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sexta-feira, 27 de março de 2015

CANTIGA OUTONAL




Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...



Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas

domingo, 22 de março de 2015

VOO




Alheias e nossas as palavras voam. 
Bando de borboletas multicores, as palavras voam 
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas, 
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.
Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.

Cecília Meireles ,
in Melhores Poemas








II






Não sejas o de hoje. 
Não suspires por ontens… 
não queiras ser o de amanhã. 
Faze-te sem limites no tempo. 
Vê a tua vida em todas as origens. 
Em todas as existências. 
Em todas as mortes. 
E sabes que serás assim para sempre. 
Não queiras marcar a tua passagem. 
Ela prossegue: 
É a passagem que se continua. 
É a tua eternidade. 
És tu”

Cecília Meireles
in Cânticos


XIII





Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olho que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Cecília Meireles
in Cânticos


HOJE DESAPREENDO O QUE TINHA APRENDIDO ATÉ ONTEM





Hoje desapreendo o que tinha aprendido até ontem
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço-me em cinza efêmera
todos os dias,reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.

Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres,sabendo que é trabalho sem termo.

E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos
do riso e pedras.

Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é , no entanto claro,
minha verdade, sem troca,sem equivalência nem desengano.

Permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.


Cecília Meireles
In O Estudante Empírico



REALIZAÇÃO DA VIDA




Não me peças que cante,
pois ando longe,
pois ando agora
muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida,

- nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas,
e que era vida.

Cecília Meireles
In:"Mar Absoluto & Outros Poemas


EU SOU ESSA PESSOA A QUEM O VENTO CHAMA





Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

- Agora és livre, se ainda recordas

Cecília Meireles,
in 'Solombra'

ROMANTISMO




Seremos ainda românticos
- e entraremos na densa mata,
em busca de flores de prata,
de aéreos, invisíveis cânticos.

Nas pedras, à sombra, sentados,
respiraremos a frescura
dos verdes reinos encantados
das lianas e da fonte pura.

E tão românticos seremos
de tão magoado romantismo,
que as folhas dos galhos supremos
que se desprenderem no abismo

pousarão na nossa memória
- secas borboletas caídas -
e choraremos sua história,
- resumo de todas as vidas.


Cecília Meireles
in: Mar Absoluto-1945



XXIII




Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.


Cecília Meireles
in Cânticos

POR BAIXO DOS ARVOREDOS




Por baixo dos largos fícus
plantados à beira-mar;
em redor dos bancos frios
onde se deita o luar,
vão passando os varredores
calados, a vassourar.

Diríeis que andam sonhando,
se assim os vísseis passar,
por seu calmo rosto branco,
sua boca sem falar,
- e por varrerem as flores
murchas, de verem amar.

E por varrerem os nomes
desenhados par a par,
no vão desejo dos homens,
na areia vã, de pisar...
- por varrerem os amores
que houve naquele lugar.

Visto de baixo, o arvoredo
é renda verde de luar,
desmanchada ao vento crespo
que à noite regressa ao mar.

Vão passando os varredores;
vão passando e vão varrendo
a terra, a lembrança, o tempo.

E, de momento em momento,
varrem seu próprio passar...


Cecília Meireles
in Mar absoluto


SONHEI UM SONHO





Sonhei um sonho
e lembrei-me do sonho
e esqueci-me do sonho
e sonhei que procurava
em sonho aquele sonho
e pergunto se a vida
não é um sonho que procurava um sonho.


1959
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

EPIGRAMA N° 3





Mutilados jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mão.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cores, vidas ...

Ah! mundo vegetal, nós, humanos, choramos
só da incerteza da ressurreição.


Cecília Meireles
Viagem, 1938



'CANÇÃO DE OUTONO'





Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.

Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

QUINTANARES





O Natal foi diferente
porque o Menino Jesus
disse à Senhora Sant'Ana:
"Vovozinha, eu ja não gosto
das canções de antigamente:
cante as do Mario Quintana!"

Viram-se então os anjinhos
de livro aberto nas mãos
deslizar no ouro dos ares.
Estudaram nova solfa
pelos celestes caminhos
e ensaiaram quintanares.

Deixaram cair os versos
que já sabiam de cor
pelos telhados das casas.
E o milagre das cantigas
foi que até seres perversos
amanheceram com asas.

