b
udv = [uv]a − vdu
a a
teremos
  Z∞
d  −st
∞  ∞
L f (t) = e f (t) 0
− f (t) (−s) e−st dt = e−st f (t) 0 + sL(s).
dt
0

Se a função f (t) e suas sucessivas derivadas forem finitas quando t → ∞, podemos


aplicar a regra de L’Hospital para mostrar que
limt→∞ e−st f (t) = 0 com σ > 0.
Sendo assim,  
d
L f (t) = sL {f (t)} − f (0+ ). (3.41)
dt
 
d2 f (t) d df (t)
Para calcular a derivada segunda, dt2 = dt dt , aplicaremos a regra anterior
df (t)
substituindo f (t) por dt ,

  
d2 d d
L 2
f (t) = sL f (t) − f (0+ )
dt dt dt
 2 
d d
∴L 2
f (t) = s2 L {f (t)} − sf (0+ ) − f (0+ ). (3.42)
dt dt
De modo geral, para a derivada de ordem n teremos que
 n 
d + n−2 d + dn−1
L f (t) = s n
L {f (t)} − s n−1
f (0 ) − s f (0 ) − ... − f (0+ ), (3.43)
dtn dt dtn−1
d
onde dt f (0+ ) significa a derivada de f (t) calculada no ponto imediatamente à direita da
origem.

Propriedade de integração
A transformada de Laplace da integral do sinal f (t) é dada por
 t   
Z  Z∞ Zt
L f (t)dt =  f (t)dt e−st dt.
 
0 0 0

Integrando por partes faremos


Zt
u= f (t)dt ∴ du = f (t)dt
0
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 95

e
e−st
dv = e−st dt ∴v=− .
s
Então  t   ∞
Z  e −st Zt Z∞
f (t) −st
L f (t)dt = − f (t)dt + e dt
  s s
0 0 0 0
mas
e−st → 0 quando t → ∞ e σ > 0
e
Zt
f (t)dt → 0 quando t → 0.
0

Logo  t 
Z  1
L f (t)dt = L {f (t)} . (3.44)
  s
0

Observação:
Na resolução de circuitos pela aplicação das leis de Kirchoff, muitas vezes ocorre a
necessidade de integrar o sinal de −∞ até um instante t qualquer. Por exemplo, quando
estão envolvidos capacitores e indutores com cargas e correntes iniciais respectivamente.
Assim, desejamos encontrar a transformada de Laplace de
Zt Z0 Zt
f (t)dt = f (t)dt + f (t)dt.
−∞ −∞ 0

A primeira integral à direita é uma constante. Se f (t) for uma corrente, essa integral
+
será a carga inicial q(0+ ) cuja transformada vale q(0s ) de modo que
 t 
Z  q(0+ ) 1
L f (t)dt = + L {f (t)} . (3.45)
  s s
−∞

3.4.3 Aplicação da transformada de Laplace na resolução de cir-


cuitos
Vejamos um exemplo simples, como um circuito formado por um capacitor e um resistor
em série que é conectado a uma fonte de tensão constante em t = 0 estando o capacitor
inicialmente descarregado. Veja a (Fig. 3.30)
A equação geral do circuito para tempos de −∞ até um instante qualquer t é dada por
Zt
1
i(t)dt + Ri(t) = ε u(t)
C
−∞

onde ε u(t) é uma fonte de tensão ligada em t = 0.


96 Newton Barros de Oliveira

e C

Figura 3.30: Circuito RC.

Aplicando a transformação de Laplace na equação teremos


 
1 q(0+ ) I(s) ε
+ + RI(s) =
C s s s
onde I(s) é a transformada de i(t).
Com a condição inicial de capacitor inicialmente descarregado, teremos q(0 + ) = 0 e a
equação simplifica para
1 ε
I(s) + RI(s) =
sC s
ε ε
s R
∴ I(s) = 1 = 1 .
R+ sC s+ RC
Logo
 ε     
ε −1 1 ε −1 1 1
i(t) = L−1 R
1 = L 1 = L , a=−
s+ RC
R s + RC R s−a RC
ε − RC
t
∴ i(t) =
e para t > 0
R
Como um segundo exemplo consideremos um circuito formado por um indutor e um
resistor em série, conectados a uma fonte de tensão em t = 0. Veja a (Fig. 3.31)

e i(t) L

Figura 3.31: Circuito RL com fonte de tensão constante.

A equação do circuito é
di(t)
L + Ri(t) = ε u(t)
dt
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 97

e transformando a equação teremos


  ε
L sI(s) − i(0+ ) + RI(s) =
s
com a condição inicial i(0+ ) = 0, pois não pode haver variação brusca na corrente de um
indutor que inicialmente é zero (inércia da energia magnética). Teremos então
ε
sLI(s) + RI(s) =
s
ε
s ε 1 ε 1 R
∴ I(s) = = R
= , a=− .
sL + R Ls s+ L
L s (s − a) L
Como não conhecemos a transformada inversa dessa equação, mas conhecemos as trans-
formadas inversas de 1s e s−a
1
, procuraremos escrever a expressão como soma desses dois
termos, ou seja, 
ε 1 k0 k1 k0 s + R
L + k1 s
 = + = 
Ls s+ R L
s s+ LR
s s+ L R

ε R
∴ = (k0 + k1 ) s + k0 .
L L
Igualando os coeficientes dos termos semelhantes temos
R ε
k0 + k 1 = 0 e k 0 =
L L
ε ε
∴ k0 = e k1 = −
R R
portanto
ε ε
R R
I(s) = − R
.
s s+ L
Anti-transformando fica
ε ε R ε  R

i(t) = L−1 {I(s)} = u(t) − e− L t u(t) = 1 − e− L t u(t).
R R R
O método aplicado nesse problema que permite expandir a transformada em soma de
partes separadas é conhecido como “método de expansão em frações parciais”.

3.4.4 Algumas transformadas importantes


Rampa unitária
Considere o sinal f (t) = tu(t) mostrado na (Fig. 3.32).
Observe que para t > 0
df (t)
= u(t)
dt
cuja transformada é 1s . Como também podemos escrever
Z
df (t)
f (t) = dt
dt
98 Newton Barros de Oliveira

s(t)

o t

Figura 3.32: Sinal rampa unitária.

teremos
Z  Z 
df (t) 1 11 1
L {f (t)} = L dt =L u(t)dt = L {u(t)} = = 2. (3.46)
dt s ss s

Poderı́amos também ter calculado diretamente a partir da definição


Z∞
L {f (t)} = te−st dt.
0

Função generalizada δ de Dirac


Outra transformada importante é a da função generalizada δ de Dirac ou função impulso
unitário. Essa função pode ser definida como o caso limite de um pulso de duração t 0 e
amplitude 1/t0 quando t0 → 0. Veja (Fig. 3.33).

f(t)

1/t0

o t t
0

Figura 3.33: Função δ de Dirac.


limt0 →0 t10 para 0 < t < t0
f (t) = .
0 para t > t0
A área desse pulso é t0 1/t0 = 1 ou seja,
Z ∞
f (t)dt = 1,
−∞
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 99

de modo que a função δ de Dirac pode ser definida como uma função que é nula em todos
os pontos menos na origem e que tenha uma área unitária. Calculemos a transformada de
Laplace dessa “função”.

Z t0  t
1 −st 1 e−st 0
L {f (t)} = limt0 →0 e dt = limt0 →0
0 t0 t0 −s 0

1   d
dt0 (1 − e−st0 )
∴ L {f (t)} = limt0 →0 1 − e−st0 = limt0 →0 d
=
t0 s dt0 (t0 s)
se−st0
= limt0 →0 = 1.
s
Assim,
L {δ(t)} = 1 (3.47)
para qualquer valor de s.

3.4.5 Resumo:
O quadro seguinte sumariza os diversos casos estudados.

Tipo de excitação Transformação do


Funções utilizadas
no d.d.t. d.d.t. para o d.d.f.
1- Senoidal pura
Fasores senóides
regime permanente P
2-Periódica e absolutamente de senóides
Série de Fourier
convergente Respectro discreto
3- Não periódica e absolutamente de senóides
Transformada de Fourier
convergente Respectro contı́nuo
4-Não periódica e não de senóides
Transformada de Laplace
absolutamente convergente amortecidas
Capı́tulo 4

Circuitos no domı́nio do tempo.


Regime transitório e
permanente

Faremos agora uma breve discussão sobre a resolução de circuitos no domı́nio do tempo. Não
aprofundaremos muito a discussão em virtude do interesse maior nos circuitos no domı́nio
das frequências.
A aplicação das leis de Kirchoff em um circuito elétrico onde estão presentes resistores,
capacitores e indutores origina, em geral, um sistema de equações diferenciais acopladas.
Por simplicidade, estudaremos circuitos de uma só malha onde teremos apenas uma equação
diferencial para resolver. Os circuitos que não possuem excitação externa, estando subme-
tido apenas às condições iniciais, originam equações homogêneas que podem ser resolvidas
pela técnica usual envolvendo funções tentativas na forma de exponenciais e resolução da
equação caracterı́stica. Os circuitos que possuem excitação externa originam equações não
homogêneas, cuja solução geral envolve a solução da equação homogênea associada e uma
solução particular. A solução da equação homogênea, por não envolver a excitação externa,
origina a parte transitória da solução enquanto que a solução particular, que depende da
excitação externa, é a responsável pelo regime permanente (quando a excitação não decai
no tempo).

4.1 Circuitos em regime transitório


Vejamos alguns exemplos:

a) Circuito RLC em série, caso 1

Considere o circuito RLC em série mostrado na (Fig. 4.1), cuja chave é fechada em t = 0,
estando o capacitor inicialmente descarregado. Deseja-se determinar o comportamento da
corrente ao longo do tempo.

101
102 Newton Barros de Oliveira

R=3W L=1H

e=1V i(t)
C=0,5F

Figura 4.1: Circuito RLC em série para t> 0.

A equação do circuito é
Z
di(t) 1
L + Ri(t) + i(t)dt = ε (4.1)
dt C

d2 i(t) di(t) 1
∴L +R + i(t) = 0. (4.2)
dt2 dt C
No caso em questão
d2 i(t) di(t)
+3 + 2i(t) = 0. (4.3)
dt2 dt
Solução tentativa

di(t) d2 i(t)
i(t) = eαt ∴ = αeαt e = α2 eαt .
dt dt2
Substituindo na equação diferencial (4.3) obteremos a equação caracterı́stica

α2 eαt + 3αeαt + 2eαt = 0

∴ α2 + 3α + 2 = 0

−3 ± 9 − 8
∴α= ,
2
α1 = −1, α2 = −2.
Portanto
i(t) = k1 e−t + k2 e−2t . (4.4)

i(0R+ ) = 0 ⇒ Ri(0+ ) = 0
As condições iniciais são 1
C i(t)dt = 0 (capacitor descarregado em t = 0).
Da equação (4.1) teremos para t = 0
Z 0+
di(0+ ) 1
L + Ri(0+ ) + i(t)dt = ε
dt C 0

di(0+ )
∴L =ε
dt
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 103

di(0+ ) 1
∴ = = 1 A/s.
dt 1
As condições iniciais podem então ser reescritas como
(
i(0+ ) = 0
di(0+ ) (4.5)
dt = 1.

Substituindo as condições iniciais na solução, equação (4.4) teremos


(
0 = k 1 + k2
di(0+ )
dt = −k1 − 2k2 = 1

∴ k1 = 1 e k2 = −1.
Sendo assim
i(t) = e−t − e−2t ,
veja a (Fig. 4.2).

i(t)
(A)
1
e-t
e-t- e-2t
0.5

0
0 1.25 2.5 3.75 5
t
-0.5 -2t (s)
-e

-1

Figura 4.2: Corrente no circuito RLC em série para t> 0.

b) Circuito RLC em série, caso 2


Considere o mesmo circuito anterior, agora com os seguintes valores

ε = 1 V, L = 1 H, R = 2 Ω e C = 0, 5 F.

A equação caracterı́stica agora será

α2 + 2α + 2 = 0

−2 ± 4 − 8
∴α= ,
2
104 Newton Barros de Oliveira

α1 = −1 + j1, α2 = −1 − j1
e para a solução geral teremos

i(t) = k1 e(−1+j1)t + k2 e(−1−j1)t

ou 
i(t) = e−t k1 ejt + k2 e−jt = e−t [(k1 + k2 ) cos t + j (k1 − k2 ) sen t]
∴ i(t) = e−t [k3 cos t + jk4 sen t] .
Com as mesmas condições iniciais, equação (4.5) teremos

i(0+ ) = k3 = 0

e
di(0+ )
= − (k3 cos 0 + jk4 sen 0) + (−k3 sen 0 + jk4 cos 0) = 1
dt
∴ −k3 + jk4 = 1
1
∴ k4 = .
j
Logo
i(t) = e−t sen t.
Vemos portanto que o comportamento agora é oscilatório amortecido (Fig. 4.3).

i(t)
(A)
0.3
0.25
0.2
0.15
0.1
0.05
0
0 1.25 2.5 3.75 5 t
(s)

Figura 4.3: Corrente oscilatória amortecida no circuito RLC em série para t> 0.

