sábado, abril 29, 2006

Os falhados

Os bêbados e as bêbadas. Os caloteiros e as mulheres promíscuas. Os que não têm disciplina, e se esquecem e dormem até tarde. Os que se masturbam à falta de parceiro ou porque gozam mais. Os que masturbam os outros e esse é o seu prazer. Os que são enrabados e os que enrabam. Os que são pequenos e, às vezes, gordos. Aqueles que não aguentam. Fracos. Os míopes, os canhotos, os carecas, as mulheres de barba. Os que caíram e mesmo os que nunca se levantaram. Que não têm dentes nem vergonha nem escrúpulos. Que se atrasam muito tempo, ou nem vão. Os que chulam e os que são chulados. Os que se descontrolam e dizem palavrões. Irracionais, inoportunos. Esses que falham todas as oportunidades. Que aparecem quando não devem e só para fazer asneira. Que podendo ter feito, não fizeram, nem se lamentam. Os que nunca foram ou tiveram coisa alguma, e que na véspera da morte valiam menos que o copo riscado do último vinho. A Camille Claudel e o Fernando Pessoa. Esses e outros que tais.


Alforria

A minha mãe começou, finalmente, a descrer em mim, a perder a esperança, a encontrar-me falível, superável; tenho, agora, carta de alforria para decepcionar a todos, falhar tudo e cair sem dó; existir cruamente livre daquela esperança tão acesa sobre o que haveria de ser a minha utilidade, o meu caminho, a minha perfeição.

sexta-feira, abril 28, 2006

Sobre perder a inocência

Foto de Charles Campbell, Golden Grasses

O que será um especialista internacional em liderança? Um professor de gestores? Um filósofo do trabalho? Dará acções de formação? Conferências?
Acabei de ler que o rapaz de caracóis louros, rebelde, anarca, fã de Jim Morrison, cronicamente depressivo, que há 20 anos me enviava cartas e poemas de amor e morte, escritos com o próprio sangue, com quem adorei andar enrolada, meia dúzia de tardes invernis, nas dunas de Tróia, ao frio, vento e chuva, sem que nunca nos tenhamos incomodado, porque éramos inocentes, e não tínhamos dinheiro e estávamos apaixonados... se transformou num famoso especialista em liderança empresarial.
Li o nome. Vi a foto. É ele.
Deve ganhar muito dinheiro. Deve ter assistente pessoal. Um escritório com sala de reuniões. Usa fato e gravata azuis – nada de calças de ganga esfarrapadas, com inscrições a esferográfica, isso está claro. Nada de charros, penso. Tem boa cara; ar saudável. Deve estar feliz, e isso é bom.
Apesar de tudo, sinto-me traída pelo presente. Pelo tempo. Tinha memórias românticas, e estimava-as. Sem que perceba, esta alteração da sua imagem perturba essa memória. Afinal, onde está o meu herói desajustado ao mundo, inconformado? E eu, que mudei tão pouco, que continuo tão igual ao que fui? Como é que me veria? Serei eu a rebelde, a anarca, cronicamente depressiva, a inadaptada? Ele cresceu; eu não?

Isabela e os problemas com a net


Roy Lichtenstein, Drowning Girl

quinta-feira, abril 27, 2006

Um homem para Isabela

Precisava tanto de um homem que gostasse de cozinhar, de passar paninhos, de aspirar o chão, de arrumar a roupa que deixo em cima da cama. Eu até podia lavar a casa-de-banho, a louça, mas arrumar os pratos é que não: tudo no escorredor até serem precisos outra vez. Podia meter a roupa na máquina e estênde-la. Eventualmente, lavar umas coisinhas à mão e passar, se não fosse coisa para dar muito trabalho. Um homem que gostasse da lida doméstica e que soubesse de carros e de irs e de coisas chatas: pequenos arranjos, banco, mandar desligar a Netvisão, por exemplo, e pagar a renda, mesmo que o cheque fosse meu. Mas que fosse homem mesmo. E que não me viesse dizer que lhe doíam as cruzes e estava cheio de dores de cabeça e não podia com as pernas. Uma mulher que trabalha tem direito a alguma diversão.
Eu sei que este é a um tema a que volto muitas vezes, mas cá tenho a minhas razões.

terça-feira, abril 25, 2006

Malefícios do 25 de Abril III

As pessoas terem esquecido a véspera tão indolormente como o sol enruga a pele.
Muita people não saber ca diferença entre o 24 e o 25 não foi que "depois ouve uma ganda guerra... dass ... mas treminô com a polícia a dar bué da cravos aos kotas, pa se meterem mansos."
Eu começar a ter cada vez mais dificuldade em distinguir antes e depois.

Malefícios do 25 de Abril II

O camarão de Moçambique vender-se a 36,95€ - isto no Jumbo!
E nem sequer ser fresco com a patinhas a dar, a dar.

Malefícios do 25 de Abril I

As bandas de subúrbio que as câmaras contratam para animar a noite, chocalhando, até às duas e meia da manhã, letras como "ei people, bora mamar no nipple", sem que se possa chamar a polícia devido a desacatos na rua e barulho fora de horas.

domingo, abril 23, 2006

Pacheco Pereira e a sua bola de neve

Pacheco Pereira tem um ódio de estimação aos anónimos, o que advirá do facto de dar a cara. No caso dele, tanto faz. Tem poder. É inatingível. Aparece na televisão. E isto talvez seja o mais importante de tudo para se passar de besta a bestial: aparecer na televisão! PP tem vantagem em dar a cara e, na sua posição, não pode entender que não se dê. Os bloggers que dão a cara consideram-se uma elite da blogosfera. Também formam a sua aldeia global, conhecendo-se pessoalmente ou não, mas vigiando-se mutuamente. Porque têm regras, imensas regras.
O comum mortal, funcionário por conta de outrem, com algumas ideias, e capacidade para as exprimir, raramente pode existir na blogosfera sem um nick. Eu não poderia fazê-lo sem correr sérios riscos relativamente à manutenção do meu emprego. Prevalece enorme hipocrisia social sobre o que é a decência, o respeito e a responsabilidade. Qualquer destas noções, no pensamento tradicional, exclui a sexualidade, a emotividade, o entusiasmo exaltado, a divergência, a diferença, o egotismo, determinada expressividade não padronizada, não formal, em, suma, a matéria da arte, que depois procuramos nos outros para nos sentirmos, por minutos, livres, verdadeiros; para reconhecermos quem somos, para perceber que existimos.
Para sobreviver, temos precisado de nos robotizar em público. Podemos não o fazer, mas os custos serão elevados.
Os anónimos por detrás de nicks ou os outros anónimos-anónimos não são o problema da blogosfera; nem o pequeno chat do beijinho, do abraço, do bom fim-de-semana. Ou mesmo, o grande, quando os leitores tomam de assalto as caixas de comentários para realmente debater um assunto. Tenho aqui excelentes comentadores sem blogue, que lêem e comentam sem qualquer má intenção.
Um blogue é um espaço de autoria, melhor ou pior, e em redor da autoria sempre existiu corte. Era assim no século XVIII. Antes, muito antes. Sempre. Autor, os outros autores, corte de admiradores. Nesse contexto, surgem os parasitas, os tais bichinhos que vivem na sombra dos bichos maiores. Não é como no sermão de Vieira, porque são os pequenos que comem os grandes. Assim sobrevivem, e conseguem sentir-se, na sua pequenez, maiores.
O problema da blogosfera é o mesmo da vida: os outros são um risco, mas não é possível viver sem eles. Por vezes encontramos amigos que se revelam inimigos. Cortamos relações, afastamo-nos, afastamo-los, e se vierem bater à nossa porta é muito possível que não os deixemos entrar, porque na nossa casa só entra quem quisermos.



Pessoalmente, continuo a achar que as caixas de comentários devem estar abertas. Tal imediatismo de reacção e resposta distingue um blogue de uma publicação periódica em papel. A partir do momento em que a blogosfera se popularizou, impôs-se um rastreio a quem vem bater à nossa porta, pretendendo entrar na nossa casa. Não me permito ser incomodada pelos promotores da Tele 2 nem pelos fiéis Testemunhas de Jeová. Nos blogues, como na nossa casa, há razões para moderar os comentários: não extinguiremos os parasitas, que procurarão próxima vítima, mas podemos fechar-lhes a porta.
Gosto muito de blogues onde não posso comentar, e adoraria fazê-lo. Aborrece, porque, como sempre, paga o justo pelo pecador. Enviar mails dá mais trabalho. Considero o Abrupto um bom blogue e frequento-o periodicamente. Não tenho qualquer simpatia pelo Pacheco Pereira como político, mas não é isso que está em causa.
Os maus blogues proliferam. São incontáveis. Obviamente, não me lembraria de deixar comentários num mau blogue. Da mesma forma que raramente comento posts com que não concordo. Mas, se comento, não tenho como objectivo insultar quem os escreveu: não insulto, na vida, aqueles de quem discordo. Entro e saio. Mas lembremo-nos que, no trânsito, também estão os parasitas dos blogues. Devem ser os que me apitam quando paro no vermelho. Os que me fazem sinais de luzes quando vou a 120 na auto-estrada. O que é que posso fazer? Ignorá-los e seguir calmamente a minha vida. Na blogosfera, idem, idem.
Quanto ao Pacheco Pereira, o homem tem razão em quase tudo o que escreve na "Fauna". Pensar a blogosfera, interpelá-la, obrigá-la a rever-se, só pode fazer-lhe bem. Estamos no bom caminho.

(O link para o Abrupto, se ainda não têm, encontra-se aqui ao lado, na barra lateral direita.)

sábado, abril 22, 2006

Pulgas, piolhos e carraças da blogosfera



A oportuna reflexão de Pacheco Pereira, no Público de dia 20, possível de ler no Da Literatura, e não no jornal onde foi publicada. Agradecimentos à blogosfera, não ao jornal, cuja edição on-line jamais subscreverei. Tenho pena, mas jornais, revistas e livros pago para ler em papel, com muita pena por já não sujarem os dedos; blogues, na internet, isto porque, a cada macaco, o seu galho.
A crónica de PP serve pessoas sãs, com os seus defeitos e virtudes, mas não mal formadas, sem valores. Esses, parasitas da blogosfera e do mundo, vão lê-la, distorcer-lhe o sentido e responder bugalhos. Não sabem existir de outra forma. É do que mais me queixo. Não da discordância relativamente ao que escrevo, mas dos bugalhos, daquilo que é nada, que serve nada, que não está remotamente relacionado com o que se escreveu. Do ataque grátis e malevolente. Do que é vaidade do vazio. Porque a vaidade justificada posso compreender: quem produz com brilho pode dar-se ao luxo de ter um ego enorme, de ser vaidoso relativamente ao que é capaz de gerar. Os parasitas são parasitas, ponto final, e, não se podendo reeducá-los (e é para isso que serve o Estado, caros amigos da direita liberal - essa invenção do pós-cavaquismo), sinceramente, isto muito sinceramente, sem os idealismos a que costumo dedicar-me, seria tão bom se pudessémos, com ajuda da química, eliminá-los a baixo custo, como às pulgas, aos piolhos e às carraças.

quarta-feira, abril 19, 2006

Nós, é mais plástico

Não compreendo o que distingue o pensamento português do de outros povos. Reconheço-nos características comuns aos mediterrânicos e latino-americanos, que também se revelam emocionais. Vivi três meses com uma colombiana tão impressionantemente portuguesa que a temia. O desenrascanço também não é exclusivo nosso, a menos que Mc Gyver tenha sido inspirado pelos nossos emigrados no Novo Mundo.
Um dos fenómenos mentais que mais me intriga, nos portugueses, é o seu apreço pelo plástico, o mais reles de todos os materiais inorgânicos. O plástico tem utilidade; serve-me bem se for Tupperware ou uma bacia para lavar a roupa à mão. Isso dá jeito. Mas o plástico é um contentor aprazado, como um frasco de detergente para lavar o chão; de resto, o plástico é quase infeccioso. Faz umas próteses levezinhas para membros inferiores e superiores, e isso aceito.
Os portugueses amam devotadamente o plástico. Bibelots para a sala, a cozinha, a casa-de-banho, copos, pratos, toalhas, cortinados, naperons. O plástico é considerado garantia máxima de segurança; protege. Os sofás novos, por exemplo. Tive de ser eu a comprar uma coberta para conseguir que a tia Ermelinda rasgasse o invólucro de plástico que o conjunto em amarelo pele-de-pêssego trazia de fábrica. Aquilo colava-se-me às coxas; quando me levantava ouvia-se um barulho artificial, moroso, a plástico a separar-se da pele. Uma espécie de chlac, mas lento. E doía. Usa a manta que lhe ofereci, mas inconsolável, porque o plástico não tinha que se lavar, era só passar um paninho.
Os portugueses também adoram o paninho. “Enverniza o chão, depois é só passar um paninho.” “Põe tijoleira, depois é só passar um paninho”.
Para os portugueses, a realidade, a verdade, a exposição, é uma afronta, por isso o plástico lhes serve tão bem. É artificial. É falso por excelência.

Compor a morte

Foi Páscoa e cumpri a visita habitual ao cemitério. Reclamo bastante, mas vou, claro, que há muita outra coisa que detesto e faço.
Assim que entro no recinto dou largas à resmunguice. Começo nas campas cobertas de plástico moldado, a que chamam flores. Milhares de quilos de plástico ou de poliéster requeimado para obsequiar, lembrar os mortos.
Compreendo os rituais das culturas animistas, as oferendas aos espíritos: leite, frutos, flores. Acho bonito. Mas, flores em plástico? Ou seja, plástico? Colorir as campas de plástico para estarem sempre compostas?
Eis outra tara portuguesa, a de compor tudo. Não é fazer bem, é compor. Por outras palavras, atamancar. “Fazes isto e mais aquilo, e depois compões tudo para não se notar nada”. Que fique tudo compostinho. Atamancado. Não interessa o valor real, mas a aparência. Por exemplo, uma coisa é fazer a cama, outra é compô-la, puxar a roupa para cima, assim a modos de dar a ideia que está feita.
Quando os mortos estão bonitos, se é que isso existe, dizem, “estava muito compostinho”. Não interessa se já está a derreter há dois dias na casa mortuária, desde que permaneça compostinho.
O cemitério onde vou é destes modernos: está tudo enterrado em campa de terra durante seis anos, depois levantam-se os restos, e vão de restolhada para a vala comum ou compra-se uma gaveta ao município, onde se arrumam fémures e tíbias. É uma limpeza. Claro que, no exterior da gaveta, manda-se logo colar um belo arranjo de flores em plástico. Para ficar compostinho.

Operações plásticas

Os portugueses têm muita dificuldade em assumir que uma campa é apenas um buraco no chão onde um cadáver vai sendo consumido. Isto não se diz, da mesma forma que não se fala da morte como morte. Não se morre, “já lá está”, “Deus o tenha em descanso”, “paz à sua alma”. Os portugueses cobrem as campas de plástico porque dissimulam melhor a morte, protegem-na. E protegem-se dessa fatalidade.
No cemitério onde vou, a morte está demasiado exposta, e os familiares dos falecidos deram em plantar, sobre o ressalto das campas, uma vegetação própria de zonas de areia, que alastra como relva, rasteira, verde-escura, que se adapta bem a terrenos batidos pelo sol e sem água. Não vejo nada de mal. Plástico é que não.
Na última visita, porém, deparei-me com as seguintes instalações artísticas: numa determinada zona do cemitério, alguém mandou o coveiro “compor” a campa em forma de urna, e forrou-a com relva artificial, que coseu com as costuras para dentro, nos cantos, como se fizesse um estofo. Trabalho impecável. Logo, os familiares vizinhos copiaram a ideia, pelo que nessa zona existem meia dúzia de campas forradas a plástico verde. Aproximei-me e observei as obras. Nem Christo, o artista que empacota monumentos, se lembraria desta. Um cemitério de campas forradas a plástico verde com picos, imaculadamente cosidas em forma de urna. Na mesma zona, alguém provavelmente menos abonado, ou mais artista, e com notável vocação maçónica, ladrilhou a campa com mosaico para chão de cozinha, de diferentes cores e padrões; peças inteiras que lhe sobraram das obras. Tendo a superfície ficado muito aplanadinha, prantou-lhe por cima, contente, seguro, duas jarras do mais garrido plástico que já se viu em flor.

O tempo do adesivo

Adesivo analgésico por causa dumas dores cervicais; adesivo anti-stress; adesivo contraceptivo; adesivo anti-queda de cabelo; adesivo de nicotina; adesivo anti-celulite; adesivo para cortar o apetite; adesivo de vitamina A para a pele. Já não há cremes? Já não há comprimidos? Sinceramente, não tenho mais espaço livre.

terça-feira, abril 18, 2006

Morrison só cá temos um Jim!

Toni Morrison nasceu nos Estados Unidos em 1931, e começou a escrever aos 40, para produzir a literatura que gostaria de ter lido.
Ganhou o prémio americano da Crítica, nos anos 70, o Pulitzer, em 1988, e o Nobel da Literatura em 1993, uns anos antes de Saramago.
Os Estados Unidos produzem, anualmente, hordas de excelentes escritores; aquilo não é propriamente pequeno; não é, de certeza, a escola do elogio mútuo que cá temos; se são bons, as editoras querem-nos e publicam-nos; se não respiram, ou são palavrosos, desvitalizados, o sonho não chega, trabalhem numa livraria, que é a relação mais íntima que conseguirão manter com uma obra. O mercado editorial americano é exuberante e impiedoso.
Escolher Toni Morrison para o Pulitzer, nos anos 80, e para o Nobel, cinco anos depois, deveria torná-la uma referência literária maior. Não tornou.
É mulher. É negra. É gorda. Não dá boas fotografias. Que fosse mulher, pronto, mas, ao menos, branca e magra, de preferência uma louraça, porque a imagenzinha... Abreviando, em Portugal parece que não vende. Não sei se por ser mulher, negra ou gorda, ou pelo conjunto. Ou não se divulga, porque não se traduz. Há um único livro traduzido, desta autora. Há dois, mas a edição de Amada, pela Difusão Cultural, encontra-se, há muito, fora de mercado.

A semana passada perdi uma tarde pelas livrarias do Chiado em busca de livros de Toni Morrison. Já tinha tentado em Almada, e nada. No Chiado, fui à Bertrand, nada; à FNAC, havia uma edição em inglês de Jazz, adquiri; àquelas duas a descer para o Rossio, nada, nada; voltando para cima, já mesmo a chegar à estátua de Camões, a Sá da Costa, perto dos cafés históricos, sumamente localizada.
O diálogo que se segue foi travado com a empregada da referida livraria.

- Boa tarde, ando à procura de obras da escritora americana Toni Morrison.
- É portuguesa ou em estrangeiro?
- É uma autora estrangeira, mas quero livros em português..
Pega num calhamaço todo desconjuntado, uma espécie de lista telefónica, mas maior, com páginas igualmente finas, abre no M, e começa, Mo, Mo, Mo, Morri, Morris, Morrisson... está aqui um Morrisson... mas é um Jim... Morrison, só cá está este Jim!
- Não, não é Jim, é Toni, veja lá bem, Toni Morrison.
- L,M,N,...R,S,T... Tem razão, pois, aqui está um Tóni, realmente. Aqui está, Tóni Morrison... Mas não temos, nem há, que isto já é edição antiga.
- Sim, eu sei desse, mas há uma edição recente de um livro intitulado Paraíso.
- Não, não, do Tóni só há este que aqui vê, está a ver o meu dedo, este aqui, Morrison, Tóni, Amada...
- Pois... pronto, muito obrigada.
- Nada... e sempre à sua disposição.

Havia um exemplar de Paraíso na FNAC do Colombo. Mandei vir. Estou à espera. Deve chegar amanhã.
Se alguém me puder emprestar a edição esgotada de Amada, da Difusão Cultural, agradeço.


Toni Morrison, autora desconhecida, Prémio Nobel da Literatura, 1993

Este blog é absolutamente contra-indicado...

... a machistas, a misóginos, a homófobos, a racistas, a tarados cheios de obsessões, a tarados que têm a mania que são o Diácono Remédios da blogosfera, a tarados que têm a mania que são melhores que eu em qualquer sentido(1), a ressentidos que só dizem asneira, a parvalhões de toda a espécie.
Declino qualquer responsabilidade em caso de congestão das artérias vasculares, paragem cardíaca, embolia, ataque de asma, entre outros.
Este blog é especialmente indicado para meninas, sensíveis, flexíveis e perfeitas, sempre bem-vindas e acarinhadas.


Instinto maternal

David Fisher, o irmão gay da série americana Sete Palmos de Terra, a passar na 2, anda com o relógio biológico nas últimas; emite um longo ooooohhhh quando se cruza com criancinhas, e sonha com bebés rechonchudos, cor-de-rosinha, que alguém lhe vem depositar, gratuitamente, no armário da cozinha.
Sempre gostei desta personagem educada, sensata, idealista, sensível, frágil. Por outro lado, não tenho grande afeição pelo namorado, o polícia negro, brutamontes, cínico, sempre de cara fechada, feião, implicativo, sem sentido de humor, básico como uma cebola.
Gosto do David. É um lindinho. É um amorzinho. É um fofinho. Quando os homens forem todos assim, o mundo será perfeito.

segunda-feira, abril 17, 2006

Antiguidades

A minha mãe ainda diz, "compra-me uma carta de agulhas", como disse sempre, "uma carta de agulhas". E eu entro na retrosaria e digo, simplesmente, para que não se divirtam à minha custa, "tem agulhas?". Não é a mesma coisa; numa carta de agulhas há ordem, entendimento. Agulhas, só, é uma palavra que pica, destituída de sentido. Que se registe: o plural de agulha é "uma carta de agulhas". Em Lourenço Marques vendiam-se nas lojas dos chinas, embrulhadas em papel de prata e protegidas por um pequeno sobrescrito de cartão com caracteres chineses. Não conheço nenhuma outra forma sensata de comprar uma carta de agulhas.

