• Por Edvan Lima
    Representação do dramaturgo brasileiro Martins Pena, um dos precursores da comédia de costumes no Brasil. Foto: Comunidade 40+

    Se a comédia já foi chamada de leve, é porque nunca leram Martins Pena de verdade. Muito antes de se falar em sitcom, ele já escrevia cenas curtas, repetição de padrões, mal-entendidos familiares e personagens que sempre voltam pro mesmo lugar, o do ridículo.

    Martins Pena é autor de uma comédia onde o “conflito” não muda o mundo, só revela o que tem de falso, hipócrita, e risível nas relações sociais. Em O Noviço (1845), o que temos é um novato forçado à vida religiosa pra atender aos interesses de uma família. Tudo é empurrado pela aparência, pelo dinheiro, pela ambição. E tudo se resolve como começou: no caos engraçado da convivência.

    Situações conhecidas

    A comédia de situação tem um truque simples: junta pessoas muito diferentes no mesmo espaço, impõe uma regra absurda (um casamento arranjado, um velório falso, uma herança em disputa) e observa o desastre acontecer.

    O riso nasce dos padrões que se repetem: o personagem que mente, mas sempre é pego; a irmã que briga com a outra, mas no fundo repete os mesmos gestos; o primo que chega com solução e só piora tudo. Esse é o princípio que move O Noviço, O Juiz de Paz na Roça, Quem Casa Quer Casa, e que mais tarde será refinado nas sitcoms modernas.

    Elenco do espetáculo O Juiz de Paz na Roça (2016), montagem da comédia de costumes inspirada na dramaturgia de Martins Pena. Créditos: caiodeandrade.com.

    Roteiros contemporâneos como A Morte da Herança de Galinha seguem essa linha. Um pai simula a própria morte pra juntar os filhos. A regra é clara: há um testamento (falso), uma herança (desconhecida) e um velório (improvisado). O que se segue é um desfile de tensões familiares, brigas por território e personagens que não conseguem esconder quem são, por mais que tentem.

    Farsa não morre

    Martins Pena escrevia para um Brasil urbano em formação, onde a elite emergente queria se parecer com os europeus. Ele escrevia para rir disso. Para mostrar o quanto havia de artificial no novo “bom gosto”. Sua comédia é farsesca, no exagero do gesto, da fala, das intenções.

    Hoje, a televisão popular, o teatro de periferia e muitos roteiros audiovisuais mantêm essa mesma estrutura. A diferença é o como é colocado.

    Seboso (Aquiles Nud), Xlany (Anna Vallentim) e Alice (Gitana Pimentel) brigam por conta da “herança” do pai durante o sepultamento em cena do filme A Morte da Herança de Galinha que está em fase de pós-produção. Foto: Lando Ferraz.

    No roteiro de A Morte da Herança de Galinha, essa estrutura se repete. A cena dos filhos brigando por cima do caixão resume bem o tipo de comédia de situação que Martins Pena já explorava: Seboso, carente e dramático, busca afeto a qualquer custo; Xlany tenta manter a santidade em meio ao caos; e Alice, falida, insiste numa pose de riqueza. São tipos que fazem do exagero um espelho cômico da sociedade.

    É essa repetição, essa “falta de ar” que nunca se resolve, que torna a farsa viva. Como bem disse o Teatro Hoje (2022) sobre O Noviço, “o humor de Martins Pena constrói uma crítica velada ao status quo”. Ele parece rir do outro, mas tá rindo da gente também.

    A sitcom veio da farsa

    É fácil ver a ligação entre as peças de Martins Pena e as sitcoms que marcaram gerações: Sai de Baixo, Toma Lá Dá Cá, A Grande Família. Em todas, um espaço fixo (casa, sala) e personagens com perfis contrastantes. A história não avança, ela gira. E é nesse giro que mora o riso.

    Elenco principal de Toma Lá, Dá Cá. Foto: Globo/Marcio de Souza.

    É o mesmo mecanismo usado no cinema e no teatro popular de hoje: repetir padrões, trazer o absurdo como normalidade, rir da contradição.

    Roteiros como o de A Morte da Herança de Galinha mostram que a farsa não é ultrapassada. Ela apenas muda o cenário. Sai o mosteiro, entra o cemitério. Sai o casamento arranjado, entra a herança mentirosa. Mas a estrutura é a mesma: a gente ri porque reconhece. Porque já viveu isso — ou porque sabe que poderia.

    Referências

    PENA, Martins. O Noviço. Texto completo disponível em domínio público.
    TEATRO HOJE. O Noviço. Disponível em: https://teatrohoje.com.br/2022/07/06/o-novico-2/. Acesso em: jun. 2025.
    LIMA, Edvan. A Morte da Herança de Galinha. 9º Tratamento. João Pessoa, 2025.

  • Por Edvan Lima
    O dramaturgo italiano Dario Fo em performance cômica de crítica social. Foto: Prensa CTBA

    Dizem que a comédia é o último refúgio de quem não tem mais o que perder. Mas talvez ela seja, na verdade, o primeiro gesto de quem ainda se recusa a aceitar calado.

    Historicamente, o riso sempre foi ambíguo. Ele pode servir pra reforçar a ordem, como alertava Henri Bergson — “rimos do que se afasta da norma” (2001, p. 18) —, mas também pode virar arma. Quando Dario Fo satirizou a polícia e o governo em Morte Acidental de um Anarquista, foi processado e censurado. Quando Aristófanes fez piada com a guerra em Lisístrata, escancarou que o absurdo da política era assunto público — e cômico.

    Elenco da Cia do Voo em cena com o espetáculo Lisístrata, o Voo das Andorinhas, adaptação da comédia clássica de Aristófanes de 411 a.C. Créditos: Palco Clássico.

    Hoje, cercados de censuras morais e sensibilidades extremas, rir continua sendo um risco. E por isso mesmo, continua sendo um gesto político.

    A farsa como ferramenta

    A comédia farsesca, em especial, sempre funcionou como lente de aumento: ela exagera pra mostrar o que está por baixo. Martins Pena, por exemplo, já usava o riso pra desmontar hipocrisias de classe em O Noviço. Nelson Rodrigues levava o exagero ao limite do trágico. E Chico de Assis não poupava ninguém em suas sátiras contra o racismo e a exploração social.

    Elenco da Cia. Ação Contínua em cena com o espetáculo O Noviço, montagem da comédia de costumes inspirada na dramaturgia de Martins Pena. Créditos: Teatro Hoje.

    A lógica da farsa é simples: gritar o que todo mundo cochicha. Rir alto do que ninguém quer encarar de frente.

    É nesse mesmo terreno que se movem roteiros como A Morte da Herança de Galinha, que encena um velório fake para reunir filhos interesseiros. Em vez de luto, o que vemos é disputa, vaidade e desespero. Uma personagem evangélica chora com a conta de luz vencida na bolsa. Outra finge glamour enquanto deve até o perfume.

    Não é diferente de A Falecida, de Nelson Rodrigues, onde o desejo de morrer com dignidade vira obsessão narcisista. Em ambos os casos, o riso é incômodo — e por isso mesmo necessário.

    Riso como denúncia e sobrevivência

    Quando Grace Passô escreve Por Elise, ela transforma uma fala sobre móveis em ataque contra os códigos da classe média. “Tudo é política. Até os móveis”, ela diz. É nesse tipo de provocação que o riso se afasta da leveza. Ele vira tensão, ironia, desconforto.

    Xlany (Anna Vallentim), Samarão (Camilla Campos) e Seboso (Aquiles Nud) cortejam o caixão de Manel Galinha enquanto Diana (Edvan Lima) faz live para seus seguidores em cena do filme A Morte da Herança de Galinha que está em fase de pós-produção. Foto: Ryan Galvão.

    A mesma tensão aparece quando a personagem Diana, um gay afeminado, do filme A Morte da Herança de Galinha, transforma um velório em espetáculo online. Ele faz live, fala com os seguidores, vende o luto como conteúdo. É um absurdo? Sim. Mas é também um espelho. Quantos de nós não transformamos nossas dores em postagens? Quantas pessoas não se promovem as custas das desgraças alheias?

    O filósofo Jacques Rancière diz que “a política é antes de tudo uma estética”, ou seja, uma forma de organizar o sensível. Rir de certas coisas é escolher olhar pra elas de outro jeito. É reordenar o que é permitido sentir.

    E se o riso for tudo o que resta?

    O teatro popular brasileiro sempre soube disso. Desde o Auto da Compadecida até os palcos de periferia, rir foi resistência. Não pra escapar da dor, mas pra sobreviver a ela.

    Hoje, quando tudo parece vigilante demais, controlado demais, violento demais, o riso continua sendo um risco. Mas também é uma escolha. Uma maneira de seguir falando quando já não dá pra gritar.

    Se rir ainda é um ato político, a resposta não está só nos livros. Está nos palcos, nos filmes, nas ruas. Em cada vez que a gente decide apontar o dedo pro absurdo — e rir dele antes que ele ria da gente.

    Referências

    PALCO CLÁSSICO. Lisístrata: o voo das andorinhas. Disponível em: https://palcoclassico.blogspot.com/2018/04/lisistrata-o-voo-das-andorinhas.html. Acesso em: jun. 2025.
    BERGSON, Henri. O Riso: Ensaio sobre a significação do cômico. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
    BOAL, Augusto. O Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.
    FO, Dario. Morte Acidental de um Anarquista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
    PASSÔ, Grace. Por Elise. In: Teatro em Transe. São Paulo: Funarte, 2014.
    LIMA, Edvan. A Morte da Herança de Galinha. 9º Tratamento. João Pessoa, 2025.
    TEATRO HOJE. O Noviço. Disponível em: https://teatrohoje.com.br/2022/07/06/o-novico-2/. Acesso em: jun. 2025.

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