Se tivéssemos

ε = 1 V, L = 1 H, R = 0.3 Ω e C = 0, 5 F.

a solução seria
i(t) = e−0,3t sen (2, 8125t).
veja a (Fig. 4.4) onde podemos ver várias oscilações durante o amortecimento.
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 105

i(t)
(A)
0.75
0.5
0.25
0
0 2.5 5 7.5 10
-0.25 t
(s)
-0.5

Figura 4.4: Corrente oscilatória amortecida com baixo amortecimento no circuito RLC em
série para t> 0.

Observe que as duas equações diferenciais desses dois exemplos são da forma

d2 i di R 1
2
+ a1 + a2 i = 0, a1 = e a2 = (4.6)
dt dt L LC
com equação caracterı́stica do tipo

α2 + a 1 α + a 2 = 0

cujas raı́zes são r


a1 a1 2
α1 , α2 = − ± − a2 .
2 2
R 1
A depender da relação existente entre h a12e a2 ( Li e LC ) podemos ter várias soluções:
4
1- Se as raı́zes são reais e diferentes R L > LC temos uma solução super-amortecida
(Fig. 4.5).
i(t) = k1 eα1 t + k2 eα2 t . (4.7)

i(t)
(A)
0.2
0.15
0.1
0.05
00 1.25 2.5 3.75 5
t
(s)

Figura 4.5: Corrente amortecida no circuito RLC em série para t> 0.


106 Newton Barros de Oliveira
h  i
R 2 4
2- Se as raı́zes são reais e iguais L = LC temos uma solução criticamente amorte-
cida (Fig. 4.6).

i(t) = k1 eαt + k2 teαt . (4.8)


h 2 i
4
3- Se as raı́zes são complexas conjugadas R L < LC temos uma solução sub-amorteci-
da (Fig. 4.7) com α1 , α2 = σ1 ± jω1 .

i(t) = eσ1 t [k1 cos (ω1 t) + k2 sen (ω1 t)] . (4.9)

i(t)
(A)
0.625
0.5
0.375
0.25
0.125
0
0 2.5 5 7.5 10 12.5 15
t
(s)

Figura 4.6: Corrente com amortecimento crı́tico no circuito RLC em série para t> 0.

i(t)
(A)
0.75
0.5
0.25
0
0 2.5 5 7.5 10
-0.25 t
(s)
-0.5

Figura 4.7: Corrente oscilatória com amortecimento no circuito RLC em série para t> 0.

 R
 4

4- Se as raı́zes são imaginárias L =0 e LC 6= 0 temos uma solução oscilatória
(Fig. 4.8) com α1 , α2 = ±jω1 .

i(t) = k1 cos (ω1 t) + k2 sen (ω1 t) (4.10)


Observe que todos os gráficos foram feitos supondo a mesma condição inicial do exemplo
anterior (corrente inicial nula e carga inicial nula no capacitor).
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 107

i(t)
(A)
1

0.5

0
0 2.5 5 7.5 10
t
-0.5 (s)

-1

Figura 4.8: Corrente oscilatória no circuito RLC em série com R = 0 para t> 0.

c) Circuito RL em série
Considere um circuito RL em série excitado por uma fonte de tensão (Fig. 4.9).

v(t) = εe−βt para t > 0

ee -bt
i(t) L

Figura 4.9: Circuito RL em série para t≥ 0.

Temos a equação do circuito

di
L + Ri = εe−βt
dt
di R ε
+ i = e−βt .
∴ (4.11)
dt L L
A correspondente equação homogênea

di R
+ i=0
dt L
tem a equação caracterı́stica
R
α+ = 0.
L
108 Newton Barros de Oliveira

Logo, a solução da equação homogênea será


R
ic = ke− L t .

Como solução particular tentemos uma solução exponencial do tipo

ip = Ae−βt

e substituindo na equação diferencial (4.11) teremos

R −βt ε
−Aβe−βt + Ae = e−βt
L L
R ε
∴ −Aβ + A=
L L
ou ε
L ε
A=− R
=
β− L
R − βL

desde que β 6= RL.


A solução geral será então i(t) = ic (t) + ip (t)

R ε R
i(t) = ke− L t + e−βt para β 6= (4.12)
R − βL L
R
Caso β = L deveremos tentar outra solução particular, por exemplo

ip = Ate−βt

cuja substituição na equação diferencial (4.11) dará


 ε
A −βte−βt + e−βt + βAte−βt = e−βt
L
ε
∴A=
L
e nesse caso teremos como solução geral

R ε −βt R
i(t) = ke− L t + te para β = . (4.13)
L L
A constante k deverá ser determinada em ambos os casos a partir da condição inicial.

4.2 Circuitos em regime permanente


Circuito RC em série
Considere um circuito RC em série excitado por uma fonte de tensão senoidal (Fig. 4.10)

v(t) = v0 sen (ωt) para t ≥ 0


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 109

fecha em t = 0 R

v(t) ~ i(t) C

Figura 4.10: Circuito RC em série com excitação senoidal para t≥ 0.

A equação do circuito para t ≥ 0 será


Z
1
Ri + idt = v0 sen (ωt)
C

di 1
∴R + i = v0 ωcos (ωt)
dt C
ou
di 1 v0 ω
+ i= cos (ωt) . (4.14)
dt RC R
A equação homogênea
di 1
+ i=0
dt RC
tem solução
t
ic = ke− RC .
Como solução particular tentemos uma corrente cossenoidal, possivelmente defasada, do
tipo
ip = i0 cos (ωt + φ) . (4.15)
Substituindo na equação diferencial (4.14) teremos

1 v0 ω
−i0 ωsen (ωt + φ) + i0 cos (ωt + φ) = cos (ωt)
RC R
i0 v0 ω
∴ −i0 ω [sen (ωt) cosφ + cos (ωt) senφ] +
[cos (ωt) cosφ − sen (ωt) senφ] = cos (ωt)
RC R
   
i0 i0 v0 ω
∴ −i0 ωcosφ − senφ sen (ωt) + −i0 ωsenφ + cosφ − cos (ωt) = 0.
RC RC R
Essa equação tem que ser satisfeita para todos os instantes de tempo t, logo
i0
−i0 ωcosφ − senφ = 0 (4.16)
RC
e
i0 v0 ω
−i0 ωsenφ + cosφ − = 0. (4.17)
RC R
110 Newton Barros de Oliveira

Da equação (4.16) teremos que

senφ
= −RCω
cosφ
ou
φ = −arctg (RCω) ,
observe o triângulo (Fig. 4.11)

1
wC

-f
R
Z

Figura 4.11: Triângulo de impedâncias.

1
−R ωC
senφ = q  e cosφ = q  .
1 2 1 2
R2 + ωC R2 + ωC

Então, substituindo os valores de senφ e cosφ na equação (4.17) teremos


1
−R i0 ωC v0 ω
−i0 ω q 2 + RC q  =
1 1 2 R
R2 + ωC R2 + ωC


1 2
R2 + ωC
∴ i0 q  = v0
1 2
R2 + ωC
v0
∴ i0 = q  .
1 2
R2 + ωC

Sendo assim, a solução particular será


v0  −1

ip = q 2 cos ωt − tg (RCω) (4.18)
1
R2 + ωC

e a solução geral i(t) = ic (t) + ip (t)


1 v0  
i(t) = ke− RC t + q −1
2 cos ωt − tg (RCω) . (4.19)
1
R2 + ωC

A (Fig. 4.12) mostra o aspecto dessa solução para R = C = 1, ω = 10, v 0 = 0, 5 e k = 1.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 111

i(t)
1.25
1
0.75
0.5
0.25
0
0 1.25 2.5 3.75 5 t
-0.25

Figura 4.12: Solução para a corrente.

Determinemos o valor da constante k a partir da condição inicial do circuito. Em t = 0,


no momento em que a chave é fechada, o capacitor encontra-se descarregado comportando-
se como um curto-circuito. A corrente será determinada apenas pelo valor do resistor,
i(0) = 0/R = 0. Substituindo na solução geral, equação (4.19), fica
v0 v0
0 = ke0 + q 2 cos [0 + φ] = k + q  cosφ
1 1 2
R2 + ωC R2 + ωC

v0 v0 ωCR
∴ k = −q 2 cosφ = − R 1 + (ωCR)2 .
1
R2 + ωC

A solução geral será


v0 ωCR 1 v0  
i(t) = − 2 e− RC t + q −1
2 cos ωt − tg (ωCR) . (4.20)
R 1 + (ωCR) 1
R2 + ωC

Se a excitação do circuito tivesse sido a função

v(t) = v0 cos (ωt) para t ≥ 0 (4.21)

encontrarı́amos, para a mesma condição inicial de capacitor descarregado, que


v0 1 1 v0  
i(t) = e− RC t − q −1
2 sen ωt − tg (ωCR) , t ≥ 0. (4.22)
R 1 + (ωCR)2 1
R2 + ωC

A (Fig. 4.13) mostra o aspecto dessa corrente quando v0 = 1 volt, R = 1 ohm, C = 1


farad e ω = 0, 3 rad/s.
Caso a excitação do circuito tivesse sido uma função mais complexa porém expansı́vel
em série de Fourier, digamos em uma série de cossenos do tipo

X
v(t) = a0 + an cos (ωn t) , (4.23)
n=1

o teorema da superposição garante que a solução para essa excitação deverá ser a su-
perposição de uma solução referente à componente contı́nua com uma solução referente à
112 Newton Barros de Oliveira

i(t) 1

0.75

0.5

0.25

0 25 37.5 50
0 12.5
t
-0.25

Figura 4.13: Solução para a corrente quando a condição inicial é nula.

componente alternada. A componente contı́nua para t ≥ 0 é um degrau de tensão a 0 u(t)


cuja solução iDC já é conhecida e vale
a0 1
iDC = e− RC t , t ≥ 0.
R
A componente alternada terá como solução a superposição de termos de acordo com a
equação (4.22) com ω substituı́do por ωn
 

 

1 X
∞  an 1 an  
− RC t −1
iAC (t) = 2 e − r  2 sen ω n t − tg (ω n CR) , t ≥ 0.
R n=1  
 1 + (ωn CR)
 2
R + 1 

ωn C

a solução completa será a soma


i(t) = iDC (t) + iAC (t). (4.24)

Circuito RLC em série


Vejamos agora um exemplo mais complexo e extremamente importante, o circuito RLC em
série excitado por uma fonte de tensão v(t) (Fig. 4.14).

R L

v(t) ~ i(t)
C

Figura 4.14: Circuito RLC em série excitado por uma tensão v(t).

A equação da malha do circuito é


Z
di(t) 1
L + Ri(t) + i(t)dt = v(t)
dt C
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 113

d2 i(t) R di(t) 1 1 dv(t)


∴ 2
+ + i(t) = . (4.25)
dt L dt LC L dt
A equção homogênea associada é
d2 i(t) R di(t) 1
+ + i(t) = 0
dt2 L dt LC
cuja equação caracterı́stica
R 1
α2 + α+ =0
L LC
tem as raı́zes seguintes s 2
R R 1
α1 , α2 = − ± − .
2L 2L LC
Denominaremos de resistência crı́tica, Rc , ao valor de resistência que anula o radical, ou
seja, r
 2
Rc 1 L
= ∴ Rc = 2 . (4.26)
2L LC C
Introduziremos um parâmetro adimensional chamado de razão de amortecimento (“dam-
ping ratio”) definido por
R
ξ= (4.27)
Rc
e chamaremos de frequência angular natural do oscilador LC não amortecido à grandeza
r
1
ωn = . (4.28)
LC
Vemos portanto que r r
R C 1 R
2ξωn = 2 =
2 L LC L
e a equação homogênea pode ser reescrita como
d2 i(t) di(t)
+ 2ξωn + ωn2 i(t) = 0. (4.29)
dt2 dt
A razão para definirmos ξ e ωn é que essas grandezas são mais convenientes para a inter-
pretação geométrica da localização das raı́zes da equação caracterı́stica no plano complexo.
Temos então a equação caracterı́stica

α2 + 2ξωn α + ωn2 = 0
r r
p R C 1
∴ α1 , α2 = −ξωn ± ωn ξ2
−1 ξ= e ωn = .
2 L LC
Observe que quando R varia de 0 a ∞, também ξ varia de 0 a ∞, e que, durante essa
variação, a solução da equação homogênea

ic = k 1 e α 1 t + k 2 e α 2 t

poderá ter comportamento variando entre exponenciais simples e oscilações amortecidas:


114 Newton Barros de Oliveira

• ξ > 1, raı́zes reais e diferentes,

• ξ = 1, raı́zes reais e iguais,

• ξ < 1, raı́zes complexas conjugadas.

Vejamos a forma do lugar geométrico das raı́zes no plano complexo quando ξ varia de 0
a ∞: começando com ξ = 0, teremos

α1 , α2 = ±jωn

que são raı́zes imaginárias puras (Fig. 4.15).

Im
jwn x

o
Re

-jwn x

Figura 4.15: Raı́zes imaginárias.

