As Leituras do Pedro: Tex 655/20 – A cavalgada do destino

As Leituras do Pedro*

Tex 655/20 – A cavalgada do destino

Tex 655/20 – A cavalgada do destino
História originalmente publicada em
Tex 755 (SBE, Itália, 2021)
Graziano Frediani (ideia original)

Mauro Boselli (argumento)
Claudio Villa (desenho)
Mythos Editora
Brasil, 2024
160 x 210 mm, 128 p., cor, capa cartão
R$ 33,90

Capas e/ou pranchas?

Um bom capista é necessariamente um bom autor de BD? A resposta é não, claramente, porque as duas funções têm bases e objectivos diferentes.

A primeira, a capa, tem como função ser porta de entrada no livro. Tem de atrair, despertar a atenção, criar curiosidade, vontade de ler.

A segunda, a banda desenhada, apresenta uma função narrativa. Tem de transmitir ritmo, dinâmica, acima de tudo tem de ter sequência.

Sei que ao nível da banda desenhada franco-belga a questão não será muito relevante, pois geralmente o desenhador faz a sua própria capa, mas no que diz respeito aos comics de super-heróis ou, como é o caso hoje, aos fumetti Bonelli, as coisas não são bem assim.

Tex 655/20 – A cavalgada do destino; pág. 14

Na casa mãe de Tex, Dylan Dog ou Martin Mystère, a norma diz que, para cada série, há um artista encarregado de todas as capas – possivelmente como forma de as homogeneizar e de lhes dar uma imagem global imediatamente reconhecível. Por isso, Claudio Villa assinou as dos primeiros relatos do Detective do Pesadelo, sendo depois substituído por Angelo Stano; Giancarlo Alesandrinio assinou as de Martin Mystère, que ele próprio desenhava; sucedendo o mesmo com Gallieno Ferri em relação a Zagor; o mesmo Claudio Villa citado acima, a partir do número 400, ocupou em Tex o legado que vinha de Aurelio Galleppini, o criador gráfico do ranger.

Villa, ao longo dos anos, estendeu a sua actividade também a algumas das histórias de Tex, poucas, aparentemente devido à sua proverbial lentidão. O exemplo mais recente, pelo menos nas minhas leituras, é este A cavalgada do destino que, assinalando os 75 anos da personagem, foi publicado a cores. Cores essa, refiro desde já, superiores ao que é habitual na editora italiana, o que contribui para realçar a qualidade do desenho.

Tex 655/20 – A cavalgada do destino; pág. 20

E não havendo dúvidas quanto à qualidade gráfica do traço de Villa, ao longo da leitura ressaltaram alguns pormenores em que sobressaiu o capista. Na forma como faz grandes planos destacando expressões ou pormenores, por exemplo, mas, principalmente, no modo como em casos pontuais, introduziu vinhetas de maior dimensão para obter cenas compostas que podiam perfeitamente dar… uma capa!

Essas imagens – como a evocação de Lilyth, aquelas em que o relato presente se sobrepõe a imagens passadas ou, perto do final, durante o tornado – deixam a sensação que se Villa fosse libertado (institucionalmente) do espartilho das 2 vinhetas em 3 tiras que são imagem de marca da Bonelli, teríamos certamente uma obra de maior impacto gráfico – atrevendo-me eu a acrescentar sem perda da função narrativa, bem pelo contrário, como é visível nos poucos casos referidos.

Tex 655/20 – A cavalgada do destino; pág. 31

O argumento, assinado por Mauro Boselli a partir de uma ideia original de Graziano Frediani, remete mais uma vez para o passado de Tex e para a época em que perseguiu os responsáveis pela morte da sua esposa, Lilyth, e vingou a sua morte, assumindo assim um incontornável peso afectivo e traumático. Anos mais tarde, no presente do relato, alguns fantasmas – bem reais… – dessa época voltarão a surgir, a reboque de novas epidemias de varíola provocadas por brancos gananciosos interessados nos territórios ocupados por peles-vermelhas, o que levará Tex, Kit Carson, Kit Willer e Jack Tigre em nova perseguição punitiva.

Do conjunto, realce para a impacto e a força da cena inicial, no deserto, bem como da que quase conclui o livro, durante o tornado, pelo modo como a natureza assume papel fundamental em ambas.
E uma nota final para a inclusão de umas quantas páginas de esboços no final da edição.

