por Ana Paula Ferreira | XII Encontro “Para Além de Princesas e Dragões”
Uma borboleta não é uma lagarta melhorada. É uma reconfiguração profunda da estrutura, da função e da forma de estar no mundo. Esta metáfora resume, com precisão, o desafio que se coloca hoje às bibliotecas escolares: não se trata de adotar novas ferramentas, mas de se reconfigurar nos seus propósitos, nas suas práticas e no papel dos profissionais que nelas trabalham.
O que mudou (verdadeiramente) com a IA
Há uns anos, pedir a um aluno que escrevesse um texto implicava esforço, silêncio e produção. Hoje, com algumas palavras introduzidas numa ferramenta de inteligência artificial, um trabalho completo, fluente e plausível está disponível em segundos.
Mas quando falamos de inteligência artificial, já não estamos a discutir uma nova ferramenta. Estamos a discutir uma mudança cultural profunda naquilo que acontece nas escolas quando falamos de leitura, de escrita e de aprendizagem.
Para compreender a dimensão desta mudança, basta pensar na linha histórica das grandes tecnologias de comunicação:
- A imprensa de Gutenberg permitiu editar e reproduzir o texto, criando o leitor individual.
- A internet distribuiu o texto à escala global, mas o texto continuava a ser humano — gerando, porém, a atenção fragmentada de que tanto se fala.
- A inteligência artificial introduz algo sem precedentes: pela primeira vez, a máquina cria o texto. Gera sequências novas, plausíveis e fluentes, a partir de padrões aprendidos em biliões de palavras humanas.
Isto não é uma questão técnica. É uma questão cultural. E é, acima de tudo, um grande desafio para as escolas e para as bibliotecas escolares.
- Comunicação
Eixo 1 — A Leitura Crítica: o ginásio do pensamento lento
A neurocientista cognitiva Maryanne Wolf, uma das maiores especialistas mundiais em leitura, recorda-nos que “os seres humanos não nasceram para ler”. A leitura é uma invenção cultural relativamente recente, e o cérebro humano teve de aprender a realizá-la, reciclando circuitos visuais e cognitivos que usava para outras funções.
Ao contrário da fala, que é natural e biológica, ler não acontece espontaneamente. É algo que tem de ser ensinado e praticado ao longo da vida — e essa aprendizagem modifica biologicamente o nosso cérebro.
Os circuitos que constroem a leitura profunda — lenta, reflexiva, exigente, atenta — envolvem a inferência, a empatia, a análise crítica e a capacidade de habitar outras perspetivas. Mas esses circuitos só se desenvolvem com tempo, esforço e prática repetida.
É aqui que entra o conceito de pausa proustiana: o momento em que paramos, hesitamos e fazemos ligações entre o que lemos e o que sabemos. É precisamente neste momento de hesitação que começa o pensamento crítico.
A inteligência artificial pode erodir este processo de forma radical. Quando um estudante pede a um modelo de linguagem que lhe faça um resumo de um livro, aquele tempo de hesitação simplesmente não acontece. Não há confronto com o texto, não há desconforto do esforço, não há pausa proustiana — há apenas uma resposta fluente.
A leitura não é nostalgia do mundo analógico. É a tecnologia mais importante no mundo com IA, porque é a única ferramenta capaz de treinar cérebros que inferem, duvidam, sentem empatia e, sobretudo, formulam as perguntas que as máquinas não conseguem fazer.
Proposta para as bibliotecas: Ser verdadeiros ginásios do pensamento lento — espaços onde a ambiguidade, a dificuldade e o confronto com o texto são legitimados como estratégia pedagógica.
Eixo 2 — As Literacias: três camadas indispensáveis
Não basta saber utilizar as ferramentas de IA. É preciso entender como elas funcionam. A OCDE, em 2025, propõe uma literacia de IA que junta três dimensões inseparáveis: a compreensão técnica básica, a análise crítica dos impactos e a preservação da agência humana.
Esta estrutura pode ser organizada em três camadas que se apoiam mutuamente:
- Literacia do uso — Saber utilizar a IA com intenção pedagógica, em vez de a consumir de forma acrítica ou por mero automatismo.
- Literacia crítica — Olhar para o output da máquina e perguntar: isto é verdade? que viés terá? Os modelos de IA foram treinados com dados humanos e têm, por isso, preconceitos históricos, culturais e de género. O que a máquina produz nunca é neutro.
- Literacia ética — Ir além do output e questionar o próprio sistema: que intenções estão por detrás dos algoritmos? Compreender o poder das máquinas é um verdadeiro ato de cidadania.
