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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Hoje e amanhã é hoje... Ou amanhã...

 


Hoje eu fui pesquisar sobre qual país tem a maior diferença de horário em relação ao Brasil e acabei descobrindo que hoje pode não ser hoje.
Pode e não pode.
O país com maior diferença de horário em relação ao Brasil é Kiribati. Um arquipélago perto da Oceania.
Eu pensava que era o Japão, com suas 12 horas de diferença, mas descobri que Kiribati é mais longe.
Kiribati, segundo o Google fica a 24.500 km do Brasil mais ou menos.
O problema é que olhando no mapa eu percebi que isso é verdade se a gente seguir para o Leste, mas se a gente pegar um avião e sair para o Oeste, passar Argentina, Chile e continuar... Kiribati fica logo ali.
Apenas 15.000 km.
Só que aqui tem uma pegadinha muito maluca.
Se a gente for para o Leste, a gente chega no Kiribati hoje, 16 horas de fuso, mas se a gente for para o Oeste, é bem mais perto, mas a gente só chega lá amanhã!
Entendeu?
Nem eu... Mas vamos destrinchar o bode.
O problema é a linha internacional da data. Que é um meridiano onde se determinou que dela pra cá é hoje e dela pra lá é amanhã.
Isso é uma determinação política e não solar. 
É uma regra usada principalmente pelo setor econômico para atrelar os negócios do mundo de uma forma organizada.
Antigamente Kiribati tinha metade de suas ilhas hoje e metade amanhã.
Então metade era sexta-feira, com bancos comércio, escolas, tudo funcionando, enquanto há poucos quilômetros era sábado. Com todo mundo de folga pensando no churrasco e na cachaça. 
Será que em Kiribati tem cachaça?
Imagina uma macumba. 
De um lado o pai de santo está na sexta-feira à noite fazendo um trabalho, mas se o santo estivesse na outra ilha não daria certo, porque lá era sábado e o dia de macumba é na sexta.
Olha que doido!
Talvez o santo para voltar até ontem e aceitar a oferenda, poderia cobrar duas galinhas ao invés de uma... 
Seria um pedágio espiritual. 
Eu cobraria!
O Hawai e o Kiribati estão quase na mesma faixa solar e por isso estão quase na mesma hora.
Mas como o Kiribati quis ajustar todas as suas ilhas num mesmo dia, ele conseguiu fazer uma volta imaginária nessa linha imaginária e em 1995 pulou em alguns lugares, do dia 31 de dezembro direto para 2 de janeiro.
Em algumas ilhas não existiu o dia primeiro de Janeiro.
Você entendeu isso?
Voltando ao Hawai, — eu ia dizer, voltando no tempo, só pra sacanear — se lá é meio dia de hoje, no Kiribati meio dia de amanhã.
Quer dizer que politicamente eu posso sair de lá amanhã e chegar aqui hoje, e viver o amanhã aqui, sendo que viveria dois amanhãs... Ou nenhum hoje.
Isso é muito pra minha cabeça...



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Azul da cor do mar




Pense comigo:
E se o verde que eu enxergo for o seu azul?
E se o gosto do bolo de fubá pra mim, for gosto de pudim de leite pra você?
Isso explicaria porque, pra mim, bolo de fubá é melhor que pudim.
Os cientistas dizem que o cachorro enxerga preto e branco. A vaca também...
Mas eu queria saber qual foi a vaca que disse isso para o cientista?
Ah... Mas eles analisam o cérebro, os olhos, a pupila.
E daí meu camarada?
Enquanto uma vaca não vier pra mim e dizer que o tomate é da mesma cor que a grama eu não acredito nessa conversa.
E o daltônico?
Os cientistas dizem que eles enxergam preto, branco e tons de cinza.
Mas, e se eles enxergarem verde escuro, branco e tons de verde?
Ele fala que é cinza, porque disseram para ele que o verde que ele enxerga é cinza.
Olha que loucura!
Colocando um pouco mais de pimenta.
Porque nosso peido é cheiroso e o peido dos outros é fedido?
Percepção ou afeto?
Porque o vegetariano come brócolis fazendo cara de quem come contra filé e o carnívoro come brócolis fazendo cara de vaca, que vê o mundo em preto e branco?
Minha avó dizia: Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Acho que ela já estava ligada que as sensações, emoções e percepções variam de pessoa para pessoa.
Falando na minha avó, ela fazia um doce com açúcar derretido e limão que ela chamava de puxa-puxa — coisa de pobre, que você não conhece — e a gente comia e achava melhor que chocolate... Entendeu?
Eu não!