Para 0 < ξ < 1 teremos


p
α1 , α2 = −ξωn ± jωn 1 − ξ2

que são raı́zes complexas conjugadas com parte real negativa, pois tanto ξ como ω n são
positivos (Fig 4.16).

Im
a1 xwn
wn(1-x2)1/2
wn
q
o
Re

a2 -wn(1-x2)1/2
xwn

Figura 4.16: Raı́zes complexas conjugadas.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 115

Veja também que


q
2
|α1 | = |α2 | = (ξωn ) + ωn2 (1 − ξ 2 ) = ωn

e que
ξωn
cos θ = = ξ.
ωn
Assim, para ξ variando entre 0 e 1 e sendo ωn constante, teremos θ variando entre π/2
e 0 e α1 descrevendo um arco de cı́rculo (o mesmo vale para α2 ) , veja (Fig. 4.17).

Im
jwn
a1
p/x=1 wn
q p/x=0
o Re

a2
-jwn

Figura 4.17: Raı́zes complexas conjugadas descrevendo um arco de cı́rculo.

Para esses valores de ξ, 0 < ξ < 1 teremos solução oscilatória amortecida.


Para ξ = 1 as duas raı́zes se superpõe e α1 = α2 = −ωn , sendo o caso limite entre oscilar
e não oscilar.
Para ξ > 1 as raı́zes serão reais
p
α1 , α2 = −ξωn ± ωn ξ 2 − 1

e a medida que ξ → ∞ uma das raı́zes tende para a origem (α1 → 0) e a outra para o
infinito negativo (α2 → −∞) (Fig. 4.18). A solução será uma soma de exponênciais.

Im

a1
a2 o
Re

p/x--> 1
a1-->0 e a2--> -1

Figura 4.18: Raı́zes tendendo a zero e a menos infinito sobre o eixo real.
116 Newton Barros de Oliveira

Soluções da equação homogênea:


• Para ξ > 1  √2 √2 
ic (t) = e−ξωn t k1 eωn ξ −1 t + k2 e−ωn ξ −1 t . (4.30)

• Para ξ = 1
ic (t) = (k1 + k2 t) e−ξωn t . (4.31)

• Para ξ < 1  p 
ic (t) = ke−ξωn t sen ωn 1 − ξ 2 t + φ . (4.32)

Resta ainda determinar a solução particular ip (t), que dependerá da forma da excitação
v(t). Normalmente, a solução particular possui a mesma forma da excitação. Assim, se a
excitação é uma constante, a solução também o é. Se a excitação é do tipo at n , a solução
será do tipo b0 tn +b1 tn−1 +...+bn−1t+bn , se a excitação é senoidal ou cossenoidal a solução
será uma senoide ou cossenoide defasadas.
Capı́tulo 5

Circuitos no domı́nio da
frequência. Regime transitório
e permanente

Nosso interesse agora é formular as leis dos circuitos no domı́nio da frequência (d.d.f.)
utilizando as transformações que estudamos anteriormente, de acordo com o tipo de sinal
de excitação.

5.1 Leis de transformação para os dipolos elementares


5.1.1 Fontes de tensão
As fontes de tensão periódicas serão transformadas utilizando a série de Fourier. No caso
particular da fonte de tensão senoidal ou cossenoidal reduz-se ao regime cissoidal.
n o
v(t) = v0 cos (ωt + φ) = Re Ve e jωt e = v0 ejφ
V

e
v(t) → V. (5.1)
Para as fontes não periódicas, utilizamos a transformada de Fourier ou a transformada
de Laplace a depender se convergem absolutamente ou não.
Para a fonte senoidal amortecida,

v(t) = v0 eσt cos (ωt + φ) , σ < 0,

n o
e st ,
v(t) = Re Ve e = v0 ejφ ,
V
e
v(t) → V. (5.2)
Para a função degrau com amplitude v0 (Fig. 5.1)

v(t) = v0 u(t)

117
118 Newton Barros de Oliveira

u(t)

v0

o t

Figura 5.1: Função degrau.

v0
v(t) → . (5.3)
s
O mesmo vale para as fontes de corrente.

5.1.2 Resistores
Enquanto que no domı́nio do tempo a lei de Ohm é

v(t) = R i(t),

no domı́nio das frequências, devido à linearidade das transformações, teremos

e = R eI
V

onde
e = V(s)
V e e = V(jω)
ou V e

e
eI = eI(s) ou eI = eI(jω)

a depender da transformação utilizada.


e e eI estarão sempre
Observe que, como R é um número real positivo (argumento zero) V
em fase.

5.1.3 Indutores (com corrente inicial nula)


Temos a relação entre a tensão e a corrente dada por

di(t)
v(t) = L
dt
transformada em
e = jωLeI
V
ou então
e = sLeI.
V
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 119

5.1.4 Capacitores (com carga inicial nula)


Temos a relação entre a tensão e a corrente dada por
Z
1
v(t) = i(t)dt
C
transformada em
e = 1 e
V I
jωC
ou então
e = 1 eI.
V
sC

5.1.5 Generalização da lei de Ohm


Um dipolo mais complexo pode ser obtido a partir dos elementos R, L e C associados em
série ou em paralelo convenientemente. Obteremos no domı́nio do tempo uma tensão que
será uma função linear da corrente (pois os elementos são lineares) do tipo

v(t) = f (i), i = i(t).

Transformando para o domı́nio das frequências encontraremos uma relação do tipo


e =Z
V e eI (5.4)

e é conhecida como impedância complexa e será escrita como:


onde Z
e = R + jX
Z (5.5)

sendo R uma resistência e X uma reatância.


e será a admitância complexa
O inverso de Z

e = 1
Y
e
Z
escrita como
e = G + jB
Y (5.6)
sendo G uma condutância e B uma susceptância.
Como exemplo, consideremos um circuito RLC em série (Fig. 5.2).
Temos a equação: Z
di(t) 1
v(t) = L + R i(t) + i(t)dt.
dt C
Transformemos por Laplace considerando condições iniciais nulas

i(0+ ) = 0 e q(0+ ) = 0.

A equação integro diferencial tornará uma equação algébrica

e 1 e
V(s) = LseI(s) + ReI(s) + I(s)
sC
120 Newton Barros de Oliveira

R L

v(t) i(t)
C

Figura 5.2: Circuito RLC em série.

 
e 1 eI(s).
∴ V(s) = R + Ls +
sC
Fazendo
e 1
Z(s) = R + Ls + , s = σ + jω (5.7)
sC
teremos
e
V(s) e eI(s).
= Z(s)
Caso a excitação seja senoidal, (σ = 0) teremos no regime cissoidal
  
e 1 eI(jω)
V(jω) = R + j ωL −
ωC
ou
e
V(jω) e
= Z(jω)eI(jω)
com  
e 1
Z(jω) = R + j ωL − . (5.8)
ωC
Em qualquer caso, podemos dizer que a impedância complexa Z e pode ser escrita como a
associação em série de três dipolos. No regime cissoidal identificamos facilmente a resistência
1
R , a reatância indutiva ωL e a reatância capacitiva ωC .
e
Representamos a impedância Z no plano das impedâncias complexas como um vetor
(Fig. 5.3).

Im
X
~
Z

f
R Re

Figura 5.3: Impedância complexa.


e = R + jX = Z
Z e ejφ
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 121

com p
e X
Z = R2 + X 2 e tanφ = . (5.9)
R
1
No caso da associação RLC em série teremos a (Fig. 5.4) para ωL < ωC e para
1
ωL > ωC .

Im Im
1
wC
wL ~ wL
Z
R
Re R Re
1
~ wC
Z

1 1
Figura 5.4: Impedância complexa para R, L e C em série com ωL < ωC e com ωL > ωC .

Os circuitos mais complexos (muitas malhas) podem ser resolvidos no d.d.f. utilizando
as técnicas desenvolvidas para os circuitos no regime contı́nuo, acrescentando-se elementos
indutivos, capacitivos e geradores dependentes do tempo. O método das correntes de malha
(ou o método das tensões dos nós) fornecerá um sistema de equações integro-diferencial
linear (por hipótese) que após ser transformado convenientemente (por Fourier ou Laplace)
resultará em um sistema de equações algébricas no d.d.f.. Após a resolução do sistema, a
anti-transformação dará o resultado desejado no d.d.t..

5.2 Os quadripolos
A teoria desenvolvida para os quadripolos em regime contı́nuo pode ser aproveitada para
o regime variável no d.d.f. observando que os parâmetros que caracterizam o quadripolo
são agora, em geral, funções da frequência. Usualmente, as variações dos parâmetros com
a frequência são representadas graficamente por um dos seguintes diagramas:

• Curvas de amplitude e fase.


• Diagrama de Bode.
• Diagrama de Nyquist.
• Representação no plano s (para excitação senoidal amortecida).

Dos parâmetros que caracterizam um quadripolo, destacam-se quatro pela importância


na interpretação imediata do comportamento do quadripolo para as diferentes frequências.
São as impedâncias de entrada e saı́da e os ganhos de tensão e corrente. Para melhor
entendermos a utilização dos diagramas das variações dos parâmetros, consideremos um
quadripolo simples constituı́do por um resistor e um capacitor na seguinte configuração
(Fig. 5.5):
122 Newton Barros de Oliveira

i1(t) R i2(t)

v1(t) C v2(t)

Figura 5.5: Filtro RC passa-baixa.

Consideremos o regime cissoidal com as seguintes transformações

e 1 (jω),
v1 (t) → V i1 (t) → eI1 (jω)

e 2 (jω),
v2 (t) → V i2 (t) → eI2 (jω).
Estamos interessados em determinar no d.d.f. a tensão de saı́da em função da tensão de
e v (jω) com a saı́da aberta.
entrada, ou seja, determinar o ganho de tensão G

e2 = G
V e vV
e 1. (5.10)

Mas
e2 = 1 e
V I1
jωC
e
e1
V
e
I1 = 1
R + jωC

1 Ve1
e2 =
∴V 1
jωC R + jωC
ou
e2 = 1 jωC e1 = 1 e1
V V V
jωC RjωC + 1 RjωC + 1

ev = 1
∴G .
RjωC + 1
1
Definindo a frequência de corte ωc = RC fica

ev = 1
G (5.11)
1 + j ωωc

   
e 1 e ω
∴ G v = r  2 , Arg Gv = −arctg . (5.12)
ωc
1 + ωωc
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 123

Curvas de amplitude e fase


e v:
Fazendo ω variar de zero a infinito teremos as variações no módulo e na fase de G
 
e e −
• Para ω → 0, G v → 1 e Arg Gv → 0
 
e √1 e v → −π
Gv = 2 e Arg G
• Para ω = ωc , 4
 
e e π
• Para ω → ∞, G v → 0 e Arg Gv → − 2

e v.
A (Fig. 5.6) mostra a variação do módulo e da fase de G
~ ~ 0 5 10 15 20
Gv 1 Arg(Gv) 0
w/wc
0.8 -0.25

-0.5
0.6
-0.75
0.4
-1

0.2 -1.25

-1.5
0 5 10 15 20
w/wc

Figura 5.6: Curvas de amplitude e fase do ganho de tensão do filtro RC passa-baixa.

A frequêencia ωc é denominada de frequência de corte pelo fato de que quando ω >> ωc ,


o ganho tende rapidamente para zero levando o quadripolo para o “corte”, ou seja, tensão
de saı́da fortemente atenuada. Como esse quadripolo “deixa passar”sinais de frequência
menores que ωc com pouca atenuação e pouco defasamento, chamaremos esse quadripolo
de “filtro passa baixa”.

O diagrama de Bode
Com o intuito de linearizar ao máximo a representação gáfica das variações dos parâmetros
constrói-se o diagrama de Bode tomando-se o logarı́timo decimal do módulo do ganho e da
frequência. Mais precisamente, define-se o ganho de tensão (ou de corrente) em decibéis
pela expressão
e
GvdB = 20 log G v (5.13)
 
e v x logω. Teremos para o exemplo anterior
e traçamos então a curva GvdB x logω e Arg G
"  2 #
1 ω
GvdB = 20 log r  2 = −10 log 1 + ωc .
ω
1 + ωc

Analisando quando ω varia de zero a infinito fica:


124 Newton Barros de Oliveira

• Para ω → 0, GvdB → −10 log1 = 0 dB.

• Para ω = ωc , GvdB = −10 log2 ≈ −3 dB.


 2  
ω ω
• Para ω >> ωc , GvdB = −10 log ωc = −20 log ωc → −∞.

Observe que para ω >> ωc , a cada vez que dobramos a frequência o ganho varia de
−20 log2 ≈ −6 dB e dizemos que o ganho está variando de −6 dB/oitava (uma oitava na
escala musical corresponde a dobrar a frequência). De modo equivalente, se tornarmos a
frequência dez vezes maior, o ganho variará de −20 log10 = −20 dB e dizemos que o ganho
está variando de −20 dB/década. Veja a (Fig. 5.7) onde representamos o ganho em dB e
o argumento em função do logarı́timo da frequência angular relativa (log(ω/ω c )).

