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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Ana Hatherly - Balada do País Que Dói

 


BALADA DO PAÍS QUE DÓI

O barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o corpo cai
o corpo dói

português vai
português cai

o barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o país cai
o país dói

o tempo vai
o tempo dói

português cai
português vai
português sai
português dói


Ana Hatherly



segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Ana Hatherly - Um português adoçado

 


UM PORTUGUÊS ADOÇADO

A língua que se fala
No Brasil
É um português adoçado:

A sua dureza
Trabalhada
No engenho dos séculos
Deu essa doçura
Essa macieza pura.

A língua é o tigre
O falante o domador
Os séculos o percurso
O caminho a eterna descoberta.

Como num largo oceano
Há sempre novas vagas.

Ana Hatherly

(Porto, 1929 - Lisboa, 2015)


Itinerários (2003) 



(Fotografia de Maxwell Mariano: São Luís, Maranhão, Brasil, 2017)


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Ana Hatherly - Auto-retrato

Fotografia de arquivo. Museo Vostell



AUTO-RETRATO

Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.

Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.

Oculto nele e nele convertido
do tempo ido escusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;

E do meu sonho transformado em acto,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.

Ana Hatherly