Cecília Meireles 
Rio de Janeiro. Dezembro de 1946.


domingo, 30 de novembro de 2014

RUA




Procuro a rua
que ainda me resta:
é longa, é alta,
não é essa. 

Esqueço o nome,
por sono ou pressa:
é alta, é clara,
mas não é esta. 

Em cada esquina
havia festa:
é clara, é vasta,
não é essa. 

Nunca me lembro
onde começa:
é vasta, é longa,
mas não é esta. 

Rua que não
se manifesta:
é longa, é alta,
não é essa.


Cecília Meireles,
in Poesia Completa
Sonhos 

CÂNTICO




Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto, 
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
te ponha em tudo, 
como Deus.

Cecilia Meireles
In: Cânticos I




domingo, 9 de novembro de 2014

FUTURO




É preciso que exista, enfim, uma hora clara,
depois que os corpos se resignam sobre as pedras
como máscaras metidas no chão.

Por entre as raízes, talvez se veja, de olhos fechados,
como nunca se pode ver, em pleno mundo,
cegos que andamos de iluminação.

Perguntareis: “Mas era aquilo, o teu silêncio?”
Perguntareis: “Mas era assim, teu coração?”

Ah, seremos apenas imagens inúteis, deitadas no barro,
do mesmo modo solitárias, silenciosas,
com a cabeça encostada à sua própria recordação.

Cecília Meireles
in Mar Absoluto





 

domingo, 2 de novembro de 2014

ELEGIA




Destes obscuros canteiros da alma,
destes bosques do coração,
desta melancolia da morte
sobem as vozes, com ramos de lágrimas.


Assim partis,
sem terras, ares, mares:
só pela invisibilidade,
sem saberdes sequer que estais partindo.


Não nos podemos mais saudar nem despedir,
ó amigos,
nem repartir o pão da nossa mesa
e a luz dos nossos sonhos.


Sois agora como estátuas 
em solidões silenciosas,
entre solenes paredes de saudade,
em sítios suspensos do pensamento.


Mais longe que aquela nuvem.
Mais longe que qualquer céu.
Podemos pensar mais longe.
E quereríamos que um dia voltásseis,


para sermos outra vez amigos.
(Ramos de lágrimas, as vozes.) 



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)







sexta-feira, 31 de outubro de 2014

EXCERTO




(...) “Minha infância de menina sozinha
deu-me duas coisas que parecem negativas,
e foram sempre positivas para mim: 
silêncio e solidão. Essa foi sempre a área
de minha vida. Área mágica, onde os
caleidoscópios inventaram fabulosos
mundos geométricos, onde os relógios 
revelaram o segredo do seu mecanismo,
e as bonecas o jogo do seu olhar.(...)

Cecília Meireles




DA SOLIDÃO




Estarei só. Não por separada, não por evadida.
Pela natureza de ser só. 

No entanto, a multidão tem sua musica,
seu ritmo, seu calor,
e deve ser uma felicidade, às vezes,
ser na multidão o que o peixe é no oceano.
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes! 

Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde
alguma palavra.
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,
pode ser que sentisse como os desertos amontoavam suas areias
entre meu pensamento e o horizonte.
Mas o deserto tem sua musica,
seu ritmo, seu calor. 

Era uma solidão que outrora se levava nos dedos,
como a chave do silencio. Uma solidão de infância
sobre a qual se podia brincar,
como sobre um tapete.
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as arvores,
onde há vento.
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir,
pensar, sofrer, amar, 
uma solidão como um corpo, fechado sobre a noção que temos de nós: 

E andava, e sorria, cumprimentava e fazia discursos,
dava autógrafos, abria a janela, conhecia gavetas,
chaves, endereços, comprava, lia,
recordava, sonhava,
às vezes pensava – Solidão – e logo seguia,
tinha até dinheiro comigo, tinha palavras, também,
que escolhia, dava, usava, recusava... 

Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas,
andava por essas fortalezas da noite,
essas escadas, essas plataformas, essas pedras...
e deitava-me sobre o mar, sobre as florestas,
deitava-me assim – aldeias? cidades?
O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,
onde quer que estivesse deitada. 

Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões. 

Se me chamares, responderei, mas serei solidão.
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei:
como o eco.
Mas és tu que vens e voltas:
a tua solidão e a minha solidão.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)