-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 -2 -1 0 1 2


0
log(w/wc) -0.25 log(w/wc)
-3 -5
-0.5

-10 -0.75 -p/4


-1
-15
~ ~ -1.25
Gv Arg(Gv)
dB -20 -1.5

Figura 5.7: Diagrama de Bode do ganho de tensão do filtro RC passa-baixa.

É comum representarmos essas curvas pelas assı́ntotas que se obtém para ω << ω c e
para ω >> ωc .

e
• Para ω << ωc , Gv ≈ 1 → GvdB ≈ 0dB e a assı́ntota é o eixo log(ω/ωc).
 
e
• Para ω >> ωc , Gv ≈ ωωc → GvdB ≈ −20 log ωωc = −20 log(ω) + 20 log(ωc )
(equação da reta em log(ω)). No diagrama de Bode corresponde a uma reta com
inclinação de −20 dB/década.
 
e v são dadas por:
As assı́ntotas do Arg G
 
e v ≈ 0− .
• Para ω << ωc , Arg G

 
e v ≈ −π.
• Para ω >> ωc , Arg G 2

Observe que o erro máximo que se comete ao substituir


 ascurvas reais pelas assı́ntotas
é de 3dB em ω = ωc , para GvdB e de π/4 rad para o Arg Ge v (Fig. 5.8).
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 125

log(w/wc) log(w/wc)
-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 -2 -1 0 1 2
0
-0.25
-3 -5
-0.5

-10 -0.75 -p/4


-1
-15
~ ~ -1.25
Gv Arg(Gv)
dB -20 -1.5

Figura 5.8: Assı́ntotas do diagrama de Bode do ganho de tensão do filtro RC passa-baixa.

O diagrama de Nyquist
e v representado no plano complexo
Esse diagrama consiste no lugar geométrico do ganho G
quando fazemos variar a frequência angular ω.
No exemplo anterior tı́nhamos a equação (5.11)
 
ev = 1 e jθ ω
G ω = G v e , θ = −arctg
1 + j ωc ωc

ou seja
ev = 1 cosθ ejθ + e−jθ jθ
G = = cosθejθ = e
1 − jtanθ cosθ − jsenθ 2

e v = 1 1 + ej2θ .
∴G
2
Para ω variando entre zero e infinito, θ varia entre zero e −π/2 (e 2θ varia entre zero e
−π). Veja (Fig. 5.9).

Im
1/2 1 Re
-q -2q
p/ w >> wc 1/2e
j2q
p/ w = 0
~
Gv

p/ w = wc

Figura 5.9: Diagrama de Nyquist do ganho de tensão do filtro RC passa-baixa.


126 Newton Barros de Oliveira

Representação no plano s
Consideremos que a excitação não é mais senoidal mas uma função transformável por La-
place. Nesse caso, o ganho G e v passa a ser uma função da frequência complexa s e para
determinados valores desta frequência o ganho pode ter um comportamento peculiar, po-
dendo anular-se ou tornar-se infinito por exemplo.
No exemplo anterior, substituindo jω por s obteremos a seguinte expressão para o ganho:

ev = 1
G .
1 + sRC
1
Observe que para s = − RC , o ganho é infinito. Esse valor particular de s constitui o
e
que se chama de polo de Gv e neste caso é real e negativo. Veja (Fig. 5.10).

Im

x
Re
s0 = - 1/(RC)

Figura 5.10: Polo do ganho de tensão do filtro RC passa-baixa no plano das frequências
complexas.

Se aplicarmos no filtro passa baixa um degrau unitário de tensão na entrada, v 1 (t) =


u(t), que resposta obteremos na saı́da, considerando como resposta a tensão v 2 (t)?
Temos que
V e 2 (s) = G
e v (s)V
e 1 (s)

mas
e 1 (s) = 1
V
s
1
pois s é a transformada de Laplace do degrau u(t). Assim,

e 2 (s) = 1 1 1 1
V = 1
 .
1 + sRC s RC s + RC
s

Desenvolvendo como soma de frações parciais teremos

e 2 (s) = 1 1 −s0 1 −s0 k0 k1 1


V 1
 = = + , s0 = − .
RC s + RC
s s − s0 s s − s0 s RC
ou
−s0 1 −ss0 k0 + k1 (s − s0 )
=
s − s0 s s (s − s0 )
∴ −s0 = −ss0 k0 + k1 s − k1 s0 = (k1 − s0 k0 ) s − k1 s0
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 127

logo
(k1 − s0 k0 ) = 0 e k1 = 1
1
∴ k0 = .
s0
Sendo assim,
−s0 s10 1 −1 1
e 2 (s) =
V + = +
s − s0 s s − s0 s
e anti-transformando teremos
 −t

v2 (t) = −es0 t u(t) + u(t) = 1 − e RC u(t)

como mostra a (Fig. 5.11).

v1(t) v2(t)
1 1

0.75

0.5

0.25

0
0 2.5 5 7.5 10
t
t / (RC)

Figura 5.11: Resposta a um degrau de tensão do filtro RC passa-baixa.

Observe nesse exemplo a presença de dois polos, um na origem (s = 0) e outro no semi-


eixo real negativo (s = −1/RC). Veja que o polo negativo é o responsável pelo aparecimento
da exponencial decrescente no domı́nio do tempo.

5.3 Circuito RLC em paralelo e o coeficiente de quali-


dade
Vejamos agora um exemplo importante de análise no domı́nio das frequências, o circuito
RLC em paralelo.
Iniciemos estudando mais detalhadamente as caracterı́sticas de um indutor real. Um
indutor real é usualmente construı́do por várias espiras de fio sobre um núcleo (de ar ou de
material ferromagnético) dando origem a diversas formas de “perdas”de energia, ou seja, a
energia fornecida ao indutor não fica totalmente armazenada na forma de campo de indução
magnética. Diversas são as formas de dissipação de energia: perdas ôhmicas que dão origem
ao efeito Joule, perdas por irradiação eletromagnética principalmente em altas frequências,
perdas no núcleo devido à histerese e às correntes de Foucault, perdas devido à interação
do campo magnético com o meio material externo, perdas nos isolantes dos fios etc. Todas
128 Newton Barros de Oliveira

essas perdas, apesar de não serem exclusivamente por efeito Joule, podem ser consideradas,
de modo aproximado, como sendo as perdas produzidas por um resistor com resistência r
em série com o indutor ideal. Em geral as perdas dependem da frequência, de modo que a
resistência r é uma função da frequência. Se a variação de frequência for pequena, podemos
considerar r praticamente constante (Fig. 5.12).
r

(L , r ) L, indutor ideal

indutor real

Figura 5.12: Modelo com perdas em série para um indutor real.

A impedância será dada por


e = r + jωL
Z representação cissoidal (5.14)

ou
e = r + sL
Z representação de Laplace. (5.15)
No regime cissoidal
  
e r  1
Z = r + jωL = jωL 1 − j = jωL 1 − j
ωL Q

onde definimos o coeficiente de qualidade do indutor Q = Lωr . Esse coeficiente é um número


que compara a reatância indutiva com a resistência que representa as perdas.
Os valores usuais para Q estão compreendidos em

• 2 < Q < 50 em audiofrequências (até 50 kHz).

• 15 < Q < 350 em radiofrequências (200kHz até 300MHz)

• 103 < Q < 107 em microondas (1GHz até 300GHz).

As perdas em um indutor também podem ser representadas por um resistor com re-
sistência R em paralelo com o indutor ideal. (Fig. 5.13)
Um indutor de boa qualidade (baixa perda) deve possuir na representação série um
valor de r pequeno quando comparado com ωL e, na representação paralela, um valor de
R grande com relação a ωL na frequência de operação.
A impedância na representação paralela no regime cissoidal será:
 −1
e = R // jωL = 1 1 jωLR jωL
Z + = = .
R jωL jωL + R 1 + j ωL
R
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 129

(L , R ) R

indutor real L = indutor ideal

Figura 5.13: Modelo com perdas em paralelo para um indutor real.

ωL
Se considerarmos um indutor de boa qualidade, R >> ωL, teremos R =  << 1 e
poderemos aproximar para
 
e = jωL ≈ jωL(1 − j) = jωL 1 − j ωL .
Z
1 + j R
Se impormos a condição de que as duas representações devam ser equivalentes teremos
   
1 ωL
jωL 1 − j = jωL 1 − j
Q R
onde vemos que Q = R/(ωL) ou seja,
R ωL
= ∴ Rr = ω 2 L2 . (5.16)
ωL r
Resumindo, na representação em série
ωL
Q= (5.17)
r
e na representação em paralelo
R
Q= . (5.18)
ωL

5.3.1 Associações dos coeficientes de qualidade


Série-série:
Considere dois resistores na representação em série representando as diversas perdas de um
indutor. Veja (Fig. 5.14).
Temos
h  i   
e = jωL + r1 + r2 = jωL 1 − j r1 + r2
Z = jωL 1 − j
1
+
1
ωL ωL Q1 Q2
com
1 r1 1 r2
= e = .
Q1 ωL Q2 ωL
Sendo assim,
1 1 1 ωL
= + , Q= . (5.19)
Q Q1 Q2 r
130 Newton Barros de Oliveira

r1 r2 r

L, indutor ideal L, indutor ideal

Figura 5.14: Perdas em um indutor real representadas por resistores em série.

Paralelo-paralelo:
Considere dois resistores na representação em paralelo representando as diversas perdas de
um indutor. Veja (Fig. 5.15).

L R1 R2 L Req

Figura 5.15: Perdas em um indutor real representadas por resistores em paralelo.

O resistor equivalente será


Req = R1 // R2
Se o coeficiente de qualidade for elevado podemos escrever
       
e ωL 1 1 ωL ωL
Z = jωL 1 − j = jωL 1 − jωL + = jωL 1 − j + .
Req R1 R2 R1 R2
Sendo
R1 R2 Req
Q1 = , Q2 = e Q=
ωL ωL ωL
teremos
1 1 1
= + (5.20)
Q Q1 Q2

Série paralelo:
Considere um resistor na representação em série e um resistor na representação em paralelo
representando as diversas perdas de um indutor. Veja (Fig. 5.16).
Temos
e = (jωL + r1 ) // R2
Z
ou  
r1 r1
e = (jωL + r1 ) R2 = jωL
Z 
1 − j ωL R2
=
jωL 1 − j ωL
.
(jωL + r1 ) + R2 R2 jωL + r1
+ 1 1 + Rr12 + jωL
R 2
R2 R2
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 131

r1 r
L R2 L R ou L

Figura 5.16: Perdas em um indutor real representadas por resistores em série e paralelo.

Sendo
ωL R2
Q1 = e Q2 =
r1 ωL
teremos
R2
Q1 Q2 =
r1
e  
jωL 1 − j Q11
e=
Z .
1
1+ Q1 Q2 + j Q12
Se considerarmos que os coeficientes de qualidade são elevados, Q1 e Q2 >> 1 teremos
aproximadamente
 
jωL 1 − j Q11   
e 1 1
Z≈ ≈ jωL 1 − j 1−j
1 + j Q12 Q1 Q2
    
e ≈ jωL 1 − j 1 − j 1 − 1
∴Z ≈ jωL 1 − j
1
+
1
Q1 Q2 Q1 Q2 Q1 Q2
logo
1 1 1
≈ + (5.21)
Q Q1 Q2
e Q pode ser escrito na representação em paralelo
R
Q=
ωL
ou na representação em série,
ωL
Q= .
r

5.3.2 Coeficiente de qualidade de um capacitor


As perdas em um capacitor, que geralmente são menores que as perdas em um indutor,
também podem ser representadas por um resistor em série ou em paralelo. Em série (Fig.
5.17) teremos:
 
e = r + 1 = 1 (1 + jωC r) = 1
Z 1+j
1
jωC jωC jωC Q
132 Newton Barros de Oliveira

(C , r ) C, capacitor ideal

capacitor real

Figura 5.17: Perdas em um capacitor real representadas por um resistor em série.

onde definimos
1
Q= . (5.22)
ωC r
Em paralelo (Fig. 5.18) teremos

(C, R) R

capacitor real C = capacitor ideal

Figura 5.18: Perdas em um capacitor real representadas por um resistor em paralelo.

R
e = R // 1 jωC 1 1
Z = 1 = 1 .
jωC R + jωC jωC 1 − j ωCR

Se o coeficiente de qualidade for elevado deveremos ter um valor para R muito grande,
então
e= 1
Z
1
, =
1
<< 1
jωC 1 − j ωCR
e teremos aproximadamente
 
e≈ 1 1 1
Z (1 + j) = 1+j .
jωC jωC ωCR

Definimos então
Q = ωCR (5.23)
de modo que
 
e≈ 1 1
Z 1+j .
jωC Q
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 133

Em resumo, Q = ωC1 r na representação em série e Q = ωCR na representação em


paralelo. Para que as duas representações sejam equivalentes deveremos ter
1 1
= ωCR ∴ rR = 2. (5.24)
ωC r (ωC)

5.3.3 Circuito RLC em paralelo


Consideremos agora um circuito RLC em paralelo alimentado por uma fonte de corrente.
As perdas no indutor e no capacitor são representadas por RL e RC respectivamente, (Fig.
5.19).