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Enxurrada de ideias




Muitas vezes nós temos algumas ideias boas e queremos passá-las adiante num texto, numa crônica, conto ou poesia.
Mas, como uma enxurrada de palavras, nós derramamos essas ideias no texto de forma — às vezes — desleixada. 
Na nossa cabeça fazem muito sentido, mas talvez seja só na nossa cabeça.
Essas ideias até podem ser boas mesmo, mas escritas no ímpeto do calor da criação, elas viram uma colcha de retalhos.
Quando jogamos um texto para o universo, ele pode encontrar o leitor que consiga encaixar as peças, mas também pode encontrar o leitor que não consiga.
Esse segundo leitor que não vai dar conta de montar nosso quebra-cabeças de ideias, está no seu direito. 
Ele não tem essa obrigação!
O leitor não tem culpa se a gente escreveu, não revisou e não viu se nossa linha de raciocínio estava coerente.
Cabe ao escritor essa análise. 
Se escrevemos um texto infanto-juvenil, temos que ser mais óbvios ainda.
Se escrevemos para público adulto, mesmo assim temos que lembrar que existem adultos mais despreparados que meninos de 14 anos.
Nós vivemos em um país onde existem milhares de analfabetos funcionais, e essas pessoas também leem o que escrevemos.
Uma vez eu vi um autor dizendo: "Meu público é diferenciado!"
Mas quem garante isso para ele? De onde ele tirou essa estatística?
Tudo bem que ele até pode ter um feedback de algumas pessoas "diferenciadas" que entenderam o que ele escreveu, mas, e as que não entenderam nada e nem se deram ao trabalho de comentar isso?
Nós, como escritores, ou aprendizes de escritores, temos que entender que escrever não é fácil.
Comunicação não é o que a gente quer dizer, mas sim, o que a pessoa entende.
Se nos comunicarmos corretamente a pessoa vai entender, e aqui é que está a magia da escrita: Se fazer entender.
Organizar as ideias.
Dar sentido às frases.
Criar um bom relacionamento literário para quem nos lê.
E como tudo isso começa?
Com o exercício de escrever, ler o que escreveu e ter a humildade de encontrar erros no que se escreve.
Nós — escritores — não somos melhores que ninguém. Somos falhos, em construção e eternos aprendizes.



quarta-feira, 1 de abril de 2026

Dois meninos



Zéquinha chegou da escola correndo, jogou sua mochila na cama e voou até o fogão. 
Colocou arroz, feijão, bife, ovo frito e um pouco de abóbora. 
Sentou-se no sofá da sala e engoliu a comida, acompanhada de um copo de laranjada. 
Deu um beijo em sua mãe e correu até a frente do portão de Balu seu amigo:
— Anda Balu, "vamo" logo!
Quase que instantaneamente, Balu se materializou na rua com uma bola de capotão debaixo do braço e os dois foram correndo para o campinho, onde seus amigos estavam esperando pra começar a pelada.
Wilson Júnior chegou da escola, abriu a porta devagar, limpou os pés, entrou e colocou sua mochila em cima da escrivaninha do lado esquerdo, encaixada cuidadosamente entre a parede e o computador.
Wilson lavou bem as mãos, enquanto a empregada esquentava o marmitex no forno de microondas. 
No marmitex de hoje veio: arroz, lasanha, batata frita, salpicão e almondegas ao molho. 
Wilson mastigou cada garfada 33 vezes. 
Acompanhou sua refeição com uma lata de refrigerante. 
Ele estava meio amarelo ultimamente. O médico receitou uma vitamina que devia ser tomada logo após o almoço. 
Wilson acabou de almoçar, escovou os dentes e foi para seu quarto ligar o computador.
Zéquinha estava empolgado, seu time estava ganhando do time da rua de baixo, e quem perdesse iria pagar guaraná e paçoquinha pro outro time.
— Toca a bola Roliço — gritou Carlinhos — toca logo!
Roliço tocou a bola pro Carlinhos, que tocou pro Zéquinha que chutou pro gooooooolllllllllllllllllllll!
— Hahahahaha — gargalhou Zéquinha — ganhamos guaraná e paçoquinha!
Wilson Júnior chamou seus amigos da escola para jogar on-line e no meio do jogo apareceram outros "amigos" que ele não conhecia.
Depois da partida emocionante, Zéquinha e os moleques foram roubar manga no quintal do seu Argemiro. Eles fizeram escadinha com as mãos e pularam o muro. 
Os meninos deram sorte porque seu Argemiro havia prendido os cachorros no quintal da frente de sua casa. 
Encheram as panças de manga.
Wilson Júnior era bom em matar os soldados inimigos no computador. Matou, correu, jogou bomba, dirigiu helicóptero e submarino. Ficou sentado em frente ao jogo, das quatro da tarde até as oito da noite quando sua mãe e seu pai chegaram do trabalho.
Zéquinha voltou das brincadeiras por volta das cinco horas. Comeu um pedaço de bolo de fubá com leite e foi fazer a lição de casa.
As sete horas jantou, e se sentou na calçada junto com seus pais e os pais dos seus amigos num grande bate papo. 
As dez, morto de sono, Zéquinha tomou um copo de leite quentinho que sua mãe preparou e desmaiou até o outro dia. Sua mãe foi ao seu quarto, deu-lhe um beijo no rosto, e o cobriu com carinho. 
Ele sorriu mesmo dormindo e sonhou com os anjos.
Os pais de Wilson Júnior estavam checando seus e-mails, ele aproveitou e ficou mais um tempo navegando no Instagram. Depois disso, desceu com cuidado a escada, foi até a cozinha, tomou um copo de refrigerante, abriu um pacote de bolacha recheada, e passando pela sala, falou boa noite aos pais e foi dormir.
Os pais responderam sem levantar e nem tirar os olhos do computador. 
Wilson teve pesadelos... Sonhou que o exército inimigo o estava caçando e que agora ele estava encurralado num beco sem saída, e sem ninguém para ajudar.


quinta-feira, 26 de março de 2026

Abel e Caim

 



Como Abel, ele sempre deu o melhor de si.
Trabalhou, estudou, lutou com o que tinha de melhor.
Ofereceu o que tinha de melhor.

Como Caim, ele não se esmerou tanto assim.
Fez o básico para viver na mediocridade e esperou receber muito.

Como Abel, ele foi visto com inveja.
O cancelaram.
Fizeram bullyng com ele.
O mataram de relacionamentos.
A arma, foi a inveja.

Como Caim, ele nutriu ódio pelos bem sucedidos.
Culpou o mundo, pela sua incompetência.
Culpou o governo, a cidade, a sociedade, pela sua preguiça.
Culpou seus pais e seus irmãos.

