“… casada com um músico folk…” – Esta é uma “vidas imaginárias” que mais se repete entre os rascunhos de tudo o que me seria possível viver e sonhar. Eu tenho vários papéis nestas vidas que a autora do “caminho do artista” propõe que a gente crie pra exercitar a imaginação (escritora que viaja para todo canto, curadora de arte, jornalista de beleza, professora de balé, editora de livros, instrutora de yoga, florista, designer de joias, musicista, sommelière; cada uma num lugar diferente do mundo); mas quem está ao meu lado costuma se repetir com certa frequência (quando alguém aparece), e é diferente dos engenheiros, economistas e outros profissionais mais prosaicos com quem costumo me relacionar. Não precisei investigar muito minhas histórias para reconhecer quem o meu subconsciente traz à tona nesses exercícios: uma das minhas vidas não vividas tem nome, sobrenome e futuro interrompido.
Foi numa noite do verão-que-nunca-é-verão em Londres (eu estava de casaco, ele de jaqueta de couro); após uma noitada com amigos numa sexta à noite num boliche, enquanto eu esperava o ônibus noturno pra voltar pra casa. Ele, alto, loiro, olhos azuis, cabelos longos, forte. Puxou conversa, pegou o mesmo ônibus que eu, me contou que tinha uma banda, perguntou se eu já “havia considerado me casar com um americano”, me pediu em casamento, pegou meu telefone. Talvez o álcool tenha exercido um grande papel nessa história mas o fato é que ele realmente mandou mensagem no dia seguinte, e tivemos um encontro em que ele me ensinou qual cerveja escolher, me disse a banda brasileira que gostava, eu mostrei a revista para qual trabalhava. Me contou histórias de quando passou um semestre em Cuba lutando boxe. A vida tinha me trazido um roqueiro-lutador-de-boxe com os olhos mais doces do mundo e eu mal podia acreditar que estava vivendo a vida que sempre havia sonhado para mim: romances, pessoas com histórias completamente inusitadas, encontros em lugares inesperados. Eu fiquei tão encantada com ele, apesar de nunca nada de concreto ter acontecido. Ele era algo que eu amava guardar só para mim, como aquelas relíquias que não compartilhamos com os outros: eu tinha 22 anos e o mundo pela frente mas já tinha uma história minha, só minha. Platônica mas tão preciosa.
E então a vida aconteceu. Marcamos um encontro no meu restaurante mexicano favorito e eu não apareci porque tive que viajar. Ou talvez fosse só medo, não sei. (Às vezes temos medo do que pode dar certo também, e mais tarde aprendi que se chama “autossabotagem”). Ele ficou me esperando, e nem o meu descaramento de menina amedrontada fez com que ele cortasse relações: eu voltei para o Brasil e continuamos trocando mensagens, e-mails. Ele arrumou um estágio como jornalista no The Guardian, me escrevia contando do seu fascínio pelo Tom Waits. Seguiu carreira solo como músico folk, me enviava suas músicas e eu ouvia tentando decifrar cada verso, cheia de encanto e melancolia. Passou uma temporada em Paris. Voltou para os Estados Unidos, esteve por vários lugares, acabou ficando em Nashville, a “terra dos músicos”. Casou, separou. Chegou a vir para o Brasil com o irmão de férias, mas só para o Rio. Não nos reencontramos. Casou de novo. Virou pai.
Treze anos se passaram desde aquela noite em que nos conhecemos, e hoje acompanho pelas tais “redes sociais” tudo o que ele se tornou, como eu acho que ainda temos tantas “coisas em comum”, como ele só melhora com o tempo. E pela manhã, vendo mais uma de suas postagens que me fez sorrir, pensei que eu gosto ainda mais dele exatamente porque nunca tivemos a chance de sermos um plural: nos meus sonhos, ele vai continuar sendo aquele que me enxergou quando eu estava me descobrindo no mundo e seus olhos azuis me convidaram pra entrar. Agora, ele é uma presença nas minhas telas e o “músico folk” de uma das minhas vidas imaginárias. Que é sempre mais bonita e divertida do que a “vida real”, pois idealizada – mas nunca incluiria um pedido casamento no 243 numa noite fresca de verão em Londres. Isso eu jamais seria capaz de imaginar.