Primavera II

Comprei três raminhos de cana de bambu decorativo para colocar num vaso de vidro transparente. Há muito que queria fazê-lo.

Encontrei uma bonsai muito bonita em promoção no Jumbo. Gostei do redondo desalinhado da árvore, e da cor das folhas. Comprei. Estive uma hora na net procurando informação sobre a espécie, a rega e exposição solar. Já sei tudo. É uma zelkova serrata e vai viver comigo para toda a vida.



Ao final do dia ofereceram-me um pé de orquídea rosa e cor-de-chá, com 10 flores abertas. Que beleza! Não tinha nenhuma jarra disponível, pelo que tive de improvisar um frasco de Mokambo daqueles que vou guardando por baixo do lava-louças: tenho verdadeiro horror a deitar fora coisas que podem vir a ser úteis. A orquídea é uma flor sofisticada e cai bem num frasco vazio de café. Tira-lhe as manias. É como se tirasse o colar de pérolas e vestisse as calças de ganga.




Não aspirei o chão. Não passei a ferro. Não preparei o material para amanhã.
Foi um dia feliz


Uma polícia para a polícia

A polícia portuguesa é mal amada e muito mal paga. Os polícias de giro suam as estopinhas, e estão em permante situação de risco, mesmo quando não trazem a farda vestida. Tendo em conta o crédito que lhes dão, muito fazem. Eu faria menos, e trataria de proteger a pele em situação de perigo. Não podemos esperar brio da parte de uma classe profissional da qual os sucessivos governos têm usado, abusado e pisado. Os agentes de segurança não têm segurança.
Não me admira que chefes do departamento de armas e explosivos da PSP estejam implicados numa rede de tráfico e fornecimento de armas ilegais a particulares, associações de extrema-direita portuguesas, e outras organizações internacionais; não ficarei escandalizada se me revelarem que na Direcção Central de Investigação do Tráfico de Estupefacientes existem funcionários pagos pelos grandes traficantes para agir como informantes. Não acontecerá generalizadamente, mas os anjos acabaram desde que o mundo é mundo; um grão aqui, outro acolá, e enche a galinha o papo.
Ultimamente, tenho vindo a pensar em palavras que, em tempos, ouvi à mãe do Rui Pedro, o menino desaparecido de Paredes, que, hoje, caso esteja vivo, será um homem. Dizia a senhora que a Direcção Central de Combate ao Banditismo não parecia colaborar, querer saber, realizar esforços, agir. Que a tratavam inadequadamente, que se mantinham indisponíveis para ouvir as pontas soltas que ela ia ligando. Contactados pela Imprensa, os agentes defendiam-se, afirmando que a senhora era muito chata, que telefonava muito. Não lhes parecia natural que a mãe da criança desaparecida vivesse tão grande inquietação. Alguns seriam pais, suponho. Mesmo que não fossem. Nunca compreendi. Nunca compreendi.

domingo, abril 16, 2006

Cristo não foi imaculado

É possível que Cristo tenha sido negro, gay, caloteiro, gozão, que não lavasse as mãos, tivesse pé-de-atleta e cheirasse mal dos sovacos. Não sei e não me interessa.
A história pode reescrever a sua biografia e isso interessará aos historiadores, aos leigos, à história. Não aos cristãos não católicos, como eu.
O último santo que conheci dava-me aulas de tai-chi, chegava sempre atrasado, faltava sem avisar e esquecia-se de nos passar recibo. Não espero que os santos sejam perfeitos nem que façam milagres, mas que tenham o poder de fazer os outros ver o milagre. De resto, os santos são homens e mulheres, vão à casa-de-banho, e, se não limparem a cera dos ouvidos, terão cera nos ouvidos.
Não me interessa se Cristo foi filho de Deus, se transformou pedras em pão, ressuscitou Lázaro, caminhou sobre placas de gelo, não sobre as águas. Os Evangelhos mais recentes foram escritos no ano 60 da nossa era. É provável que não tenham saído da pena de quem testemunhou a vida de Cristo. Que tenham sido acrescentados de histórias, de folclore.
Cristo transformou-se num símbolo, numa ideologia, numa proposta de ética, e a sua mensagem principal, que nenhum evangelho omite, é verdadeiramente ecuménica, universal, transversal a todas as religiões, de todos os profetas: o amor gratuito; o poder de criação e transformação do amor; o amor como única via para chegar ao outro, sobretudo ao inimigo; o amor na humilde oferta da outra face.
A iconografia da cruz transcende o sacrifício de Cristo, ideia que a Igreja Católica promove – porque vive da exploração do sofrimento de Jesus nos seus últimos dias, e constrói-se a partir dessa adoração ao cordeiro de Deus, sacrificado em nome de todos, e que não podemos ofender. A iconografia da cruz é o que ela significa; é o que se carrega até à morte; mas é também a intercepção, num determinado ponto central, simultaneamente centrífugo e centrípeto de dois elementos, de duas linhas rectas, dois cursos. Não sei o que é isso, esse centro. Sei que importa.
Ser cristão significa apenas isto: identificação com a mensagem de Cristo. Um ateu ou um agnóstico serão cristãos se fizerem do amor ao outro, da ética do amor, uma filosofia de vida. Não importa saber se existe Deus, quem é, onde está. Não interessa se não somos perfeitos, imaculados. Cristo também não foi.
Somos cristãos se acreditarmos que é possível ressuscitar após uma morte violenta. Se calhar, até já nos aconteceu. Ser cristão é recomeçar; tal como ser hindu, budista, adventista do sétimo sétimo dia.
A possibilidade de recomeçar é o mundo perfeito. É isso que se celebra na Páscoa. O recomeço.