Hoje, como Caim, ele vive com o peso dos assassinatos que fez em sua cabeça.
Com o peso das vezes que atacou e culpou, tentando se justificar.
Sua vida é triste e cheia de dúvidas.

Hoje, como Abel, ele vive bem.
Poderia ser mais feliz.
Só não é, porque os incompetentes tentam derrubá-lo constantemente.
Mas ele prossegue.
Dando seu melhor a cada dia.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Fora de Moda

 
— Entre, — falou a psicóloga da agência em meio a um sorriso — sente-se aqui. — completou apontando uma cadeira.
O rapaz, candidato a um comercial que seria veiculado na TV em horário nobre, sentou-se e se ajeitou, tentando encantar, com seu melhor sorriso.
— Então, — falou a psicóloga folheando alguns papéis — eu vi aqui no seu currículo que você já participou de várias campanhas publicitárias.
— Sim, participei de comerciais de TV, revistas, sites e até desfiles ao vivo.
— Inclusive, — observou a moça — aqui está dizendo que você foi eleito o bebê mais bonito há 17 anos.
— Fui. — respondeu ele mantendo o sorriso branquíssimo.
— Depois foi um garoto prodígio até a adolescência. Participou daquela novelinha das 18 horas.
— Fiz pequenas figurações.
— Isso! — concordou a psicóloga olhando por cima dos óculos. — E depois dos 15 anos, participou de desfiles e foi eleito mister estudantil ano passado.
— Fui.
— Então — exclamou a psicóloga fazendo careta de desagrado — esse é o problema.
— Problema? Como assim?
— Você é muito bonito para a nossa agência.
— Bonito para a agência?
— Bonito demais. — respondeu ela quase se desculpando. — Nós precisamos de gente comum. Gente "feia". — disse ela fazendo aspas imaginárias com os dedos.
— Gente feia?
— Sim! Queremos gente com cara de índio, ou de japonês nerd e magrelo.
— Ah, é?
— Isso! E queremos negros também, mas negros normais, não negros bonitos. Estamos à procura de negros com cara de trabalhador braçal.
— Trabalhador braçal?
— Trabalhador braçal. — respondeu ela se ajeitando na poltrona, antes de continuar.
— E estamos procurando gordos, também.
— Gordos?
— Sim, mas o gordo não precisa ser negro. Tem que ser gordo, tipo obeso mórbido, sabe?
— Obeso mórbido?
— Isso, e queremos gente desnutrida também. Com manchas de sol no rosto, cabelo queimado de sol. Cara de pobre.
— M... Mas... Por que isso?
— Inclusão social.
— Inclusão social?
— Inclusão social. — disse ela se levantando e estendendo a mão para o rapaz como se estivesse forçando uma despedida.
— Mas a senhora e a agência estão sendo muito radicais. Na sua sociedade não tem gente bonita?
— Anda na rua. Olha para o brasileiro. A grande maioria da periferia é normal. Nem lindo e nem feio.
— Mas e eu?
— Você é anormal. Criado a leite e mel. Faz parte da minoria dos brasileiros. Sabe aquele um por cento que detém noventa por cento da renda?
— Pois saiba a senhora que eu não sou rico, não nasci em berço de ouro. Meus pais sempre trabalharam. Ganham salário.
— Tudo bem! Mas infelizmente você teve o azar de nascer bonito.
— Azar de nascer bonito?
— É, — explicou a psicóloga — o que antes parecia uma dádiva, hoje é um fardo.
— Eu não estou entendendo essa sua agência.
— Parece que você não está entendendo o mundo.
— Como assim?
— Você hoje é a minoria. E o mundo é cruel com as minorias.
— Então eu sou minoria, o mundo é cruel comigo e na sua agência não tem lugar para caras assim como eu?
— É, — respondeu a psicóloga abrindo a porta. — Se eu fosse você eu me preparava para o pior... Seu estereótipo está cada vez mais fora de moda...




segunda-feira, 16 de março de 2026

Dezesseis de março de 2026

 




    5:00 da manhã; José Quispe sai de sua casa no alto de uma colina, aos pés da majestosa Huascaràn, uma das cinco montanhas mais altas da cordilheira dos Andes. 
    Durante a noite a temperatura chegou a - oito graus, mas nesse momento ela estava apenas dois graus negativos. José nem colocou o terceiro casaco.
    Ele abriu a porta, olhou para o horizonte e viu um condor planando ao longe! Isso era um bom presságio, certamente Pachamama; a deusa da terra, da fertilidade e da abundância estava feliz.
    Sorrindo e deixando à mostra seus quatro dentes, José pegou um balde e caminhou por entre a estradinha de pedras, que seus ancestrais fizeram há milhares de anos, e foi até a neve que cobria a vegetação rasteira ao lado de onde as lhamas estavam fechadas em um curral.
    Ele encheu o balde de neve e trouxe até sua casa, para aquecê-la em uma panela de pedra no fogão à lenha, para fazer a água, que ele misturaria com quinoa, gordura de lhama, leite de cabra e ovos, para assar e fazer seu pão, antes de sair com seus filhos para levar as cabras e as lhamas para pastar.
    5:00 da manhã; Patricio Pereira colocava mais uma leva de pães no forno.
    O dia em Lisboa estava começando movimentado. As pessoas corriam de ônibus, metrô, carros e motos, indo para seus trabalhos bater seus cartões, mas antes, passariam na padaria Nossa Senhora de Fátima, e não poderiam demorar.
    Pães, bolos, pasteizinhos de Belém, broas, leite, café e chá. Tudo deveria estar pronto, para as seis horas em ponto, quando as portas da padaria fossem abertas, e a enxurrada de clientes se acotovelassem no balcão.
    5:00 da manhã; e Xiao Luaoling deixava seu turno na fábrica em que trabalhava e seguia para sua casa que ficava no conjunto residencial número 17. Seu andar era o nono e seu apartamento era o 153.
    Ele agradecia todos os dias ao presidente Xi Jinping, porque tinha um trabalho indicado pelo governo, tinha moradia cedida pelo governo, seus filhos poderiam estudar em uma escola indicada pelo governo.
    Sorridente, ele pegava o café da manhã na cantina da fábrica e agradecido levava para casa, onde daqui há pouco todos estariam em volta da mesa, agradecendo ao presidente pela primeira refeição.
    5:00 da manhã; Omar El Kadri caminha pelos destroços do último ataque.
    Ontem a escola onde ele e a família estavam abrigados veio abaixo.
    Um míssil de Israel atingiu o telhado e a estrutura de madeira caiu. Graças a Alah (ele pensou), nenhuma telha ou viga caiu em ninguém de sua família.
    Depois do ataque eles se mudaram e agora estavam amontoados no quartinho que restava do antigo posto de saúde.
    Eles dividiam o espaço minúsculo com outras nove famílias, se revezando entre quem vigiava os ataques e quem dormia.
    Omar entrou na fila do pão. Os médicos sem fronteira e a ONU, distribuíam diariamente uma porção de pão sem fermento e um litro de leite para cada quatro membros de cada família. Se a família tivesse mais membros, eles poderiam pegar a porção dobrada.
    A cada 15 dias, todos deveriam comparecer à contagem, para atualizar o número de membros, pois a guerra era cruel, e as famílias diminuíam todos os dias.
    5:00 da manhã; o forno elétrico de Theodore Maxwel apitava três vezes: Piiiii... piiii... piiii...., indicando que o pão estava pronto.
    Theodore gostava de programar seu forno para que seu pão ficasse pronto 2 horas antes dele acordar, porque assim dava tempo de a farinha sem glúten descansar e absorver melhor o sabor das castanhas, da gordura de coco, dos grãos integrais e do açúcar mascavo.
    Theodore era um homem fitness e exigente com sua dieta. Diminuíra muito a carne vermelha e os açúcares. Diminuíra também as farinhas e grãos processados.
    Ele só almoçava em restaurantes da chamada “comida saudável”, que era uma organização que determinava o cardápio semanal das pessoas amigas da boa forma e da natureza.
    Theodore sabia que seus investimentos na bolsa de valores lhe davam essa mordomia, e ele não agradecia ninguém por isso, pois tudo o que ele tinha ou era, se devia a seu esforço pessoal.
    Uma coisa que deixava Theodore feliz, era que uma parte do dinheiro que gastava nos restaurantes da comida saudável, era revertido para o fundo de solidariedade aos pandas gigantes da Indonésia, que estavam em risco de extinção.
    A próxima campanha seria pelas girafas da Amazônia, e Theodore estava ansioso em poder ajudar.
    5:00 da manhã do dia dezesseis de março de 2026!
    Todos acordaram para mais um dia! Todos no mesmo planeta, mas vivendo em épocas históricas diferentes.
    Alguns indígenas acordaram para caçar o pão, imigrantes italianos na serra gaúcha fizeram polenta com fubá moído no moinho de pedra, alguns nordestinos dividiram uma porção de cuscuz entre nove irmãos, americanos do Alaska comeram bacon de alce, que estavam enterrados no gelo atrás da casa. 
    Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea se misturando na mesma volta do relógio...


  

segunda-feira, 9 de março de 2026

Tic-tac



Acorda cedo.
O relógio acorda depois.
Lavar rosto, tomar café, dar um beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Seria uma relógia?
Besteiras na cabeça.
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Chega o almoço.
Minutos se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Será que colocaram essa voz feminina para as regras ficarem mais doces?
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Hora de ir para casa.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
Janta, TV, beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
O olho fecha, o olho abre.
Acorda cedo.
O relógio acorda depois.


