Por Edvan Lima

Se a comédia já foi chamada de leve, é porque nunca leram Martins Pena de verdade. Muito antes de se falar em sitcom, ele já escrevia cenas curtas, repetição de padrões, mal-entendidos familiares e personagens que sempre voltam pro mesmo lugar, o do ridículo.
Martins Pena é autor de uma comédia onde o “conflito” não muda o mundo, só revela o que tem de falso, hipócrita, e risível nas relações sociais. Em O Noviço (1845), o que temos é um novato forçado à vida religiosa pra atender aos interesses de uma família. Tudo é empurrado pela aparência, pelo dinheiro, pela ambição. E tudo se resolve como começou: no caos engraçado da convivência.
Situações conhecidas
A comédia de situação tem um truque simples: junta pessoas muito diferentes no mesmo espaço, impõe uma regra absurda (um casamento arranjado, um velório falso, uma herança em disputa) e observa o desastre acontecer.
O riso nasce dos padrões que se repetem: o personagem que mente, mas sempre é pego; a irmã que briga com a outra, mas no fundo repete os mesmos gestos; o primo que chega com solução e só piora tudo. Esse é o princípio que move O Noviço, O Juiz de Paz na Roça, Quem Casa Quer Casa, e que mais tarde será refinado nas sitcoms modernas.

Roteiros contemporâneos como A Morte da Herança de Galinha seguem essa linha. Um pai simula a própria morte pra juntar os filhos. A regra é clara: há um testamento (falso), uma herança (desconhecida) e um velório (improvisado). O que se segue é um desfile de tensões familiares, brigas por território e personagens que não conseguem esconder quem são, por mais que tentem.
Farsa não morre
Martins Pena escrevia para um Brasil urbano em formação, onde a elite emergente queria se parecer com os europeus. Ele escrevia para rir disso. Para mostrar o quanto havia de artificial no novo “bom gosto”. Sua comédia é farsesca, no exagero do gesto, da fala, das intenções.
Hoje, a televisão popular, o teatro de periferia e muitos roteiros audiovisuais mantêm essa mesma estrutura. A diferença é o como é colocado.

No roteiro de A Morte da Herança de Galinha, essa estrutura se repete. A cena dos filhos brigando por cima do caixão resume bem o tipo de comédia de situação que Martins Pena já explorava: Seboso, carente e dramático, busca afeto a qualquer custo; Xlany tenta manter a santidade em meio ao caos; e Alice, falida, insiste numa pose de riqueza. São tipos que fazem do exagero um espelho cômico da sociedade.
É essa repetição, essa “falta de ar” que nunca se resolve, que torna a farsa viva. Como bem disse o Teatro Hoje (2022) sobre O Noviço, “o humor de Martins Pena constrói uma crítica velada ao status quo”. Ele parece rir do outro, mas tá rindo da gente também.
A sitcom veio da farsa
É fácil ver a ligação entre as peças de Martins Pena e as sitcoms que marcaram gerações: Sai de Baixo, Toma Lá Dá Cá, A Grande Família. Em todas, um espaço fixo (casa, sala) e personagens com perfis contrastantes. A história não avança, ela gira. E é nesse giro que mora o riso.

É o mesmo mecanismo usado no cinema e no teatro popular de hoje: repetir padrões, trazer o absurdo como normalidade, rir da contradição.
Roteiros como o de A Morte da Herança de Galinha mostram que a farsa não é ultrapassada. Ela apenas muda o cenário. Sai o mosteiro, entra o cemitério. Sai o casamento arranjado, entra a herança mentirosa. Mas a estrutura é a mesma: a gente ri porque reconhece. Porque já viveu isso — ou porque sabe que poderia.
Referências
PENA, Martins. O Noviço. Texto completo disponível em domínio público.
TEATRO HOJE. O Noviço. Disponível em: https://teatrohoje.com.br/2022/07/06/o-novico-2/. Acesso em: jun. 2025.
LIMA, Edvan. A Morte da Herança de Galinha. 9º Tratamento. João Pessoa, 2025.