Foto de Margaret Bourke-White, Mahatma Ghandi

sexta-feira, abril 14, 2006

Prova de grande amor

A RTP1 prepara-se para estrear um novo programa com vista a testar a compatibilidade amorosa, a solidez das relações, etc., essas coisas.
Nestes assuntos, padeço de cepticismo crónico.
Esta semana, estava no consultório do médico, e peguei numa revista Vip, que folheei enquanto não era chamada. A páginas tantas, deparo-me com uma reportagem sobre casais-modelo, uniões de sucesso, amor para sempre, indubitável, sendo que a primeira era sobre a jornalista da SIC, Clara de Sousa, e Francisco Penim, que também deve fazer qualquer coisa nos meandros da estação, seja o que for. Não foi possível resistir: a reportagem era uma pérola de lugares-comuns extensíveis ao casal Carlitos Cruz e Raquel, Manela Moura Guedes e Zé Edu, Juju Pinheiro e Rui Pego, entre outros. Nos últimos, até acredito; a Manela e a Júlia devem ser capazes de fazer de qualquer relação um vendaval emocional, pelo que o Zé Edu e o Rui Pego não podem ter tempo para olhar para as saias das colegas, quanto mais.
Não acredito em relações sossegadas, lamento muito. Ou andam os tachos e as panelas pelo ar e uma mulher pode gritar à vontade e fazer-lhes a vida negra, ou não funciona, já se sabe, porque eles precisam da rédea curta e de diferentes estratégias de manipulação todos os dias. E só pode ser assim. Nada de "está bem, querido", "pois, tu é que tens razão, mor". O meu conselho é nunca lhes dar razão, nem sossego, nem certezas, e pô-los a dormir no sofá de quinze em quinze dias.
Estranhei a notícia sobre Clara de Sousa. Recordava-me de capas de revistas recentes sobre a sua separação. Eu nem sabia quem era o tal Penim. Nem sei. Conferi a data de edição da Vip e sosseguei: meados de Fevereiro. Portanto, o casal Clara/Penim era modelo em Fevereiro, só nos finais de Março se desfez. Bem, pensei cá com os meus botões: deve ter acontecido algo muito, muito grave. Felizmente fui procurar um link sobre este assunto, antes de escrever o presente texto, e pude ler uma notícia do Correio da Manhã, de 01/04/06, confirmando a separação do casal, esclarecendo que se deveu a infidelidades do incorrigível mulherengo, e justificando que já nem viviam juntos há três meses. Ora, se o esclarecimento sobre a separação é feito no final de Março, se não vivem juntos há 3 meses, parece que no final de 2005 já estaria o caldo muito entornado. Se assim foi, deve ter entornado ainda mais cedo, até porque Clara afirma estar farta das infidelidades do pinga-amores.
Não consigo perceber como é que a Vip os apresenta como casal modelo em Fevereiro, mesmo que a reportagem tenha sido feita em Janeiro, ou em Novembro ou Dezembro. Os redactores foram enganados?
Tenho, portanto, de colocar a hipótese de os casais-maravilha, em teste de amor, no novo concurso da RTP, dormirem já em camas separadas, isto, se é que ainda pisam o mesmo chão.

Como eliminar África do mundial de futebol

O “rosto mais visível” dos cabeças-rapadas portugueses avisa que podemos contar com confrontos rácicos no mundial de futebol, uma vez que a presença de selecções africanas não vai ser bem tolerada na Alemanha, sobretudo no jogo Angola-Portugal, que se realizará no dia imediatamente a seguir ao do Festival dos Povos, festa nacionalista a ter lugar em Jena, a 10 de Junho.
Espanta-me que o líder de um movimento de extrema-direita, que, para já, defende princípios anticonstitucionais, se sinta à vontade para, na Imprensa, com calma e antecedência, divulgar planos de ataque - que afirma não estarem combinados, embora tenha a certeza que acontecerão, caso os angolanos pisem o terreno sagrado da Saxónia.
Espanta-me que o assunto não espante, que não haja nenhum movimento colectivo de indignação. É que se o líder do gang x ou y do subúrbio vier avisar que a 10 de Junho pensam assentar um valente arraial de porrada em todos os brancos que entrem na Cova da Moura, porque aquilo não é território de brancos, faz-se já um vox pop, em todas as televisões, para que o povo possa manifestar a sua indignação e mandar “a negralhada toda lá para a terra deles”.
Até imagino que, para evitar estes problemas, se comece a pensar organizar um mundial só europeu, assim como uns jogos olímpicos sem negros.

quinta-feira, abril 13, 2006

Torturada pela KGB

A Tati quis arranjar-me as sobrancelhas. Insisti que preferia o estilo floresta virgem. Torceu o nariz. Disse-lhe, sorrindo, a ver se a seduzia, que queria manter-me assim, wild thing. Respondeu, "hum, na Ucrânia toda mulher depila sobrancelha, e fica bem rosto, como acento circunflexo, desenhado em cima olho, muito bonito; assim não". Okay, cedi. Confesso: tenho um bocadinho de medo da Tati, de quando perscruta a minha pele, as minhas pernas: até tremo! A Tati é a minha agenta da KGB, e limito-me a dizer que sim a tudo.
Pegou na pinça. A Tati pegou na pinça e nem a KGB! Chorei. Chorei copiosa, longa e involuntariamente. Gritei como se estivesse na sala de partos, enquanto ela permanecia insensível, debruçada sobre a minha cara, com as magníficas mamas roçando o meu braço esquerdo.
Nunca mais na vida, juro, alguém se aproximará da minha cara com uma pinça.

Exposição

Tenho estado na rua como um automóvel sem garagem.

Ângelo de Sousa, sem título, 1988

À noite, sonho que roo as unhas

Durante muitos, muitos anos andei em público de mãos cerradas e nunca apontei. Não mostrava os dedos. Roí as unhas toda a vida, e temi, e envergonhei-me do que esse incorrigível vício denunciava de mim.
Depois, foi necessário reconquistar um homem. Era uma questão de vida ou de morte, e não exagero. Reconquistar um homem é uma missão bastante mais difícil do que simplesmente consegui-lo pela primeira vez. Uma conquista requer algum trabalho, um ou outro cuidado aparentemente fortuito; mas uma reconquista, e de um homem, pede papel e lápis.
Senti que para retomar aquela praça teria de perder o tal vício. Não saberei explicar porquê; inspiração do momento. Deixei de roer as unhas. Sofri. Ficaram bonitas; arranjei-as; pintei-as discretamente. Gostei do resultado. Como consequência, movimentava mais as mãos, exibia-as, elaborava arabescos com elas no ar impecavelmente cuidadas e vistosas. Vaidosa.
Reconquistei esse homem. Consegui. Em pouco tempo e sem papel nem lápis. Inspiração, apenas. Tenho os meus segredos. Ele mirava-me as mãos e dizia, "que unhas tão bonitas; lembro-me que sempre tiveste as unhas tão bonitas! Estão iguais!" Não tive coragem de lhe dizer que sempre roí as unhas, que nunca as tinha tido assim, que tinha abandonado o hábito por sua causa, apenas. Nunca lhe direi. Há coisas que nunca podemos dizer.

quarta-feira, abril 12, 2006

Primavera

Nos dias em que durmo melhor a Tati diz que fico mais bonita.

Vista alegre

O ramo de flores mais alegre que já tive foi o que acabei de compor com malmequeres selvagens, brancos e amarelos, que colhi no baldio em frente, e coloquei, ralos, numa jarra baratucha de louça azul.
Não pretende ser nada, nem sequer um ramo de flores. É o mais simples. É perfeito.

Menez, Atelier, 1987

Machismo de todas as forma possíveis e imaginárias

Joana Amaral Dias, em entrevista ao Diário de Notícias, publicada a 07/04/06.

Sente machismo na actividade política?


A sociedade portuguesa é extremamente conservadora e machista. Mas na política o número de mulheres não tem correspondência com as mudanças que foram acontecendo. Comparando com a actividade académica... Aliás, há uma grande diferença na actividade académica quando eu comecei e agora.

Como é que o machismo na política se faz sentir?