quarta-feira, 4 de março de 2026

O mistério da falta d'água






Há uns anos, eu estava altas horas da noite passando de canal em canal na televisão, até que meio sonolento parei no programa do Jô — puxa... como eu gostava do Jô...  
Ele estava entrevistando um cidadão, que (me desculpe cidadão entrevistado), eu não lembro o nome. 
No meio da entrevista, esse cidadão falou que a falta d’água no mundo se dá porque tem muita gente na Terra, e que cada pessoa, se tiver uma estatura média com pelo menos um metro e sessenta de altura e em boa forma física, tem dentro de si em média vinte litros de água.
No dia eu achei que o cara era maluco, onde já se viu uma conversa boba dessas!
Só que depois de uns meses, eu fui fazer um exame que se chama bioimpedância magnética, bonito nome né? 
Bioimpedância magnética! 
Quando o médico me deu o resultado do exame eu fiquei chocado. Gente! Eu tenho dentro do meu corpo vinte e sete litros de água! Vinte e sete litros!
Você sabe o que é vinte e sete litros de água?
Dá pra um gato morrer afogado!
Então eu entendi que o entrevistado do Jô não era tão maluco assim — ou eu que estou ficando. 
Porque, se for fazer as contas direitinho, quanto mais a população cresce mais água vai faltando. 
Imagina na Índia, quantos litros de água andam na rua pra lá e pra cá? 
E na China? Aquelas águas amarelas vendendo pastel! 
E o meu vizinho Heitor, ele deve ter uns cento e noventa quilos, bem gordão e grandão. 
Agora, por culpa desse entrevistado do Jô, toda vez que o vejo, eu logo penso numa caixa d’água. 
Esses dias eu estava podando minha árvore na calçada quando ele veio conversar comigo. Na medida em que ele caminhava, na minha mente eu imaginava uma caixa d’água transbordando dos lados, e a cada passo que ele dava, eu imaginava um som tipo assim: "Blob, blob, blob."
Nossa que pensamento ruim... O duro é que ele parou perto de mim e eu comecei a pensar que água parada dá dengue! Mas aí já é demais né? Acho que estou pirando na maionese com esse assunto...
Então comecei a refletir esses dias. O certo seria nós humanos pararmos de dar vitaminas, fortificantes, fubá, e coisas que fazem as crianças crescerem, ou parar de fazer tanta criança, porque agora, a média de idade está subindo cada vez mais e as pessoas estão morrendo cada vez menos!
Isso, em um cálculo simples, aponta que as águas estão demorando mais a voltar para a natureza, ou seja: Mais gente, menos água.
Imaginem só as mulheres estão cada vez ficando maiores, mais malhadas e popozudas. Quanta água é preciso para isso? 
Bom, se bem que muitas não é água, é silicone... Ufa... Ainda bem!
Daqui uns dias vai começar a faltar é silicone, mas aí tudo bem porque eu não bebo silicone. 
Os maridos que terão que pagar os implantes é que vão chorar.
Acho que vai ter gente desenterrando  silicones depois de um tempo nos cemitérios.
Bom... Mas voltando ao assunto da água, a solução é economizar, beber menos água, lavar menos o carro, lavar menos o quintal, dar menos descarga no vaso sanitário, (isso é difícil), e usar a imaginação para economizar. Cada vez mais economizar.
Se a gente for ver, ecologicamente correto é o anão, que deve ter só uns sete litros d’água no seu corpinho...
O anão e o pônei... Porque um cavalo deve ter uns 300 litros de água...



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

SAC





Se quiser falar em contas a pagar, digite... 1.
Reclamações digite... 2.
Atendimento ao cliente banda larga digite... 3.
Ou permaneça na linha para falar com um atendendente...
...
...
Aguarde, você é o número... 3... na fila.
...
Você já escaneou nosso QR code?
Em todas as... embalagens de nossos produtos, você encontra um QR code que te direciona para nosso site.
...
Aguarde, você é o número... 2... na fila.
...
...
...
Você conhece nossa linha de WhatsApp? 
Em todas as embalagens... de nossos produtos, você encontra um QR code que te direciona para nosso site, onde você encontra nosso WhatsApp, na aba... fale conosco.
...
...
Aguarde, você é o número... 1... na fila.
...
Você conhece nosso SAC?
Em todas... as embalagens... de nossos produtos, você... encontra um QR code que te direciona para nosso site, onde você encontra o nosso 0800 na aba fale conosco.
...
...
...
...
Aguarde, você é o número... 1... na fila.
KXJNXWHDWOIWEIUHDM aaaaaaa... alô!? 
Tuuuu, tuuuu, tuuuu, tuuuu...


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Bem-vindos


Vamos fazer uma postagem interativa?
Eu vou dar uns detalhes e vocês usam suas imaginações.
Imagine uma pessoa falastrona. Tentando ser simpática como um desses apresentadores de circo. 
Imagine ele com feições e risadas sarcásticas. 
Agora imagine ele saindo das sombras. Emergindo da penumbra e oferecendo algo bem pertinho do seu ouvido. 
Imagine ele oferecendo isso pra alguém que você ama muito, seu filho, seu irmão, sua namorada. 
Imagine que ao fitá-lo nos olhos, você percebesse algo de diabólico no olhar desse ser. 
Imaginou tudo isso? Então boa leitura.
  



— Olá rapaz, olá senhorita! Bem-vindos ao novo mundo! Um mundo de alegrias, conquistas, status. Olá rapaz, olá jovenzinha! Eu lhes apresento aqui e agora o divertimento... O divertimento! A saciedade de emoções. As luzes que piscam! O desprendimento da realidade que lhes oprime. Nada mais vai te oprimir, basta você me deixar te ajudar. Pois, com uma pequenina porção dessa maravilha você vai se transformar, vai ficar forte, ágil, destemido e corajoso. Você vai deixar de ser triste, vai deixar se ser tímido, vai deixar de se esconder! Você vai se surpreender, vai fazer coisas que nem sabia que era capaz. E essa transformação talvez dure até a noite toda! Isso... Talvez dure até a noite toda! Mas não se preocupe meu rapaz, não se preocupe linda garota, pois quando o efeito acabar eu não os abandonarei! Agora essa maravilha toda lhe custará bem pouco. Agora lhe custará pouco! Depois, talvez, mas só talvez, poderá lhe custar a eternidade. Mas me responda: quem lhe garante que existe eternidade? Bem-vindos ao novo mundo!


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Conversas carnavalescas

 


— Ei, onde você vai?
— Vou descendo a ladeira do pelô!
— O que tem lá?
— Tem reboleition, é reboleition, é reboleition, é reboleition...
— E o que mais?
— Ohhh, maiiinha! Anda na prancha, cuidado o tubarão vai te pegar.
— Como? Não entendi...
— É reboleition, é reboleition, é reboleition, é reboleition...
— Isso eu sei caramba, eu quero saber o que tem mais lá?
— Levada louca, levada louca, levada louca cá cá cá.
— Levada louca? Mas não estou te entendedendo...
— TIRA O PÉ DO CHÃÃÃÃOOOOOOOOOOO!!!!!
— Estou achando que você tá meio maluco, você só fala isso. Me fala de verdade onde você vai?
— Vou subindo a ladeira do pelô!
— Vai descendo e depois subindo? Tá legal... E quando chegar lá em cima o que tem?
— Aê aê aê aê ei ei ei ei ôeôeôeôeôÔÔÔ...
— O quê?
— Aê aê aê aê ei ei ei ei ôeôeôeôeôÔÔÔ...
— Você usou tóxico?
— Vou descendo na boquinha da garrafa, abaixando até o chão, levantando a mão pra cima, mexendo o popozão, ilêaiê, ilêaiê, lepo, lepo, lepo, lepo!
— Caramba, não estou entendendo nada disso.
— Ohhhh, maiiinha....
— Rapaz... e quando o carnaval acabar, o que você vai fazer?
— Vou subindo a ladeira do pelô...
— Perguntei sobre quando o carnaval acabar meu amigo!
— Vou descendo a ladeira do pelô!
— Desisto! Você tá maluco, não consigo entender essa sua língua.
— Aê aê aê aê ei ei ei ei ôeôeôeôeôÔÔÔ... Fuuuiiiiiiii!



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Caos





O espião desse século atravessou a rua.
Olhou para cima e para baixo.
Atravessou sem medo.
Nenhum carro na rua... Nem vento.
Nem pardais.
Ele ajustou o tripé de sua luneta.
Examinou a cidade.
Anotou em seu papiro.
Comércio fechado. 
Pessoas escondidas.
Não havia vida...
Nada de expectativa.
A aura de esperança não pairava em cima das casas.
O espião desse século se conectou às mentes que se deixavam conectar.
Viu pais contando o dinheiro do salário que diminuira muito.
Viu mães olhando a despensa e percebendo que os mantimentos estavam acabando.
Viu funcionários parados, pensando na vida, sem trabalhar...
Mas estranhamente o mensageiro desse século percebeu uma alegria desmedida.
Mesmo com tantas coisas erradas e futuro sombrio, ele não entendeu.
As pessoas estavam ansiosas.
Porque...
...
...
Sexta-feira começa o carnaval!
Alalaô ôôô ôôô, mas que calô ôôô ôôô...
... atravessamos o deserto do Saara, 
o sol estava quente e queimou a nossa cara...
Alalaô ôôô ôôô, mas que calô ôôô ôôô...


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Gorducho

 
Esses dias a médica pegou os resultados dos meus exames na mão e ficou olhando para eles e para mim.
Para eles e para mim.
Para eles e para mim.
— Esses exames são seus mesmo?
— Como?
— Esses exames, — ela falou como quem explica uma coisa para uma criança — são seus mesmo?
— Uai? São... não são?
Ela olhou para os exames, olhou para mim.
Me mediu de  cima abaixo.
Se esticou na cadeira para ficar mais alta e me olhar de cima para baixo.
— Seu nome é?
— A senhora sabe meu nome.
— Só para confirmar — ela insistiu com cara séria.
— André, uai...
— André de quê?
— Mansim.
— Seu CPF é esse? — ela perguntou virando a tela do computador para mim e apontando com a caneta.
— É...
— M... mas... não pode ser.
— Não pode?
— Não pode, — ela respondeu ficando de pé, e com o olhar, me pedindo para levantar e subir em uma balança que ficava ao lado de uma maca.
— Tem alguma coisa grave aí, doutora?
— Cento e dois quilos e deixa eu ver... — ela balbuciou pensativa e sem responder minha pergunta, enquanto levantava um tipo de régua que ficava na balança — um metro e setenta e dois.
— Tem alguma coisa grave aí, doutora?
— Tem...
— Tem?
— Tem...
— O que tem? — perguntei já achando que estava pela hora da morte.
— O grave é que você não tem nada de errado! Seu colesterol bom está ótimo, seu colesterol ruim está ótimo, sua glicemia está ótima, seu coração está ótimo, triglicerídeo ótimo, suas vitaminas, hormônios, sangue... Tudo está ótimo!
Ela me olhou de cima abaixo.
Olhou para os exames e olhou para mim.
Para os exames e para mim.
De cima abaixo.
Exames... Eu...
Eu... Exames...
— Isso não pode estar certo!
— Não pode?
— Você está muito perfeito. Sua aparência não condiz com esses exames.
— A senhora parece que ficou triste com isso.
— Lógico!
— Lógico?
— Como é que vou te falar pra caminhar, comer menos carboidrato, beber menos, fumar menos.
— Mas eu nem fumo.
— Então! Nem isso eu posso falar.
— Desculpa...
— Quando foi a última vez que você foi magro?
— Acho que quando eu era espermatozoide, porque eu ganhei a corrida. Depois eu nasci com quatro quilos e nunca mais emagreci.
— Deve ser isso então... — ela deu uma risada estridente, tirou os óculos e depois falou mais uma vez pensativa. — Seu corpo funciona muito bem, para o biotipo que você tem. Talvez, se você emagrecer ele até desregule...
— E agora?
— Você viu esse homem que saiu daqui a hora que você entrou?
— Vi sim.
— Ele está em forma. Até corre maratona. Malha quatro vezes por semana e corre todos os dias.
— Hummm...?
— Ele é diabético grave, colesterol alteradíssimo e toma remédio de pressão.
— Hummm...?
— Pra você, — ela falou me entregando os exames — não tem o que fazer. Sua pressão altera por motivos de estresse. Falta de férias. Muitos compromissos e problemas.
— Eita...
— Vou te receitar um remedinho aqui, bem básico e bem fraco. Mas você é um grande candidato a morrer de repente e sem explicação.
— Como? Mas não estava tudo bem?
— Sim... E esse é o problema. Clinicamente você está bem. Mas sua pressão altera por motivos externos e isso não tem remédio. Esses são os que morrem de repente.
— Ixi... Mas o que eu tenho que fazer?
— Caminhar, comer menos carboidrato, menos doces, beber menos e parar de fumar.
— Eu não fumo...
— Nem comece...
— Tá...
— E o principal... — continuou ela como se lê-se uma bula de remédios — Divirta-se, viva a vida, desestresse-se, leia livros, assista filmes, séries, faça exercícios e não perca tanto peso.
— Não perder peso?
— Sim... Para não desregular...