Esta estrutura está já a ser incorporada nos quadros internacionais mais recentes. A União Europeia apresentou um quadro de referência com 22 competências de literacia em IA para alunos do ensino básico e secundário, organizadas em quatro domínios: envolver-se com a IA, criar com a IA, gerir a IA e participar no seu design.
Nada disto é possível sem a competência zero: a leitura profunda. Só quem lê profundamente tem condições para avaliar criticamente o que a IA produz, identificar falhas, contradições e ausências.
O problema do plausível
A nova desinformação não é a mentira grosseira que identificamos de imediato. É o texto fluente, bem escrito, que soa certo — mas que não é necessariamente verdadeiro. O plausível não é verdadeiro.
Os detetores de IA têm uma precisão que varia entre 50% e 80%, e estudos recentes revelam que chegam a acusar falsamente 20 a 30% dos alunos que não utilizaram inteligência artificial. A vigilância tecnológica, por si só, não funciona. A única resposta eficaz é a educação.
Proposta para as bibliotecas: Serem laboratórios de verificação — espaços que cultivam o discernimento humano, ensinando os alunos a triangular fontes, contextualizar informação, avaliar credibilidade e distinguir facto de fabricação.
Eixo 3 — Ética, Responsabilidade e Agência Humana
Estudos recentes indicam que 80% dos estudantes utilizam IA e consideram adequado fazê-lo — não acham que estejam a fazer algo de desonesto. Os investigadores chamam a esta situação a zona cinzenta ética.
Isto levanta uma tensão fundamental: queremos ser autores ou operadores?
A autoria permanece humana quando há decisão, seleção, transformação e responsabilidade sobre o texto final. Quando alguém delega completamente na máquina e submete o resultado como seu, sem o confrontar, não há autoria — há apenas delegação. O problema não é usar a IA; o problema é não exercer julgamento sobre o que ela produz.
Para um enquadramento mais robusto, três âncoras podem guiar as bibliotecas e as escolas:
- Valores profissionais: A IFLA, já em 2020, afirmou que as bibliotecas devem ser atores centrais desta transformação — defendendo o acesso à informação, desenvolvendo literacias e atuando como espaços de mediação crítica.
- Regulação europeia: O AI Act, aprovado em 2024, classifica a utilização de IA na educação como um domínio de alto risco, exigindo sempre supervisão humana. Não é uma boa prática — é um requisito legal.
- Governança local: O que resulta é ter políticas locais claras: o que é permitido? Onde e quando se pode usar a IA? Como se declara o seu uso? São questões que municípios, escolas e centros de formação precisam de resolver.
Três princípios para as bibliotecas do futuro
1. Integrar criticamente
Não podemos ignorar a IA — perderíamos relevância. Mas utilizá-la sem a questionar é trair a missão da biblioteca. O equilíbrio está na integração crítica: usar, mas questionando sempre.
2. Colocar a mediação humana no centro
A automatização trata do que é rotineiro. Mas tudo o que é singular, contextual e relacional — como o encontro entre o leitor e o texto — é território humano e deve continuar a sê-lo.
3. Ser espaço de comunidade e de debate
Num mundo de consumo individual de informação cada vez mais atomizado, a biblioteca deve ser o lugar onde as comunidades se reúnem para pensar juntas, exercer cidadania digital e debater os desafios que lhes são colocados.
Três propostas de ação concreta
| Eixo | Proposta |
|---|---|
| Explicitar | Criar políticas claras de uso da IA nas escolas e bibliotecas; tornar transparente o seu uso |
| Ensinar | Formar cidadãos, não apenas utilizadores; mostrar que saber perguntar é mais importante do que obter a resposta |
| Proteger | Defender os tempos de leitura lenta; garantir espaço para o silêncio, a hesitação e o pensamento que leva tempo |
Para terminar: a margem que importa
José Saramago, em A Caverna, escreveu: “Há quem leve a vida inteira sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura. Ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio. Se estão ali, é para que possamos chegar à outra margem.”
A inteligência artificial pode dar-nos as pedras — o texto fluente, rápido, abundante. Mas é a biblioteca que ajuda a ver a margem: o sentido, o propósito, o impacto do conhecimento.
As bibliotecas não precisam de abandonar o que sempre foram — espaços de acesso, de equidade, de encontro do humano com o texto e com o mundo. Precisam de transportar esses valores para formas novas, num ecossistema que mudou radicalmente e vai continuar a mudar.
Num mundo em que as máquinas escrevem com fluência, o que se tornou mais precioso não é a velocidade da produção textual. É a qualidade da interpretação. É a sabedoria de saber o que perguntar.
Este artigo é baseado na comunicação apresentada no painel sobre “Bibliotecas em Metamorfose”, dedicado ao papel das bibliotecas escolares na era da inteligência artificial.