Tex 655/20 – A cavalgada do destino; pág. 107

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(capa brasileira disponibilizada pela Mythos Editora; pranchas disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)

Tex #787 ‘La caccia del lupo’, publicado em Itália em Maio de 2026, traz no seu editorial uma referência a Portugal

A edição italiana de Tex publicada em Maio deste ano, a edição número 787, intitulada ‘La caccia del lupo‘, desenhada por Massimo Rotundo, traz no seu editorial, na página 4, uma referência a Portugal, mais precisamente a uma capa de Tex exclusiva para Portugal e que foi usada pela editora ‘Polvo’ aquando do lançamento, em Maio de 2016, de “Tempestade sobre Galveston“, aventura escrita por Pasquale Ruju e desenhada por Massimo Rotundo, sendo a capa também da autoria de Rotundo, como se pode ver nas imagens abaixo:

Como dissemos anteriormente, a história foi publicada em 2016 no nosso país, através da Polvo Editora tendo Massimo Rotundo na altura feito uma capa exclusiva para Portugal como podemos recordar vendo em toda a sua plenitude essa maravilhosa capa acima.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

As Leituras do Pedro: Tex Graphic Novel 18 – Noite longa em Cayote

As Leituras do Pedro*

Tex Graphic Novel 18 Noite longa em Cayote
Mauro Boselli (argumento)
Pedro Mauro (desenho)
Mythos Editora
Brasil, 2026
205 x 275 mm, 40 p., cor, capa mole
R$ 49,90

Marco

Há obras – e/ou edições… – que ficam como marcos, para lá das suas qualidades intrínsecas. É o caso de Tex – Noite longa em Cayote.

Desde logo, por ser a primeira história de Tex desenhada por um autor brasileiro, no caso Pedro Mauro. Num país em que o ranger conta com uma enorme legião de fãs, esta é sem dúvida uma edição marcante [que, imagino, com todas as diferenças e pesos, foi equivalente à primeira capa desenhada por um autor português para a Marvel: Miguel Montenegro, na X-Men 51 (Devir, 2004)].

Depois, não sendo esta história – já – original – foi publicada pela primeira vez na Color Tex 24 (SBE, Itália, 2023) e reproduzida no Tex Especial Colorido 18 (Mythos, Brasil, 2024) – surge nesta edição como única aventura e não como parte de uma colectânea. Mais do que isso, nesse aspecto, é uma edição original brasileira, que, tanto quanto sei, não será integrada na colecção equivalente italiana. Esta opção, comercial – e mediaticamente? – relevante, apresenta desde logo um senão: o aumento das pranchas e consequentemente do desenho de Mauro, que não beneficia especialmente da ampliação, uma vez que lhe falta a necessária pormenorização para a nova dimensão. Embora, reconheço, acentue o seu estilo mais rude e de acordo com a narrativa.

Esta última, inevitavelmente com argumento italiano, no caso do grande Mauro Boselli, tanto funciona de forma autónoma aqui, como poderia facilmente integrar uma história longa de Tex – e os especialistas serão certamente capazes de citar casos similares. De forma resumida, a acção decorre em dois lugares em simultâneo, na prisão de Cayote, onde o xerife Jim Banks tem detido Lenny Tolman, e na casa do marshall, onde Jerry, irmão de Lenny, se prepara para fazer refém a esposa de Banks. A intervenção ‘divina’ – leiam, que perceberão a alusão – de Tex e a confluência das duas situações conduzirá Noite longa em Cayote ao seu desfecho.

Graficamente, Pedro Mauro apresenta um estilo adequado a Tex – ou a SBE não teria aceite a proposta – embora revele alguns problemas ao nível do rosto do protagonista. Mas em termos de enquadramentos, dinamismo e expressões faciais o seu trabalho é perfeitamente adequado ao universo em causa e, como já escrevi atrás, o seu traço agreste é um contributo de relevo para a violência do relato.

A edição, cujas 32 páginas de BD eram curtas para a compor, é complementada com um texto do jornalista Thiago Gardinali sobre a génese desta ‘entrada’ de um brasileiro no universo texiano e com diversos estudos e esboços de Pedro Mauro, o que contribui igualmente para a tornar o tal ‘marco’.

…resta saber se este foi o primeiro passo para elevar o desenhador a um outro nível em Tex – que é como quem diz desenhar uma história (mais) longa do ranger.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(capa brasileira disponibilizada pela Mythos Editora; prancha disponibilizada pela Sergio Bonelli Editore; fotografias disponibilizadas por Pedro Mauro; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)

Vídeo da Cerimónia de Inauguração da 11.ª Mostra do Clube Tex Portugal

A finalizar a memorável Cerimónia de Inauguração da 11.ª Mostra do Clube Tex Portugal, realizada no auditório do Museu do Vinho Bairrada, em Anadia, no sábado, dia 9 de Maio e com a presença dos consagrados desenhadores Ugolino Cossu e Frederic Volante e antes do Espumante de Honra (não nos esqueçamos que o evento foi na capital da Bairrada) oferecido pela Direcção do Clube Tex Portugal e pelo Museu do Vinho Bairrada, foi exibido um curto vídeo (perante um auditório praticamente repleto), realizado por Andreia Sofia Francisco e Ana Beatriz Francisco, mostrando a eternização de momentos inesquecíveis dos Onze Anos de Histórias de Tex Willer por Terras Bairradinas na 10ª Mostra do Clube, realizada o ano passado, como damos de seguida a conhecer aqui no blogue do Tex a todos os nossos leitores: