Foi numa dessas novas atualizações no celular que numa segunda-feira, após chegar em casa tarde, ele me mostrou uma lembrança de mais de 2018. Ela não estava “marcada como favorita”, e não era nem exatamente o mesmo dia do ano ou do mês para aquela lembrança específica ser selecionada, entre as milhares armazenadas nesta quase década acumulando registros. Foi um destes mistérios dessa tal de nuvem que, embora a gente não veja, às vezes traz tempestade: a minha veio em forma de choro ao encontrar um vídeo que eu nem sabia que tinha e que foi gravado por acaso no dia do nosso primeiro encontro, momentos antes do nosso primeiro beijo, quando eu enfiei o aparelho de forma desajeitada na bolsa, tão nervosa que estava. Tem um céu azul de relance, seu perfil aparecendo borrado no canto da tela no início, e depois tudo escuro e só vozes. A sua. Me explicando mil coisas, sempre generoso, presente e eloquente. Tem a minha – entusiasmada, ansiosa, curiosa. Depois são minutos de silêncio e uma imagem congelada. Das nossas sombras contra o sol. Eu daqui sabia que depois dali veio um beijo e nada mais foi o mesmo – seus olhos sorrindo me dizendo “estou feliz, estou tão feliz”. Seus braços enlaçando a minha cintura. Seus cachos negros preenchendo as minhas mãos, quando você aprendeu o que significava “cafuné” na minha língua: um novo vocabulário inventamos, um carinho que nunca mais abandonamos. Com você tudo era azul, até o frio.
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Quantas ‘faxinas de primavera’ seria preciso para restaurar um coração embrutecido? Eu tentei limpar tudo que trouxesse dor. Na lua minguante exorcizei o que machucava e fiz rituais para deixar para trás o que não iria pra frente. Mas ainda existe o que nos foge ao controle, este que achamos que temos mas jamais dominamos: talvez tenha sido o eclipse, a força avassaladora de 2020 ou o lembrete de que somos humanos, demasiadamente humanos. Só sei que não existe defumador, aspirador ou pai de santo que limpe da memória aquilo a que ainda nos apegamos, por mais que às vezes doa, porque sempre ainda tão bonito.
Desde que nos vimos pela última vez, teve dias de verão que o sol pareceu aquecer menos. O inverno teve as temperaturas mais frias registradas em muito tempo e também as mais quentes, mas nem sei mais se o aquecimento global é a resposta pra tudo. Talvez seja apenas assim.
Coisas acontecem, e chuvas de verão também matam plantas por excesso de água. Tiro o tarô do dia porque estamos sempre buscando respostas, mesmo quando a gente finge que não está. E, desta última vez, ele me disse que “atrasos são providências”, afagando um coração cansado de amar errado, atravessando o deserto de reconhecer-se só. A chegada da primavera promete abrir flores, janelas e ombros. Que venha fértil.