De todas as formas possíveis e imaginárias... Desde o paternalismo que existe dentro da Assembleia da República em relação às deputadas mulheres, até à própria participação nos trabalhos. Já existem poucas mulheres, mas as que falam são ainda menos. Até à preferência óbvia das televisões por comentadores políticos homens. A televisão é bastante mais machista que a imprensa escrita. Esse machismo reflecte-se em todas as esferas da actividade política. Vai desde as comissões de trabalhadores até ao Parlamento, passando pela intervenção pública na televisão

segunda-feira, abril 10, 2006

A face tão breve da memória

Margarida, 10/04/1903 - 17/12/1995

O corpo físico desfaz-se. Acabamos. Também o que fizemos, dissemos, sentimos. Os momentos de graça e desgosto recebidos. Isso tudo que morre e arrasta para o esquecimento o amor vivido, o ciúme, a raiva. A memória de nós, que desaparece sem remédio.
Os nossos filhos recordarão as nossas piadas repetidas mil vezes, e os netos hão-de lembrar-se que lhes contávamos a história do meio-pinto, mas os nossos bisnetos mal saberão o nosso nome próprio, se souberem. Desaparecer da face da memória. Como se chamavam as minhas trisavós? Desapareceram da face da memória.
Hoje, se fosse viva, seria o aniversário da minha avó Margarida. Ninguém no mundo lembra a minha avó Margarida. Ninguém sabe que no dia de hoje faria 103 anos, e que cegou muito cedo, e que teve de lavar escadas, muitas escadas, para alimentar o meu pai. Que tinha numa caixa de madeira, aninhada em palha sempre fresca, uma galinha entrevada que lhe viveu décadas. Chamava-se Micas. Por isso é que a minha cadela Micas se chama assim. Foi o meu pai que lhe pôs o nome quando eu a trouxe da rua.

domingo, abril 09, 2006

O mito das Amazonas, essas comilonas

A edição de Março da revista francesa Historia trouxe para tema de capa um conjunto de artigos sobre mulheres soldadas. O primeiro focava o mito das Amazonas, as quais, segundo os gregos, terão combatido os Atlantes com bastante sucesso, formando um temível exército composto por cavalaria e infantaria. Acabaram por ser vencidas por helénicos expeditos, que, contudo, se terão apaixonado pelas guerreiras no momento em que as matavam, ao olhá-las nos olhos enquanto as atravessavam com as respectivas espadas. Exactamente. Com as espadas. Deram cabo delas.
Dos Atlantes, quem quer saber? Um tsunami exterminou-os. Um vulcão vaporizou-os. Vivem com barbatanas algures no triângulo das Bermudas. Mas as Amazonas, essas mulheres envergando túnicas de pele de leopardo, guerreiras, caçadoras, porém combatendo seminuas, com os mamilos eriçados pelo frio e pela adrenalina, são a melhor das fantasias eróticas. Entre esta e a do harém, torna-se difícil a escolha.
Catherine Salles, autora do artigo na revista Historia, descreve-as, de acordo como mito, como mulheres sanguinárias, implacáveis, intrépidas e desejáveis, que queimavam o seio direito para assim transferirem a força para o ombro e melhor lançar flechas e dardos.
Recusariam a presença de homens, mas, sentindo a necessidade de se reproduzirem, acasalavam como animais, desprezando as mais elementares regras humanas. E eis como o faziam, o que me deixa regalada. Imagine-se que estas desencaminhadas, uma vez por ano, deslocavam-se em grupo até às tribos vizinhas, e obrigavam os pobres desgraçados a ter relações sexuais. Violavam-nos. Não queriam saber se estavam ali as mulheres, os pais, os filhos, era a eito. Faziam-no na escuridão, ao acaso, tal e qual como no quarto escuro das saunas gay, tudo ao molho e pouca fé em Deus.
Imaginemos: as comilonas chegavam velozes, como os índios do faroeste, desmontavam, precipitavam-se para as casas, teria de ser noite alta para estar tudo às escuras, teriam de tactear em busca dos ocupantes, depois tactear sexos para identificar o macho de cobrição que se havia de se manter quietinho enquanto ela não o achava; achados, as cavalonas gritavam às mulheres, “chega-te para lá que preciso do teu assistente reprodutivo” e eles, coitadinhos, ali manietados, desapossados da sua energia vital, a serem completamente violados por uma mulher que nem lhes queria ver a cara para não morrer de susto, e que os usava a seu bel-prazer, como escreve Catherine Salles; aflitos, apanhados de surpresa. É obra! Devia ser traumatizante. Uma espécie de rapto das Sabinas, mas adaptado.
Portanto, os vizinhos das Amazonas tinham de viver sob o pavor daquela digressão anual, que deviam temer.” Oh, quanto tempo faltará para aquelas malvadas nos virem violar? Oh, que desgraça.” E nem pensavam em pôr termo a tal abuso, indo pedir-lhes satisfações, guerreá-las por causa disso, não senhor. Tal era o medo!
Passemos à parte das crianças. Os recém-nascidos do sexo masculino eram assassinados pelas malévolas mães. Mas não todos; alguns, mantinham-nos vivos para serem seus escravos, mas não sem antes lhes amputarem braços e pernas para que não pudessem fazer-lhes concorrência na guerra. Ora, nunca, na história, que me lembre, um ser humano amputado de braços e de pernas deu grande escravo. Se os mantivessem à parte, se os deixassem medrar para depois servirem como escravos sexuais umas das outras, para se poderem reproduzir sem a trabalheira de andar às apalpadelas no povoado vizinho, que às vezes deviam enganar-se e montar o avô, ou sei lá, compreendo, agora criá-los sem braços nem pernas para virem a ser escravos, não sei, tenho algumas dificuldades em compreender.
Segundo a lenda, também recusariam aleitar os filhos para não deformar o seio, pelo que os alimentavam a leite de burra. Também me questiono: quem não se preocupava com a estética de um seio queimado para melhor combater, preocupar-se-ia com uma mama descaída pela amamentação, sobretudo considerando que eram destituídas de sentimentos humanos a ponto de matarem os filhos? Não sei. Não sei. O que me parece é que este famoso mito está muito mal alinhavado, e, sinceramente, eu nunca contrataria os argumentistas para um filme meu. Não tenho qualquer dúvida de que foram os argumentistas. Jamais as.

O que penso sobre o argumento de ordem natural

Ao longo da longa história as sociedades têm-se organizado heterogeneamente com base em diferentes estruturas culturais, as quais vão adaptando às necessidades. Ou não, o que costuma ser fatal. Não nos deve espantar, portanto, que diversas sociedades tenham guardado para as mulheres a tarefa da caça, da pesca e o manejo de armas, com esse fim. Aconteceu na bacia do Amazonas, em África, na Oceânia; esta estrutura do tecido social, para nós ainda atípica, terá acontecido um pouco por todo o planeta. Há de tudo. Há sociedades em que o incesto pai-filhos é uma prática destituída de gravidade, por não se considerar que as crianças sejam filhas dos respectivos pais, mas apenas da família da mãe. Interessante.
A cultura europeia, porém, boa herdeira da ideografia greco-latina, uma entre tantas, remete a fêmea das classes altas para reclusão doméstica, e continua presa aos ideais de separação de funções de acordo com uma ordem natural dos sexos, situando as mulheres num patamar de irracionalidade aberrante. As mulheres devem ou não devem fazer algo porque é ou não é próprio da sua natureza. O ideário greco-latino marca-nos impressionantemente, impondo ao conhecimento paredes de uma teimosa opacidade. Continuamos a viver segundo esses moldes do pensamento.
Se a caça seria tarefa dos homens, e só dos homens, e esse é o motivo que explica por que eles sabem alegadamente orientar-se melhor que nós; se a caça exigia destreza e força, e esse é motivo porque naturalmente lhe coube a tarefa, pergunto-me se teria importado muito às negras que em criança via de enxada na mão, vergadas sobre o solo, lavrando-o para a plantação de amendoim, com a criança bem amarrada ao peito ou às costas, chupando-lhes a teta enquanto trabalhavam e suavam em bica, pegarem no arco e na flecha para irem caçar a impala, com a cria colada a elas como uma mochila Eastpack, mamando sofregamente enquanto desentranhavam e desmembravam a peça para a transportarem para casa? Estou em crer que lhes seria igual. Melhor, que teriam preferido.

