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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bom Ano de 2011 !





Luis Moreira


Este é o menino que representa todos os meninos. Este é o menino que devia iluminar o presépio e a árvore de Natal.

Em cada cinco segundos um dos meus meninos Jesus morre de fome devorado pelos abutres que da fome alheia se alimentam. Quem os poderá ignorar?

Poema de Eugénio Andrade

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos.
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão apodrecidos.

Eugénio Andrade



Tenham um óptimo ano de 2011 !

terça-feira, 28 de dezembro de 2010





NATAL...

Fernando Pessoa

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010





CARTA DE NATAL A MURILO MENDES

Sophia de Mello Breyner Andresen


Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no Verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez deste postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal

Para ligar o eterno a este dia.


domingo, 26 de dezembro de 2010




NATAL DE 1971

Jorge de Sena





Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

sábado, 25 de dezembro de 2010







POEMA DE NATAL

Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Um conto de Natal de António Lobo Antunes - O Natalzinho

O nosso Natal foi ficarmos a gente os dois aqui em casa com um pinheiro a piscar lâmpadas a noite inteira. O pinheiro deitámo-lo fora no dia seguinte.

(primeiro encostado à porta juntamente com o lixo e depois entornado no contentor da rua onde encontra, entre garrafas vazias e papéis de embrulho, outros colegas pinheiros, como ele sem estrelas nem bolinhas prateadas)

mas as lâmpadas, unidas por um fio eléctrico, guardamo-las numa caixa de cartão, outrora caixa de sapatos, que por sua vez se arruma na prateleira mais alta da despensa onde moram as coisas de que precisamos menos
(um calorífero avariado, a canadiana de quando torci o pé, o retrato do meu sogro, os remédios fora do prazo)
e onde permanecem, sem piscar nada, até ao próximo Natal. Para as desencantar a minha mulher traz o escadote da marquise
(que eu fico a segurar devido às suas tendências traiçoeiras manifestadas por intermédio de desequilíbrios e oscilações)
sobe a medo os três degraus metálicos prevenindo

"Por uma simples questão de sensatez, não acredito em Deus. Em nenhum."

Carlos Loures


Não gosto do Natal. É uma época desagradável para mim. Não sou crente e, portanto, a face religiosa da festa, não me diz nada. Festa da família? A minha família não precisa de dias especiais para se reunir, nem de datas certas para manifestarmos os sentimentos que nos unem. Porém, não consigo fugir totalmente aos tentáculos do polvo comercial que, em Dezembro, esbraceja para sacar às pessoas em geral, crentes ou não, tudo o que possa.

E depois é o sortilégio da comida. Não gosto do Natal, mas gosto de algumas iguarias a ele associadas - a começar pelo bolo-rei. E assim, todos os anos nos reunimos no almoço dia 25. Em 1977, eu e minha mulher e os filhos, com os meus pais estávamos à mesa, embora já tivéssemos almoçado.

Ainda fumava e estava a contas com uma cigarrilha, acompanhado pelo meu pai que só fumava em ocasiões especiais. A televisão estava acesa, mas com o som desligado, e ninguém lhe prestava atenção. Começaram a dar filmes e fotografias do Charlot e pensámos que era mais um programa natalício. Porém, estranhámos a frequente intervenção do locutor que, com ar grave, falava entre os pequenos filmes que estavam a emitir. Como todos, dos mais novos aos mais velhos, éramos seus admiradores, subi o som. Então percebemos – Charles Chaplin tinha morrido.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um conto de Natal de Júlio Verne - Os Grandes Frios do Natal



A temperatura caíra subitamente na sala para sete graus abaixo de zero (-22º centígrados).


Mas se o doutor estava já sem imaginação, já não sabia o que fazer, outros sabiam-no por ele. Assim Shandon, frio e resoluto, Pen, a cólera espelhada nos olhos, e dois ou três dos seus camaradas, os que ainda conseguiam mexer-se, avançaram para Hatteras.


- Capitão! – disse Shandon.


Hatteras, absorto pelos seus pensamentos, não o ouviu.


- Capitão! – repetiu Shandon, tocando-lhe na mão.


Hatteras endireitou-se.


- Senhor – disse.


- Capitão, já não temos fogo.


- E então? – respondeu Hatteras.


- Se é sua intenção matar-nos de frio – retomou Shandon com uma terrível ironia – pedimos-lhe que nos informe desde já!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

VerbArte - Duas visões diferentes sobre o Natal





Duas visões diferentes sobre o Natal

João Machado


Muitas vezes temos dúvidas sobre o que representa para nós o Natal. Apresento-vos aqui dois pontos de vista diferentes. Alguns de vós acharão que são totalmente opostos. Outros dirão que, embora diferentes, até podem coexistir. O primeiro ponto de vista é dado através de um conto de Tolstoi (1828-1910). Ora leiam, uma história que o autor de Guerra e Paz e de Anna Karenina escreveu, passada no Natal :



Conto de Natal

Leon Tolstoi

Um camponês russo, muito cristão, pedia nas suas orações que Jesus o viesse visitar à sua humilde cabana.
Na véspera do Natal sonhou que o Senhor lhe iria aparecer. Teve tanta certeza da visita que, logo que acordou, se levantou-se e imediatamente começou a limpar e a arrumar a casa para receber o tão esperado hóspede.
Lá fora, uivava uma violenta tempestade de granizo e neve, e o camponês  prosseguia as suas tarefas domésticas, ao mesmo tempo que vigiava a sopa de legumes, que era o seu prato preferido.
De vez em quando ia olhar a estrada, sempre na expectativa. Passado algum tempo, viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade no meio do nevão. Era um pobre bufarinheiro, que carregava às costas um fardo bastante pesado. Com pena do homem, saiu da cabana e foi ao encontro do pobre mercador. Levou-o para o interior, pôs sua roupa a secar perto do lume da chaminé e repartiu com o hóspede a sopa de legumes. Apenas consentiu em deixá-lo partir quando viu que recuperara forças para retomar a jornada.
Olhando depois pela janela, vislumbrou uma mulher na estrada coberta de neve. Foi ter com ela e  deu-lhe abrigo na choupana. Fê-la sentar-se próximo da chaminé, deu-lhe de comer, agasalhou-a com a sua capa... Não a deixou partir enquanto não viu que tinha de novo forças suficientes para a caminhada.
A noite  caía... E Jesus não vinha!
De esperança quase perdida, foi novamente foi á janela e perscrutou a estrada atapetada de neve. A custo viu uma criança,  percebendo que se encontrava perdida e  enregelada pelo frio... Saiu mais uma vez, pegou na criança ao colo e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida junto ao calor da chaminé.
Cansado e desolado, o camponês sentou-se e acabou também ele por adormecer junto ao fogo.
Porém, de súbito, uma luz radiosa, que não provinha da lareira, iluminou tudo! Diante do pobre homem, surgiu risonho o Senhor, envolto  numa túnica branca!

- Ah! Senhor! Esperei-Vos todo o dia e não aparecestes, lamentou-se.

Jesus respondeu:
- Por três vezes,  visitei  hoje a tua cabana: o mercador que socorreste, aqueceste e alimentaste...era Eu! A pobre mulher, a quem deste a capa...era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade, era Eu também... O Bem que a cada um deles fizeste, a mim mesmo o fizeste.
(Traduzido de uma edição francesa)


___________________________

Tolstoi, a partir de certa idade, converteu-se e mostrou mesmo pendor para o misticismo. É a fase de Sonata a Kreutzer e de Resurreição. Este conto provavelmente data dessa altura (não tenho a certeza). Mas agora apresento-vos este vídeo, que nos foi remetido pelo Rui Oliveira. E depois, temos este ponto vista bastante diverso. Esta história do Natal on-line terá alguma coisa a ver com a atitude de Jesus Cristo, quando expulsou os vendilhões do Templo? Será uma denúncia do evento comercial em que se tornou a festa da Natal? Ou será apenas para nossa diversão? Pronunciem-se, por favor.



Um conto de Natal de José Saramago - História de um muro branco e de uma neve preta

Não haveria nada mais fácil no mundo das histórias que escrever um conto de Natal com Menino Jesus ou sem ele, se não fosse dar-se o caso de que uma criança que nasce está sempre nascendo. O nosso grande erro, esquecidos como em geral andamos das infâncias que vivemos, foi pensar que as crianças nascem uma única vez e que depois de nascidas se limitam a ficar à espera de que o tempo passe e as transforme em adultos, os quais, como deveríamos saber, constituem uma espécie diferente de seres humanos. A criança começa por nascer uma vez, que é a de vir ao mundo, e depois continua a nascer para compreendê-lo: não tem outro remédio nem há outra maneira. Como se verá pelas duas breves histórias que se seguem, ambas autênticas, ambas verdadeiras.

sábado, 18 de dezembro de 2010

 



Natárias
(Cantos que precedem, na Beira Alta, as “Janeiras”)

Maria Cecília Correia (1919-1993)

Foi quando morreu Tia Aurélia, com cinco anos de idade, que meu avô levou para casa o Menino Jesus, na sua caminha de cortinados feitos com pequenas flores ligadas, parecendo ser de madrepérola, mas que, segundo nos ensinaram, eram de escamas de peixe. Lindos eram, com duas rosas nas cabeceiras e outra  maior, em cima, como remate.  O Avô quis fazer uma surpresa à Avó, um mimo que a distraísse do seu grande desgosto. Foi um santeiro afamado que fez esse lindo Menino Jesus, um santeiro nomeado e gabado num livro de Aquilino Ribeiro, o Sr. Nelas. Contei a história dessa oferta num conto do meu livro para crianças e esse conto foi depois aproveitado para texto escolar, o que muito me agrada: o Menino Jesus é conhecido de muitas crianças, não ficou somente cá em casa.

O Menino Jesus, não sei se meses seguidos, se todos os anos pelo Natal, era “requisitado” pelas freiras do “Sacré Coeur”, ainda mal instaladas em Viseu. Minha mãe contava que as mais… hoje dir-se-ia “ternurentas”, passeavam no recreio com a imagem nos braços, embalando-o como se criancinha fosse. Quanto de maternidade frustrada nesses asseios com o Deus menina da minha Avó Prazeres! Esta, tendo em vista o seu (dele) sorriso meigo, chama-o “meu feiticeirinho”.  E ficou estabelecido, não sei por que lei, que ele passaria de filha mais velha para filha mais velha. Assim, eu fui a terceira a possui-lo e hoje Karin, a minha neta de 6 anos, já me soube dizer que o Menino Jesus um dia será seu.

Ouve, Karin, tu, que já me soubeste dizer isto, explica-me como se diz “meu feiticeirinho” na tua língua. Mas acho que, como tu também falas português, só o deves dizer nesta minha – tua – língua, como tua trisavó o dizia e sabendo porque ela assim o chamava. Tu, que não conheces  que toda a crónica daquela família se dividiu em dois poisos – Rua Formosa e Massorim – tens de saber que a Rua Formosa foi o arraial vivido, onde tudo o que era importante se passou, e que Massorim foi o sonho construído, a casa que se fez, mas a velhice também, as divisões, a venda do sonho e a dispersão da família. Portanto tu, que nem podes ir ver a casa da Rua Formosa que uma urbanização desfez, terás só de saber que lá é que o Menino Jesus foi oferecido, depois amado, depois emprestado, depois ido para casa de meus Pais, em várias terras e ao sabor dos nossos percursos, mas sem o oratório que em casa nenhuma cabia e que ficou a desfazer-se num sótão de empréstimo, lá longe, ficando a imagem guardada dentro de uma caixinha de papelão e o berço cuidadosamente embrulhado em papeis que o não comprimissem, em prateleira apertada – percalços de 6 assoalhadas para outras tantas pessoas, saindo só pelo Natal, até que, em maré de mais espaços, numa casa já minha, se lhe fez um triangulozinho com paredes de vidro, obra do Sr. Almeida, o paciente marceneiro que fez tantos móveis que hoje aqui vês, trabalhando sozinho em oficina pacata. A tunicazinha é ainda a mesma que lhe conheci, com os seus arabescos bordados a ouro. Só não sei  se já foi comprado com ela, era ainda menina a tua bisavó Cecília, ou se a bordaram  depois as “Mères”. E, se lhe ponho uns tantos livros policiais escondidos debaixo do bercinho, a aguentarem-lhe  as pernas já tortinhas, é porque eles são a exacta medida do berço-cama. Bem sei que eles estão escondidos pelo fio prateado da Árvores do Natal, batota que fiz, mas, com pouco mais de cuidado, eu teria arranjado outro calço qualquer. Deixo isso ao teu cuidado, está bem?

Que isto do calço, é coisa simples de remediar. O mais importante é que saibas  “acender a luz”. Não é riscar o fósforo sobre a vela, como hoje poderás pensar. É entrares numa cadeia, sabendo que substituis os que acenderam anos e anos atrás. A avó da tua avó… não te será um abstracto irreal, absurdo até perante o relâmpago que é o viver de hoje? Mas são assim as gerações – as “linhas” em sequência. Diante do Menino, elas passaram e se detiveram atentas, numa época que os adultos chamavam Advento e as crianças somente Natal, entre velas, lamparinas, novenas e também expectativa de novidades sempre renovadas; de Festa.

Na vela tu me verás mais tarde, como eu hoje os vejo a eles, a um a um, sabendo seus nomes por tradição oral, coisa que hoje também já não se usa. Mas, ainda que tu não saibas seus nomes, como eu, eles aí estarão contigo, nessa  luz que iluminará o Menino, por tuas mãos acesa, luz que sempre significou amor e continuidade.

Um conto de Natal de Dulce Maria Cardoso - O menino

Ela e ele entram no casebre. Ela agarra a mão dele. Apesar do escuro distinguem logo o menino. Durante muito tempo não conseguem ver mais nada. O menino. Todo o futuro encerrado no peito que aprende com dificuldade a respiração. O menino. O menino. Durante muito tempo, mais nada.


Depois uns braços nascem em volta dele. Um colo. Um rosto. É a mãe. A mãe fala uma língua que eles não entendem. Mas ela e ele não precisam de compreender as palavras para saberem o que a mãe lhes pede.


Aproximam-se devagar. Como que a medo. A mãe afasta o menino do seu corpo, entregando-o a ela.


Quando ela era pequena, aceitava sempre com vergonha o que lhe ofereciam. Sabia que era preciso dizer qualquer coisa mas nunca conseguia encontrar o momento nem as palavras para o fazer. Então os olhos do pai arregalavam-se: o que é que se diz? Mas ela ficava calada, a boca seca, as mãos a torcerem-se.


Ela recebe o menino dos braços da mãe. Fica suspensa sobre aquele corpinho. Muda.


Lá fora a família aguarda-os. Daqui a pouco ela e ele despedem-se da mãe e levam o menino com eles. Para sempre.


O menino começa a chorar. Ela aconchega-o com gestos de que não se sabia capaz. O menino sossega. A mão pequenina toca ao de leve o anel que ela traz no dedo. A eternidade do momento adensa o redondo da pérola.


Ela e ele demoram-se. Fora do mundo que os espera. Entregues ao menino. Entregues àquela mãe que agora não sabe o que fazer dos braços. Que os deixa ficar para ali caídos. Imprestáveis.


O que é que se diz? Não sei o que e que se diz, pai.

A partir de Janeiro próximo, neste horário, será diariamente apresentada a rubrica "Jardim das Delícias", coordenada por Augusta Clara de Matos. A série de contos de Natal que estamos a apresentar, é por ela seleccionada.



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Conto de Natal de Adão Cruz


Sábado à noite dia vinte e um vésperas do Santo Natal.

O frio enrugava os ossos a rua de Santa Catarina era um rio de gente
um rio de águas desencontradas sem destino nem rumo umas correndo para baixo outras para cima e mesmo para os lados -se algum dia se viu -!

Gente por cima gente por baixo gente saindo e entrando não se sabe bem onde tanta porta aberta tanta porta fechada não se sabe ao certo.

Pessoas em cima de gente embrulhadas em pessoas e sacos e mais gente e mais sacos pendurados nas mãos nos ombros no pescoço nas orelhas nos olhos.

Uma velha andrajosa suja e gorda - de doença seria a gordura e não de fartura! - uma provável anasarca cardíaca que faz do doente uma espécie de boneco Michelin rebentando de inchaços uma velha gorda excrescente tumoral - de trapos seria a gordura também! - (o frio enroscara-lhe o corpo
com todos os farrapos do lixo) uma velha suja tentava subir a rua por entre a multidão limpa.

Com grande agonia arrastava pelo chão puxada por um cordel uma caixa de papelão que dentro continha outras caixas e restos de caixas e mais papelão provavelmente toda a sua mobília de quarto que haveria de montar
nesse arrastado andar lá para o meio da noite no vão de uma porta muito acima do 575 mais fora dos olhos dos enxotadores de pobres.

A velha cuja idade mirraria as carnes se os inchaços se escoassem não ia bem disposta nem dava ideia de estar bem no meio daquele mar de gente.

Antes de tudo sentia-se afogar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A Verdade? - Um conto de Natal de Urbano Tavares Rodrigues

Chovera muito, durante horas e horas. Ouvi gritos de aves, trovões e imaginei o súbito fulgor dos relâmpagos na noite dos olivais, tão perto do nosso “monte”.

Mas era Natal. E, apesar do frio, que não apertava assim tanto, teimei em sair. “Vê lá se te molhas”. Com duas camisolas enfiadas pela cabeça, uma sobre a outra, como os meus irmãos, e calçando botas grossas, fomos espreitar um lírio de água, naufragado quase à entrada da horta, na zona dos tanques.

O sol subia no firmamento, mas as ervas ainda estremeciam, molhadas, sentia-se a húmida respiração de todas as coisas matinais.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Serra está coberta de branco





Eva Cruz

A Serra está coberta de branco
é Natal de musgo e azevinho
do presépio e do pinheirinho
a cheirar a resina
dos socos na lareira
dos chocolates de prata
pra trocar por um santinho.
Cheira a vinho fervido
açúcar e canela
e os olhos de Raquel
abertos a noite inteira
enchem-se de Natal.
Tantos Natais vividos
enfeitados de memória!


Natais sem história
sem missa do galo
sem tamancos na calçada
nem vultos em xaile de merino
pra beijar o Deus-Menino

(in “ Era uma vez ,future kids)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

É Natal -- As prendas do Sr. Godinho

Comecei ontem , ao deitar, a pensar nas prendas de Natal, quando ía aí nas 100 pessoas, comecei a dormitar e apareceu-me um homem, vestido de vermelho e com um carro de renas. Logo lhe lancei:

Não diga que sou má PESSOA. Em tempo de crise aproximámo-nos de quem pode, nunca de quem nos fode. Não sei porém qual é a diferença. Admitamos porém que há. Aqui vai uma lista de quem tem prendas a custo zero. Sendo assim seria uma falta de humanidade não lhe darem nada, a si, meu querido Pai Natal. Siga a lista, siga os nomes, mas cuidado, muito cuidado.

Como sabe, a diferença entre quem pode e quem nos fode é finíssima, por vezes invisível e, portanto, nesse siga a lista, nesse siga os nomes, nesse siga para onde lhe manda o seu desejo, nesse siga o seu desejo das prendas, siga sempre, mas ao virar de cada esquina olhe, olhe bem, pois tanto pode encontrar um Zézito qualquer e só há um, mas asseguro-lhe, imitações há muitas como, por exemplo, o Senhor dos Passos , pode encontrá-lo à procura de lhe darem uma prenda muito boa no silêncio da noite como pode encontrá-lo à procura de dar uma boa prenda a alguém nos múltiplos favores que lhe têm feito.

Para uma coisa ou para outra, para dar de forma selectiva, para receber de forma ainda mais electiva, é para tudo isto que andam a trabalhar os nossos políticos mas menos para servir a nossa democracia, sendo certo que entre o que recebem e o que dão vai a distância do infinito. Mas cuidado meu amigo, pois na calada da noite também anda a DIAP (Diabos Infelizes Apoiam Papai) a proteger os nosso políticos, Zézito, suposto de esquerda ou as suas imitações, supostas de direita, andam a proteger as prendas que eles têm a dar ou a receber, e, assim meu querido Papai Natal como vê, o que pode encontrar em vez deles pode ser a DIAP (Diabos Infelizes Apoiam Papai) para lhe caçar a prenda entretanto eventualmente considerada que a eles foi caçada, para o caçarem a si meu querido Papai, como anda com o desejo de coisas outras que não as suas.

Se isso lhe acontecer, prometo, sentir-me-ei agradecido pela lição que me é assim oferecida, lamentarei o seu destino e asseguro-lhe, ah, isso sim, que não estou disponível para lhe seguir o seu ingrato caminho, o de ficar depois eternamente dependente da justiça que aqui não passa de injustiça.

Ouvi uma risada no meio de grande barulho de latas, latões, telemóveis a tocar, a electicidade tremelicou, sombras de gente de gravata deixavam rastos na sombra da noite e o homem falou: olha lá, Papai? Vai chamar pai a outro. Acordei, todo eu era suor e doíam-me as costas como se estivesse, qual "hindu" deitado em cima de sucata, pregos e latões. Acendi a luz, não vi ninguém, mas sobre a minha cama ficaram, como a quererem mostrar que sonhos são realidades desejadas, as listas de gente eleita para receberem prendas de Natal!

Já viu se merece?

Um abraço e boas prendas alcançadas e não caçadas a um qualquer político.



Mensagem enviada por um leitor devidamente identificado.

Christmas Carols

José Magalhães

Estava em Trafalgar Square nos primeiros dias deste Dezembro pelas 5 da tarde. Era já noite cerrada. Depois de ter visitado a National Gallery of London e de me ter deleitado com quadros magníficos de pintores não menos aclamados mundialmente, como Rembrandt, Monet, Picasso, Renoir e Van Gogh, só para referir os que sempre mais me impressionaram, e de uma infinidade de outros, sentia na cara a breve brisa quase gelada que se fazia sentir.

De mão dada com minha mulher, olhava a estátua de Lord Nelson quando reparei que aos pés da coluna e nas costas do Vice-Almirante estava um presépio rodeado a cerca de alguns metros por uma barreira metálica que impedia a aproximação das pessoas, algumas das quais já se encontravam por lá encostadas, como que a ganhar vez.

Curiosos, como sempre somos nesses casos, aproximamo-nos!

Ao longe ouvia-se, vindo o som do meu lado esquerdo, música, e entrevejo a custo uma espécie de pequeno cortejo, com uma fanfarra a meio, tendo à frente um padre e alguns acólitos. Dirigia-se ao local onde estava exposto o presépio, com o “ministro” a comandar.

O pequeno cortejo demorou cerca de cinco minutos a chegar até à nossa beira, e quando olho à minha volta, já imensas pessoas de todas as idades, desde crianças de colo a velhos muito velhos, esperavam calmamente. Um dos acólitos distribuiu uns panfletos, e quase todas as pessoas aceitaram.

Ainda não conseguia imaginar o que se estava a passar, mas era de certeza alguma coisa importante e agradável. O frio era de rachar, menos de zero graus seguramente, e toda a gente estava com um ar de completa satisfação.

Era em tudo parecido com algumas coisas que já antevira no meu país, organizado pelos padres locais, lá pelas aldeias e vilas. Estava com dúvidas sobre se iria ser celebrada uma mini missa campal ou qualquer outra coisa do género.

Só quando vi algumas pessoas, poucas, a persignarem-se, entendi que a religião era a Anglicana. Mas como se parecia com a minha, Católica Romana. Diziam as mesmas coisas e de maneira muito semelhante, embora com uma menor carga de seriedade (mais tarde, num outro dia, assistimos na catedral de St Paul´s a uma lição de catequese sobre o nascimento de Cristo, e com a excepção de uma certa liberdade de linguagem acompanhada de uma enorme alegria, nada vimos de diferente do que aprendemos e de como aprendemos na nossa juventude).

Depois de uma curta prelecção, deram início à cerimónia, que era nem mais nem menos que cantar os Christmas Carols.

Todas as várias centenas de pessoas presentes cantavam (sim, aos poucos o espaço encheu e eram já centenas as pessoas presentes), num coro de vozes muito afinadas. O folheto que tinham distribuído no início tinha as letras para os menos avisados como eu.

O espírito natalício tinha invadido, e de que maneira, toda a gente.

Nunca na minha vida me tinha apetecido tanto cantar. Senti-me comovido, muito comovido!

A comunhão entre os presentes era total.

Não senti nenhuma diferença, antes pelo contrário, por estar entre cristãos que um dia me disseram serem diferentes de mim. Éramos afinal todos iguais. Todos com o mesmo Cristo no fundo dos nossos corações, e o desejo de paz no mundo muito enraizado.

Acabado o canto, senti-me leve e com um quentinho na alma, esquecido das minhas razões de agora para gostar cada vez menos destes dias consumistas e relembrando o tempo da minha infância em que tudo era belo fácil e alegre, em paz com o mundo e muito, mas muito mais feliz.

Acabado o canto, e enquanto a multidão dispersava com um sorriso nos lábios e um brilhozinho nos olhos, senti que tinha aprendido uma lição e que se calhar ainda haverá alturas em que poderemos voltar a dizer “abençoada época natalícia”.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

VerbArte - Mas o que tem o Menino Jesus a ver com isto?




Manuela Degerine

Somos uma sociedade que, embora em crise, não deixa de consumir; e que, através do consumo, aprisiona. Viver tornou-se, para tanta gente, um círculo vicioso: trabalhar para comprar para deitar no lixo para voltar a comprar... até à morte. Exaltante? Dito assim, não parece. E, no entanto... A sociedade do espectáculo esvazia as cabeças para depois – ou ao mesmo tempo – lá lançar a publicidade. Um responsável de televisão francesa, Patrick Le Lay, explicava isto em 2004: o objectivo é criar no espectador uma disponibilidade cerebral susceptível de ser vendida à Coca-cola.

Devo dizer que represento um caso bicudo para os publicitários. Não me recordo da última vez que fiz uma compra impulsiva. No lixo só ponho lixo; respeito os três R: reduzir, reciclar e reutilizar. Escolho os alimentos em função do gosto, da qualidade, da quantidade, da proveniência (portuguesa, francesa, europeia...) e do preço; posso trazer a marca mas nunca pela marca, procuro certo tipo de farinha, tal qualidade de ovos, cacau com determinados aromas... E leio todas as etiquetas. Quanto à roupa, também sou capaz de optar por marcas, embora quase sempre me afaste delas, por me parecerem um uniforme fácil e vulgar; gosto de me sentir distinta na aparência. Comprar é para mim uma tarefa, como pôr roupa a lavar na máquina – não é uma forma de expressão. E, para concluir, o tempo parece-me demasiado curto e precioso e aprazível para o vender – isto é: trabalhar – mais do que o indispensável; por conseguinte, para preservar esta liberdade, aos precedentes acrescento outro ingrediente do bem comprar: penso mais duas vezes. (Não é hoje que as televisões poderão vender o espaço vazio do meu cérebro.)

Já adivinharam... Vem tudo isto a propósito do Natal. Na infância da minha mãe havia filhós, um presépio e o Menino Jesus; porém a minha geração já se confrontou com um Natal importado. Lembro-me de olhar para o pinheiro com desencanto: não o achava nada parecido com os dos livros. A neve, as renas, os abetos e o Pai Natal começavam a descer à península ibérica, acabaram por se tornar tão familiares que as crianças já não notam o sotaque – agora é asiático – e, associados ao particularismo lusitano do décimo terceiro mês, projectaram o último trimestre do ano para os píncaros do absurdo: os lisboetas entram no stress de Natal desde o mês de Setembro.

Não é o meu caso. Não ofereço nem recebo prendas de Natal. (Gosto de oferecer, gosto de receber mas não em datas fixas; a surpresa e a motivação fazem parte da prenda.) Não me sinto obrigada a encorajar a economia chinesa – que é de onde vêm os contentores. Nem a aumentar o lixo de Natal – que é onde tudo se conclui.

Sim, dirão muitos leitores, mas a festa?... O Natal é a festa da família. Pensemos então a festa de uma maneira mais criativa – há tantas – do que o simples acto de comprar. Uma festa que passe por viver, sentir, fazer, descobrir – e não apenas por ter. Somos demasiado refinados para nos contentarmos com um monte de prendas embrulhadas. Somos exigentes, queremos melhor. E... livres do pesadelo das compras de Natal, sobra-nos tempo para uma festa verdadeira. Ou para uma aventura comum. É mais simples do que parece, todos podemos experimentar e não corremos grande risco; expostas as razões, feitas as propostas, encontramos, na maior parte dos casos, entre os familiares, uma adesão espontânea. (Simples bom senso.) Transformamos as horas que vivemos numa prenda: perene.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ainda a carta enviada aos líderes parlamentares pelo Professor Júlio Marques Mota

Na sequência da edição da Carta Aberta aos Líderes Parlamentares, o Professor Júlio Marques Mota partilha connosco a emoção sentida ao ler um folheto que corrobora totalmente o que dizia na referida carta (cuja leitura pode ser feita, clicando sobre a barra da direita).



Mão amiga mandou-me este email, com um documento que aqui segue em anexo . Abri o documento, olhei, li, e com ele com ele me comovi , da mesma forma que o farão todas as crianças sem recursos do nossos país, se todos nós seguirmos a sugestão no referido texto inserida. Disso, eu sou a prova declarada e provada, ontem, hoje e, bem espero, ainda por muitas outras manhãs . Prova aos nossos deputados gritada e formalizada, mas pela maioria deles ignorada, o que é bem uma outra lição a aprender e também a não esquecer.

De livros se fala no protesto enviado por mim aos deputados, de livros se fala no documento em anexo e nele se propõe: “dê um final feliz à história de muitas crianças”. Uma sugestão que outros seguiram noutros tempos e de eu sou um pouco um exemplo, uma sugestão que agora a crise leva cada vez mais a declarar como urgente. Com livros dados e não emprestados, com livros não reclamados, com livros pela leitura por cada criança conquistados, ajudemos as crianças do nosso país a aprender a pensar que um outro mundo feito por eles e talvez ainda com a nossa ajuda, se não nos deixarmos imobilizar, é pois ainda possível.

De uma história, a minha, ou de um protesto não calado, o meu, até outras histórias que por eles, crianças, hão-de ser faladas e recontadas, é de livros que aqui se fala, de livros que se deram, de livros que hão-de continuar a dar.