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19.4.19

PEREGRINAÇÃO

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei. Nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.

Eis senão quando um dia... Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.

Amor total e falho... Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... E tão
Sabendo a cinza e a pêssego maduro...

Manuel Bandeira

Estrela da Vida Inteira (poesias reunidas e poemas traduzidos), 19.ª edição ilustrada, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1991

5.8.12

O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos in-
                                                                        [tencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais
                                                                            [límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

ESTRELA DA VIDA INTEIRA (poesias reunidas e poemas traduzidos), 19.ª edição, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1991