Mulheres medievais caçando

Mudemos de cultura, porque a alimentação carnívora não as explica a todas. E nas culturas onde não se come carne, nomeadamente na Índia, onde se fundou a religião budista? Nessa zona os homens orientar-se-ão melhor que as mulheres com base nas capacidades desenvolvidas durante a caça ao cogumelo? As mulheres não têm músculo para o cogumelo? O que explicará a cultura patriarcal na Índia?
Parece-me que divisão de tarefas e aptidões de acordo com o argumento da natureza deixa, pois, muito a desejar.

sexta-feira, abril 07, 2006

Já tenho uma combinação para o fim-de-semana!

Ter e estar

Alguns factos da vida não são uma simples questão de linguagem, embora ela os interprete com notável precisão.
Quando um homem entra em mim, ele está por momentos dentro de mim, mas sou eu que o tenho dentro de mim.

O poeta não é um fingidor

Leio à procura dos textos que me comovem, me exaltam, me confirmam. Alguns livros famosos, de autores ainda mais famosos, não nos trazem nada. Sobretudo segundos livros. Vaidade. Estilo. Os segundos livros não se deviam escrever. Quase sempre trazem demasiadas certezas. Se a arte serve apenas uma vaidade, serve nada. A arte não mente. Era isto que Pessoa queria dizer com o poeta é um fingidor: finge tão completamente que chega a sentir que é dor, a dor que deveras sente. Pessoa não mentiu, em nenhum dos seus rostos. Não podia; não teria sido ele. Não o leríamos.
Os poetas, ao contrário dos artistas plásticos, gostam de se distanciar da obra que criam, bem como os ficcionistas. Gostam de dizer, "é só literatura." Compreendo-os. Eu faria o mesmo. A literatura cria um discurso verbal e torna-se demasiado informativa.
Mas não existe só literatura, tenho muito pena. Sou casmurra, tenho muita pena. Há hibridez, mas só literatura, não. Nem o Eça. Nem o Camilo. Nem a Agustina. Tenho muita pena.
Leio uma obra descomprometida de uma escritora quase desconhecida. Custou-me dois euros e meio numa feira do livro.

quinta-feira, abril 06, 2006

Para Pereira, Bragança

Fui uma vez a Bragança há uns 1o anos. Era Verão e havia uns concertos no castelo. Com aquele moço dos Ala dos Namorados, e o Paulo Bragança, que eu até fui ao camarim dizer-lhe que me tinha apaixonado durante o concerto. Tenho testemunhas.
Bragança é um lugar bonito e sossegado, tirando o problema de ficar literalmente no fim do mundo, e aquele outro fenómeno das mães muito preocupadas com o entre pernas das putas e muito pouco com a maçaroca borbulhosa dos putanheiros dos maridos.
Não conheço ninguém em Bragança. No entanto, há lá quem me conheça muito bem, talvez até melhor que eu, e me visite todos os dias, mais que uma vez, religiosamente, sem falha, desde há um ano, a começar às oito e picos da madrugada. E sem comentários. Jamais. Escreva eu o que escrever. Caro(a) e perseverante leitor(a) de Pereira, Bragança, saiba que, mesmo não querendo, já nos sinto casados. E gosto.

Nota: também ando caidinha pelo(a) leitor(a) de Esmoriz, Aveiro. E outros.

O nevoeiro que guarda o amor



O meu pai, os outros homens, os meus homens, os que amei, todos, nunca aprendi a desamá-los. Se os revejo paira sobre mim um nevoeiro lilás, como se o antigo amor se tivesse nebulizado e pudesse rodear-me, gasoso, já não dentro de mim, mas fora.
Esse nevoeiro traz vozes, sussurros, imagens, gritos, rostos fechados, rostos tombados de riso. Esse nevoeiro traz de novo o amor que não foi desamado. É por isso que digo que o amor não tem fim, que nos persegue mesmo que não possa realizar-se nos dias tão limitados de uma só existência.

quarta-feira, abril 05, 2006

Uma casa de vidro

O problema dos blogues muito visitados é que vem logo a censurazinha: perde-se a porra da liberdade, a privacidade doméstica; parece que temos a obrigação de nos portar bem, de não errar, de não descalçar os sapatos, de não escrever as asneiras que nos passam pela cabeça. Uma pessoa chega ao cúmulo de ir verificar as vírgulas! E isso, desculpem lá, mas não. Não vendo a minha liberdade no blogue a nada nem a ninguém, porque a outra já a vendo o estritamente necessário: casa e comida.
Metam isto na cabeça: primeiro, escrevo as asneiras cabeludas que me apetecer; segundo, não estou aqui para ser contrariada. Comigo, sempre paninhos quentes. Percebido? Não é preciso responder; basta assentir com a cabeça.

Projectos de paridade

Amigas minhas defendem que a introdução de quotas para acesso das mulheres a cargos políticos é um insulto. Não partilho essa opinião. Cabe aos legisladores, ao parlamento, influenciar mudanças sociais que constituam mais-valias para o progresso.
Creio que precisamos mesmo das quotas para que a voz política das mulheres seja efectivamente considerada em tarefas que transcendam a educação, a família, a cultura, e a assistência social. A questão vai mais longe: para que as mulheres percebam que a sua voz tem valor! Que são pares. Se calhar precisamos das quotas para lhes mostrar que, em política, podem fazer mais do que passar Pronto nas bancadas da Assembleia da República ou trazer bicas aos senhores ministros.
Nos países bálticos, cuja realidade conheço razoavelmente bem, as mulheres acederam à política quando entrou em vigor o sistema da quotas, o qual não se tornou ainda obsoleto, por estranho que pareça; mantém-se em todos os departamentos, de todos as empresas, públicas ou privadas; continua a ser obrigatória, anualmente, a apresentação dos ordinários planos de actividade, bem como dos respectivos projectos de paridade.

Os que caíram nas malhas do look alienígena


Yohji Yamamoto, 2006

Disseram-me que o look alienígena está na moda.
A primeira questão que se me colocou foi, "o que é que eu posso fazer para ajudar? Como é que posso ser útil?" Existe alguma associação, como a Abraço, onde possamos ir dar o nome para participar em acções de rua com o objectivo de apoiar as pessoas que se tenham deixado cair nas malhas do look alienígena? Isto é de coração aberto, pá, eu faço o que estiver ao meu alcance. Até lhes leio uns capítulos de Marcel Proust. Sinceramente, conhecendo-me, até sou capaz de ter um rasgo de altruísmo, pegar numa nota de cinco euros, passar-lha para as mãos e mandá-los comer uma sopa e uma uma sandes de carne assada.
E tenho cá em casa roupa quase nova, que aqui me deixou uma primita de 10 anos, que foi há 20 para Venezuela, e nunca mais voltou, que se calhar podia distribuir por estes jovens carenciados. Nâo deixa de ser uma ideia. Cada um faz o que pode. Vocês, estarão com certeza a idealizar outras formas de prestar apoio, diferentes, claro, talvez até melhores que as minhas. O que importa é que juntemos as valências.