Esse texto é baseado em fatos reais...
Só dei uma floreadinha pra ficar mais engraçadinho.
Mas os exames e as falas da médica, são mais ou menos essas mesmo.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Voltando aos trabalhos






Quando eu criei esse blog eu tinha a intenção de escrever, desenhar, conversar e expor minhas ideias sem a perspectiva de que essas ideias chegassem a outras pessoas.
Naquele tempo os blogs estavam em alta. Muita gente escrevia e conversava através dessa rede, que os mais antigos chamam de blogosfera.
São muitos anos blogando, e isso exige energia e tempo da gente.
Ainda mais para um bobo como eu, que penso, repenso e tento trazer textos que tenham algum conteúdo — pelo menos imagino que tenha — literário.
Mas hoje o mundo mudou. 
Ele está maluco. 
As pessoas mudaram.
Nós mudamos.
Os problemas, com o passar do tempo, se acumulam e nós ainda estamos aqui... 
No olho de nossos furacões.
Sim! Nós criamos nossos furacões.
Eu sei que muita gente diz: — Eu escrevo por prazer, e não ligo se as pessoas leem ou não.
Me desculpem, mas eu não acredito nessa frase.
Todo mundo que tem um blogue quer ser lido.
Todo mundo que tem um blogue quer interação com amigos e leitores.
Se você realmente não liga para isso, eu te desafio a desativar os comentários do seu blog.
...
Tá vendo?
Reparou como é importante a interação?
Você quer ser lido!
Todo mundo se importa com o reconhecimento do seu trabalho.
Eu vejo que algumas pessoas levam o blog como se fosse um diário mesmo.
Escrevendo de si, para si e focando apenas em seus problemas. 
Acho bacana isso.
Outras pessoas, se esmeram pra caramba. Fazem postagens que são verdadeiros artigos de revistas ou portais eletrônicos, dignos de aplausos.
Outros são poetas brilhantes.
Outros são cronistas brilhantes.
Outros são medianos.
Mas, mesmo os medianos têm muito valor. 
Eles escrevem!
Interagem. 
Acreditam que sabem escrever e com o tempo melhoram.
O treino com a escrita e a interação ajuda a todos.
Todos ganham.
Todos melhoram.
Eu acho que até já passei um pouquinho da categoria de mediano e estou chegando à categoria de melhorzim um poquim.
Hoje, estou voltando dessas férias bloguísticas e espero ter gás para escrever, interagir, aprender e ajudar na blogosfera por um bom tempo ainda.
Sejam bem-vindos à temporada 2026 de Verdades e Bobagens.
Mas calma... não se iluda! 
Aqui tem muito mais bobagens que verdades.
Afinal... O que é a verdade?



segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Gatilho legalizado



 

O álcool em gel foi incorporado à nossa vida.
Para ser politicamente correto, ele usou.
Sem perceber... 
Cheirou.
Sua boca encheu d'agua.
Seu pensamento dispersou.
Voltou a dias turbulentos.
Mais um dia — ele pensou.
Antes, ele era bom.
Mas era ruim.
Bom para ele.
Ruim para todos.
Bom para ele?
...
Mesmo?
...
Ruim para todos.
Sim.
Ruim para todos!
O jeito, era não cheirar mais o álcool em gel.
Porque um dia o álcool ganha.
E hoje... É mais um dia.
Limpo.


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A escalada


Ele queria alcançar o cume.
Chegou!
Olhou.
Olhou.
Olhou.
Desceu.
É bem mais fresquinho aqui...

 

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Escuridão

 

Debaixo daquela ponte, o clarão de um cachimbo de crack. 
A cada clarão, o vício ganha vida, e a vida ... 
... se apaga.
A escuridão sorri, ela ganha mais uma alma.
A alma chora, saboreando um prazer inexistente.


quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Amigos de rua


Ele acordou com as costas doendo pelo mau jeito que dormiu naquele banco. 
Por mais que o forrasse com jornal e papelão para improvisar um colchão, sua lombar estava em frangalhos.
Seus dois cachorros, acostumados a dormir ao seu lado, estavam de guarda nos seus pés, esperando que ele acordasse. 
O sol nascia e os primeiros raios ajudavam a esquentar seu corpo franzinho e debilitado. 
"Puxa vida... Como é frio de manhazinha." — pensou se sentando e esfregando os olhos com as costas das mãos.
Depois de espreguiçar, dobrou seus trapos que servem de cobertor e  colocou dentro da carrocinha que usa para catar latinhas e plásticos recicláveis pela cidade. 
"Vou guardar esses jornais aqui também, porque eles quebram um galhão à noite."
Seus dois companheiros desceram do banco e ficaram em sua frente balançando o rabo à espera de um afago. Esse era o melhor bom dia que ele poderia ter.
Depois do bom dia canino, ele sorriu, e foi até a fonte da praça lavar seu rosto e as mãos, para depois voltar ao banco e abrir seu saco de pão com mortadela, que cuidadosamente havia guardado debaixo de seu travesseiro, para que no outro dia cedo servisse de café da manhã.
— Pitoco, Juquinha, venham aqui! — falou ele chamando seus dois amigos. — Olha, hoje só tem esses dois pão aqui, então eu vou dividir um entre vocês dois que são pequenos, e vou comer um inteiro. Vocês sabem que eu tô numa tosse dos inferno e tenho que comer um pouco mais senão não eu num guênto!
Os dois cachorros pararam em sua frente novamente e ficaram esperando o café da manhã. 
Ele dividiu um dos pães com os dois e começou a comer o outro. Dalí a pouco ele separou mais um pedaço agora de seu pão e falou novamente:
— Toma vai... Seus dois gulosos, ficam aí me olhando com essa cara de pidão...
Depois do pão, ele pegou um resto de guaraná que estava no fundo de uma latinha, colocou na boca, fez uns gargarejos e engoliu. Depois ajeitou sua roupa, passou seu pente banguela no cabelo, e colocou seu boné de propaganda eleitoral da eleição passada.
Em seguida saíram os três, andando juntos pelas ruas da cidade.
Ele tinha que procurar nas latas de lixo do calçadão, pra ver se coletava alguma coisa que lhes garantisse o almoço. 
Para ele era assim, a noite era seu quarto, o dia era seu escritório, as latas de lixo eram seu estoque de mercadorias e seu mercado. 
Ele tinha que ganhar o próximo pão. Sua vida era para ser vivida, para ele e para os seus amigos, que alegres, o seguiam pela cidade, sem protestar em viver daquela forma. Porque eles eram amigos... Amigos sinceros. Amigos de rua, e por toda a vida.



segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Borracharia Brás Cubas


— Interessante o nome da borracharia do senhor. 
— É... — respondeu o borracheiro sem olhar pra mim.
— Borracharia Brás Cubas, — continuei intrigado — como foi que o senhor chegou nesse nome?
O borracheiro retirou o pneu furado e o colocou no chão, depois começou a desmontá-lo e, ainda sem olhar pra mim, respondeu:
— É que eu sou comunista.
— Comunista? Como assim? Não entendi.
— Uai, comunista. O doutor não sabe o que é comunista?
Pelo tom áspero de sua voz, me pareceu que o borracheiro não gostou muito das minhas perguntas, mesmo assim, resolvi continuar perguntando:
— Eu sei o que é comunista, mas o que tem a ver o nome Brás Cubas e o comunismo?
— Me desculpe doutor, — falou o borracheiro se levantando com a câmara de ar na mão e se dirigindo até uma bancada — mas é só o senhor pensar um pouquinho. Brás Cubas é o ajuntamento de Brasil e Cuba.
“Meu Deus! — pensei surpreso. — Eu aqui achando que o borracheiro era uma pessoa culta e ele me vem com uma ideia dessas.”
— O senhor é doutor mais não sabe de algumas coisas que nós aqui da periferia sabemos. — desafiou o borracheiro, agora parecendo empolgado com o assunto.
— Ah é? E o que o senhor entende de comunismo?
— Entendo muito mais do que o senhor acha que eu entendo. Eu sigo as ideias de Raul... Saiba o senhor, que o Raul foi um grande pensador comunista.
— Raul? Que Raul? — perguntei cada vez mais surpreso. — O Raul Castro, irmão do Fidel Castro?
— Não meu amigo, — caçoou o borracheiro com um sorriso de conto de boca, expressando desdém pela minha pessoa — o Raul Seixas!
— Raul Seixas???
— Isso mesmo doutor; Raul Seixas. Da sociedade alternativa, do novo Aeon, quem não tem colírio usa óculos escuros! O senhor não entende as mensagens? O Zé entendeu.
— Zé? Que Zé? O Zé Dirceu?
— Não doutor. O Zé Ramalho!
— Zé Ramalho????
— Isso doutor! Nós vivemos uma vida de gado. — anunciou o borracheiro olhando para o além como se fizesse um discurso para uma multidão. —  Zé toca Raul! Um dia a sociedade alternativa vai descer no nosso planeta e a gente vai pra outra galáxia.
— A gente quem? Eu e você?
— Não doutor. — respondeu o borracheiro balançando a cabeça. — Tá na Bíblia! O senhor lê a Bíblia? Pessoas assim como o senhor, que acham que sabem de tudo não vão! Só nós... Os puros de coração é que vamos ser arrebatados! Pessoas que acham que sabem tudo são arrogantes. 
— Arrogantes não vão ser arrebatados? — perguntei maliciosamente.
— Não doutor! — respondeu o borracheiro apontando o dedo para mim. — Mas tem uma salvação pro senhor.
— Ah é... Ufa! E qual é a minha salvação?
— A metamorfose ambulante.
— O que?
— A metamorfose ambulante! Se o senhor preferir ser a metamorfose ambulante, ao invés de ter essa sua velha opinião formada sobre tudo; quem sabe o senhor não vai também.
Não sei como e nem por quê, mas essa última resposta do borracheiro me acertou feito um soco no estômago. Tanto, que depois dela eu resolvi me calar e saí de lado, fingindo que falava ao telefone, esperando-o terminar o serviço.
Eu saí da borracharia Brás Cubas diferente. Meu intelecto me dizia que as coisas que o borracheiro falou, eram coisas malucas e sem nexo, que só poderiam existir na cabeça de um lunático, mas uma pulga ficou atrás da minha orelha. Será que querer sempre dar uma de intelectual, e brigar para ter razão em tudo, não nos transforma em pessoas arrogantes? 
Aquele maluco me deu uma lição. Acho que vou preferir a metamorfose ambulante, a partir de hoje. Vai que a nave me esquece no dia do arrebatamento...