L RL C RC ~ L C R ~
I I

Figura 5.19: Circuito RLC em paralelo excitado por uma fonte de corrente.

e = 1/Z
No regime cissoidal a admitância Y e pode ser escrita como
 
e 1 1 1 1
Y= + jωC + = + j ωC − (5.25)
R jωL R ωL

e= 1
∴Z 1 1
, (5.26)
R + j ωC − ωL
s 2  2
1 1 1
e e .
Y = + ωC − e Z = e
R ωL Y
A ressonância ocorre para a frequência angular ω0 que torna o módulo da admitância
um mı́nimo, ou seja, quando
1 1
ω0 C − =0 ∴ ω0 = √ .
ω0 L LC

Na ressonância, tanto Y e como Z e são reais com valores iguais a 1 e R respectivamente.


R
Veja (Fig. 5.20) para R = 1Ω, C = 10F e L = 0, 1H.
A excitação do circuito paralelo com uma fonte de corrente permite levantar a curva de
impedância com facilidade uma vez que a tensão no circuito é diretamente proporcional à
impedância. A utilização de um osciloscópio para a medida da tensão fornece diretamente
o valor da impedância tanto em módulo como em fase.
O coeficiente de qualidade do circuito é definido na situação de ressonância como sendo
R
Q0 = = ω0 CR
ω0 L
134 Newton Barros de Oliveira

~ ~
|Y| 25 |Z| 1

20
0.75

15
0.5
10

0.25
5

0
0 0.5 1 1.5 2 0 0.5 1 1.5 2
w0 w w0 w

Figura 5.20: Curvas dos módulos da admitância e da impedância para um circuito RLC em
paralelo.

onde podemos imaginar que as perdas do circuito estão integralmente associadas ao indutor
ou então ao capacitor. A admitância pode ser expressa em função desse coeficiente de
qualidade como
    
e = 1 + j ωQ0 − ω0 Q0 = 1 1 + jQ0 ω − ω0
Y . (5.27)
R ω0 R ωR R ω0 ω

A impedância será expressa como

e= 1 =
Z
R
  (5.28)
e
Y 1 + jQ0 ωω0 − ω0
ω

e
e R
Z = r  2 .
ω ω0
1+ Q20 ω0 − ω

e e Z
Para frequências próximas da frequência de ressonância podemos aproximar Z e .
Observe que
ω ω0 ω 2 − ω02 (ω − ω0 ) (ω + ω0 )
− = =
ω0 ω ω0 ω ω0 ω
e fazendo ω − ω0 = ∆ω e ω + ω0 ≈ 2ω teremos

ω ω0 2∆ω
− ≈ .
ω0 ω ω0

Sendo assim, ficaremos com

R R
e≈ e
Z e Z ≈ r  2 . (5.29)
1 + jQ0 2∆ω
ω0 2 2∆ω
1 + Q 0 ω0
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 135

e
Para os casos em que o coeficiente de qualidade é elevado, a curva de Z x ω é alta e

e
estreita e nas vizinhanças da ressonância a expressão para Z acima calculada é uma boa
aproximação.
O coeficiente de qualidade pode ser obtido a partir da curva de ressonância de modo
simples. Para isso basta determinarmos as frequências em que a impedância
√ cai de 3 dB do
valor máximo, ou seja, as frequências em que a impedância
cai a 1/ 2 do seu valor máximo
√ e
(1/ 2 ⇔ −3 dB). Como o valor máximo de Z é R, deveremos ter

R R
r  2 = √2 = 0.707R
ω ω0
1 + Q20 ω0 − ω

 2
ω ω0
∴1+ Q20 − =2
ω0 ω
logo  
ω ω0
Q0 − = ±1 (5.30)
ω0 ω
ou  
ω 2 − ω02
Q0 = ±1
ω0 ω
ω0 ω
∴ ω 2 − ω02 = ± .
Q0
Sendo ω2 > ω0 > ω1 as raizes dessa equação teremos
ω0 ω2
ω22 − ω02 = +
Q0
e
ω0 ω1
ω12 − ω02 = −
Q0
fazendo a diferença entre essas duas expressões fica
ω0
ω22 − ω12 = (ω2 + ω1 )
Q0
ω0
∴ (ω2 − ω1 ) (ω2 + ω1 ) = (ω2 + ω1 )
Q0
ω0
∴ ω2 − ω 1 =
Q0
ω0
Q0 = . (5.31)
ω2 − ω 1
ou seja, o coeficiente de qualidade fica determinado pela frequência de ressonância e pela
largura (“bandwidth”) da curva.
Com a aproximação de coeficiente de qualidade elevado (digamos Q0 > 5, curva alta
e estreita) podemos escrever ω2 − ω1 = 2∆ω de modo que também podemos expressar o
coeficiente de qualidade como
ω0
Q0 ≈ .
2∆ω
136 Newton Barros de Oliveira

~
|Z| / R
1

0.75
0,707
0.5

0.25

0
0 0.5 1 1.5 2
w/w0
w1/w0 w2/w0

Figura 5.21: Largura da curva de ressonância para o cálculo do coeficiente de qualidade.

A (Fig. 5.21) mostra como proceder graficamente.


No gráfico, 2∆ω = ω2 − ω1 .
Nas frequências ω = ω1 e ω = ω2 temos das equações (5.28) e (5.30) que

e= R
Z
1±j
e  
e R e = ±π.
Z = √ e Arg Z
2 4

Cálculo exato das frequências correspondentes à queda da impedância a R/ 2
Podemos determinar as frequências
correspondentes à queda de 3 dB diretamente em função
e √
dos parâmetros R, L e C. De Z = R/ 2 teremos

1 R
q 
1 2 1
2 = √ 2
R + ωC − ωL

ou  2  2
1 1 2
+ ωC − =
R ωL R2
1 1
∴ ωC −=± .
ωL R
Temos então que resolver a seguinte equação:
1 1
ω2 ± ω− =0
RC LC
cujas raı́zes são q
1

1 2 4
± RC ± RC + LC
ω= .
2
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 137

Temos então duas raı́zes positivas e suas simétricas. As positivas são dadas exatamente por
q 
1 1 2 4
± RC + RC + LC
ω1 , ω2 = .
2

1 2 4 1
Se a resistência for suficientemente alta de modo que RC << LC , ou seja, RC << 2ω0
1
(pois ω0 = √LC ) podemos aproximar para
q
1 4
± RC + LC 1
ω1 , ω2 ≈ = ω0 ± .
2 2RC
Sendo
1 R
∆ω = ω2 − ω0 = ω0 − ω1 ≈ e Q0 =
2RC ω0 L
podemos concluir que
1
R 1 ω02 ω0
Q0 = ≈ 2C∆ω = = =
ω0 L ω0 L 2∆ωω0 LC 2∆ωω0 2∆ω
que é o mesmo resultado encontrado anteriormente.
1
Observe que a condição RC << 2ω0 é equivalente a

1 R 1
ω0 CR >> ∴ 1 >>
2 ω0 C
2

ou
R 1 1
>> ∴ Q0 >> (5.32)
ω0 L 2 2
ou seja, um coeficiente de qualidade elevado.

Representação de Nyquist próximo da ressonância


Da equação (5.28) temos que
    
φ = Arg Ze = −tan−1 Q0 ω − ω0
ω0 ω
 
ω ω0
∴ tanφ = −Q0 − . (5.33)
ω0 ω
Vemos portanto que tanφ não é linear em ω.
Reescrevendo a equação (5.28) em termos de tanφ fica

e= R R Rcosφ Rcosφ
Z = senφ
= = −jφ
1 − jtanφ 1 − j cosφ cosφ − jsenφ e

e = Re

+ e−jφ jφ R 
∴Z e = 1 + ej2φ .
2 2
138 Newton Barros de Oliveira

Quando ω varia de zero a infinito, a equação (5.33) mostra que φ varia de +π/2 a −π/2,
portanto 2φ varia de π a −π e a expressão de Z e acima calculada representa, no plano
complexo, um cı́rculo de raio R/2 centrado em (R/2, 0). Veja (Fig. 5.22).
A situação em que ω = ω1 e ω = ω2 está mostrada em (Fig. 5.23). A representação
de Nyquist para a impedância também pode ser obtida pela a inversão geométrica do
diagrama de admitância. O lugar geométrico da admitância no plano complexo ao variarmos
a frequência é uma reta paralela ao eixo imaginário chamada de “eixo z”uma vez que a parte
real é constante e igual a 1/R. Veja (Fig. 5.24). A inversão geométrica do eixo z é um
cı́rculo.
Im

~
Z
p/ w = 0
f 2f Re
R/2 p/ w = w0
p/ w >> w0

Figura 5.22: Diagrama de Nyquist.

Im
p/ w = w1

~
Z

p/4 Re
-p/4 R/2

p/ w = w2

Figura 5.23: Frequências angulares ω1 e ω2 no diagrama de Nyquist.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 139

Im eixo z

wC
1/wL
1/R
Re

~
Y

p/ w < w0

Figura 5.24: Lugar geométrico da admitância.

Nas vizinhanças da ressonância a impedância pode ser aproximada pela equação (5.29)
e, nessa aproximação, tanφ é linear em ω. O diagrama de Nyquist correspondente ainda
é um cı́rculo, porém, os pontos do cı́rculo correspondem a outros valores de ω diferentes
dos anteriores, excetuando nas vizinhanças da ressonância onde coincidem com boa apro-
ximação.
Longe da ressonância temos que utilizar a expressão exata para o argumento da im-
pedância para que os pontos do cı́rculo correspondam aos valores corretos de ω.

5.3.4 Resposta do circuito RLC em paralelo a um degrau de cor-


rente
Consideremos agora que a excitação do circuito seja um degrau de corrente. Na expressão
da impedância, equação (5.28) vamos substituir jω por s de modo obter a transformada de
Laplace supondo condições iniciais nulas.

e (s) = R Rsω0
Z  =
1 + Q0 s
+ ω0 sω0 + Q0 s2 + Q0 ω02
ω0 s

Rω0
e (s) = Q0 s
∴Z ω
s2 + Q00 s + ω02
ou seja
e (s) = As Rω0 1 1
Z , A= = e 2ξ = .
s2 + 2ξω0 s + ω02 Q0 C Q0
Para uma excitação do tipo degrau de corrente i(t) = Iu(t) procuramos uma resposta
v(t). Transformando por Laplace temos

e (s) = Z
e (s) Ie (s) = As I AI
V = 2
s2 + 2ξω0 s + ω02 s s + 2ξω0 s + ω02
140 Newton Barros de Oliveira

ou seja
AI p
e (s) =
V , α1 , α2 = −ξω0 ± ω0 ξ 2 − 1. (5.34)
(s − α1 ) (s − α2 )

Caso das raı́zes reais e distintas


Supondo raı́zes reais e distintas e escrevendo como soma de frações parciais fica
 
e k0 k1
V (s) = AI + .
s − α1 s − α2

Determinemos as duas constantes k0 e k1 .

1 k0 (s − α2 ) + k1 (s − α1 )
=
(s − α1 ) (s − α2 ) (s − α1 ) (s − α2 )

∴ 1 = (k0 + k1 ) s − k0 α2 − k1 α1
ou seja
k0 + k 1 = 0 ∴ k0 = −k1
e
1
k0 α2 + k1 α1 = −1 ∴ k1 (α1 − α2 ) = −1 ∴ k1 = .
α2 − α 1
Então  
e (s) = AI 1 1 1 1
V +
α1 − α 2 s − α 1 α2 − α 1 s − α 2
mas, de acordo com a equação (5.34),
p p
α1 − α2 = 2ω0 ξ 2 − 1 = j2ω0 1 − ξ2

e anti-transformando Ve (s) fica


" √ √ #
I 1 1
   
−ξ+ ξ 2 −1 ω0 t −ξ− ξ 2 −1 ω0 t
v(t) = p e − p e u(t) (5.35)
C 2ω0 ξ 2 − 1 2ω0 ξ 2 − 1

ou seja, a tensão decai como soma de duas exponenciais simples.

Caso das raı́zes complexas conjugadas


Nesse caso, na equação (5.34) teremos ξ 2 < 1 que é equivalente a ter o coeficiente de
qualidade Q0 > 1/2. A solução será oscilatória amortecida e pode ser escrita como
" #
I −j  √ 2 √ 
−ξω0 t j 1−ξ ω0 t −j 1−ξ 2 ω0 t
v(t) = p e e −e u(t)
C 2ω0 1 − ξ 2

ou p 
I
v(t) = p e−ξω0 t sen 1 − ξ 2 ω0 t u(t). (5.36)
ω0 C 1 − ξ 2
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 141
p
Definindo ω 0 = 1 − ξ 2 ω0 podemos escrever

I −ξω0 t
v(t) = e sen (ω 0 t) u(t), (5.37)
ω0 C

lembrando que 2ξ = 1/Q0 e que ω0 = 1/ LC podemos concluir que, para um coeficiente de
qualidade elevado, teremos ξ << 1 e consequentemente ω 0 ≈ ω0 . O termo ξω0 é conhecido
como decremento logarı́timico e sua medida fornecerá o coeficiente de qualidade. Observe
que para Q0 = 1/2 teremos o amortecimento crı́tico (raı́zes reais e iguais) e para Q 0 < 1/2
teremos o caso superamortecido (raı́zes reais e distintas, resposta aperiódica) discutido
anteriormente.
Capı́tulo 6

Circuitos com diodos

Nos capı́tulos anteriores estudamos diversos circuitos constituı́dos por dipolos lineares.
Apresentaremos agora um dipolo não-linear de grande aplicabilidade e alguns circuitos
a ele relacionados.

