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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

CHAMA





Acender uma chama com cuidado
todas as noites
para que vele os sonhos
para que a alma não se apague
para que a poesia não escape
sombra sorrateira rente ao muros
arrumar todas as noites
as miragens ao pé da cama
como um jogo antigo
onde nas pedras vinham escritas
portas secretas.


- Roseana Murray 
In Poesia Essencial

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

GRITO




A única certeza que me cabe
quando olho minhas mãos
que envelhecem comigo
embora às vezes pareçam
tão separadas do corpo
pássaros que tivessem perdido
todo o resto do bando
a única certeza é de que o grito
que nasce com cada um
o primeiro grito
tem que ser ouvido
com seu timbre ainda impregnado
de infinito e dores ancestrais
e esse grito se espalha
em tudo que se faz


Roseana Murray

domingo, 17 de agosto de 2014

MÃOS E PÉS



Ainda jovem eu pulava 
as pedras do rio, sentia
sua dureza em meus pés,
as nuvens corriam junto
comigo, céu e terra
me esmagavam em seu abraço
e meu corpo latejava
com os dias que ainda existiriam.

Aquelas pedras se inscreveram
profundamente em minha pele,
são as minhas consoantes em dias de espera.

Mergulhava as mãos na água fria
e minhas linhas da mão se desfaziam,
corriam junto com o rio,
quando ainda era jovem.

Hoje meus pés gostam de caminhar
sobre a névoa, a fina película
de irrealidade que cobre a vida,
e minhas mãos tentam apreender
o voo das borboletas.

Roseana Murray
in DIÁRIO DA MONTANHA

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ESPANTO POR ESPANTO



a vida é isso?
essa espera de auroras 
boreais
estar a sós com seus
pensamentos
falcões amestrados
em direção ao passado
ao futuro
ao fundo duro
dos abismos?

o tempo não se mexe
penhasco imutável
no oceano das horas
nós é que nos vamos
estranhas marionetes
sem rumo

então a vida é isso
segundo por segundo
estrela por estrela
espanto por espanto

Roseana Murray, 
in Poesia Essencial, ed. Manati

sábado, 28 de junho de 2014

UM SOPRO


 
 
Como chegar ao coração
dos mortos
esse duro coração de hera
perdido entre as águas da memória
como um barco de outros tempos?
 
Um sopro ainda vive
como uma flauta longínqua.
 
Roseana Murray, 
in Pássaros do Absurdo
 
 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

NATAL







O natal serão perus recheados
ou a nostalgia de uma neve
longínqua que nossos pés nunca tocaram?
Serão presentes embrulhados
em papel azul
e a alegria com hora marcada?
Serão famílias bucolicamente
sorridentes com seus corações
de lava fria?
Os pés de um homem tocaram
a terra para mudar a Terra
e deixaram um rastro de amor
e sangue.
Seu nome é mistério e senha.
Por que o homem precisa da desculpa
de um outro homem
para mergulhar as mãos no mel
e no horror?
penso nas mulheres queimadas
em seu nome, amém.
Penso nas guerras, conquistas, mentiras,
intrigas, em seu nome, amém,
quando o seu maior milagre
foi equilibrar-se na superfície
escorregadia dos sonhos.

Roseana Murray,
in O Silêncio dos Descobrimentos



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

CLAREIRA



Dentro do coração
desenho uma clareira
varrida de luz:
aí desdobro os mapas,
arrumo as bússolas
e todos os instrumentos
para velejar no ar.

Iço as palavras
"amor", "orvalho", "vento"
e recolho as âncoras.

Meu corpo,
livre de toda a gravidade,
já pode voar.

Roseana Murray
in Residência no Ar

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

AMIGO



No rumo certo do vento,
amigo é nau de se chegar
em lugar azul.
Amigo é esquina
onde o tempo para
e a Terra não gira,
antes paira,
em doçura contínua.
Oceano tramando sal,
mel inventando fruta,
amigo é estrela sempre
no rumo certo do vento,
com todas as metáforas,
luzes, imagens
que sua condição de estrela contém.


Roseana Murray, 
in "Poemas de Céu"

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

GIRASSÓIS



Espero dezembro
para plantar girassóis
e trazer Van Gogh e o Sol
para dentro do jardim.

