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A CILADA DAS CERTEZAS ABSOLUTAS

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        Nunca diga "jamais" e jamais diga "nunca", a menos que queira passar pelo constrangimento de se explicar publicamente, como faço agora.       As nossas certezas absolutas costumam durar muito pouco.      Disse que "jamais" saltaria de paraquedas novamente após uma lesão e a pressão do trabalho. Três meses depois, eu estava colorindo o céu sob o meu velame.      Jurei amor eterno em um relacionamento que parecia inquebrável e, pouco tempo depois, troquei a mulher idealizada dos meus sonhos por uma companheira de verdade.      Este texto é o meu pedido de desculpas e a minha autopenitência.      Se prometi o impossível, foi por esquecer que a vida é imprevisível.      Para não enlouquecer com minhas próprias contradições, risco o "nunca" e o "jamais" do meu dicionário.      Que a vergonha que passo hoje sirva de alerta: parem de prometer aquilo que você...

O OFÍCIO DE EMOCIONAR:

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        Quando alguém se debulha em lágrimas ao ouvir uma canção, o compositor, em algum lugar do tempo, chora em uníssono. Há uma corda invisível e sagrada que amarra a ponta da caneta ao abismo do peito de quem a ouve. É essa mesma linhagem de afeto que transborda na colação de grau de um novo doutor: no instante em que o diploma toca as mãos trêmulas do aluno, atrás dele não pulsa apenas o coração da mãe — ali estão mestres que, no silêncio da alma, enxugam o pranto que insiste em inundar o olhar.      Assim vive o escritor. Seu sustento não vem apenas do papel, mas do ofício de esculpir o intangível, moldando palavras que servem de abrigo para quem o prestigia com o olhar. É um ato de entrega absoluta: o autor se despe de suas próprias defesas para que o leitor, em meio à sua própria emoção, encontre um manto para se cobrir.      E quando a frase, como uma flecha certeira, toca o ponto mais profundo da memória, o leitor — do mais hum...

LÉO 0010

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        Léo achou que o elevador da editora fosse um portal para a liberdade, mas o destino, com seu senso de humor cruel, tinha outros planos. No dia seguinte, ele recebeu duas mensagens quase simultâneas. Beatriz, a mãe, exigia sua presença no Restaurante Albamar, no Centro, para "discutir os termos confidenciais do contrato". Mirella, a filha, enviou uma localização de um quiosque discreto na Urca, alegando que "precisava de ajuda urgente com a formatação de um arquivo corrompido".    Léo, em um momento de puro desespero e fidalguia, tentou desmarcar, mas ambas foram taxativas: se ele não aparecesse, elas iriam buscá-lo em casa. O suor frio de Léo agora era uma cachoeira. Ele sabia que o Rio é um ovo, mas o que aconteceu a seguir foi um erro de cálculo geográfico digno de um best-seller de comédia.    Devido a uma manifestação no Centro, Beatriz mudou o encontro para o mesmo quiosque na Urca, buscando "um ar mais leve". Léo chegou primeiro, com...

LÉO 09/10

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        Léo mal tinha começado a se habituar ao ritmo frenético do teclado quando a porta da diretoria se abriu com um impacto suave. Era Mirella, a filha de Beatriz, que trazia consigo uma energia solar que parecia deslocada naquele escritório cinza. Ela se inclinou para dar um beijo na mãe, mas seus olhos, treinados para identificar o que havia de melhor no "catálogo" da vida, travaram imediatamente no rapaz loiro concentrado na tela. — Mãe... quem é o autor desse novo "best-seller"? — perguntou Mirella, sem nenhum pudor, apontando discretamente para Léo.    Beatriz, sentindo o território ser invadido, tentou uma manobra defensiva rápida: — É apenas o novo digitador, querida. Ele tem muito trabalho acumulado e precisa de silêncio absoluto. Aliás, você não tinha uma aula de pilates agora?     Mas Mirella não era do tipo que aceitava uma "revisão" nos seus planos. Ela caminhou até a mesa de Léo, que continuava digitando como se sua vida dependesse...

LÉO 08/10

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            Após meses colecionando nãos e fugindo de bicos que sempre terminavam em confusão, Léo viu uma luz no fim do túnel: um convite para entrevista em uma prestigiada editora de livros. O cargo de digitador parecia o refúgio perfeito; afinal, letras não se apaixonam, e, acima de tudo, não pedem favores "particulares". Na manhã seguinte, o sol do Rio refletia na fachada de vidro do prédio no Centro, quase como um aviso. Léo ajeitou o colarinho, conferiu o nó da gravata e atravessou a porta giratória com a determinação de quem deixa o caos para trás. Aquele prédio espelhado era o seu forte: um labirinto de burocracia onde ele pretendia se tornar invisível. Ele era rápido no declado, atento aos detalhes e, o melhor de tudo: em uma sala de digitação, estaria isolado e em silêncio — longe de pias entupidas, berços para montar ou esposas solitárias. Pelo menos, era o que ele achava. Ao chegar na recepção, veio o primeiro sinal de perigo. A rec...

LÉO 07/10

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        Léo atravessou a ponto de Niterói para o Rio com a alma lavada e o coração em paz. Mas, como diz o ditado, a alegria de pobre dura pouco, e a do Léo dura apenas o tempo de um sinal fechar.      Assim que estacionou em frente ao seu prédio, deu de cara com um caminhão de mudança e uma faixa esticada de janela a janela: "Bem-vindo ao lar, meu herói!".     Antes que pudesse engatar a ré, a filha do dono da padaria — aquela do vazamento na cozinha — surgiu do nada com uma chave na mão e um brilho possessivo nos olhos. Ela não estava sozinha; ao lado dela, o pai, o padeiro portuga, segurava um rolo de massa como se fosse um cetro. — Léo, meu filho! — exclamou o velho. — Já que você salvou a honra da minha menina naquele dia do "conserto da pia", decidimos que você não pode mais viver nesse aperto. Aluguei o apartamento do andar de cima pra vocês!    Léo sentiu o suor frio. A "ajuda" na cozinha tinha virado um noivado por aclamaçã...

LÉO 06/10

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       O sol ainda não tinha acordado quando Léo pegou a estrada para Nova Friburgo, buscando o frio da serra para ver se congelava aquela saudade que não o deixava em paz. O alvo era Selminha, a única que ele nunca deixara entrar em sua lista de "ciladas". Selminha era diferente; para ela, o "bom dia" de Léo sempre tivera o peso de uma promessa.      Ao chegar, o choque térmico: Selminha estava casada. Ele a viu na Praça do Suspiro, de braço dado com um sujeito sólido, de expressão quadrada — o oposto do magnetismo fácil de Léo. Quando os olhares se cruzaram, o tempo em Friburgo parou. Não houve escândalo, apenas aquele riso de canto de boca que só quem tem um passado mal resolvido consegue decifrar. O ar da serra, que deveria ser puro, ficou carregado de uma eletricidade perigosa.      Nos dias seguintes, a cidade virou um tabuleiro. Encontros "acidentais" na Padaria do Paissandu, trocas de olhares por cima das prateleiras do mercado. ...

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