6.1 Definição do diodo ideal


O diodo ideal é um dipolo que só permite a passagem da corrente elétrica em um único
sentido, chamado de sentido direto e escolhido como sentido positivo, sem haver d.d.p. nos
seus terminais. No sentido inverso não passa corrente por maior que seja a d.d.p. aplicada.
O diodo ideal e sua curva caracterı́stica estão representados na (Fig. 6.1) e a seta indica
o sentido direto da condução. A corrente e a tensão na simbologia e na curva caracterı́stica
obedecem a mesma convenção usual de sentido positivo para os dipolos.

i i

v
v

Figura 6.1: Representação de um diodo ideal.

A resistência direta do diodo ideal é nula e a resistência inversa é infinita.


O diodo real tem suas caracterı́sticas diferentes do diodo ideal em função das limitações
construtivas do dispositivo. Os diodos mais comuns são o diodo a vácuo, baseado na emissão
termo-iônica e o diodo de estado sólido ou diodo semicondutor, baseado nas propriedades das
junções semicondutoras. Na atualidade predomina em larga escala o diodo de estado sólido,

143
144 Newton Barros de Oliveira

razão pela qual daremos ênfase e estudaremos apenas esse tipo de diodo. Um diodo real
está representado na (Fig. 6.2) bem como a curva caracterı́stica de um diodo semicondutor.

i (ampéres)
i 2
1.5
1
v
0.5
0
-1 -0.5 0 0.5 1 v (volts)

Figura 6.2: Representação de um diodo real e curva caracterı́stica de um diodo semicondutor


de silı́cio.

Um diodo comum de silı́cio utilizado em retificação apresenta uma queda de tensão nos
seus terminais de aproximadamente 0, 7 V quando conduzindo uma corrente de 1, 0 A no
sentido direto enquanto que no sentido inverso, tensões de centenas de volts correspondem
a correntes de apenas algumas dezenas de nanoampéres. Em um diodo semicondutor a
corrente está relacionada com a tensão pela equação
 v 
i = i0 e ηVT − 1 (6.1)

onde
T
• VT = 11600 é o equivalente em tensão da temperatura. VT = 26 mV para T ≈ 300 K.
• η = 1 para diodos de germânio e η ≈ 2 para diodos de silı́cio.
• i0 é a chamada corrente de saturação inversa pois, para valores de tensões muito
negativas, a exponencial pode ser desprezada e i ≈ −i0 .
Para valores de tensões positivas elevadas (v  ηVT ) a corrente comporta-se como uma
função exponencial da tensão crescendo rapidamente com o aumento da tensão. O joelho
da curva caracterı́stica é abrupto de modo que é comum definir uma tensão V γ , chamada de
tensão de disparo, que corresponde a aproximadamente à tensão que produz uma corrente
da ordem de 1% da corrente máxima de trabalho do diodo. Para tensões menores que V γ
podemos dizer que a corrente é muito pequena (o diodo está praticamente cortado) e para
tensões maiores que Vγ a corrente cresce rapidamente com a tensão (diodo ativo). Para
diodos de germânio Vγ ≈ 0, 2 V e para diodos de silı́cio Vγ ≈ 0, 6 V.
Da curva caracterı́stica podemos verificar que a resistência direta do diodo é muito menor
que a resistência inversa, considerando pontos além do joelho da curva para a resistência
direta ou resistência estática direta. Essa resistência é dada simplesmente pela relação

RD = v/i. (6.2)

Observemos que a resistência estática varia ao longo da curva.


Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 145

Define-se também a resistência dinâmica ou resistência diferencial direta como a in-


clinação da reta tangente à curva v x i do diodo, ou seja,
 
dv
rD = , V0 > V γ . (6.3)
di V0

Observe que rD < RD .


A caracterı́stica inversa do diodo é quase imperceptı́vel se mantivermos a mesma escala
do gráfico utilizado para a caracterı́stica direta. Para visualizá-la é necessário modificar a
escala vertical passando a utilizar unidades de nanoamperérs ao invés de miliampéres ou
mesmo amperes que é comum na caracterı́stica direta. Veja (Fig. 6.3)

i (nanoampéres)

-1 -0.75 -0.5 -0.25 0


0 v (volts)
-2.5

-5

-7.5

-10

Figura 6.3: Caracterı́stica inversa de um diodo real.

Nessa curva podemos também definir a resistência dinâmica inversa da mesma maneira,
calculando-a no trecho de interesse da curva .
Excetuando em alguns casos especiais, estaremos interessados nos circuitos com diodos
operando no modo direto.

6.1.1 Estudo gráfico dos circuitos com diodos


Tomemos um diodo em série com um resistor com uma resistência R (Fig. 6.4).

vR
vD v

Figura 6.4: Dipolo diodo ideal + resistor.

Temos
v = v D + vR . (6.4)
146 Newton Barros de Oliveira

No sentido direto
vD = 0, ∀ i e vR = R i
∴ v = 0 + R i.
No sentido inverso
i = 0, ∀ v D e vR = R 0
∴ v = vD + 0.
A caracterı́stica do dipolo diodo + resistor será então (Fig. 6.5).

a=1/R

Figura 6.5: Caracterı́stica do dipolo diodo ideal + resistor.

Tomemos agora um diodo real em série com um resistor considerando que o diodo
praticamente não conduz no sentido inverso. Determinemos a curva caracterı́stica do dipolo
resultante dessa associação. No sentido direto temos

vD = f (i), função que caracteriza o diodo e vR = R i.

Então
v = vD + vR = f (i) + R i. (6.5)
Veja a curva caracterı́stica resultante (Fig. 6.6)

i (ampéres)
2

1.5

0.5
0
-1 -0.5 0 vR 0.5 1 v (volts)
vD
v

Figura 6.6: Caracterı́stica do dipolo diodo real + resistor.

Para cada valor de resistência do resistor associado em série com o diodo teremos que
traçar uma curva do dipolo diodo + resistor, um processo nada prático! Um processo
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 147

mais eficiente para analisar o ponto de funcionamento (corrente e tensão) do diplo diodo
+ resistor consiste na análise a partir da “reta de carga”que descreveremos a seguir. Da
equação (6.4),
v = vD + R i,
temos que
v vD
i= − , vD = f (i).
R R
Desejamos determinar a corrente que passará pelo diodo quando ao dipolo diodo +
resistor for aplicada uma tensão v = ε. Em princı́pio, deverı́amos resolver a equação
ε vD
i= − , vD = f (i). (6.6)
R R
Contudo, não é possı́vel resolve-la analiticamente devido à forma funcional v D = f (i)
que origina uma equação transcendente. Porém, é possı́vel resolver graficamente a partir
da curva caracterı́stica do diodo i = i(vD ) que é a curva inversa de vD = f (i).
Considerando vD como variável traçamos a reta dada pela equação (6.6) no mesmo
gráfico que contém a curva caracterı́stica do diodo.
Para vD = 0 temos i = ε/R e para i = 0 temos vD = ε. Veja a (Fig. 6.7).

i (ampéres)
e/R i(vD)

i = e/R - vD/R

e vD(volts)
vD vR

Figura 6.7: Reta de carga e caracterı́stica do diodo real.

O ponto de interseção das duas curvas determina a tensão e a corrente que satisfazem
simultaneamente a equação da reta de carga e a equação do diodo.

Modificações na reta de carga em função dos parâmetros ε e R


Os valores dos parâmetros ε e R produzem translações e mudanças no coeficiente de in-
clinação, respectivamente, da reta de carga conforme podemos ver na figura (Fig. 6.8 ) para
variações em ε mantendo R constante e na figura (Fig. 6.9) para variações em R mantendo
ε constante.
Observe a mudança do ponto de operação em cada figura.
148 Newton Barros de Oliveira

i (ampéres)

e2/R i(vD)

e1/R

e1 e2 vD(volts)

Figura 6.8: Retas de carga para ε variável e R constante.

i (ampéres)

e/R1
i(vD)

e/R2

e vD(volts)

Figura 6.9: Retas de carga para ε constante e R variável.

6.1.2 Representações aproximadas do diodo real


Para simplificar a análise de circuitos com diodos utiliza-se frequentemente modelos linea-
rizados por partes para representar a caracterı́stica de um diodo. A caracterı́stica direta
pode ser modelada por um diodo ideal em série com um resistor cuja resistência seja igual à
resistência estática do diodo real no ponto de operação. Nesse modelo despreza-se a tensão
Vγ (Fig. 6.10).
i
i (ampéres)
RD

v 1/RD

v (volts)

Figura 6.10: Modelo do diodo real com resistência direta e respectiva caracterı́stica.

A caracterı́stica inversa pode ser modelada junto ao modelo anterior acrescentando-se


outro diodo polarizado inversamente e em série com outro resistor cuja resistência seja a
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 149

resistência estática inversa no ponto de operação escolhido (Fig. 6.11).

i
i (ampéres)
RD RI
v 1/RD
RI>>RD

v (volts)
1/RI

Figura 6.11: Modelo do diodo real com resistência direta, inversa e respectiva caracterı́stica.

Pode-se também fazer uma modelagem da caracterı́stica inversa próximo de i = 0


acrescentando-se uma fonte de corrente ao primeiro modelo (Fig. 6.12).

i (ampéres)
i
RD
I v
1/RD
I
v (volts)

Figura 6.12: Modelo do diodo real com resistência direta, fonte de corrente de saturação
inversa e respectiva caracterı́stica.

A caracterı́stica direta pode ser melhor representada levando em consideração a tensão


Vγ (Fig. 6.13).

i i (ampéres)

RD RI
v
1/RD
+ RI >>RD
Vg
-
1/RI Vg v (volts)

Figura 6.13: Modelo do diodo real com resistência direta, inversa, fonte de tensão de ruptura
e respectiva caracterı́stica.

Pode-se também modelar a caracterı́stica direta utilizando-se a resistência diferencial.


Esse modelo é útil quando se tem pequenas variações ao redor do ponto de operação (Fig.
6.14). A escolha do modelo mais apropriado depende do tipo de problema considerado.
150 Newton Barros de Oliveira

i i (ampéres)

rD
1/rD
v
+
V1
-
V1 v (volts)

Figura 6.14: Modelo do diodo real com resistência diferencial direta, fonte de tensão de
ruptura e respectiva caracterı́stica.

6.1.3 Dipolos elementares formados por diodos ideais


Vamos analisar as caracterı́sticas de alguns dipolos úteis que podem ser construı́dos pela
associação de diodos com resistores e fontes de tensão. Observe o circuito e sua curva
caracterı́stica correspondente nas figuras (Fig. 6.15) a (Fig. 6.18).

i i

R1
v 1/R1
+
e
- A
e v

Figura 6.15: Circuito 1 com diodo e respectiva caracterı́stica.

i i

R1
v 1/R1 + 1/R2
R2
+ A
e
-
e v
1/R2

Figura 6.16: Circuito 2 com diodo e respectiva caracterı́stica.

Os pontos marcados por A são chamados de pontos de ruptura. Correspondem aos


pontos em que o diodo entra em funcionamento (conduz) ou deixa de funcionar (corta).
Nessa situação, iD e vD no diodo são nulos.
Nosso próximo problema é determinar a curva caracterı́stica de dipolos formados com
mais de um diodo. Um dos métodos de resolução consiste em determinar os pontos de
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 151

i i
R
v
+ v
e A -e/R
-
1/R
Figura 6.17: Circuito 3 com diodo e respectiva caracterı́stica.

R2 i i

R1 v
1/R2
+
e A v
- -e/R1

1/(R1 + R2)

Figura 6.18: Circuito 4 com diodo e respectiva caracterı́stica.

ruptura de cada diodo, cada um correspondendo a uma tensão e a uma corrente nula em
cada diodo e depois unir esses pontos por segmentos de retas. Por exemplo considere a
(Fig. 6.19)

i
i2 i1
R2 v1 D1
v
D2 v2 R1
-
e
+

Figura 6.19: Circuito com 2 diodos.

Encontremos os pontos de ruptura.


Diodo D1 : façamos v1 = 0 e i1 = 0 (ponto de ruptura do diodo que chamaremos de
A1 ) e analisemos as possibilidades de condução do diodo D2 . Se v = 0, D2 conduz e
i2 = i = ε/R2 . Assim, um ponto do gráfico será A1 correspondendo a v = 0 e i = ε/R2 .
Diodo D2 : façamos v2 = 0 e i2 = 0 (ponto de ruptura do diodo que chamaremos
de A2 ). Nesse caso teremos v = −ε e consequentemente D1 estará conduzindo tal que
152 Newton Barros de Oliveira

i = i1 = −ε/R. Teremos então outro ponto do gráfico, A2 correspondendo a v = −ε e


i = −ε/R1 .
Traçamos então a reta que liga A1 a A2 , veja (Fig. 6.20).

i (ampéres)

e/R2
A1
1/R2
-e
A2 v (volts)
-e/R1

1/R1

Figura 6.20: Caracterı́stica do circuito com 2 diodos.

Para v > 0 somente D2 conduz e v = −ε + R2 i2


v ε
∴ i = i2 = + .
R2 R2
Para v < ε somente D1 conduz e v = R1 i
v
i= .
R1

6.1.4 Aproximação de uma função matemática por segmentos


O exemplo anterior mostra que é possı́vel produzir segmentos de retas a partir da associação
conveniente de diodos, resistores e fontes de tensão. É possı́vel simular uma caracterı́stica
que obedeça a uma lei i(v) monótona, crescente em um certo intervalo (v 1 , v2 ) utilizando
uma combinação paralela de diodos. Por exemplo, a curva a seguir pode ser aproximada
por quatro segmentos de reta (Fig. 6.21).

i (ampéres) i

4
R2 R3 R4
3 A4 v
i1 D2 D3 D4
2 A3
1 + + +
i1 A2 e2 e3 e4

- - -
e 2
e 3 e 4
v (volts)

Figura 6.21: Simulação de uma função matemática com a segunda derivada sempre positiva.
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 153

Observe que ε2 < ε3 < ε4 e que a inclinação do segmento 2 é 1/R2 , do segmento


3 é 1/R2 + 1/R3 e do segmento 4 é 1/R2 + 1/R3 + 1/R4 . A medida que a tensão v vai
aumentando, os diodos D2 , D3 e D4 vão entrando em condução. Essa associação em paralelo
permite realizar funções com a segunda derivada sempre positiva.
Pode-se realizar funções com a segunda derivada sempre negativa com uma associação
em série como mostrado a seguir (Fig. 6.22). Nessa associação ε 3 > ε2 > ε1 .
A inclinação do segmento 1 é 1/R0 , do segmento 2 é 1/(R0 + R1 ), do segmento 3 é
1/(R0 + R1 + R2 ), do segmento 4 é 1/(R0 + R1 + R2 + R3 ).
Funções crescentes mais complexas podem ser simuladas com a combinação adequada
de associações de diodos em série e em paralelo. A caracterı́stica real dos diodos arredonda
os ângulos da curva aproximada tornando uma boa aproximação.
R0
i
-
i D1 +e 1

R1
4 -
e /R
3 3
A3
e /R
3 D2 +e 2 v
2 2
2 A2
e /R
1 1 R2
1 A1 -
e R /R
1 0 1 v D3 +e 3

R3

Figura 6.22: Simulação de uma função matemática com a segunda derivada sempre negativa.

6.2 Retificação com diodos


Retificar um sinal alternado significa convertê-lo em um sinal contı́nuo. Usualmente neces-
sitamos retificar um sinal senoidal, um sinal que não possui componente contı́nua, de modo
que para convertê-lo em um sinal contı́nuo necessitamos modificar sua forma para fazer
surgir uma componente contı́nua. Isso pode ser obtido utilizando-se um diodo em vista de
sua propriedade de condução em um único sentido.
Considere o circuito mostrado na (Fig. 6.23).
Nesse circuito ε(t) = ε0 sen(ωt) e a tensão na saı́da é vR (t) = R i(t). Utilizemos a curva
caracterı́stica do dipolo diodo + resistor como uma curva de transferência entre a entrada
e a saı́da através de um processo gráfico (Fig. 6.24).
Observe que
ε0 sen (ωt)
i(t) = no semi-ciclo positivo da tensão de entrada
R
e
i(t) = 0 no semi-ciclo negativo da tensão de entrada.
154 Newton Barros de Oliveira

i(t) i (ampéres)

+
R vR 1/R
e(t) ~
-

e (volts)

Figura 6.23: Circuito retificador básico com um diodo ideal e caracterı́stica do dipolo diodo
+ resistor de carga.

i (ampéres)
1/R

e (volts) t1 t2 t3 t4 t
t1

t2

t3

t4
t

Figura 6.24: Processo gráfico de transferência da tensão de entrada ε(t) para a corrente i(t)
no diodo.

Portanto
ε0 sen (ωt)
vR (t) = R = ε0 sen (ωt) no semi-ciclo positivo da tensão de entrada
R
e
vR (t) = 0 no semi-ciclo negativo da tensão de entrada.
Veja (Fig. 6.25).
O valor médio (componente contı́nua) da tensão vR (t) será dado por
Z T Z T
1 1 ε0
< vR >= vR (t)dt = ε0 sen (ωt) dt = ≈ 0, 32 ε0 . (6.7)
T 0 T 0 π
Além da componente contı́nua existe a componente alternada que deve ser eliminada
por uma filtragem conveniente.
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 155

e(volts)
e 0

t(s)
vR(volts)
e 0

t(s)

Figura 6.25: Tensão de entrada e tensão no resistor de carga.

Considere agora que a retificação é feita por um diodo real representado pelo seu modelo
linear com resistência direta e inversa, RD  RI , no circuito da figura (Fig. 6.26).

RD

RI

i(t) vR
+
R
e(t) ~
-

Figura 6.26: Circuito retificador básico com um diodo real modelado pelas resistências
direta e inversa.

No semi-ciclo positivo da fonte temos


ε0
i(t) = sen (ωt) , (6.8)
RD + R
no semi-ciclo negativo
ε0
i(t) = sen (ωt) (6.9)
RI + R
e
vR (t) = R i(t). (6.10)
Utilizando o processo gráfico com a curva de transferência teremos a (Fig. 6.27)
Observe que a parte negativa não desaparece completamente devido à pequena condução
inversa. Temos que
ε0 R
i+
0 = =⇒ v0+ = ε0
RD + R RD + R
e
ε0 R
i−
0 = =⇒ v0− = ε0 .
RI + R RI + R
156 Newton Barros de Oliveira

i
(ampéres) 1/(R+RD)
i0+

e t1 t2 i - t3 t4 t
0
1/(R+RI) t1 (volts)

t2

t3

t4

Figura 6.27: Processo gráfico de transferência da tensão de entrada ε(t) para a corrente i(t)
no diodo.

Normalmente RI  R de modo que v0− ≈ 0 Calculando a componente contı́nua encon-


traremos
R ε0 ε0
< vR >= < , (6.11)
RD + R π π
ou seja, a resistência direta reduz o valor médio.
Observe que o valor médio é relativamente baixo (≈ 30%ε0 ) nos exemplos anteriores.
Podemos elevar o valor médio acrescentando um capacitor em paralelo com o resistor de
carga R. Tal capacitor armazenará energia durante a condução do diodo e posteriormente
a fornecerá para o resistor durante o intervalo de tempo em que o diodo estiver cortado
(Fig. 6.28).

RD <i(t)>

i(t) vD
+
e(t) ~ C R vR
-

Figura 6.28: Circuito básico de retificação com capacitor em paralelo com o resistor de
carga.

Com capacitâncias elevadas consideremos que a reatância capacitiva na freqüência fun-


damental ω seja suficientemente baixa quando comparada com a resistência R de modo
que a componente alternada da corrente i(t) atravesse o capacitor na sua totalidade, ou
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 157

seja, pelo resistor passa praticamente apenas a componente contı́nua dessa corrente. Como
consequência, a componente alternada da tensão vR (t) é desprezı́vel quando comparada
com a componente contı́nua. Nessa condição, vR (t) ≈< vR >= constante e nosso objetivo
é determinar esse valor.
Como
ε(t) = vD (t) + vR (t) e vR (t) =< vR > (6.12)
teremos
vD (t) = ε(t)− < vR > .
Chamemos atenção para o fato de estarmos considerando a tensão v D (t) como a tensão
no diodo real (diodo ideal em série com RD ). Entrando na curva caracterı́stica do dipolo
diodo real , considerando ε(t) = ε0 cos(ωt) e observando que essa tensão está deslocada pelo
valor < vR > temos a (Fig. 6.29).

i
(ampéres)
1/RD

-<vR>
vD(volts) -q0 o q0 q=wt
-q0
o e(t)
q0

e0

q=wt

Figura 6.29: Transferência do sinal de tensão de entrada para corrente no diodo.

Vemos que só existirá corrente no diodo no intervalo −θ0 a θ0 que é menor que π
(2θ0 < π) ou seja, θ0 < π/2. Observando a figura vemos que

< vR >= ε0 cos (θ0 ) (6.13)

mas
ε0
< vR >= R < i > ∴ < i >= cos (θ0 ) . (6.14)
R
Da equação (6.12) no intervalo de condução fica

ε0 cos (ωt) = ε0 cos (θ) = vD (t)+ < vR >, vD = RD i

∴ ε0 cos (θ) = RD i + ε0 cos (θ0 )


ou seja
ε0
i= [cos (θ) − cos (θ0 )] .
RD
158 Newton Barros de Oliveira

O valor médio pode ser calculado diretamente


Z θ0
1 ε0 ε0
< i >= [cos (θ) − cos (θ0 )] dθ = [sen (θ) − θcos (θ0 )]θ−θ
0

2π −θ0 RD 2πRD 0

ou
ε0
< i >= [sen (θ0 ) − θ0 cos (θ0 )] .
πRD
Substituindo a equação (6.14) fica
ε0 ε0
cos (θ0 ) = [sen (θ0 ) − θ0 cos (θ0 )]
R πRD
πRD
∴ tan (θ0 ) − θ0 = . (6.15)
R
A resolução dessa equação permite, em princı́pio, determinar o valor de θ 0 . Essa equação
é transcendente e só pode ser resolvida por métodos numéricos ou gráficos mas, uma vez
determinado o valor de θ0 , a equação (6.13) fornecerá o valor de < vR >.
Observe que RD  R =⇒tan(θ0 ) = θ0 ∴ θ0 = 0, isso significa que o capacitor é
carregado instantaneamente e mantém-se praticamente carregado (pois, por hipótese, a
reatância capacitiva é muito menor que a resistência de carga). Pela equação (6.13) teremos

< vR >= ε0 cos (0) = ε0 , (6.16)

assim, a tensão média é igual à tensão de pico da fonte e construı́mos então o que se conhece
como “voltı́metro de pico”.
Pela expressão de < vR > em função de θ0 e θ0 em função de R podemos verificar que
essa tensão depende do valor da resistência de carga R e, em outras palavras, da corrente
média < i > em R. A equação (6.15) mostra que o aumento da resistência de carga produz
uma diminuição em θ0 e o consequente aumento da tensão média.

Circuito real onde a reatância capacitiva não é muito menor que a resistência
de carga R
Na situação anterior, havı́amos feito a hipótese de que a capacitância era suficientemete
elevada de modo que só existisse componente contı́nua no resistor de carga. Isso é uma
situação que só é realizável para resistência de carga muito elevada o que não ocorre na
maioria das aplicações dos circuitos retificadores. Nesses casos não podemos desprezar
a componente alternada frente à componente contı́nua. Além disso, a análise teórica é
dificultada pela presença da resistência direta do diodo RD que impede a tensão no capacitor
acompanhar a tensão na fonte durante a condução do diodo. Faremos a hipótese que a
constante de tempo RD C seja suficientemente pequena quando comparada com 1/ω de
modo que a tensão no capacitor acompanhe a tensão da fonte durante a condução do diodo
na figura (Fig. 6.28).
Iniciando em t = 0 com o capacitor descarregado, a medida que a tensão da fonte
ε = ε0 sen(ωt) vai se elevando, o diodo entra em condução e o capacitor começa a carregar-
se. Parte da corrente que atravessa o diodo dirige-se ao capacitor e outra parte dirige-se
ao resistor de carga. Durante a carga a tensão no capacitor segue a tensão da fonte,
vC = ε0 sen(ωt). Após atingir a tensão máxima, ε0 , o capacitor começa a descarregar-se
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 159

sobre o resistor de carga ao mesmo tempo em que a tensão da fonte diminui. Supondo
que a tensão da fonte diminua mais rápido do que a tensão no capacitor descarregando-se
sobre sobre o resistor, haverá um instante em que o diodo deixará de conduzir e a partir
desse ponto o capacitor descarrega-se exponencialmente sobre o resistor até que, no próximo
semi-ciclo positivo, a tensão da fonte volte a crescer e alcance o valor da tensão no capacitor.
Nesse momento, o diodo volta a conduzir e a tensão no capacitor segue a tensão da fonte
repetindo o processo a partir desse ponto (Fig. 6.30).

vR
e0

wt1 p 2p wt2 wt3 wt


cond. corte cond.

Figura 6.30: Tensão no resistor de carga no retificador com capacitor em paralelo com esse
resistor de carga.

Durante a condução do diodo a tensão no capacitor (e no resistor de carga) vale v C =


ε0 sen(ωt) e a corrente no diodo será

vC dvC ε0
iD = +C = sen (ωt) + ωCε0 cos (ωt) .
R dt R
Essa corrente pode ser posta na forma

iD = i0 sen (ωt + φ)

onde r
1
i0 = ε 0 + ω 2 C 2 e φ = tan−1 (ωCR) . (6.17)
R2
O diodo parará de conduzir quando iD = 0, ou seja, quando

ωt1 + φ = π ∴ ωt1 = π − φ no primeiro ciclo.

