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segunda-feira, 17 de julho de 2023

Agostinho Neto - Civilização ocidental




CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
Escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

Agostinho Neto



(Fotografía de Daniel P. Sobreira, Na estrada para Kalandula, 2014)



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Antigamente era (Agostinho Neto)



ANTIGAMENTE ERA

Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom

Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança

A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos

Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo

Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo

E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados

Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.

(1951)

Agostinho Neto


Agostinho Neto (1922 — 1979) foi um médico angolano, que em 1975 se tornou o primeiro presidente de Angola até 1979. Foi também poeta e aqui podem ler mais versos e sobre a poesia dele: