Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O olhar e a vida...



Eu olhava e não via.
Pensava e não percebia.
Ou não pensava?
Só sei que não entendia.
Não sabia que o mundo era assim...
... tão mundo.
E nem que as pessoas eram assim...
... tão pessoas.
Até hoje sou meio bobo.
Ainda não entendo esse ego.
O ego é maior que as pessoas?
Sabe com quem está falando?
Hã...? Seria com uma pessoa?
Igual a todos?
— Todos não são todos, rapaz!
Depende de quem seleciona.
Seleciona alguns, diz que são todos e separa os feios.
Mas quem disse que o feio não é bonito?
Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Dizem que a vida é bela.
Será que ela é feia?
Ou é apenas vida...



terça-feira, 19 de maio de 2026

Escolha do cliente

 


Olhar para quem olha uma vitrine de doces.
Carolinas, macarrons coloridos, camafeus, mil folhas, sonhos de padaria.
Sonhos...
Conversa de padaria.
Alegre.
Casual...
Sem compromisso com o sonho.
Sonho de creme ou de doce de leite?
O cliente escolhe seus sonhos.
Obrigado!
Servimos bem para servir sempre.
Estava no saco de papel pardo.
Hoje vem na sacolinha.
Sem a frase.
Sem o sorriso.
Sem o sonho...
O baleiro de vidro não roda mais.
Roda, roda baleiro atenção...
Eu quero a bala de goma.
Eu quero a Chita.
Eu quero a que engasga...
Obrigado!
Agradecemos pela preferência.
Estava na plaqueta em cima do caixa.
Ninguém agradece mais nada.
Os sonhos vem de moto.
Do aplicativo.
Obrigado!
Volte sempre...
Volte onde?


terça-feira, 12 de maio de 2026

Ainda não é o Apocalipse

  

 Sei que não é da cultura blogueira, escrever e nem ler postagens longas.
 Mas escrevi esse conto e achei que deveria compartilhar com vocês, amigos.
 Acho que vão gostar. 




 
            Agnaldo nasceu e sempre viveu na favela do Cruzeirinho.
            Em sua cabeça não existia uma lembrança de criança que não contenha as ruas, as casas, as pessoas da favela.
            Ele e seus amigos correndo descalços, jogando bola em ruas de terra batida, desviando de poças de água de esgoto, que corria a céu aberto.
             De vez em quando a polícia era chamada, porque alguém encontrara um corpo em algum terreno baldio, ou já fedendo em algum dos barracos.
            Quando estava na adolescência, Agnaldo ajudou seu pai em várias obras pela cidade, trabalhando como ajudante de pintor de casas.
            Seu pai era o que popularmente e pejorativamente se chamava de — pintor meia-boca —, não era ruim e nem tão bom.
            Por isso nunca pegava as obras para administrar. Sempre trabalhava para alguém.   
            Entre idas e vindas trabalhando com seu pai, Agnaldo arrumou tempo para bater carteira, traficar, ser detento na Febem, ser cafetão de Isadora e Cyntia. Vender muamba do Paraguai, assaltar velhinhas e novinhas, até que um dia conheceu Jussara.
            Conheceu, namorou, fez sexo e mais sexo e virou pai.
            Olhando sua ficha corrida, um desavisado pode achar que ele tentava sobreviver da forma que sabia.  
            Depois que sua menina nasceu, ele resolveu tentar viver como um homem de bem.
            Trabalhou em uma barraca na feira, entregou jornal, aparou jardins, entregou lanche e marmitex e trabalhou de frentista de posto de gasolina.
            Tentou, mas seu jeito bruto e pouca escolaridade não o ajudavam muito.
            Jussara estava na terceira gravidez.
            E os problemas, de repente se amontoaram em sua cabeça.
            Aluguel, supermercado, água cortada, luz — gatificada e descoberta pelo vizinho.
            Tudo andava muito mal, então ele resolveu voltar a roubar.
            Agnaldo encontrou a vítima ideal, uma loja de roupas bem movimentada em frente a praça São Geraldo, perto do centro de Santana.
            Ele estava vigiando a loja há uma semana.
            O dono, que ele descobriu que se chamava Osmar, já tinha uma certa idade e sempre ficava sozinho no final do expediente.
            Esse Osmar, era um homem de 75 anos, alto, magro, de aparência tranquila e cordial. Era dono da loja: “Pague Pouco” há 40 anos.
            Sua veia comerciante, herdou de seu pai Juares, que também era comerciante e ensinou tudo o que sabia a Osmarzinho.
            Ao lado da loja Pague Pouco existe a igreja evangélica: Cristo é vida, onde o pastor Medeiros pastoreia cento e poucos membros fiéis.
            A obreira mais querida da igreja era Ana Cláudia.
            Baixinha, atarracada, com sorriso fácil e olhar atento às pessoas, ela era dedicada aos irmãos da igreja e o braço direito do pastor.
            Limpava a igreja, fazia compras, trabalhava na secretaria, cozinhava nos eventos e ainda fazia parte da recepção dos irmãos nos dias de culto. Fazia tudo voluntariamente e não aceitava nenhum tostão em troca.
            Na praça em frente à igreja, quando anoitecia, prostitutas, travestis, traficantes e usuários, faziam dali seu habitat, sem se preocuparem se estavam sendo observados ou não, pelos fiéis da igreja.
            Seu Osmar, como era o mais velho do quarteirão, acabou sendo "eleito", um tipo de síndico.
            Todos vinham reclamar com ele quando se sentiam ofendidos, como se ele pudesse fazer alguma coisa.
            Os irmãos da igreja reclamavam que a prostituição estava fazendo daquele lugar um inferno.
            As prostitutas e travestis reclamavam que a igreja estava tentando transformar esse inferno em um céu e que eles não queriam isso.
            Seu Osmar passava apertado com essa guerra e tentava socorrer dos dois lados, sempre tomando cuidado para não tomar partido.
            Agnaldo, decidido, com um revólver carregado na cintura, estava à espreita. Ele esperava o momento ideal para render o velho Osmar e roubar a loja.
            Durante toda a tarde andou pela praça sem dar pinta de suas intenções.
            Viu a Igreja acender as luzes e abrir seus portões.
            Viu as prostitutas, travestis e clientes começarem a transitar pela praça.
            Até que finalmente percebeu que seu Osmar estava sozinho na loja, quase na hora de encerrar o expediente.
            "É agora ou nunca" — pensou Agnaldo, que estava em um banco na praça ao lado do ponto de ônibus procurando encontrar coragem.
            Ele verificou as balas de sua arma, colocou-a dentro da jaqueta jeans e atravessou a rua.
            Quando estava quase no meio da rua e se preparando para sacar a arma, aconteceu o inesperado.
            Um apagão...
            Tudo escureceu, o mundo ficou na penumbra, São Paulo virou um breu.
            Apenas as lanternas e faróis de alguns carros iluminavam de vez em quando a rua.
            Ana Claudia, que estava na frente da igreja, correu para a porta da loja gritando:
            — Seu Osmar, a força acabou aí também? Parece que acabou na rua inteira.
            Nesse momento Agnaldo acabou de atravessar a rua e chegou à porta da loja junto com Ana.
No mesmo instante, Miguel, também conhecido na noite por Michaela, atravessou a rua correndo e entrou na loja:
            — Aiii seu Osmar, que escuridão! Cruzes! — exclamou o travesti se abanando.
            — Parece que esse apagão é dos grandes, — respondeu o velho Osmar — olhando ao longe e percebendo que não havia sinal de eletricidade.
              Oi mocinho! — falou Michaela olhando Agnaldo de cima abaixo.
            — Oi amigo... — respondeu Agnaldo numa tonalidade não muito amigável.
            — Nossa, que sério!
            — Parece que acabou a força no bairro todo. — falou Ana olhando para a rua.
            Seu Osmar, vindo de dentro da loja com o celular na mão e com as chaves da loja já enfiando na fechadura da enorme porta de vidro, avisou:
            — Aqui no radio tá falando que é um apagão gigantesco, igual aquele que ia dar no governo do Fernando Henrique, vocês se lembram? Parece que a coisa é feia. A cidade inteira parou.
            Quando viu Agnaldo parado na porta da loja, seu Osmar perguntou:
            — Oi rapaz, me desculpe, eu não vi você aí, precisa de alguma coisa? Eu tenho visto você aqui pela rua sempre, e sempre olha com carinho pra minha loja.
            — Com carinho mesmo senhor, eu vejo que sua loja tem um bom movimento. — respondeu                     Agnaldo já pensando que seu golpe tinha ido por água abaixo. Como roubar essa loja se o dono já tinha até percebido a presença dele olhando para sua loja? E com carinho...
            Nisso atravessa a rua toda afobada, Valdirene, uma prostituta antiga ali da área.
            — Ai gente! Estão falando que é um brêcauti! Que a energia do mundo está acabando, por causa da camada de “ozonho.”
            — Larga de ser boba menina, hahahahahahahaha, camada de “OZONHO.” — gargalhou Michaela. — Que puta burra.
            Todos se esborracharam de rir.
            — Osmarzim — irritou-se Valdirene — você vai deixar essa bicha me chamar de puta!
            — Olha Val... Eu acho que nessa briga aí, eu não tenho lugar de fala.
            — Bobagem Valdirene! Eu falei puta no sentido carinhoso! Nossa putinha mais velhinha e lindinha.
            — Vocês duas são engraçadas. — falou Ana Claudia dando risada.
            — Onde você ouviu falar que o blecaute tem a ver com a camada de ozônio, Valdirene?
             O Adão pingaiada, disse que escutou no rádio.
            — Ah... Agora está explicado — caçoou Osmar — o Adão bebinho, que não sabe nem onde está a própria cabeça? Só você mesmo, Valdirene.
            Nisso, vendo a movimentação na porta da loja, o pastor Medeiros veio ver o que acontecia com aquela turma que se esborrachava de rir.
            — O que está acontecendo aqui gente?
            — Fala pra ele Valdirene.
            — Eu não! Ele já acha que eu sou do capeta. Não vou dar motivo pra esse chato rir de mim.
            — Hahahahahahaha, (seu Osmar se contorcia de dor na barriga de tanto rir), conta pra ele mulher!
            — É que o Adão pingaiada, falou que a camada de “ozonho” fez as lâmpadas apagarem e a força acabar. E esses bobos estão rindo. Mas o Adão falou que escutou isso no rádio!
            — O Adão andarilho que mora no banco da praça?
            — Ele mesmo.
            — Que maluquice. Isso não existe irmã. E eu não acho que você seja do capeta, como você disse. Eu só acho que a forma que você e esse rapaz ganham a vida, uma forma errada.
           — Opa! Rapaz não senhor! Eu sou mulher, me respeita por favor! Eu só nasci num corpo errado!
          — Calma gente, — pediu Osmar apaziguando —   vamos fazer uma trégua hoje, que temos visita aqui. — apontou para Agnaldo que também sorria da situação.
            — Não irmãozinho, eu não vou te criticar. É que para mim é difícil te chamar de moça.
            — É bom mesmo pastor, porque o senhor nem sabe que eu crio dois meninos adotados e a Valdirene, cuida da mãe e da tia idosas com o dinheiro que a gente ganha aqui no “job”.
            — Mas não dá pra trabalhar com outra coisa?
            — Quem vai contratar um veado e uma puta velha seu pastor? Aqui não é o céu não viu!
            — Mas vocês têm que entender que eu não posso apoiar a atitude de vocês.
            — Mas o senhor tem que entender que nós temos que sobreviver e o que a gente sabe fazer é isso.
            — Eu não sabia desse negócio de criar filhos adotivos, e nem de você Valdirene, cuidar da sua mãe e tia idosas.
            — Se vocês quiserem uma ajuda da nossa igreja — falou Ana Cláudia se condoendo da situação — a gente tem várias cestas básicas que a gente distribui todos os meses. Podemos ajudar também. Mas logicamente que vocês têm que parar com essa vida.
            — Não estou pedindo esmola, moça!  — respondeu Michaela ríspida — eu acho que vocês têm mais é que respeitar a gente e a gente respeitar vocês. Cada um no seu quadrado!
          Percebendo que o clima estava ficando tenso, Osmar falou:
          — E aí meu rapaz, como é seu nome?
          — Agnaldo.
          — Não ligue pra esses aqui não. Eles não se entendem nunca.
          — Estou vendo mesmo. — respondeu Agnaldo sorrindo.
          — Seu Osmar — interrompeu Valdirene entrando no assunto — cadê seu carro pro senhor levar a gente embora?
          — Ih, Valdirene... Nem te falo. Minha esposa está com Alzheimer e eu já gastei tudo o que pude e o que não pude com ela...
            Agnaldo aguçou os ouvidos nessa parte.
            — ... e eu tive que vender duas casas que nós tínhamos de aluguel e meus dois carros. Como é só eu e a velha, nós não temos filhos, eu tenho que cuidar dela, pagar uma empregada, pagar home care, e ainda cuidar da loja.
          O pensamento do Agnaldo martelou sua cabeça, como um juiz implacável o condenando.
          — As coisas estão difíceis amiga. — concluiu Osmar.
          — O senhor não contou nada pra gente! — exclamou Michaela.
          — É que vocês são tão bons pra mim. Sempre companheiros e amigos aqui na
rua, que eu não quis deixá-los preocupados.
            O pastor Medeiros e a irmã Ana Claudia escutavam seu Osmar e não entenderam que eles, como crentes e amigos de Osmar, nunca perguntaram nada sobre a sua vida.
          — Mas eu estou orando a Deus para que me mande um rapaz de bom coração, para eu ensinar a trabalhar e me ajudar aqui na loja. Mas ninguém aparece para pedir emprego, e as moças que trabalham comigo não vão dar conta. Tem que carregar peso, levar e buscar coisas nos bairros. Não é fácil.
          Então Agnaldo interrompe seu Osmar:
          — Mas é por isso que eu estou rondando sua loja, para pedir emprego! Só que só tomei coragem hoje.
          — Esse apagão pode ser um sinal de Deus para o senhor, seu Osmar. Porque trouxe esse moço e a gente aqui para testificar como Deus é grande, e como ele faz as coisas! — profetizou Medeiros.
          Seu Osmar pensou um pouco, coçou a nuca, pensou mais um pouco, coçou mais uma vez a nuca, e falou:
          — Puxa vida Agnaldo, pode ser mesmo.
          — Que bom seu Osmar, o senhor parece um homem muito bom.
          — Se você vier aqui amanhã, a gente pode conversar direito e se a gente se entender, você pode começar a trabalhar aqui na loja comigo.
          — Só que eu não tenho experiência com comércio seu Osmar.
          — Tudo na vida a gente aprende Agnaldo.
          — Que bom! — falou Ana Claudia. — Essa nossa reunião aqui está muito boa mesmo! Eu nunca tinha conversado com vocês dois, — observou, apontando para Valdirene e Miguel — e se não fosse esse apagão talvez a gente nunca conversaria.
          — Ficamos sabendo das dificuldades do seu Osmar, que é nosso paizão, e ainda arrumamos emprego pro Agnaldo! — completou Medeiros. — Essa vida é engraçada mesmo.
            — Engraçado é eu acreditar no Adão pingaiada. — respondeu Valdirene. — A vida é linda! Será que vocês aceitam eu e a Michaela de vez em quando no culto da igreja?
          — Lógico que aceitamos! — respondeu o pastor Medeiros, dando uma medida
em Michaela, de cima abaixo. — mas...
          — Hahahahahahahaha, tudo bem pastor, eu entendi o olhar, quando eu for na igreja eu vou de machinho.
          O apagão continuou por horas e horas, o metrô parou, os taxis pararam por medo de pegar alguém perigoso, os ônibus trabalharam em lotação máxima, a superlotação deixou pessoas ilhadas nas ruas.
Muita gente não voltou para casa naquela noite.
Foram do serviço para a rua e os que moravam muito longe, resolveram voltar da rua para o serviço no dia seguinte.
Mas...
            No dia seguinte o sol raiou novamente e o mundo voltou a funcionar.

            Afinal, ainda não era o apocalipse.

         

       

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Hoje e amanhã é hoje... Ou amanhã...

 


Hoje eu fui pesquisar sobre qual país tem a maior diferença de horário em relação ao Brasil e acabei descobrindo que hoje pode não ser hoje.
Pode e não pode.
O país com maior diferença de horário em relação ao Brasil é Kiribati. Um arquipélago perto da Oceania.
Eu pensava que era o Japão, com suas 12 horas de diferença, mas descobri que Kiribati é mais longe.
Kiribati, segundo o Google fica a 24.500 km do Brasil mais ou menos.
O problema é que olhando no mapa eu percebi que isso é verdade se a gente seguir para o Leste, mas se a gente pegar um avião e sair para o Oeste, passar Argentina, Chile e continuar... Kiribati fica logo ali.
Apenas 15.000 km.
Só que aqui tem uma pegadinha muito maluca.
Se a gente for para o Leste, a gente chega no Kiribati hoje, 16 horas de fuso, mas se a gente for para o Oeste, é bem mais perto, mas a gente só chega lá amanhã!
Entendeu?
Nem eu... Mas vamos destrinchar o bode.
O problema é a linha internacional da data. Que é um meridiano onde se determinou que dela pra cá é hoje e dela pra lá é amanhã.
Isso é uma determinação política e não solar. 
É uma regra usada principalmente pelo setor econômico para atrelar os negócios do mundo de uma forma organizada.
Antigamente Kiribati tinha metade de suas ilhas hoje e metade amanhã.
Então metade era sexta-feira, com bancos comércio, escolas, tudo funcionando, enquanto há poucos quilômetros era sábado. Com todo mundo de folga pensando no churrasco e na cachaça. 
Será que em Kiribati tem cachaça?
Imagina uma macumba. 
De um lado o pai de santo está na sexta-feira à noite fazendo um trabalho, mas se o santo estivesse na outra ilha não daria certo, porque lá era sábado e o dia de macumba é na sexta.
Olha que doido!
Talvez o santo para voltar até ontem e aceitar a oferenda, poderia cobrar duas galinhas ao invés de uma... 
Seria um pedágio espiritual. 
Eu cobraria!
O Hawai e o Kiribati estão quase na mesma faixa solar e por isso estão quase na mesma hora.
Mas como o Kiribati quis ajustar todas as suas ilhas num mesmo dia, ele conseguiu fazer uma volta imaginária nessa linha imaginária e em 1995 pulou em alguns lugares, do dia 31 de dezembro direto para 2 de janeiro.
Em algumas ilhas não existiu o dia primeiro de Janeiro.
Você entendeu isso?
Voltando ao Hawai, — eu ia dizer, voltando no tempo, só pra sacanear — se lá é meio dia de hoje, no Kiribati meio dia de amanhã.
Quer dizer que politicamente eu posso sair de lá amanhã e chegar aqui hoje, e viver o amanhã aqui, sendo que viveria dois amanhãs... Ou nenhum hoje.
Isso é muito pra minha cabeça...



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Azul da cor do mar




Pense comigo:
E se o verde que eu enxergo for o seu azul?
E se o gosto do bolo de fubá pra mim, for gosto de pudim de leite pra você?
Isso explicaria porque, pra mim, bolo de fubá é melhor que pudim.
Os cientistas dizem que o cachorro enxerga preto e branco. A vaca também...
Mas eu queria saber qual foi a vaca que disse isso para o cientista?
Ah... Mas eles analisam o cérebro, os olhos, a pupila.
E daí meu camarada?
Enquanto uma vaca não vier pra mim e dizer que o tomate é da mesma cor que a grama eu não acredito nessa conversa.
E o daltônico?
Os cientistas dizem que eles enxergam preto, branco e tons de cinza.
Mas, e se eles enxergarem verde escuro, branco e tons de verde?
Ele fala que é cinza, porque disseram para ele que o verde que ele enxerga é cinza.
Olha que loucura!
Colocando um pouco mais de pimenta.
Porque nosso peido é cheiroso e o peido dos outros é fedido?
Percepção ou afeto?
Porque o vegetariano come brócolis fazendo cara de quem come contra filé e o carnívoro come brócolis fazendo cara de vaca, que vê o mundo em preto e branco?
Minha avó dizia: Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Acho que ela já estava ligada que as sensações, emoções e percepções variam de pessoa para pessoa.
Falando na minha avó, ela fazia um doce com açúcar derretido e limão que ela chamava de puxa-puxa — coisa de pobre, que você não conhece — e a gente comia e achava melhor que chocolate... Entendeu?
Eu não!


quinta-feira, 26 de março de 2026

Abel e Caim

 



Como Abel, ele sempre deu o melhor de si.
Trabalhou, estudou, lutou com o que tinha de melhor.
Ofereceu o que tinha de melhor.

Como Caim, ele não se esmerou tanto assim.
Fez o básico para viver na mediocridade e esperou receber muito.

Como Abel, ele foi visto com inveja.
O cancelaram.
Fizeram bullyng com ele.
O mataram de relacionamentos.
A arma, foi a inveja.

Como Caim, ele nutriu ódio pelos bem sucedidos.
Culpou o mundo, pela sua incompetência.
Culpou o governo, a cidade, a sociedade, pela sua preguiça.
Culpou seus pais e seus irmãos.

Hoje, como Caim, ele vive com o peso dos assassinatos que fez em sua cabeça.
Com o peso das vezes que atacou e culpou, tentando se justificar.
Sua vida é triste e cheia de dúvidas.

Hoje, como Abel, ele vive bem.
Poderia ser mais feliz.
Só não é, porque os incompetentes tentam derrubá-lo constantemente.
Mas ele prossegue.
Dando seu melhor a cada dia.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Fora de Moda

 
— Entre, — falou a psicóloga da agência em meio a um sorriso — sente-se aqui. — completou apontando uma cadeira.
O rapaz, candidato a um comercial que seria veiculado na TV em horário nobre, sentou-se e se ajeitou, tentando encantar, com seu melhor sorriso.
— Então, — falou a psicóloga folheando alguns papéis — eu vi aqui no seu currículo que você já participou de várias campanhas publicitárias.
— Sim, participei de comerciais de TV, revistas, sites e até desfiles ao vivo.
— Inclusive, — observou a moça — aqui está dizendo que você foi eleito o bebê mais bonito há 17 anos.
— Fui. — respondeu ele mantendo o sorriso branquíssimo.
— Depois foi um garoto prodígio até a adolescência. Participou daquela novelinha das 18 horas.
— Fiz pequenas figurações.
— Isso! — concordou a psicóloga olhando por cima dos óculos. — E depois dos 15 anos, participou de desfiles e foi eleito mister estudantil ano passado.
— Fui.
— Então — exclamou a psicóloga fazendo careta de desagrado — esse é o problema.
— Problema? Como assim?
— Você é muito bonito para a nossa agência.
— Bonito para a agência?
— Bonito demais. — respondeu ela quase se desculpando. — Nós precisamos de gente comum. Gente "feia". — disse ela fazendo aspas imaginárias com os dedos.
— Gente feia?
— Sim! Queremos gente com cara de índio, ou de japonês nerd e magrelo.
— Ah, é?
— Isso! E queremos negros também, mas negros normais, não negros bonitos. Estamos à procura de negros com cara de trabalhador braçal.
— Trabalhador braçal?
— Trabalhador braçal. — respondeu ela se ajeitando na poltrona, antes de continuar.
— E estamos procurando gordos, também.
— Gordos?
— Sim, mas o gordo não precisa ser negro. Tem que ser gordo, tipo obeso mórbido, sabe?
— Obeso mórbido?
— Isso, e queremos gente desnutrida também. Com manchas de sol no rosto, cabelo queimado de sol. Cara de pobre.
— M... Mas... Por que isso?
— Inclusão social.
— Inclusão social?
— Inclusão social. — disse ela se levantando e estendendo a mão para o rapaz como se estivesse forçando uma despedida.
— Mas a senhora e a agência estão sendo muito radicais. Na sua sociedade não tem gente bonita?
— Anda na rua. Olha para o brasileiro. A grande maioria da periferia é normal. Nem lindo e nem feio.
— Mas e eu?
— Você é anormal. Criado a leite e mel. Faz parte da minoria dos brasileiros. Sabe aquele um por cento que detém noventa por cento da renda?
— Pois saiba a senhora que eu não sou rico, não nasci em berço de ouro. Meus pais sempre trabalharam. Ganham salário.
— Tudo bem! Mas infelizmente você teve o azar de nascer bonito.
— Azar de nascer bonito?
— É, — explicou a psicóloga — o que antes parecia uma dádiva, hoje é um fardo.
— Eu não estou entendendo essa sua agência.
— Parece que você não está entendendo o mundo.
— Como assim?
— Você hoje é a minoria. E o mundo é cruel com as minorias.
— Então eu sou minoria, o mundo é cruel comigo e na sua agência não tem lugar para caras assim como eu?
— É, — respondeu a psicóloga abrindo a porta. — Se eu fosse você eu me preparava para o pior... Seu estereótipo está cada vez mais fora de moda...




segunda-feira, 16 de março de 2026

Dezesseis de março de 2026

 




    5:00 da manhã; José Quispe sai de sua casa no alto de uma colina, aos pés da majestosa Huascaràn, uma das cinco montanhas mais altas da cordilheira dos Andes. 
    Durante a noite a temperatura chegou a - oito graus, mas nesse momento ela estava apenas dois graus negativos. José nem colocou o terceiro casaco.
    Ele abriu a porta, olhou para o horizonte e viu um condor planando ao longe! Isso era um bom presságio, certamente Pachamama; a deusa da terra, da fertilidade e da abundância estava feliz.
    Sorrindo e deixando à mostra seus quatro dentes, José pegou um balde e caminhou por entre a estradinha de pedras, que seus ancestrais fizeram há milhares de anos, e foi até a neve que cobria a vegetação rasteira ao lado de onde as lhamas estavam fechadas em um curral.
    Ele encheu o balde de neve e trouxe até sua casa, para aquecê-la em uma panela de pedra no fogão à lenha, para fazer a água, que ele misturaria com quinoa, gordura de lhama, leite de cabra e ovos, para assar e fazer seu pão, antes de sair com seus filhos para levar as cabras e as lhamas para pastar.
    5:00 da manhã; Patricio Pereira colocava mais uma leva de pães no forno.
    O dia em Lisboa estava começando movimentado. As pessoas corriam de ônibus, metrô, carros e motos, indo para seus trabalhos bater seus cartões, mas antes, passariam na padaria Nossa Senhora de Fátima, e não poderiam demorar.
    Pães, bolos, pasteizinhos de Belém, broas, leite, café e chá. Tudo deveria estar pronto, para as seis horas em ponto, quando as portas da padaria fossem abertas, e a enxurrada de clientes se acotovelassem no balcão.
    5:00 da manhã; e Xiao Luaoling deixava seu turno na fábrica em que trabalhava e seguia para sua casa que ficava no conjunto residencial número 17. Seu andar era o nono e seu apartamento era o 153.
    Ele agradecia todos os dias ao presidente Xi Jinping, porque tinha um trabalho indicado pelo governo, tinha moradia cedida pelo governo, seus filhos poderiam estudar em uma escola indicada pelo governo.
    Sorridente, ele pegava o café da manhã na cantina da fábrica e agradecido levava para casa, onde daqui há pouco todos estariam em volta da mesa, agradecendo ao presidente pela primeira refeição.
    5:00 da manhã; Omar El Kadri caminha pelos destroços do último ataque.
    Ontem a escola onde ele e a família estavam abrigados veio abaixo.
    Um míssil de Israel atingiu o telhado e a estrutura de madeira caiu. Graças a Alah (ele pensou), nenhuma telha ou viga caiu em ninguém de sua família.
    Depois do ataque eles se mudaram e agora estavam amontoados no quartinho que restava do antigo posto de saúde.
    Eles dividiam o espaço minúsculo com outras nove famílias, se revezando entre quem vigiava os ataques e quem dormia.
    Omar entrou na fila do pão. Os médicos sem fronteira e a ONU, distribuíam diariamente uma porção de pão sem fermento e um litro de leite para cada quatro membros de cada família. Se a família tivesse mais membros, eles poderiam pegar a porção dobrada.
    A cada 15 dias, todos deveriam comparecer à contagem, para atualizar o número de membros, pois a guerra era cruel, e as famílias diminuíam todos os dias.
    5:00 da manhã; o forno elétrico de Theodore Maxwel apitava três vezes: Piiiii... piiii... piiii...., indicando que o pão estava pronto.
    Theodore gostava de programar seu forno para que seu pão ficasse pronto 2 horas antes dele acordar, porque assim dava tempo de a farinha sem glúten descansar e absorver melhor o sabor das castanhas, da gordura de coco, dos grãos integrais e do açúcar mascavo.
    Theodore era um homem fitness e exigente com sua dieta. Diminuíra muito a carne vermelha e os açúcares. Diminuíra também as farinhas e grãos processados.
    Ele só almoçava em restaurantes da chamada “comida saudável”, que era uma organização que determinava o cardápio semanal das pessoas amigas da boa forma e da natureza.
    Theodore sabia que seus investimentos na bolsa de valores lhe davam essa mordomia, e ele não agradecia ninguém por isso, pois tudo o que ele tinha ou era, se devia a seu esforço pessoal.
    Uma coisa que deixava Theodore feliz, era que uma parte do dinheiro que gastava nos restaurantes da comida saudável, era revertido para o fundo de solidariedade aos pandas gigantes da Indonésia, que estavam em risco de extinção.
    A próxima campanha seria pelas girafas da Amazônia, e Theodore estava ansioso em poder ajudar.
    5:00 da manhã do dia dezesseis de março de 2026!
    Todos acordaram para mais um dia! Todos no mesmo planeta, mas vivendo em épocas históricas diferentes.
    Alguns indígenas acordaram para caçar o pão, imigrantes italianos na serra gaúcha fizeram polenta com fubá moído no moinho de pedra, alguns nordestinos dividiram uma porção de cuscuz entre nove irmãos, americanos do Alaska comeram bacon de alce, que estavam enterrados no gelo atrás da casa. 
    Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea se misturando na mesma volta do relógio...


  

segunda-feira, 9 de março de 2026

Tic-tac



Acorda cedo.
O relógio acorda depois.
Lavar rosto, tomar café, dar um beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Seria uma relógia?
Besteiras na cabeça.
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Chega o almoço.
Minutos se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Será que colocaram essa voz feminina para as regras ficarem mais doces?
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Hora de ir para casa.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
Janta, TV, beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
O olho fecha, o olho abre.
Acorda cedo.
O relógio acorda depois.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Gorducho

 
Esses dias a médica pegou os resultados dos meus exames na mão e ficou olhando para eles e para mim.
Para eles e para mim.
Para eles e para mim.
— Esses exames são seus mesmo?
— Como?
— Esses exames, — ela falou como quem explica uma coisa para uma criança — são seus mesmo?
— Uai? São... não são?
Ela olhou para os exames, olhou para mim.
Me mediu de  cima abaixo.
Se esticou na cadeira para ficar mais alta e me olhar de cima para baixo.
— Seu nome é?
— A senhora sabe meu nome.
— Só para confirmar — ela insistiu com cara séria.
— André, uai...
— André de quê?
— Mansim.
— Seu CPF é esse? — ela perguntou virando a tela do computador para mim e apontando com a caneta.
— É...
— M... mas... não pode ser.
— Não pode?
— Não pode, — ela respondeu ficando de pé, e com o olhar, me pedindo para levantar e subir em uma balança que ficava ao lado de uma maca.
— Tem alguma coisa grave aí, doutora?
— Cento e dois quilos e deixa eu ver... — ela balbuciou pensativa e sem responder minha pergunta, enquanto levantava um tipo de régua que ficava na balança — um metro e setenta e dois.
— Tem alguma coisa grave aí, doutora?
— Tem...
— Tem?
— Tem...
— O que tem? — perguntei já achando que estava pela hora da morte.
— O grave é que você não tem nada de errado! Seu colesterol bom está ótimo, seu colesterol ruim está ótimo, sua glicemia está ótima, seu coração está ótimo, triglicerídeo ótimo, suas vitaminas, hormônios, sangue... Tudo está ótimo!
Ela me olhou de cima abaixo.
Olhou para os exames e olhou para mim.
Para os exames e para mim.
De cima abaixo.
Exames... Eu...
Eu... Exames...
— Isso não pode estar certo!
— Não pode?
— Você está muito perfeito. Sua aparência não condiz com esses exames.
— A senhora parece que ficou triste com isso.
— Lógico!
— Lógico?
— Como é que vou te falar pra caminhar, comer menos carboidrato, beber menos, fumar menos.
— Mas eu nem fumo.
— Então! Nem isso eu posso falar.
— Desculpa...
— Quando foi a última vez que você foi magro?
— Acho que quando eu era espermatozoide, porque eu ganhei a corrida. Depois eu nasci com quatro quilos e nunca mais emagreci.
— Deve ser isso então... — ela deu uma risada estridente, tirou os óculos e depois falou mais uma vez pensativa. — Seu corpo funciona muito bem, para o biotipo que você tem. Talvez, se você emagrecer ele até desregule...
— E agora?
— Você viu esse homem que saiu daqui a hora que você entrou?
— Vi sim.
— Ele está em forma. Até corre maratona. Malha quatro vezes por semana e corre todos os dias.
— Hummm...?
— Ele é diabético grave, colesterol alteradíssimo e toma remédio de pressão.
— Hummm...?
— Pra você, — ela falou me entregando os exames — não tem o que fazer. Sua pressão altera por motivos de estresse. Falta de férias. Muitos compromissos e problemas.
— Eita...
— Vou te receitar um remedinho aqui, bem básico e bem fraco. Mas você é um grande candidato a morrer de repente e sem explicação.
— Como? Mas não estava tudo bem?
— Sim... E esse é o problema. Clinicamente você está bem. Mas sua pressão altera por motivos externos e isso não tem remédio. Esses são os que morrem de repente.
— Ixi... Mas o que eu tenho que fazer?
— Caminhar, comer menos carboidrato, menos doces, beber menos e parar de fumar.
— Eu não fumo...
— Nem comece...
— Tá...
— E o principal... — continuou ela como se lê-se uma bula de remédios — Divirta-se, viva a vida, desestresse-se, leia livros, assista filmes, séries, faça exercícios e não perca tanto peso.
— Não perder peso?
— Sim... Para não desregular...


Esse texto é baseado em fatos reais...
Só dei uma floreadinha pra ficar mais engraçadinho.
Mas os exames e as falas da médica, são mais ou menos essas mesmo.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Batalha espiritual

 



— Jagunço! Como assim, você não acabou com a vida dele?
— Ainda não consegui!
— Por quê?
— Porque ajudaram ele várias vezes.
— Não pode ser, — disse o mestre do calabouço — esse cara é um qualquer, ele não tem ninguém que goste dele.
— Impossível, mestre! — respondeu o jagunço nervoso. — Alguém ajudou.
— Nós prometemos destruir ele em sete dias! Hoje é o último dia, seus incompetentes.
— Mas tem alguém atrapalhando a gente. — defendeu-se a mulher de vermelho.
— Acho que vocês é que são incompetentes!
— Não mestre... Eu estou fazendo a minha parte. — defendeu-se Jagunço suando frio. 
— E vocês dois? — apontou o mestre do calabouço estralando seu chicote.
— Eu tramei contra ele ainda hoje. — rosnou o homem da capa preta. — Coloquei um carro em alta velocidade na encruzilhada, não tinha como ele escapar, mas antes dele chegar na esquina um galho de uma árvore caiu na rua, ele teve que desviar, isso o atrasou cinco segundos. Esses cinco segundos salvaram o cara.
— Aí você desistiu? — falou o mestre do calabouço estralando seu chicote com raiva nas costas do homem da capa preta.
— Não mestre! Eu fiz outra armadilha em outra encruzilhada. Ele estava correndo com a moto, eu estourei um cano e a companhia de água fez um buraco bem na curva, não tinha como ele ver. Mas quando ele estava chegando na curva, uma mulher com um carrinho de bebê resolveu atravessar. Ele brecou, viu o buraco e por isso desviou calmamente da valeta.
— Não pode ser!
— Alguém está protegendo ele, mestre. — disse a mulher de vermelho.
— Eu já falei! Ele não tem amigos! Ninguém gosta dele. Nem mãe, nem pai, nem a mulher que pagou para a gente dar fim na vida dele.
— Eu também tentei, — disse a mulher se explicando — ontem no bar, eu fiz ele beber. Fiquei falando no ouvido dele até ele ficar bêbado. Depois fiz ele se aproximar da mulher de um traficante. Ele se aproximou. Mandei uma das minhas meninas ficar jogando setas no ouvido do traficante até ele ficar enciumado sem saber porquê. Quando o bandido estava chegando no bar, e ia pegar os dois no flagrante, tinha dois policiais disfarçados na mesa do lado só esperando o traficante entrar. Estavam de campana! Não deu tempo do bandido reagir. Quando viu, já estava algemado.
— E você? Das caveiras... Você também falhou! — repreendeu o mestre do calabouço apontando para seu subordinado.
— Falhei! Mas é como todos falaram. Esse cara tem o couro grosso! Alguém está protegendo ele.
— Não pode ser! Eu já disse! Não tem ninguém que goste dele. Ele só deu tristeza para os pais. Brigou com o irmão. Traiu a mulher, que até fez a oferenda pra gente acabar com ele.
— Eu convoquei um pessoal lá na boca do lixo. Falei no ouvido deles para que eles pedissem lanches e providenciei para que nosso alvo fosse entregar. Sugeri que todos estivessem chapados quando ele chegasse com o lanche e que dessem um fim na vida dele. Todos estavam loucos, Falei no ouvido de cada um. Joguei as setas dizendo que o entregador devia dinheiro para o crime. Confundi a cabeça deles. Não tinha como dar errado.
— Não tinha? Mas deu. Não deu?
— Sim, e é por isso que eu acho que ele está sendo protegido. Na mesma hora que ele chegou com o lanche, uns misionários de uma igreja estavam batendo palmas na porta da casa, querendo levar a palavra Daquele Outro!
— No mesmo instante?
— Sim! Aí não tem como eu prever essas coisas. Chegaram juntos!
Nesse momento a porta do calabouço se abre. O corcunda sai em meio às sombras e entra pelo corredor, até onde essa reunião de "negócios" está acontecendo.
— Espero que você tenha um motivo muito importante para atrapalhar a gente. — falou o mestre do calabouço estralando seu chicote.
— Tenho mestre, — respondeu o corcunda se prostrando e entregando um papel para seu mestre.
— O que papel é esse?
— Uma quebra de contrato.
— Como assim?
— O mestre do salão branco mandou a gente parar de perseguir o Marcos, motivo dessa reunião que o senhor está fazendo.
— Eu não posso! Já fomos pagos para acabar com a vida dele. E só poderíamos parar por motivo de força maior. Se alguém estivesse orando e jejuando por ele, ou se ele fosse uma pessoa temente a Deus — o que ele não é!
— Leia aí no documento mestre. — Apontou o corcunda.
O mestre do calabouço, nervoso, olhou para o documento e o leu em silêncio: "Por motivo de força maior, imposto pela avó do Marcos, dona Dalva, por ter feito uma novena, onde todos os dias se colocou de joelhos, orou e jejuou pelo seu neto, declaro quebrado o contrato que implicava na morte do referido. Deixando-o livre de inimigos e proibindo vocês de atentarem contra sua vida"
O mestre do calabouço gritou de raiva! Estralou seu chicote, açoitou seus súditos e depois de descarregar sua raiva, falou:
— Essas avós malditas! Sempre com o coração de manteiga! Sempre orando e jejuando por quem não presta! E o pior... As orações delas ganham no final e o calabouço fica com um morador a menos!



segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Gatilho legalizado



 

O álcool em gel foi incorporado à nossa vida.
Para ser politicamente correto, ele usou.
Sem perceber... 
Cheirou.
Sua boca encheu d'agua.
Seu pensamento dispersou.
Voltou a dias turbulentos.
Mais um dia — ele pensou.
Antes, ele era bom.
Mas era ruim.
Bom para ele.
Ruim para todos.
Bom para ele?
...
Mesmo?
...
Ruim para todos.
Sim.
Ruim para todos!
O jeito, era não cheirar mais o álcool em gel.
Porque um dia o álcool ganha.
E hoje... É mais um dia.
Limpo.


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Finalmente

 

Cavalgou para além do real.
Ganhou o imaginário.
Imaginário alheio.
Onde agora ele é bom.
Diferente de suas atitudes.
Quando cavalgava pelas mazelas da vida.


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A reciclagem

 




Um aluno disse ao professor  que queria ser chamado de um nome feminino.
O professor disse que não poderia, porque na chamada estava o nome de batismo.
O menino reclamou para o pai.
O pai foi até a escola e reclamou na diretoria.
A diretoria reclamou com o professor.
O professor querendo agradar disse que agora a sala havia ganho mais uma menina.
O menino disse que não se identificava como uma menina.
— Como assim, Rafaela?
— Eu não me identifico.
— Mas porque então você quis mudar de João para Rafaela?
— Porque não me identifico como homem, também.
— Então o que você é?
— Sou a-gênero, dessexualizado em transição.
— Como?
— A-gênero, dessexualizado em transição.
— Então como eu te trato? De ele ou de ela?
— Isto.
— Isto nós dizemos para coisas.
— Então...
— Você prefere ser chamado de coisa, em vez de ele ou ela?
O menino reclamou para o pai.
O pai foi até a escola e reclamou na diretoria.
A diretoria reclamou com o professor.
O professor querendo agradar disse que agora a sala havia ganho mais uma coisa na sala. Assim como as cadeiras, mesas, lousa e apagador.
O menino ficou contente.
O pai ficou contente.
A direção ficou contente.
O professor está fazendo reciclagem — ou... sendo reciclado.



quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Críticas

 

Críticas

Te criticaram?
Quem criticou?
Olhe
Analise.
Perceba.
A crítica é para você mesmo?
Ou você tem servido de espelho... 



Críticas 2

É sobre mim?
Não vou absorver.
É sobre mim?
Não quero abraçar.
É sobre mim?
Meu setor de carregar fardos está fechado.
É sobre mim?
Desculpe mas eu sei quem sou.
Então, agora...
O problema não é meu. 
É seu.



Críticas 3

Olho, desejo, bate uma inquietação.
Como defesa, critico.
Como inveja, posso difamar.
Admiro, aplaudo, bate uma insegurança.
Como defesa, falo mal.
Camo inveja, me transformo em um bicho.
Um bicho criticador.

Que vergonha...



segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Borracharia Brás Cubas


— Interessante o nome da borracharia do senhor. 
— É... — respondeu o borracheiro sem olhar pra mim.
— Borracharia Brás Cubas, — continuei intrigado — como foi que o senhor chegou nesse nome?
O borracheiro retirou o pneu furado e o colocou no chão, depois começou a desmontá-lo e, ainda sem olhar pra mim, respondeu:
— É que eu sou comunista.
— Comunista? Como assim? Não entendi.
— Uai, comunista. O doutor não sabe o que é comunista?
Pelo tom áspero de sua voz, me pareceu que o borracheiro não gostou muito das minhas perguntas, mesmo assim, resolvi continuar perguntando:
— Eu sei o que é comunista, mas o que tem a ver o nome Brás Cubas e o comunismo?
— Me desculpe doutor, — falou o borracheiro se levantando com a câmara de ar na mão e se dirigindo até uma bancada — mas é só o senhor pensar um pouquinho. Brás Cubas é o ajuntamento de Brasil e Cuba.
“Meu Deus! — pensei surpreso. — Eu aqui achando que o borracheiro era uma pessoa culta e ele me vem com uma ideia dessas.”
— O senhor é doutor mais não sabe de algumas coisas que nós aqui da periferia sabemos. — desafiou o borracheiro, agora parecendo empolgado com o assunto.
— Ah é? E o que o senhor entende de comunismo?
— Entendo muito mais do que o senhor acha que eu entendo. Eu sigo as ideias de Raul... Saiba o senhor, que o Raul foi um grande pensador comunista.
— Raul? Que Raul? — perguntei cada vez mais surpreso. — O Raul Castro, irmão do Fidel Castro?
— Não meu amigo, — caçoou o borracheiro com um sorriso de conto de boca, expressando desdém pela minha pessoa — o Raul Seixas!
— Raul Seixas???
— Isso mesmo doutor; Raul Seixas. Da sociedade alternativa, do novo Aeon, quem não tem colírio usa óculos escuros! O senhor não entende as mensagens? O Zé entendeu.
— Zé? Que Zé? O Zé Dirceu?
— Não doutor. O Zé Ramalho!
— Zé Ramalho????
— Isso doutor! Nós vivemos uma vida de gado. — anunciou o borracheiro olhando para o além como se fizesse um discurso para uma multidão. —  Zé toca Raul! Um dia a sociedade alternativa vai descer no nosso planeta e a gente vai pra outra galáxia.
— A gente quem? Eu e você?
— Não doutor. — respondeu o borracheiro balançando a cabeça. — Tá na Bíblia! O senhor lê a Bíblia? Pessoas assim como o senhor, que acham que sabem de tudo não vão! Só nós... Os puros de coração é que vamos ser arrebatados! Pessoas que acham que sabem tudo são arrogantes. 
— Arrogantes não vão ser arrebatados? — perguntei maliciosamente.
— Não doutor! — respondeu o borracheiro apontando o dedo para mim. — Mas tem uma salvação pro senhor.
— Ah é... Ufa! E qual é a minha salvação?
— A metamorfose ambulante.
— O que?
— A metamorfose ambulante! Se o senhor preferir ser a metamorfose ambulante, ao invés de ter essa sua velha opinião formada sobre tudo; quem sabe o senhor não vai também.
Não sei como e nem por quê, mas essa última resposta do borracheiro me acertou feito um soco no estômago. Tanto, que depois dela eu resolvi me calar e saí de lado, fingindo que falava ao telefone, esperando-o terminar o serviço.
Eu saí da borracharia Brás Cubas diferente. Meu intelecto me dizia que as coisas que o borracheiro falou, eram coisas malucas e sem nexo, que só poderiam existir na cabeça de um lunático, mas uma pulga ficou atrás da minha orelha. Será que querer sempre dar uma de intelectual, e brigar para ter razão em tudo, não nos transforma em pessoas arrogantes? 
Aquele maluco me deu uma lição. Acho que vou preferir a metamorfose ambulante, a partir de hoje. Vai que a nave me esquece no dia do arrebatamento...


quinta-feira, 30 de outubro de 2025

As rua engole



 

Ele tava no corre.
Entregava marmita, Ifood, pagava boleto nos banco e fazia uns bico de moto-taxi.
Ele já não era mais moleque. Tinha trinta e pouco.
Mas depois que a firma faliu ele teve que se virá, porque tinha que pagá a pensão da menina e ajudá cas conta da casa da ex-mulher.
Ele tentô otros trampo, mas ninguém tava contratâno.
Mandô currículo, conversô, mas as porta tava fechada.
No começo ele estranhô.
A vida nas rua é diferente.
Conheceu uns mano do corre.
Uns só trabalhava mêmo.
Otros fumava uns baseado pra passá o tempo, enquanto esperava as corrida dos aplicativo.
Outros fazia uns aviãozinho pro tráfico.
Isso ele nunca fez.
Ele começô a comer marmita entre um corre e outro.
Depois ele começô, — quando dava — comer uns salgado.
Depois só tomava café e fumava um baseado junto com os mano.
Mas ele não era desse tipo. 
Não era bruto.
Não precisava entrá na onda dos irmão errado.
De vez em quando ele lembrava que tava com fome.
Trabalhava desde cedo até as onze da noite.
A moto de vez em quando furava o pneu e ele de vez em quando passava mal.
De vez em quando ele vomitava.
Um dia vomitô sangue.
Sentia tontura.
Quando sentia tontura ele comia um doce ou tomava café.
Os dia foram ficano ruim pra ele.
Pediu dinheiro emprestado pruns cara errado.
Pagô, mas levou um pau uns dia antes, porque tava atrasado.
O médico disse que a pressão dele tava muito alta.
Disse que tava desnutrido e com falta de várias vitamina.
O médico disse que ele tava com infecção na urina. Acho que é assim que fala.
Disse que era magro demais, e que mesmo assim a diabete tava quase pegano ele.
Acho que era um lance de hormônio e falta de dá umas dormida.
Ele só pensava no corre.
Parece que a rua engoliu ele.
As rua não é fácil...
Eu até acho que ele tava com pobrema de cabeça.
Podia sê a canceira.
De vez em quando ele falava do trabalho antigo.
Da ex-mulher.
Da filha...
Chorava.
Mas não podia pará de fazê as coisa.
Os corre loco das rua.
Ele tinha que pagá a pensão em dia, senão a Maria mandava os home atrás dele.
Um mês ele atrasô.
Dormiu na cadeia três dia.
Até os mano do corre se juntá e ir lá tirá ele.
Pagaro a pensão e ele foi liberado.
Hoje ele tava locão! Foi entregá quatro café da manhã, foi pagá boleto em cinco banco, depois foi entregá várias marmita, e quando encostô pra trocá ideia co's mano do corre, as três da tarde, ele disse que tudo tava ficano preto.
Deu tontura.
Uma sede que ele não aguentava.
Bebeu quase um litro d'agua.
Caiu duro no farol.
Um cara chamou o SAMU.
Mas não deu mais tempo.
Agora ele não tá mais no corre.
Acabô.
Foi conhecê Jesuis... 


terça-feira, 28 de outubro de 2025

Xadrez

 



 

— Bom Dia!
— Bom dia!
— O senhor poderia responder uma rápida pesquisa que estou fazendo?
— Que pesquisa?
— A diferença de oportunidades na sociedade brasileira em relação à raça e classe social.
— Nossa! Que bacana! Posso sim.
— Qual a sua cor?
— Como?
—Sua cor? Negro, branco, amarelo, pardo?
— Uai? A senhora não está me vendo aqui?
— Eu estou vendo, mas o senhor tem que declarar a sua cor.
— Eu acho que sou pardo.
— Por quê?
— Porque sou moreno, bem moreno.
— Seu pai era negro?
— Não… na verdade meus avós paternos vieram já casados lá de Portugal, minha avó materna era italiana e meu avó materno era bem pardo, mais escuro do que eu, mas não era negro.
— Então vou marcar aqui que você é pardo.
— Isso a gente pode ver só de olhar pra mim.
— Eu sei, mas a gente tem que chegar nessa conclusão depois de investigar direito, a nossa metodologia é científica.
— Ah tá… Legal!
— Qual seu grau de escolaridade?
— Estou na faculdade.
— Certo, então vou marcar aqui branco.
— Branco? Mas eu não sou pardo?
— É pardo, mas com esse grau de escolaridade é branco.
— Como assim?
— Nossa pesquisa é científica, baseada na escola Juliana francesa inspirada na metodologia de Frankfurt da Alemanha.
— Ah… Desculpa! Então deve ser coisa séria.
— Lógico que é séria. Posso continuar?
— Pode, uai.
— O senhor tem casa própria?
— Não, moro de aluguel.
— Então é negro.
— Negro? Mas... dona? Eu não era pardo e depois branco?
— Mas nesse quesito o senhor é negro!
— Aiaiaiaiai, vai dona; continua…
— Que tipo de música o senhor gosta?
— Rock, eu sou roqueiro.
— Ah… Branco…
— Branco?
— Isso, porque quem gosta de rock é branco! Negro gosta de pagode e axé…
— Dona, de onde é esse seu método científico mesmo?
— Escola Juliana francesa inspirada na metodologia de Frankfurt na Alemanha.
— E essa sua pesquisa é pra quem?
— Para um jornal e uma TV, que agora não posso revelar.
— Hummmm.
— Continuando: Que tipo de comida é a sua preferida?
— Feijoada.
— Negro.
— De novo?
— Com que regularidade o senhor come feijoada?
— Umas duas ou três vezes no ano.
— E que tipo de comida o senhor mais come na sua casa?
— Arroz, feijão, carne, legumes e salada.
— Branco.
— Branco?
— Comida balanceada é de branco, mas vou colocar uma observação de subnutrição negra.
— Subnutrição negra!?
— Sim...
— Mas por quê?
— Porque o senhor come feijoada só duas ou três vezes no ano.
— Mas subnutrição? Olha o tamanho da minha barriga!
— Isso não importa na nossa metodologia científica.
— O senhor disse que gosta de rock.
— Disse e por isso a senhora me disse que sou branco.
— Certo! Aí, já está entendendo. Mas me diga, com qual frequência o senhor vai aos grandes shows de rock, tipo Lollapalooza, Rock in Rio, João Rock...?
— Nunca fui.
— Negro.
— Uai, mas quem gosta de rock na sua metodologia não é branco?
— É, mas quem não tem direito à cultura é negro.
— Olha dona, essa sua pesquisa é furada! Me desculpe, mas segundo a senhora eu sou pardo, branco e negro, dependendo da ocasião e isso não está certo!
— É a metodologia…
— Metodologia furada e ridícula! Eu não vou mais responder isso não!
— Branco!
— Como? 
 — Pessoas avessas a pesquisas sociais são brancas.

 


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Eles


Eles falam.
Cantam.
Combinam coisas.
Dançam.
Eles são eles quando estão com eles.
Eles são os outros quando não estão com eles.
Contra os outros, eles falam.
Cantam... 
Combinam coisas.
Mas não dançam.
Eles matam.