As pétalas ardentes
irão manchar de alegria
a terra e o ar
e tudo parecerá voar
em um grande abraço
amarelo.

Roseana Murray
In Rios da Alegria

terça-feira, 1 de outubro de 2013

RECEITA DE ACORDAR PALAVRAS



palavras são como estrelas
facas ou flores
elas têm raízes pétalas espinhos
são lisas ásperas leves ou densas
para acordá-las basta um sopro
em sua alma
e como pássaros
vão encontrar seu caminho.

Roseana Murray
In Receitas de Olhar

domingo, 15 de setembro de 2013

CORDA ROÍDA



Flutua o horizonte
sobre o tempo
e as ilusões partidas.
O olhar apascenta nuvens,
montanhas e distâncias
e uma corda roída
tenta amarrar lembranças

Roseana Murray,
in Poemas para ler na escola

terça-feira, 3 de setembro de 2013

JOGO DA VERDADE



A verdade é um labirinto.

Se digo a verdade inteira,
se digo tudo o que penso,
se digo com todas as letras,
com todos os pingos nos is,
seria um deus-nos-acuda,
entraria um sudoeste
pela janela da sala.
Então eu digo
a verdade possível,
e o resto guardo
a sete chaves
no meu cofre de silêncios.

Roseana Murray
in Pêra, Uva ou Maçã?

sábado, 13 de julho de 2013

TUA VIDA



levo tua vida
entre meus guardados
como se leva uma folha seca
entre as páginas de um livro
como se leva um rio
entre as linhas do destino
como se leva com cuidado
um viajante clandestino

levo tua vida
como um sopro
uma fruta
uma estrada.

Roseana Murray
In Essencial

sábado, 15 de junho de 2013

AMIGO



No rumo certo do vento
amigo é nau de se chegar
em lugar azul
amigo é esquina
onde o tempo pára
e a terra não gira
antes paira em doçura
contínua
oceano tramando sal
mel inventando fruta
amigo é estrela sempre
no rumo certo do vento
com todas as metáforas
luzes imagens
que sua condição de estrela
contém.

Roseana Murray
In Lições de Astronomia

segunda-feira, 27 de maio de 2013

AMIGO



Amigo é o vinho mais tinto
o vinho mais branco
é água de afago
o rio mais manso
amigo é o caminho
mais leve
o lugar mais seguro
é clareira no tempo
é fogueira de mel.

Roseana Murray
In Fruta no Ponto

quinta-feira, 25 de abril de 2013

OLHOS OBLÍQUOS



de onde vieram
com seus olhos oblíquos
seus olhos de seda e luz?
vieram de um misterioso país
oblíquo
onde só podem entrar
os poetas com seus veleiros
e os homens que amam os gatos

Roseana Murray,
in "Falando de Pássaros e Gatos"

quarta-feira, 10 de abril de 2013

MOINHO



São as águas
da delicadeza
que movem o mundo.

Uma palavra amorosa,
um gesto, 
uma carícia,
fazem a Terra
mais azul
e mais leve,
trazem à pele
a memória mais antiga:

Também somos um grão
de estrela e de infinito.

Roseana Murray,
in Manual da Delicadeza


quarta-feira, 27 de março de 2013

ALIMENTO


Para o nosso encontro 
arrumo sobre a mesa
uma toalha de luar
e cálices cheios até a borda
de estrelas líquidas;
os pratos estarão perfumados
com a essência das primaveras.

Comeremos com as mãos
uma comida limpa e suave,
pão do mais puro trigo
e azeite de bíblicos olivais.
As palavras sairão de nossas bocas
como pássaros que finalmente 
encontraram, depois de uma longa
travessia, um país cheio de sol.

E, então, seremos alimento 
um para o outro.

Roseana Murray
In Recados do Corpo e da Alma.

terça-feira, 19 de março de 2013

BORBOLETAS



Azuis e amarelas
borboletas preenchem o ar
que respiro
suas asas percorrem minha
pele,
entram em meu sangue,
deságuam nas mãos com que escrevo
este poema.

Roseana Murray
In Poemas para ler na escola