Dior 2006


Dior, 2006


John Galliano para Dior, 2006


Yohji Yamamoto, 2006

Lipoinspiração


John Galliano, 2005

A observação da realidade quotidiana deixa-me muito apreensiva, muito pessimista em relação ao futuro. As modelos da Fashion TV, canal muito do meu agrado, porque só tem música sempre com a mesma batida, apresentam quase todas uma concavidade na face interna de cada coxa. Pergunto-me se isto não serão já indícios de uma mutação da espécie. Espero que não me afecte, nem à minha descendência nem à vossa.
Para dar às raparigas um ar normal, e não se sentirem rejeitadas pela sociedade, porque, há que dizer a verdade, devem sentir-se inseguras, diferentes, e até podem ser insultadas na rua, "ó trinca-espinhas", "ó canivetes", o que é traumatizante, talvez uma lipoinspiração ajudasse.
Não sei se a Caixa comparticipa, mas a ADSE acho que não. Se tivessem seguro de sáude é que seria mesmo bom. Agora, qualquer pessoa tem de ter um seguro de saúde com um pacote que inclua pelo menos duas plásticas por ano. É indispensável.

John Galliano para Dior, 2006

terça-feira, abril 04, 2006

Unha disfuncional



Sobre unhas de gel quero esclarecer o seguinte:

- não interessa o nome que lhes dão: são 100% postiças!
- a cataplasma de verniz que lhes colocam para disfarçar o desnível, na base, relativamente à unha natural que vai crescendo e empurrando para fora o postiço, é atrozmente feia!
- por muita graça que ache ao risco branco da manicure francesa, e às florzinhas, e à arte em unhas, que acho!, só tenho vontade de arrancar o meio metro de unha postiça branca que a mão da imagem ostenta!
- há várias actividades cuja realização se torna impossível, nomeadamente, descascar batatas, entalar a roupa da cama, abotoar seja o que for, escrever num teclado, and so on, em resumo, usar as mãos.

Não sei viver sem a tua fome, sem a tua sede

As palavras do amor compram-se por meia dúzia de tostões.
Da próxima vez fica muito calado, para que eu acredite totalmente na mentira.
O amor vende-se excessivamente barato, e eu prefiro gastar mais, na esperança de que as solas não se rompam tão depressa.

segunda-feira, abril 03, 2006

Os segredos da dor de cotovelo

Nunca li Margarida Rebelo Pinto. Por nenhum motivo em especial. Até a acho simpática. Não li Rebelo Pinto como não leio os Os Lusíadas nem Garrett. Não me apetece. É chato. Não me identifico. Tenho a roupa para meter na máquina. Sei lá.
Agora, tenho cá a ideia, que se em vez da Margarida fosse o Zé ou o Manel ou o Bernardo ou o Gonçalo, a coisa dava menos barulho, e ninguém se dava ao trabalho de escrever 150 páginas a desconstruir os segredos da sua escrita. E também acho que a dor de cotovelo às vezes apanha o braço todo.

domingo, abril 02, 2006

As escolhas

Se bebesse Seven-up não haveria de suportar a resposta frequente do «pode ser uma Sprite?». Quando, lá de três em três meses, peço a minha aguazinha das Pedras – olho o empregado acto contínuo de cenho cerrado como quem diz «pões-me na mesa uma Vidago e prego-te um balázio nos cornos meu filho da puta».

Há um princípio estético que é um princípio ético: em matéria de gosto não é possível recuar um milímetro – sob pena de perdermos em absoluto o respeito que de nós a nós mesmos nos é devido e exigido. Um mocinho que expõe arte abstracta porque é mais fácil esborratar uma tela com acrílicos e trinchas de furco do que estudar e aprender os rudimentos técnicos da Arte – impõe-nos o dever público da acusação de modo a que os infractores (ele, neste caso, e o galerista), sem direito a recurso e sem outras providências que um mandato judicial emitido de forma expedita, sejam de imediato levados ao cárcere debaixo de armas.

Comece-se pela displicência em matéria de gosto (gabando os Madredeus, valorizando as análises económicas de Perez Metelo, deixando em paz a Margarida Rebelo Pinto, aplaudindo entusiasticamente o João Pedro George) – e já se sabe: a História recorda-nos que, por menos, mais que uma geração ilustre se perdeu na dissolução das vontades e nos labirintos da degenerescência.

sábado, abril 01, 2006

A descomedida enunciação metafórica

Gosto muito da susana, comentadora de primeira aqui da casa, e fico também de pé atrás – só tenho pena de nunca termos sido apresentados, e medo de vir a sê-lo: porque aprecio quase tanto como temo a inteligência feminina: e a susana, intui-se, o que diz é apenas um sinal do que está disponível para dizer se o interlocutor tiver disponibilidade para passar, digamos, da conversa da esfregona e do bacamarte matinal e inconsequente que a Isabela reitera, para um outro nível argumentativo em que não há preconceitos de base a estraçalhar o discurso. Por isso mesmo, por exemplo, a susana diz que o sangue é lindo. os meninos é que se acanham” – e nós sabemos que, dizendo-o, não apenas está a afastar deliberadamente da conversa os grunhos que vêm ao Mundo Perfeito rir-se com expressões do género «fodia-te toda» ou «o teu problema é que estás cô priúdo e tenho pressa», como simultaneamente se derrete na expectativa de que alguém aceda e responda a essa descomedida enunciação metafórica. «o sangue é lindo. os meninos é que se acanham» - diz a susana como quem diz: «o coração é a única coisa que verdadeiramente interessa. os meninos é que andam distraídos com a superficialidade das coreografias». Acontece que não sou eu, que as temo, às meninas inteligentes, que me ponho a jeito para o colóquio proposto. Mas, ainda assim, juro, se não fosse logo à noite jogarem o Sporting às sete e o Benfica às nove, abdicava do mais e haveria de escrever-lhe uma declaração filosófica sobre o amor, o desamparo, o êxtase, o desabrigo e a exaltação de um corpo que se deseja como se estar vivo decorresse duma disponibilidade permanente para sermos de alguém antes mesmo de nos pertencermos a nós mesmos.

Biologia pura

Após estes anos todos continua a intrigar-me que eles, logo pela manhã, quando ainda estamos praticamente anestesiadas, sem rimel nem baton nem creme de rosto, acordem com o bacamarte em pé e sejam capazes de foder nem que seja o cardeal Cerejeira.
E depois nós é que somos biologia pura!

Professores à prova de bala

Segundo a edição de hoje do Correio da Manhã vai ser criada dentro de um mês e meio, portanto, a meio do 3º período, uma linha SOS de apoio para professores e educadores. Isto, porque no ano lectivo 2004/2005 foram contabilizadas, nas escolas, 1232 agressões deste tipo, boa parte delas dentro das salas de aula. 191 professores e funcionários necessitaram de receber tratamento hospitalar, pelo que a agressão transcendeu a bofetada, a joelhada ou o murro. 25,7 por cento dos jovens estudantes revelam-se envolvidos em actos de violência.
Numa época em que o governo descredibiliza professores perante a sociedade civil e a Imprensa, a um nível nunca antes visto, não me admira que um dia destes, para além do exame que terão de passar a fazer para admissão à carreira docente, os candidatos tenham de demonstrar saber usar colete à prova de balas, aprender técnicas de defesa pessoal em substituição das didácticas e das pedagogias diversas.
Claro que a culpa disto tudo é dos professores!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...