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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

NATAL DE 1971




Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Novembro 71
Jorge de Sena, "Exorcismos",1972

quinta-feira, 24 de abril de 2014

FELICIDADE




A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela. 

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos 
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era, 
achava um grande mistério no seu próprio nome. 


Jorge de Sena,
in Antologia Poética




PROFECIA



Abriu-se a porta e o tempo saiu vestido de branco -
- todas as noites uma estrela caminhará,
alguma há-de acertar com a rota já esquecida.

Mas os homens, se isto virem,
julgarão que o mundo acaba.

Jorge de Sena,
in Post-Scriptum II