Observe que um valor elevado de C produzirá um pico elevado de corrente para um


dado valor de R. A figura (Fig. 6.31) mostra a corrente no diodo durante os intervalos
de condução no primeiro e no segundo ciclo e corresponde a trechos de senóides nesses
intervalos. A equação (6.17) mostra que a amplitude da corrente cresce com o aumento da
capacitância e que o ponto onde começa o decaimento exponencial tende ao pico da tensão
na carga (π/2 no primeiro ciclo). A partir de ωt1 o capacitor descarrega-se exponencialmente
até ωt2 segundo a equação
t
vR = Ae− RC para ωt > ωt1
160 Newton Barros de Oliveira

vR , i

i0
i
e0
vR

wt1 p 2p wt2 wt3 wt


cond. corte cond.

Figura 6.31: Tensão no resistor de carga e corrente no diodo no retificador com capacitor
em paralelo.

onde A pode ser calculado a partir do valor da tensão inicial dada por ε0 sen(ωt) quando
t = t1 . Teremos então
t1 t1
ε0 sen (ωt1 ) = Ae− RC ∴ A = ε0 sen (ωt1 ) e RC

e a equação da descarga fica


(t−t1 )
vR = ε0 sen (ωt1 ) e− RC . (6.18)

O diodo voltará a conduzir quando a tensão da fonte, no próximo ciclo, se igualar à


tensão na descarga o que ocorrerá em algum instante t2 . Esse tempo será determinado pela
equação
(t−t1 )
ε0 sen (ωt) = ε0 sen (ωt1 ) e− RC
que não tem solução analı́tica podendo ser resolvida graficamente ou numericamente. Para
o produto RC (constante de tempo) com valor elevado a queda exponencial é muito suave
e ωt2 tende a se aproximar de 5π/2.

6.3 Retificação de ciclo completo


No circuito anterior (retificação de meio ciclo) observamos que a tensão de saı́da ainda possui
uma ondulação relativamente alta. Essa ondulação poderia ser reduzida com o aumento da
capacitância elevando contudo o pico de corrente nos diodos. Pode-se reduzir drásticamente
a ondulação utilizando-se a retificação de ciclo completo que pode ser obtida por um arranjo
de dois diodos ligados ao secundário de um transformador com derivação central ou por
uma ponte retificadora com quatro diodos alimentada diretamente pela fonte de tensão AC
(ou transformador simples). A ideia nessa retificação é aproveitar o semi-ciclo negativo da
tensão da fonte que não foi utilizado na retificação de meio ciclo.
No arranjo de dois diodos teremos a figura (Fig. 6.32) e no arranjo de quatro diodos
teremos a figura (Fig. 6.33). Em ambos estamos supondo que a tensão ε(t) seja senoidal
com amplitude ε0 .
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 161

D1
vR
+
e(t) R vR(t) e
+ 0

e(t) -
+
- e(t) D1 conduz D1 conduz wt
- D2 conduz D2 conduz
D2

Figura 6.32: Retificação de ciclo completo com transformador com derivação central e dois
diodos.

D1 vR
+ D2 e 0
e(t) R vR(t)
- D3
D1 e D3 D1 e D3 wt
D4
conduzem conduzem
D2 e D4 D2 e D4
conduzem conduzem

Figura 6.33: Retificação de ciclo completo com ponte de diodos.

No primeiro circuito os diodos conduzem alternadamente. Durante o semi-ciclo positivo


de ε(t) o diodo D1 conduz enquanto o diodo D2 permanece cortado e durante o semi-ciclo
negativo a situação se inverte, D2 conduz enquanto o diodo D1 permanece cortado.
No segundo circuito os diodos conduzem e cortam aos pares. Durante o semi-ciclo
positivo de ε(t) os diodos D1 e D3 conduzem enquanto os diodos D2 e D4 permanecem
cortados e durante o semi-ciclo negativo a situação se inverte, D2 e D4 conduzem enquanto
os diodos D1 e D3 permanecem cortados. Observe que a maneira com que os diodos estão
conectados ao resistor de carga garante que o sentido da corrente neste resistor será sempre
o mesmo nos dois semi-ciclos da fonte de tensão.
A ligação de um capacitor em paralelo com o resistor de carga produzirá um efeito
semelhante ao obtido no exemplo anterior com a diferença que os diodos conduzirão alter-
nadamente e que a descarga exponencial do capacitor se dará em um intervalo de tempo
menor. Isso ocorrerá porque a tensão da fonte no semi-ciclo negativo aparece invertida
após a retificação conforme podemos visualizar na figura (Fig. 6.34). O ângulo ωt 1 ainda
é determinado pela mesma expressão do exemplo anterior e ωt2 também não pode ser de-
terminado analiticamente. A corrente máxima nos diodos também é dada pela mesma
expressão anterior.
Uma aproximação suficientemente boa para determinar o valor médio e a ondulação
da tensão de saı́da consiste em considerar que, para uma capacitância elevada, o inı́cio da
descarga ocorre no pico da senóide retificada (ωt1 ≈ π/2), que o decréscimo exponencial
pode ser aproximado por uma função linear e que o intervalo de tempo (t2 − t1 ) da descarga
exponencial vale aproximadamente T /2 (Fig. 6.35).
162 Newton Barros de Oliveira

vR
D1
e 0
+
e(t) C R vR(t)
+
e(t) -
+
- e(t)
-
wt1 wt2 wt3 wt
D2
D1 conduz D2 conduz D1 conduz

Figura 6.34: Tensão no resistor de carga na retificação de ciclo completo.

vR
e0
Dvripple

t1 t2 t
T

Figura 6.35: Ondulação da tensão no resistor de carga na retificação de ciclo completo.

Teremos
∆vripple
< vR >= ε0 − (6.19)
2
e a ondulação ou tensão “ripple”, ∆vripple , pode ser calculada pelo decréscimo na carga do
capacitor que supostamente tem uma variação linear no tempo,
T
∆q = C∆vripple e ∆q =< i > ∆t =< i >
2
então
T T 1
<i> = C∆vripple ∴ ∆vripple =< i > =< i > .
2 2C 2f C
Desse modo teremos
<i>
2f C <i>
< vR >= ε0 − = ε0 − . (6.20)
2 4f C

É costume definir o “fator de ripple”ou fator de ondulação como a relação


∆vripple
fator de ripple=
< vR >
e utilizá-lo como um indicativo da qualidade do processo de retificação. A retificação será
tanto melhor quanto menor for esse fator.
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 163

Para dimensionar uma fonte de tensão (retificada) DC devemos partir da tensão DC


desejada, da máxima tensão de ripple admissı́vel e da corrente média que atravessará o
resistor de carga. Calcula-se então o valor do capacitor necessário e a corrente de pico no
diodo. Especifica-se então o diodo a partir da corrente máxima (pico) e da corrente média.
Deve-se considerar ainda uma queda de tensão de aproximadamente 0, 75 V nos diodos
no caso de uso de um transformador com derivação central ou de aproximadamente 1, 50 V
no caso de uso de uma ponte de diodos. A amplitude da tensão na entrada do retificador
será calculada como
<i> < vR >
ε0 = 0, 75+ < vR > + , < i >= (6.21)
4f C R
ou
<i> < vR >
ε0 = 1, 50+ < vR > + , < i >= (6.22)
4f C R
a depender do circuito escolhido. Observe ainda que cada diodo opera ou conduz apenas
durante meio ciclo, momento em que ele dissipa uma certa quantidade de energia na re-
sistência direta, e esfria no próximo meio ciclo. Assim, se a corrente média na carga for,
por exemplo, I ampéres, em cada diodo a corrente média será I/2 ampéres.
No caso de uso de transformadores, a especificação é feita pelos valores eficazes das
tensões primária e secundária e pela corrente eficaz no secundário (que corresponde à cor-
rente média no resistor de carga).

6.4 Multiplicadores de tensão


Muitas vezes ocorre a necessidade de elevar o valor de uma tensão contı́nua a partir de
uma tensão alternada sem fazer uso de um transformador. Isso pode ser obtido a partir
de um circuito simples conhecido com multiplicador de tensão. Esse circuito é baseado na
associação de células básicas cada uma composta por um diodo e um capacitor. Considere
uma fonte de tensão alternada senoidal ε = ε0 sen(ωt) que será conectada a uma célula
básica conforme a figura (Fig. 6.36).

célula básica

+ +
~ e(t) e1(t)
- -
- e +
0

Figura 6.36: Fonte de tensão e célula básica de um multiplicador de tensão.

No semi-ciclo positivo o diodo conduz e o capacitor carrega-se até o valor da amplitude da


tensão da fonte ε0 . No semi-ciclo negativo o diodo corta e o capacitor permanece carregado.
A tensão na saı́da da célula será então ε1 = ε0 sen(ωt) − ε0 = ε0 (sen (ωt) − 1). Veja que
essa tensão varia entre 0 e −2ε0 volts.
164 Newton Barros de Oliveira

2e 0
célula básica - +
+ + +
~ e(t) e1(t) e (t)
2

- - -
- e + célula básica
0 refletida

Figura 6.37: Fonte de tensão, célula básica normal e refletida de um duplicador de tensão.

Acrescentemos agora mais uma célula básica refletida no eixo horizontal, veja (Fig.
6.37).
A tensão ε1 (t) carregará o capacitor até a tensão 2ε0 com a polaridade mostrada na
figura durante a condução do diodo e não poderá descarregar-se através deste. A tensão na
saı́da, ε2 (t) será ε2 (t) = ε1 (t) + 2ε0 = ε0 (sen (ωt) + 1). Observe que o capacitor superior
está carregado com uma tensão 2ε0 , temos portanto um duplicador de tensão.
Acrescentemos agora mais uma célula básica normal, figura (Fig. 6.38).

2e0
célula básica - + célula básica

+ + + +
~ e(t) e1(t) e (t)
2 e (t)
3

- - -
- e + célula básica - +
0 refletida 2 e0

3 e0

Figura 6.38: Triplicador de tensão.

A tensão ε2 (t) carregará o capacitor até a tensão 2ε0 com a polaridade mostrada na
figura durante a condução do diodo e não poderá descarregar-se através deste. A tensão
na saı́da, ε3 (t) será ε3 (t) = ε2 (t) − 2ε0 = ε0 (sen (ωt) − 1). Observe que os dois capacitores
inferiores estão conectados em série e a tensão total entre os extremos é 3ε 0 . Temos portanto
um triplicador de tensão.
Acrescentemos agora mais uma célula básica refletida no eixo horizontal, figura (Fig.
6.39).
A tensão ε3 (t) carregará o capacitor até a tensão 2ε0 com a polaridade mostrada na
figura durante a condução do diodo e não poderá descarregar-se através deste. A tensão
na saı́da, ε4 (t) será ε4 (t) = ε3 (t) + 2ε0 = ε0 (sen (ωt) + 1). Observe que os dois capacitores
superiores estão conectados em série e a tensão total entre os extremos é 4ε 0 . Temos
portanto um quadruplicador de tensão.
Esse processo pode continuar indefinidamente obtendo-se tensões múltiplas da amplitude
da tensão da fonte nas associações em série dos capacitores. Observe que, com excessão do
Circuitos Elétricos no Domı́nio do Tempo e da Frequência 165

4 e0
2e 0 2e 0
célula básica - + célula básica - +
+ + + + +
~ e(t) e (t) 1
e (t) e (t)
2 e (t)
3 4

- - - - -
- e + célula básica - 2 e + célula básica
0 refletida refletida 0

Figura 6.39: Quadruplicador de tensão.

primeiro capacitor, os capacitores deverão suportar pelo menos o dobro da amplitude da


tensão da fonte. Observe também que a tensão na saı́da da última célula excursiona ora de
0 a −2 V, ora de 0 a +2 V a cada célula acrescentada. Como consequência todos os diodos
devem ser capazes de suportar uma tensão reversa de pelo menos o dobro da amplitude da
tensão da fonte.
A análise efetuada para o circuito multiplicador de tensão não levou em conta a presença
de uma possı́vel “carga”conectada ao circuito. A análise foi realizada na condição de circuito
aberto e os valores das tensões calculados só são válidos nessa condição. A introdução de
um resistor de carga produzirá uma redução nos valores médios das tensões e introduzirá
uma ondulação ou ripple.
Apesar desses circuitos promoverem a elevação da tensão, a capacidade de fornecimento
de corrente normalmente é pequena e está vinculada aos valores das capacitâncias utilizadas.
Observe que as tensões são obtidas como tensões em uma associação em série de capacitores
e a energia disponı́vel é aquela acumulada nos capacitores.
Este livro foi composto no formato 190x260mm.
Impresso em papel 75 g/m2
no Setor de Reprografia da Edufba.
Impressão de capa e acabamento da Cartograf Gráfica e Editora
Tiragem 300 exemplares
Salvador, 2008.

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